PUBLICIDADE
Clique nos links abaixo para navegar no capítulo desejado: | ||||
Paraíso |
Inferno
CANTO I
Dante, perdido numa selva escura, erra nela toda a noite. Saindo ao amanhecer,
começa a subir por uma colina, quando lhe atravessam a passagem uma
pantera, um leão e uma loba, que o repelem para a selva. Aparece-lhe
então a imagem de Virgílio, que o reanima e se oferece a tirá-lo
de lá, fazendo-o passar pelo Inferno e pelo Purgatório. Beatriz,
depois, o guiará ao Paraíso.
Dante o segue.
DA nossa vida, em meio da jornada, Achei-me numa selva tenebrosa, 3 Tendo
perdido a verdadeira estrada.
Dizer qual era é cousa tão penosa, Desta brava espessura a
asperidade, 6 Que a memória a relembra inda cuidosa.
Na morte há pouco mais de acerbidade; Mas para o bem narrar lá
deparado 9 De outras cousas que vi, direi verdade.
Contar não posso como tinha entrado; Tanto o sono os sentidos me tomara,
12 Quando hei o bom caminho abandonado.
Depois que a uma colina me cercara,
Onde ia o vale escuro terminando, 15 Que pavor tão profundo me causara.
Ao alto olhei, e já, de luz banhando, Vi-lhe estar às espaldas
o planeta, 18 Que, certo, em toda parte vai guiando.
Então o assombro um tanto se aquieta, Que do peito no lago perdurava,
21 Naquela noite atribulada, inquieta.
E como quem o anélito esgotava Sobre as ondas, já salvo, inda
medroso 24 Olha o mar perigoso em que lutava, O meu ânimo assim, que
treme ansioso, Volveu-se a remirar vencido o espaço 27 Que homem vivo
jamais passou ditoso.
Tendo já repousado o corpo lasso, Segui pela deserta falda avante;
30 Mais baixo sendo o pé firme no passo.
Eis da subida quase ao mesmo instante Assoma ágil e rápida
pantera 33 Tendo a pele por malhas cambiante.
Não se afastava de ante mim a fera; E em modo tal meu caminhar tolhia,
36 Que atrás por vezes eu tornar quisera.
No céu a aurora já resplandecia, Subia o sol, dos astros rodeado,
39 Seus sócios, quando o Amor divino um dia A tais primores movimento
há dado.
Me infundiam desta arte alma esperança 42 Da fera o dorso alegre e
mosqueado, A hora amena e a quadra doce e mansa.
De um leão de repente surge o aspecto, 45 Que ao meu peito o pavor
de novo lança.
Que me investisse então cuido inquieto; Com fome e raiva atroz fronte
levanta; 48 Tremer parece o ar ao seu conspeto.
Eis surge loba, que de magra espanta; De ambições todas parecia
cheia; 51 Foi causa a muitos de miséria tanta! Com tanta intensa torvação
me enleia Pelo terror, que o cenho seu movia, 54 Que a mente à altura
não subir receia.
Como quem lucro anela noite e dia, Se acaso o tempo de perder lhe chega,
57 Rebenta em pranto e triste se excrucia, A fera assim me fez, que não
sossega;
Pouco a pouco me investe até lançar-me 60 Lá onde o
sol se cala e a luz me nega.
Quando ao vale eu já ia baquear-me Alguém fraco de voz diviso
perto, 63 Que após largo silêncio quer falar-me.
Tanto que o vejo nesse grão deserto, — “Tem compaixão
de mim” — bradei transido — 66 “Quem quer que sejas,
sombra ou homem certo!” “Homem não sou” tornou-me
— “mas hei sido, Pais lombardos eu tive; sempre amada 69 Mântua
lhes foi; haviam lá nascido.
“Nasci de Júlio em era retardada, Vivi em Roma sob o bom Augusto,
72 Quando em deuses havia a crença errada.
“Poeta, decantei feitos do justo Filho de Anquíses, que de Tróia
veio, 75 Depois que Ílion soberbo foi combusto.
“Mas por que tornas da tristeza ao meio? Por que não vais ao
deleitoso monte, 78 Que o prazer todo encerra no seu seio?” “—
Oh! Virgílio, tu és aquela fonte Donde em rio caudal brota a
eloqüência?”
81 Falei, curvando vergonhoso a fronte. — “Ó dos poetas
lustre, honra, eminência! Valham-me o longo estudo, o amor profundo
84 Com que em teu livro procurei ciência! “És meu mestre,
o modelo sem segundo; Unicamente és tu que hás-me ensinado;
87 O belo estilo que honra-me no mundo.
“A fera vês que o passo me há vedado; Sábio famoso,
acude ao perseguido! 90 Tremo no pulso e veias, transtornado!” Respondeu,
do meu pranto condoído; “Te convém outra rota de ora avante
93 Para o lugar selvagem ser vencido.
“A fera, que te faz bradar tremante, Aqui passar não deixa impunemente;
96 Tanto se opõe, que mata o caminhante.
“Tem tão má natureza, é tão furente, Que
os apetites seus jamais sacia, 99 E fome, impando, mais que de antes sente.
“Com muitos animais se consorcia, Há-de a outros se unir té
ser chegado 102 Lebréu, que a leve à hórrida agonia.
“Por ouro ou por poder nunca tentado Saber, virtude, amor terá
por norte, 105 Sendo entre Feltro e Feltro potentado.
“Será da humilde Itália amparo forte, Por quem Camila
a virgem dera a vida, 108 Turno Eurialo, Niso acharam morte.
“Por ele, em toda parte, repelida Irá lançar-se no infernal
assento, 111 Donde foi pela Inveja conduzida.
“Agora, por teu prol, eu tenho o intento De levar-te comigo; ir-te-ei
guiando 114 Pela estância do eterno sofrimento, “Onde, estridentes
gritos escutando, Verás almas antigas em tortura 117 Segunda morte
a brados suplicando.
“Outros ledos verás, que, em prova dura Das chamas, inda esperam
ter o gozo 120 De Deus no prêmio da imortal ventura.
“Se lá subir quiseres, um ditoso Espírito, melhor te
será guia, 123 Quando eu deixar-te, ao reino glorioso.
“Do céu o Imperador, a rebeldia Minha à lei castigando,
não consente
126 Que eu da cidade sua haja a alegria.
“Em toda parte impera onipotente, Mas tem no Empíreo sua augusta
sede: 129 Feliz, por ele, o eleito à glória ingente!”
— “Vate, rogo-te” — eu disse — “me concede,
Por esse Deus, que nunca hás conhecido, 132 Porque este e maior mal
de mim se arrede.
“Que, até onde disseste conduzido, À porta de São
Pedro eu vá contigo E veja os maus que houveste referido”.
136 Move-se o Vate então, após o sigo.
1. Em meio etc. Aos 35 anos. Dante tinha 35 anos no dia 25 de março
de 1300, ano no qual o papa Bonifácio VIII proclamou o primeiro Jubileu.
— 2. Tenebrosa etc., simbólica selva dos vícios humanos.
— 32. Pantera, símbolo da luxúria e da fraude; politicamente,
de Florença. — 44. Um leão, símbolo da soberba
e da violência; politicamente, da França. — 40. Loba, símbolo
da avareza e da incontinência; politicamente da Cúria Romana.
— 62. Alguém etc., o poeta Virgílio Maro, símbolo
da razão humana. — 105. Entre Feltro e Feltro, entre Montefeltro
e Feltro.
— 122. Espirito melhor, Beatriz, a mulher que Dante amou.
CANTO II
Depois da invocação às Musas, Dante, considerando a
sua fraqueza, duvida de aventurar-se na viagem. Dizendo-lhe, porém,
Virgílio, que era Beatriz quem o mandava, e que havia quem se interessava
pela sua salvação, determina-se segui-lo e entra com o seu guia
no difícil caminho.
FORA-se o dia; e o ar, se enevoando, Aos animais, que vivem sobre a terra,
3 As fadigas tolhia; eu só, velando, Me aparelhava a sustentar a guerra
Da jornada, assim como da piedade, 6 Que vai pintar memória, que não
erra.
Ó Musas! Ó do gênio potestade! Valei-me! Aqui, ó
mente, que guardaste 9 Quanto vi, mostra a egrégia qualidade.
“Poeta”, — assim falei, — “que começaste
A guiar-me, vê bem se em mim persiste 12 Calor que, à empresa
que me fias, baste.
“Que o pai do Sílvio fora, referiste, Corrutível ainda,
até o inferno 15 Sem perder o que em corpo humano existe.
“Se do mal assim quis o imigo eterno, Origem vendo nele do alto efeito,
18 O que e o qual, segundo o que discerno, “Pela razão bem pode
ser aceito; Que para Roma e o império se fundarem 21 Fora no céu
por genitor eleito; “À qual e ao qual cabia aparelharem, Dizendo-se
a verdade, o lugar santo 24 Aos que do maior Pedro o sólio herdaram.
“Nessa empresa, em que o hás louvado tanto, Cousas ouviu, de
que surgiu motivo 27 Ao seu triunfo e ao pontifício manto.
“Lá foi o Vaso Eleito ainda vivo: Conforto ia buscar, à
fé, que à estrada 30 Da salvação princípio
é decisivo.
“Por que irei? Quem permite esta jornada? Enéias, Paulo sou?
Essa ventura 33 Nem eu, nem outrem crê ser-me adatada.
“Receio, pois seja ato de loucura, Se eu me resigno a cometer a empresa.
36 Supre, és sábio, o que digo em frase escura”.
Como quem ora quer, ora despreza,
Sua alma a idéias novas tem disposta, 39 Mostrando aos seus desígnios
estranheza, Assim fiz eu na tenebrosa encosta, Porque, pensando, abandonava
o intento, 42 Formado à pressa, que ora me desgosta.
“Do teu dizer se atinjo o entendimento” — Do magnânimo
a sombra me tornava, — 45 “Eivado estás de ignóbil
sentimento, “Que do homem muita vez faz alma ignava, Das honrosas ações
o desviando, 48 Qual sombra, que o corcel ao medo trava.
“Desse temor livrar-te desejando, Por que vim te direi e quanto ouvido
51 Hei logo ao ver-te mísero lutando.
“No Limbo era suspenso: eis requerido Por Dama fui tão bela,
tão donosa, 54 Que as ordens suas presto lhe hei pedido.
“Brilhavam mais que a estrela radiosa Os seus olhos; suave assim dizia
57 De anjo com voz, falando-me piedosa: — “De Mântua alma
cortês, que inda hoje em dia No mundo gozas fama tão sonora,
60 Que, enquanto existir mundo, mais se amplia,
“Amigo meu, que a sorte desadora, Pela deserta falda indo, impedido
63 De medo, atrás os passos volta agora.
“Temo que esteja tanto já perdido, Que tarde eu tenha vindo
a socorrê-lo, 66 Pelo que lá no céu dele hei sabido.
“Parte, pois, e com teu discurso belo E quanto o salvar possa do perigo
69 Lhe acode; e me console o teu desvelo.
“Sou Beatriz, que envia-te ao que digo, De lugar venho a que voltar
desejo: 72 Amor conduz-me e faz-me instar contigo.
“Voltando ao meu Senhor, em todo o ensejo Repetirei louvor, que hás
merecido”. — 75 “Tornei-lhe, quando já calar-se a
vejo: — “Senhora da virtude, a quem tem sido Dado só que
proceda a espécie humana 78 Quanto é no mundo sublunar contido,
“Tanto praz-me a ordem que de ti dimana, Que, já cumprida, houvera
inda demora: 81 Em me abrir teu querer não mais te afana.
“Diz-me, porém, por que razão, Senhora,
Baixar a este centro hás resolvido 84 Do céu, a que ardes por
voltar agora”.
— “Se queres tanto ser esclarecido Eu te direi” —
tornou-me — “frase breve 87 Por que sem medo às trevas
hei descido.
“Somente as cousas recear se deve Que a outrem podem ser causa de dano
90 Não das mais: a temor a causa é leve.
“De Deus favor criou-me soberano Tal, que a vossa miséria não
me empece 93 Nem deste incêndio assalta o fogo insano.
“Nobre Dama há no céu, que compadece O mal, a que te
envio; e tanto implora, 96 Que lá decreto austero se enternece.
— “Volvendo-se a Luzia, assim a exora: “O teu servo fiel
tanto periga, 99 Que ao teu amparo o recomendo agora”. — “Luzia,
sempre do que é mau imiga Ergue-se e ao lugar foi, em que eu sentada
102 Ao lado estava de Raquel antiga.
“De Deus vero louvor!” — diz-me apressada — “Por
que não socorrer quem te amou tanto, 105 Que só por ti deixou
do vulgo a estrada?
“Não lhe ouves, Beatriz, o amargo pranto? Não vês
que junto ao rio é combatido, 108 Que ao mar não corre, por
mortal espanto?” — “Os danos, tão veloz, não
tem fugido Ninguém, nem procurado o que deseja, 111 Como eu, em tendo
vozes tais ouvido; “O trono meu deixei, por que te veja, Fiada em teus
discursos eloqüentes, 114 Honra tua e de quem te ouvindo esteja”.
— “Assim falava e os olhos fulgentes Com lágrimas a mim
ela volvia, 117 Para apressar-me a vir assaz potentes.
“A ti vim, pois, como ela requeria; Da fera te livrei, que da colina
120 Tão perto já, teus passos impedia.
“Que fazes, pois? Por que, por que domina Tanta fraqueza o peito espavorido?
123 Por que ao valor tua alma não se inclina, “Quando és
pelas três santas protegido, Que na corte do céu por ti se esmeram,
126 E gozar tanto bem lhe é prometido?” — Quais flores,
que, fechadas, se abateram
Da noite ao frio, e, quando o sol aquece, 129 Erguem-se abertas na hástea,
tais como eram, Tal meu valor renova e fortalece.
Tanto ardimento o coração me aviva, 132 Que exclamei, como
quem jamais temesse: “Ó Dama em socorrer-me compassiva! E tu,
que a voz lhe ouvindo, obedeceste, 135 Cortês ao rogo e com vontade
ativa, “Por teu dizer no peito me acendeste Desejo tal de vir, que sou
tornado 138 Ao propósito, a que antes me trouxeste.
“Vai, pois nosso querer ’stá combinado.
Serás meu guia, meu senhor, meu mestre!” Disse-lhe assim. Moveu-se
ele; ao seu lado 142 Pelo caminho entrei alto e silvestre.
13. O pai de Sílvio, Enéias. — 28. O Vaso — São
Paulo que nos Atos dos Apóstolos é chamado o Vaso de eleição.
— 76. Senhora da virtude, Beatriz simboliza a teologia. — 94.
Nobre Dama, Maria, mãe de Jesus, símbolo da misericórdia
divina. 97. — Luzia, mártir e santa, símbolo da graça
iluminante. — Raquel, filha de Labão e mulher do patriarca Jacó,
simboliza a vida contemplativa.
CANTO III
Chegam os Poetas à porta do Inferno, na qual estão escritas
terríveis palavras. Entram e no vestibulo encontram as almas dos ignavos,
que não foram fiéis a Deus, nem rebeldes. Seguindo o caminho,
chegam ao Aqueronte, onde está o barqueiro infernal, Caron, que passa
as almas dos danados à outra margem, para o suplício. Treme
a terra, lampeja uma luz e Dante cai sem sentidos.
“POR mim se vai das dores à morada, Por mim se vai ao padecer
eterno, 3 Por mim se vai à gente condenada.
“Moveu Justiça o Autor meu sempiterno, Formado fui por divinal
possança, 6 Sabedoria suma e amor supremo.
No existir, ser nenhum a mim se avança, Não sendo eterno, e
eu eternal perduro: 9 Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança!”
Estas palavras, em letreiro escuro, Eu vi, por cima de uma porta escrito.
12 “Seu sentido” — disse eu — “Mestre me é
duro” Tornou Virgílio, no lugar perito:
— “Aqui deixar convém toda suspeita; 15 Todo ignóbil
sentir seja proscrito.
“Eis a estância, que eu disse, às dores feita, Onde hás
de ver atormentada gente, 18 Que da razão à perda está
sujeita”.
Pela mão me travando diligente, Com ledo gesto e coração
me erguia, 21 E aos mistérios guiou-me incontinênti.
Por esse ar sem estrelas irrompia Soar de pranto, de ais, de altos gemidos:
24 Também meu pranto, de os ouvir, corria.
Línguas várias, discursos insofridos, Lamentos, vozes roucas,
de ira os brados, 27 Rumor de mãos, de punhos estorcidos, Nesses ares,
pra sempre enevoados, Retumbavam girando e semilhando 30 Areais por tufão
atormentados.
A mente aquele horror me perturbando, Disse a Virgílio: — “Ó
Mestre, que ouço agora? 33 “Quem são esses, que a dor
está prostrando?” — “Deste mísero modo”
— tornou — “chora Quem viveu sem jamais ter merecido
36 Nem louvor, nem censura infamadora.
“De anjos mesquinhos coro é-lhes unido, Que rebeldes a Deus
não se mostraram, 39 Nem fiéis, por si sós havendo sido”.
“Desdouro aos céus, os céus os desterraram; Nem o profundo
inferno os recebera, 42 De os ter consigo os maus se gloriaram”.
— “Que dor tão viva deles se apodera, Que aos carpidos
motivo dá tão forte?” — 45 “Serei breve em
dizer-to” — me assevera. — “Não lhes é
dado nunca esperar morte; É tão vil seu viver nessa desgraça,
48 Que invejam de outros toda e qualquer sorte.
“No mundo o nome seu não deixou traça; A Clemência,
a Justiça os desdenharam.
51 Mais deles não falemos: olha e passa”.
Bandeira então meus olhos divisaram, Que, a tremular, tão rápida
corria, 54 Que avessa a toda pausa a imaginaram.
E após, tão basta multidão seguia, Que, destruído
houvesse tanta gente 57 A morte, acreditado eu não teria.
Alguns já distinguira: eis, de repente, Olhando, a sombra conheci
daquele 60 Que a grã renúncia fez ignobilmente.
Soube logo, o que ao certo me revele, Que era a seita das almas aviltadas,
63 Que os maus odeiam e que Deus repele.
Nunca tiveram vida as desgraçadas; Sempre, nuas estando, as torturavam
66 De vespas e tavões as ferroadas.
Os rostos seus as lágrimas regavam, Misturadas de sangue: aos pés
caindo, 69 A imundos vermes o repasto davam.
De um largo rio à margem dirigindo A vista, de almas divisei cardume.
72 — “Mestre, declara, aos rogos me anuindo, “Que turba
é essa” — eu disse — “e qual costume Tanto
a passar a torna pressurosa, 75 Se bem discirno ao duvidoso lume?” —
Tornou-me: — “Explicação minuciosa Darei, quando
tivermos atingido 78 Do Aqueronte a ribeira temerosa”.
Então, baixos os olhos e corrido Fui, de importuno a culpa receando,
81 Té o rio, em silêncio recolhido.
Eis vejo a nós em barca se acercando, De cãs coberto um velho
— “Ó condenados, 84 Ai de vós! — alta grita
levantando.
“O céu nunca vereis, desesperados: Por mim à treva eterna,
na outra riva, 87 Sereis ao fogo, ao gelo transportados.
“E tu que estás aqui, ó alma viva, De entre estes que
são mortos, já te ausenta!” 90 Como não lhe obedeço
à voz esquiva, “Por outra via irás” — ele
acrescenta — “Ao porto, onde acharás fácil transporte;
93 Lá pássaras sem barca menos lenta”. — “Não
te agastes, Caronte! Desta sorte Se quer lá onde” — disse-lhe
o meu Guia — 96 “Quem pode ordena. E nada mais te importe”.
Sereno, ouvido, o gesto se fazia Da lívida lagoa ao nauta idoso, 99
Quem em círculos de fogo olhos volvia.
As desnudadas almas doloroso O gesto descorou; dentes rangeram 102 Logo em
lhe ouvindo o vozear raivoso.
Blasfemaram de Deus e maldisseram A espécie humana, a pátria,
o tempo, a origem 105 Da origem sua, os pais de quem nasceram.
Todas no pranto acerbo, em que se afligem, Se acolhem juntas ao lugar tremendo,
108 Dos maus destinos, que se não corrigem.
Caronte, os ígneos olhos revolvendo, Lhes acenava e a todos recebia:
111 Remo em punho, as tardias vai batendo.
Como no outono a rama principia As flores a perder té ser despida,
114 Dando à terra o que à terra pertencia, Assim de Adam a prole
pervertida, Da praia um após outro se enviavam, 117 Qual ave dos reclamos
atraída.
Sobre as túrbidas águas navegavam; E pojado não tinham
no outro lado, 120 Mais turbas já no oposto se apinhavam.
“Aqui meu filho” — disse o Mestre amado — “concorrem
quantos há colhido a morte, 123 De toda a terra, tendo a Deus irado.
“O rio prontos buscam desta sorte, De Deus tanto a justiça os
punge e excita,
126 Tornando-se o temor anelo forte! “Alma inocente aqui jamais transita,
E, se Caronte contra ti se assanha, 129 Patente a causa está, que tanto
o irrita”.
Assim falava; a lúrida campanha Tremeu e foi tão forte o movimento,
132 Que do medo o suor ainda me banha.
Da terra lacrimosa rompeu vento, Que um clarão respirou avermelhado;
Tolhido então de todo o sentimento, l36 Caí, qual homem que
é do sono entrado.
37. De anjos etc., que não tomaram posição na luta entre
os fiéis e os rebeldes a Deus. — 59-60. Daquele etc., Celestino
V que renunciou ao papado, tendo por sucessor Bonifácio VIII, inimigo
de Dante e do seu partido. — 136. Caí etc. Dante perdendo os
sentidos, atravessa o Aqueronte, sem saber de que modo.
CANTO IV
Dante é despertado por um trovão e acha-se na orla do primeiro
círculo. Entra depois no Limbo, onde estão os que não
foram batizados, crianças e adultos. Mais adiante, num recinto luminoso,
vê os sábios da antigüidade, que, embora não cristãos,
viveram virtuosamente. Os dois poetas descem depois ao segundo círculo.
DESSE profundo sono fui tirado Por hórrido estampido, estremecendo
3 Como quem é por força despertado.
Ergui-me, e, os olhos quietos já volvendo, Perscruto por saber onde
me achava, 6 E a tudo no lugar sinistro atendo.
A verdade é que então na borda estava Do vale desse abismo
doloroso, 9 Donde brado de infindos ais troava.
Tão escuro, profundo e nebuloso Era, que a vista lhe inquirindo o
fundo, 12 Não distinguia no antro temeroso.
“Eia! Baixemos, pois, da treva ao mundo!” — O Poeta então
disse-me enfiando —
15 “Eu descerei primeiro, tu segundo”. — Tornei-lhe, a
palidez sua notando: “Como hei-de ir, se és de espanto dominado,
18 Quando conforto estou de ti sperando?” — “Dos que lá
são o angustioso estado Causa a que vês no rosto meu impressa,
21 Piedade, medo não, como hás cuidado.
“Vamos: longa a jornada exige pressa”.
Entrou, e eu logo, o círculo primeiro 24 Em que o abismo a estreitar-se
já começa, Escutei: não mais pranto lastimeiro Ouvi;
suspiros só, que murmuravam, 27 Vibrando do ar eterno o espaço
inteiro.
Pesares sem martírio os motivavam De varões e de infantes,
de mulheres 30 Nas multidões, que ali se apinhoavam.
“Conhecer” — meu bom Mestre diz — “não
queres Quais são os que assim vês ora sofrendo? 33 Antes de avante
andar convém saberes “Que não pecaram: boas obras tendo
Acham-se aqui; faltou-lhes o batismo, 36 Portal da fé, em que és
ditoso crendo.
“Na vida antecedendo o Cristianismo, Devido culto a Deus nunca prestaram:
39 Também sou dos que penam neste abismo.
“Por tal defeito — os mais nos não mancharam — Perdemo-nos:
a pena é desesp’rança, 42 Desejos, que para sempre se
frustaram”.
Ouvi-lo, em dor o coração me lança, Pois muitos conheci
de alta valia, 45 A quem do Limbo a suspenção alcança.
“Ó Mestre! Ó meu Senhor! diz-me — inquiria, Para
ter da certeza o firme esteio 48 À fé, que os erros todos desafia,
“Por seu merecimento ou pelo alheio Daqui alguém ao céu
já tem subido?” 51 Da mente minha ao alvo o Mestre veio, E falou-me:
“Des’pouco aqui trazido, Descer súbito vi forte guerreiro;
54 De triunfal coroa era cingido.
“Almas levou — do nosso pai primeiro, Abel, Noé, Moisés,
que legislara, 57 Abraam, na fé, na obediência inteiro, “Davi,
que sobre o povo hebreu reinara, Israel com seu pai e a prole basta,
60 E Raquel, por quem tanto se afanara.
“Para a glória outros muitos mais afasta Do Limbo; e sabe tu
que antes não fora 63 Salvo quem pertencera à humana casta”.
Andávamos, enquanto isto memora, Sem parar, pela selva penetrando,
66 Selva de almas, que aumenta de hora em hora, E da entrada não longe
ainda estando, Eis um clarão brilhante divisamos 69 Das trevas o hemisfério
alumiando.
Dali distantes ainda nos achamos Não tanto, que eu não discernisse
em parte 72 Que à sede de almas nobres caminhamos.
“Ó tu, que és honra da ciência e da arte, Quem
são” — disse — “os que, aos outros preferidos,
75 Privilégio tamanho assim disparte?” Falou Virgílio:
“— Assim são distinguidos Do céu, que atende à
fama alta e preclara, 78 Com que foram na terra engrandecidos”.
Eis voz escuto sonorosa e clara: “Honrai todos o altíssimo poeta!
81A sombra sua torna, que ausentara”.
Quatro sombras notei, quando aquieta O rumor, que a nós vinham: nos
semblantes 84 Nem prazer, nem tristeza se interpreta.
E disse o Mestre, após alguns instantes: “Aquele vê, que,
qual monarca ufano, 87 Empunha espada e os três deixa distantes.
É Homero, o poeta soberano; O satírico Horácio é
o outro, e ao lado 90 Ovídio, em lugar último Lucano.
Como lhes cabe o nome assinalado Que soou nessa voz há pouco ouvida,
93 Me honrando, honrosa ação têm praticado”.
A bela escola assim vi reunida Do Mestre egrégio do sublime canto,
96 Águia em seu vôo além dos mais erguida.
Discursado entre si tendo algum tanto, A mim volveram gracioso o gesto: 99
Sorriu Virgílio, dessa mostra ao encanto.
Mais foi-me alto conceito manifesto, Quando acolher-me ao grêmio seu
quiseram, 102 Entre eles me cabendo o lugar sexto.
Té o clarão comigo se moveram,
Prática havendo, que omitir é belo, 105 Sublime no lugar, onde
a teceram.
Chegamos junto a um fúlgido castelo Sete vezes de muro alto cercado:
108 Cinge-o ribeiro lindo, mas singelo.
Passei-o a pé enxuto; acompanhado Entrei por sete portas, caminhando
111 De fresca relva até ameno prado.
Graves, pausados olhos meneando Stavam sombras de aspecto majestoso, 114
Com voz suave rara vez falando.
A um lado, sobre viso luminoso Subimo-nos: de lá se divisava 117 Dessas
almas o bando numeroso.
No verde esmalte o Mestre me indicava Egrégias sombras: inda me extasia
120 O prazer com que vê-los exultava.
Eletra vi de heróis na companhia, Enéias com Heitor e guarnecido
123 Grifanhos olhos César nos volvia.
Pentesiléia vi e o rosto ardido De Camila, e sentado o rei Latino
126 Junto a Lavinia estava enternecido.
Notei Márcia, Lucrécia e o que Tarquino Lançou, Cornélia
e Júlia; retirado 129 De todos demorava Saladino.
Alçando os olhos, de respeito entrado, O Mestre vejo dos que mais
se acimam 132 Em saber, de filósofos cercado.
Todos com honra e acatamento o estimam.
Aqui Platão e Sócrates estavam, 135 Que na grandeza mais se
lhe aproximam.
Demócrito, o atomista, acompanhavam Tales, Zeno, Heráclito
e Anaxagora.
138 Empédocle e Diógenes falavam, Dióscoris, o que a
natura outrora Sábio estudara, Orfeu, Túlio eloqüente,
141 Sêneca, o douto, que a moral explora, Lívio, Euclides, Hipócrates
ingente, Ptolomeu, Galeno e o Avicena; 144 Averróis, nos comentos sapiente.
Resenha não me é dado fazer plena De todos; longo o assunto
está-me urgindo, 147 E a ser omisso muita vez condena.
A companhia então se dividindo,
Comigo o Mestre outra vereda trilha, Do ar sereno ao ar, que treme, vindo:
151 Chegados somos onde luz não brilha.
95. Mestre egrégio etc., Homero, príncipe da poesia épica.
— 121. Eletra, mãe de Dardano, fundador de Tróia. —
122. Enéias, príncipe troiano, filho de Anquise e de Vênus.
— Heitor, filho de Príamo, rei de Tróia. — 124.
Pentesiléia, rainha das Amazonas, morta por Aquiles. 125. — Camila,
filha de Metabo, rei latino. — O rei Latino, rei dos aborígenes,
pai de Lavínia, que foi mulher de Enéias. — 127. Márcia,
mulher de Catão Uticense. — Lucrécia, mulher de Colatino
que, ao ser violada por Sesto Tarquínio, se matou. — 128. —
Cornélia, mãe dos Gracos. — Júlia, filha de César
e mulher de Pompeu. — 129. Saladino, sultão do Egito e da Síria,
que conquistou Jerusalém. — 131. O mestre etc., Aristóteles.
— 140. — Orfeu de Trácia, poeta e músico. —
Túlio, eloqüente, Marco Túlio Cícero. — 143.
Ptolomeu, o autor do sistema do mundo que se chamou sistema ptolemaico. —
Galeno e Avicena, famosos médicos, o primeiro de Pérgamo, no
Ponto, o segundo árabe.
CANTO V
No ingresso do segundo circulo está Minos, que julga as almas e designa-lhes
a pena. No repleno desse círculo estão os luxuriosos, que são
continuamente arrebatados e atormentados por um horrível turbilhão.
Aqui Dante encontra Francesca de Rimini, que lhe narra a história do
seu amor infeliz.
DESCI desta arte ao círculo segundo, Que o espaço menos largo
compreendia, 3 Onde o pungir da dor é mais profundo.
Lá stava Minos e feroz rangia: Examinava as culpas desde a entrada,
6 Dava a sentença como ilhais cingia.
Ante ele quando uma alma desditada Vem, seus crimes confessa-lhe em chegando,
9 Com perícia em pecados consumada.
Lugar no inferno, Minos, lhe adaptando, Do abismo o círc’lo
arbitra, a que pertença, 12 Pelas voltas da cauda graduando.
Sempre muitas se lhe acham na presença; Cada qual tem sua vez de ser
julgada, 15 Diz, ouve, cai, se some sem detença.
Minos, logo me vendo, iroso brada, Do grave ofício no ato sobrestando:
18 — “Ó tu, que vens das dores à morada; “Olha
como entras e em quem stás fiando: Não te engane do entrar tanta
largueza!” 21 — “Por que falar” — meu guia diz
— “gritando?” “Vedar não tentes a fatal empresa:
Assim se quer lá onde o que se ordena 24 Se cumpre. Assaz te seja esta
certeza!” Eis já começo da infernal geena A ouvir os lamentos:
sou chegado 27 Onde intenso carpir me aviva a pena.
Em lugar de luz mudo tenho entrado: Rugia, como faz mar combatido 30 Dos
ventos, pelo ímpeto encontrado.
Da tormenta o furor, nunca abatido, Perpetuamente as almas torce, agita,
33 Molesta, em seus embates recrescido.
Quando à borda do abismo as precipita, Ais, soluços, lamentos
vão rompendo.
36 Blasfema a Deus a multidão maldita.
Ouvi que estão no padecer horrendo
Os que aos vícios da carne se entregavam, 39 Razão aos apetites
submetendo.
Quais estorninhos, que a voar se travam Em densos bandos na estação
já fria, 42 Em rodopio as almas volteavam, Ao capricho do vento, que
as trazia.
De pausa não, de menos dor a esp’rança 45 Conforto lhes
não dá nessa agonia.
Como nos ares longa série avança De grous, que vão cantado
o seu grasnido, 48 Assim no gemer seu, que não descansa, Traz o tufão
as sombras desabrido.
— “Mestre” — disse eu — “quais almas
são aquelas 51 Que o vendaval fustiga denegrido?” — “A
primeira” — tornou Virgílio — “entre elas De
quem notícias ter desejarias, 54 Regeu nações, diversas
nas loquelas.
“De luxúria fez tantas demasias Que em lei dispôs ser
lícito e agradável 57 Para desculpa às torpes fantasias.
“Semíramis chamou-se: o trono estável Herdou de Nino
e foi a sua esposa.
60 Do Soldão teve a terra memorável.
“A morte deu-se a outra, de amorosa, Às cinzas de Siqueu traidora
e infida; 63 Cleópatra após vem luxuriosa”.
Helena vi, a causa fementida De tanto mal, e Aquiles celebrado 66 Que teve
por amor a extrema lida.
Páris, Tristão e um bando assinalado De sombras me indicou,
nomes dizendo, 69 Que à sepultura amor tinha arrojado.
A compaixão me estava confrangendo, Dessas damas e antigos cavaleiros
72 Nomes ouvindo e mágoas conhecendo.
Então disse eu: — “Poeta, aos companheiros Dois, que ali
vêm, falar muito desejo: 75 Ao vento ser parecem tão ligeiros!”
“Hás de ter” — me tornou — “asado ensejo,
Quando forem mais perto; então lhes pede 78 Pelo amor que os uniu:
virão sem pejo”. — Quando acercar-se o vento lhes concede
A voz alcei: — “Ó! vinde, almas aflitas, 81 Falar-nos,
se alta lei não vo-lo impede”. —
Quais pombas, que saudosas de asas fitas, Ao doce ninho, em vôo despedido,
84 Vão pelo ar, aos desejos seus adstritas: Tais saíram da turba,
em que era Dido, A nós as duas sombras se inclinando, 87 Tanto as moveu
da voz o tom sentido! — “Entre beni’no, compassivo e brando,
Que nos vem visitar por este ar perso, 90 Tendo nós dado o sangue ao
mundo infando, “Se amigo o Senhor fosse do universo, Da paz aos rogos
nossos, gozarias, 93 Pois te enternece o nosso mal perverso.
“Enquanto o vento é quedo, o que dirias Havemos nós de
ouvir atentamente; 96 Diremos quanto ouvir desejarias.
“Onde, a paz desejando, o Pado ingente Com seus vassalos para o mar
descende, 99 A terra, em que hei nascido, está jacente.
“Amor, que os corações súbito prende, Este inflamou
por minha formosura, 102 Que roubaram-me: o modo inda me ofende.
“Amor, em paga exige igual ternura, Tomou por ele em tal prazer meu
peito,
105 Que, bem o vês, eterno me perdura.
“Amor nos igualou da morte o efeito: A quem no-la causou, Caína,
esperas”.
108 Após tais vozes foi silêncio feito.
Daquelas almas as angústias feras Em meditar amargo a fronte inclino
111 Té que o Mestre exclamou: “Que consideras?” Quando
pude, falei: “Cruel destino! Que doce cogitar! Que meigo encanto, 114
Precederam do par o fim maligno!” — Aos dois voltei-me e disse-lhes,
entanto: “Teus martírios, Francesca, me angustiam, 117 Movem-me
o triste, compassivo pranto.
“Quando os doces suspiros só se ouviam, Como, em que Amor mostrar-vos
há querido 120 Os desejos, que ainda se escondiam?” — —
“Não há” — disse — “tormento mais
dorido Que recordar o tempo venturoso 123 Na desgraça. Teu Mestre o
tem sentido.
“Mas porque de saber és desejoso, Como nasceu a flor do nosso
afeto, 126 Direi chorando o lance lastimoso.
“Por passatempo eu lia e o meu dileto De Lanceloto extremos namorados;
129 Éramos sós, de coração quieto.
“Nossos olhos, por vezes encontrados, Cessam de ler; ao gesto a cor
mudara.
132 Um ponto só deu causa aos nossos fados.
“Ao lermos que nos lábios osculara O desejado riso, o heróico
amante, 135 Este, que mais de mim se não separa, “A boca me beijou
todo tremante, De Galeotto fez o autor e o escrito.
138 Em ler não fomos nesse dia avante”.
Enquanto a história triste um tinha dito, Tanto carpia o outro, que
eu, absorto Em piedade, senti letal conflito, 142 E tombei, como tomba corpo
morto.
4. Minos, rei de Creta e que na mitologia pagã era juiz do Inferno.
— 58. Semíramis, rainha de Babilônia, viúva do rei
Nino. — 61. Dido, rainha de Cartago, que amou a Enéias. —
63.
Cleópatra, rainha do Egito. — 64. Helena, mulher de Menelau,
rei de Esparta que causou a guerra de Tróia. — 67. Páris
e Tristão, cavaleiros dos romances medievais. — 73.
Companheiros dois, Francesca de Rimini e Paulo Malatesta, que foram mortos
por Gianciotto Malatesta, marido de Francesca e
Átila, rei dos Hunos, chamado o flagelo de Deus. — Pirro, filho
de Aquiles que matou a Príamo.
CANTO XIII
Os dois Poetas entram no segundo compartimento, onde são punidos os
violentos contra si mesmos e os dilapidadores dos próprios bens. Os
primeiros são transformados em árvores, cujas negras folhas
as Hárpias dilaceram; os outros são perseguidos por cães
famintos que os despedaçam. Dante encontra Pedro des Vignes, de quem
ouve os motivos pelos quais se suicidou e as leis divinas em relação
aos suicidas. Vê depois o senense Lano e o paduano Jacob de Sant’Andréa.
Ouve, enfim, de um suicida florentino, qual é a causa dos males da
sua pátria.
NÃO stava ainda Nesso do outro lado, Quando nós por um bosque
penetramos, 3 Dos vestígios de passos não marcado.
Não fronde verde, mas escura, ramos Não lisos, mas travados
e nodosos, 6 Não pomos, puas com veneno achamos.
Por silvados mais densos, mais umbrosos, Do Cecina a Corneto, a besta brava,
9 Não foge, agros deixando deleitosos.
Das Hárpias o bando aqui pousava.
Que expeliram de Strófade os Troianos, 12 Vaticinando o mal, que os
aguardava.
Asas têm largas, colo e rosto humanos, Garras nos pés, plumoso
e ventre enorme, 15 Soam na selva os uivos seus insanos.
E disse o Mestre: “Convém já te informe Que o recinto
segundo vais entrando, 18 Onde verás spetáculo disforme, “Até
que ao areal chegues infando.
Atenta! E darás fé à narrativa, 21 Que fiz, ainda lá
no mundo estando”.
Em toda parte ouvi grita aflitiva: Como não via quem assim gemesse,
24 Parei e a torvação se fez mais viva.
Creio que o Mestre cria então que eu cresse Que esses lamentos enviava
aos ares 27 Uma turba, que aos olhos se escondesse; Pois disse-me: “De
um tronco se quebrares Um só raminho, ficarás ciente 30 Desse
erro em que se enleiam teus pensares”.
— O braço estendo então e prontamente Vergôntea
quebro. O tronco, assim ferido 33 “Por que razão me arrancas?”
diz fremente.
De sangue negro o ramo já tingido,
“Por que me rompes?” — prosseguiu gemendo — 36 Assomos
de piedade nunca hás tido?” — “Fui homem, hoje o
lenho, que estás vendo! Mais compassiva a tua mão seria 39 Se
alma aqui fosse de um dragão tremendo”.
Como acha verde, quando se incendia Num extremo s’estorce, no outro
estala, 42 Chiando e a umidade fora envia: Daquela arvora assim brotava a
fala, E o sangue; a minha mão já desprendera 45 O ramo, e, entanto,
o horror no peito cala.
“Se de antes ele acreditar pudera” Lhe torna o sábio Mestre
“alma agravada, 48 O que eu nos versos meus lhe descrevera, “Por
te ferir sua mão não fora alçada.
Não crera eu mesmo, e tanto que o induzira 51 Ao feito, que me pesa
e desagrada.
“Diz-lhe quem foste e as dúvidas lhe tira.
O mal te compensando, a fama tua 54 Há de avivar no mundo, a que retira”.
— E o tronco: “Alívio tanto à dor, que atua, Causais,
que de bom grado eu já explico: 57 Ao triste dai que a mágoa
exprima sua.
Fui quem do coração de Frederico As chaves tive e usei com
tanto jeito, 60 Fechando e desfechando que era rico “Da fé com
que a mim só rendeu seu peito No glorioso cargo fui constante, 63 Força,
alento exauri por seu proveito.
“A torpe meretriz, que, a todo instante Ao régio paço
olhos venais volvendo, 66 Morte comum, das cortes mal flagrante, “Contra
mim ódio em todos acendendo, Por eles acendeu iras de Augusto, 69 Que
honras ledas tornou-me em luto horrendo.
“Ressentindo-me então do mundo injusto, Por fugir seus desdéns,
buscando a morte, 72 Comigo iníquo fui eu, que era justo.
“Pelo tronco em que peno desta sorte, Que jamais infiel hei sido, juro,
75 Ao Rei meu, que houve a glória por seu norte, “De vós
o que voltar à luz adjuro Que a memória me salve ao nome honrado,
78 Que vulnerou da inveja o golpe duro”. — O vate inda esperou.
— “Pois se há calado”. —
Disse-me “fala, se tu mais desejas 81 E pede-lhe: do tempo és
apressado”. — Tornei: “Tu mesmo inquires quanto vejas Mais
convir-me; que eu sinto-me inibido 84 Por mágoas, que em minha alma
são sobejas”.
Ele então: “— Se o desejo teu cumprido For por este homem,
nobremente usando, 87 Te apraza, encarcerada alma, ao pedido “Nosso
atender, e como nos mostrando Se liga ao tronco o esp’rito e se é
factível 90 Soltar-se um dia, o vínculo quebrando”. —
Soprou de rijo o lenho; e perceptível Aquele som desta arte nos dizia:
93 — “Resposta breve dou quanto é possível.
“Quando os laços do corpo uma alma ímpia Destrói
por si, do seu furor no enleio 96 Ao círc’lo sete Minos logo
a envia.
“Na selva tomba e aonde acaso veio, E como o seu destino lhe consente,
99 Aí, qual grão germina de centeio, “Vai crescendo até
ser árvore ingente: As Hárpias, que a fronde lhe devoram, 102
Causam-lhe dor, que rompe em voz plangente.
“Hemos de ir onde os corpos nossos moram, Como as outras, mas sem que
os revistamos, 105 Mor pena aos que em perdê-los prestes foram.
“Arrastados serão por nós: aos ramos Pendentes ficarão
nesta floresta 108 Nos troncos, em que, assim, vedes, penamos”.
— Ouvíamos ainda a sombra mesta, De mais dizer cuidando houvesse
o intento.
111 Eis sentimos rumor, que nos molesta.
Assim monteiro, à caça pouco atento, Do javardo e dos cães
ouve o estrupido 114 E das ramadas o estalar violento.
Súbito vejo à esquerda, espavorido, Fugindo esp’ritos
dois nus, lacerados, 117 Ramos rompendo ao bosque denegrido.
“Ó morte!” um clama — “acode aos desgraçados!”
O segundo, que tardo se julgava: 120 “Ninguém, ó Lano,
os pés tanto apressados “De Toppo nas refregas te observava!”
Porém, de todo já perdido o alento, 123 Numa sarça acolheu-se
que ali stava.
Corria, enchendo a selva, em seguimento De famintas cadelas negro bando,
126 Quais alões da cadeia ao todo isento A sombra homiziada se enviando,
A fez pedaços a matilha brava, 129 E logo após levou-os ululando.
Então meu Guia pela mão me trava, Conduz-me à sarça,
que se em vão carpia 132 Pelas roturas, que o seu sangue lava.
“Ó Jacó Santo André!” triste dizia —
“Podia eu ser-te acaso amparo certo? 135 Em mim por crimes teus que
culpa havia?” — Disse-lhe o Mestre, quando foi mais perto: “Quem
és tu, que o teu sangue e mágoas exalas 138 Por golpes tantos,
de que estás coberto?” — Tornou-lhe: “Ó alma
que dessa arte falas E tu que o dano vês, que me separa, 141 Da fronde
minha, agora amontoá-las “Dignai-vos junto à rama, que
as brotara.
Na cidade nasci que por Batista 144 Deixou prisco patrão, que da arte
amara “Sempre pelos efeitos a contrista.
E se do Arno na ponte não restasse
147 Um vestígio, que traz seu culto à vista “Talvez ela
à existência não tornasse, E quem das cinzas, que Átila
há deixado, Levantou-a os esforços malograsse.
151 “Na minha própria casa hei-me enforcado”. —
58. Fui quem do coração de Frederico etc., Pedro des Vignes,
secretário de Frederico II que se suicidou por ter sido acusado de
trair o seu rei. — 118. Um clama etc., Lano de Siena, que morreu em
Pieve del Toppo, na batalha entre Senenses e Aretinos. — 119. O segundo
etc., Giacomo di S. Andrea, morto por Ezzelino de Romano. — 143. Por
Batista etc., Florença, antes de tornar-se cidade protegida por S.
João Batista, tinha como protetor Marte, do qual restava uma estátua
sobre a ponte Vecchio.
CANTO XIV
O terceiro compartimento no qual agora chegam os Poetas é um campo
de areia ardente, devastado por grandes chamas de fogo.
Aí estão os violentos contra Deus, contra a natureza e contra
a arte. Entre os primeiros está Capaneo, que desafia a Deus.
Seguindo, Dante e Virgílio chegam a um regato sangüíneo.
Deste e dos outros rios do Inferno Virgílio narra a origem misteriosa.
DE amor do pátrio ninho comovido, Essas dispersas folhas reunindo,
3 À sarça as dei, que tinha a voz perdido.
Ao limite, dali, fomos seguindo, Em que parte o recinto co’ terceiro,
6 Onde a justiça horrível stá punindo.
Para expressar-lhe o aspecto verdadeiro, Eu digo que à charneca então
chegamos, 9 De plantas nua em seu espaço inteiro.
Da dor a selva a cerca dos seus ramos, Como o fosso a torneia sanguinoso:
12 Ali, rente co’a borda, os pés firmamos.
O plaino era tão árido e arenoso, Como o que de Catão
os pés outrora
15 Na jornada calcaram fadigoso.
Ó vingança de Deus, quem não te adora Nos tremendos
efeitos meditando, 18 Que eu próprio olhei, que a minha voz memora!
De almas nuas eu via infindo bando, Por modos diferentes torturadas, 21 Miseráveis,
mesquinhas pranteando.
Jaziam sobre o dorso umas deitadas, Outras, dobrando os membros, se assentavam,
24 Muitas andavam sempre aceleradas.
Maior a turba destas se mostrava, Menor a que, prostrada no tormento.
27 Maior dor nos lamentos denotava.
Largas flamas com tardo movimento Choviam do areal em todo o espaço,
30 Qual neve em serra, quando é mudo o vento.
Na Índia sobre o exército, já lasso, Fogos cair viu
Alexandre outrora, 33 No chão ardendo livres de embaraço.
Que aos pés no solo os calquem sem demora Suas falanges avisado ordena:
36 Matá-los um por um fácil lhes fora.
Assim baixava, para agravo à pena, Lume eterno que à areia
se prendia, 39 Como à isca a fagulha mais pequena.
Cada qual sem repouso se estorcia, A um lado e a outro os braços revolvendo
42 A cada chama, que do ar chovia.
“Mestre” — falei — “que vais tudo vencendo,
Somente exceto a legião furente, 45 Que em Dite a entrada estava-nos
tolhendo, “Diz quem seja a grã sombra, que não sente,
Ao parecer, o incêndio, e não domado 48 Pela chuva, já
rápido, insolente?” — Reconhecendo o próprio condenado
Que da minha pergunta fora objeto, 51 “Morto sou qual fui vivo!”
clama irado.
“Que Jove canse o armeiro seu dileto, De quem tomou fremente o agudo
raio 54 Para em mim saciar rancor abjeto; “Que os seus cíclopes
sintam já desmaio De Mongibello na oficina negra, 57 Aos gritos —
“Bom Vulcano, acode ou caio!” — “Como fez na peleja
lá de Flegra; Que me fulmine de ódio e sanha cheio:
60 No gozo da vingança em vão se alegra”. — Virgílio
então, com voz, como não creio Lhe ter ouvido, sonorosa e forte,
63 Bradou-lhe: “Capaneu, pois no teu seio “Não mitiga a
soberda a própria morte, Sofre mor pena; igual não há
castigo 66 Ao que a raiva te inflige desta sorte!” — Para mim
se voltou; com gesto amigo Falou: — “Dos Reis que Tebas sitiaram
69 Foi um; de Deus se declarara imigo.
“Os crimes seus no inferno se agravaram; Já disse-lhe, as blasfêmias,
os furores 72 Digno prêmio em seu peito lhe deparam.
“Vem agora após mim; pelos fervores Não caminhes da areia
incandescente; 75 Da selva ao longo evitas-lhe os ardores”. —
Fomos andando, cada qual silente, Até onde jorrar do bosque eu via
78 Rubro arroio, que lembro inda tremente.
Do Bulicame qual o que saía, Das pecadoras em serviço usado:
81 Tal pela adusta areia este corria.
As margens e orlas são de cada lado Feitas de pedra e assim também
seu leito: 84 Caminho ali notei ao passo azado.
“De quanto aqui te conhecer hei feito, Depois que atrás deixamos
essa porta, 87 A cujo ingresso todos têm direito, “Não
se há mostrado à tua vista absorta Maravilha que iguale a desta
veia, 90 Em que a flama adurente fica morta”. — O Mestre diz e
assim desejo ateia De rogar-lhe me preste esse alimento, 93 Que excitado,
o apetite haver anseia.
“Do mar em meio jaz” — ouvi-lhe atento — “Destruído
país, Creta afamada.
96 Com seu rei foi do mal o mundo isento.
“Alça-se ali montanha outrora ornada De fontes e verdor: chama-se
Ida: 99 Erma está, como cousa desprezada.
“Foi ao filho pra berço preferida De Réia, que abafava
o seu vagido 102 Fazer mandando grita desmedida.
“Nas entranhas do monte um velho erguido Está: voltando à
Damieta as costas,
105 Como a espelho, olha Roma embevecido.
“De ouro faces e fronte são compostas, De pura prata são
braços e peito, 108 Enéias do busto as partes bem dispostas.
“De ferro estreme tudo o mais foi feito, O pé direito exceto,
que é de argila, 111 Mas o corpo sustém, sendo imperfeito.
“Salvo do ouro, do mais sempre destila De lágrimas por fenda
crebro fio, 114 Que fura a gruta e rápido desfila.
“Aos negros vales vem correndo em rio, Forma Stige, Aqueronte e Flegetonte,
117 Desce depois neste canal esguio “Até do inferno o fundo,
aonde é fonte Do Cocito. O que o rio acaso seja 120 Verás: mister
não é que ora te conte”. — — “Se desde
o nosso mundo ele serpeja, Dize, ó Mestre, a razão por que a
torrente 123 Só neste abismo lôbrego se veja”. —
“É circular este lugar horrente, E posto haja vencido extenso
trato, 126 Descendo tu à esquerda, inteiramente
“Não hás feito inda ao círc’lo o giro exato.
Não revele o teu rosto maravilha.
129 Novas cousas em vendo e estranho fato”. — Ainda eu perguntei:
— “Por onde trilha O Flegetonte e o Letes? De um te calas, 132
E do outro a veia é dessa origem filha”. — Tornou: —
“Muito me agrada quanto falas; Da água rubra o fervor, porém,
solvera 135 Uma dessas questões, que me assinalas.
“Do inferno fora o Letes ver espera: Na linfa sua as almas vão
lavar-se 138 Depois que a penitência o perdão gera”. —
Disse depois: “É tempo de deixar-se A selva; os passos meus sempre
acompanha, Pela margem caminho há para andar-se.
142 Do fogo ali se extingue toda sanha”. —
32. Alexandre, alusão a uma aventura de Alexandre Magno. — 55.
Cíclopes, gigantes com um só olho no meio da testa, que fabricavam
armas para Júpiter. — 56. Mongibello, o vulcão Etna, na
Sicília. — 63. Capaneu, um dos sete reis que sitiaram Tebas.
— 79. Bulicame, fonte de água quente perto de Roma. — 101.
Réia, mulher de Saturno e mãe de Júpiter. — 103-105.
Velho de Creta, símbolo da humanidade e, segundo outros, da monarquia,
que, em princípio boa e reta, vai depois degenerando.
CANTO XV
Prosseguindo os Poetas, encontram um grupo de violentos contra a natureza.
Entre estes está Brunetto Latini, que reconhece o discípulo
e lhe pede para aproximar-se dele, a fim de conversarem. Falam de Florença
e das desventuras reservadas a Dante. Brunetto dá ao Poeta ligeiras
notícias a respeito das almas que estão danadas com ele e foge
para reunir-se a elas.
POR uma dessas margens empedradas Imos: vapor do rio resguardava 3 Das chamas
o álveo e as bordas elevadas.
Como do mar temendo a força brava De Bruge a Cadsand, Flamengos fazem
6 Os diques, com que o mal se desagrava; Ou como o dano atalha, que lhe trazem
Do Brenta as invasões de Pádua a gente, 9 Se em Quiarentana
os gelos se desfazem, Assim as bordas desse rio horrente, Posto altura e grossura
lhes não desse 12 Iguais, quem quer que fosse artista ingente.
A selva já distante de nós era Tanto, que eu divisá-la
não podia,
15 Quando os olhos por vê-la atrás volvera, Eis encontramos
multidão sombria, Que a margem costeava, nos olhando, 18 Como sói
caminhante, ao fim do dia, Que vai, por lua nova, outro encarando: Para nos
ver os cílios contraindo, 21 Qual a agulha o artesano aparelhando.
Assim, de mira à turba nós servindo, Conhecido fui de um que
me travava 24 Da roupa — “Ó maravilha!” — repetindo.
Quando o seu braço para mim se alçava, Atentei-lhe no rosto
requeimado; 27 Posto que demudado, não vedava Que de mim fosse nas
feições lembrado.
À sua face inclinando a mão, lhe digo, 30 — “Messer
Brunetto! vós aqui!” — torvado.
“Filho meu! complacente sê comigo! Vir Brunetto Latini ora consente,
33 Deixando a turba, um pouco assim contigo!” — Tornei: —
“muito vos rogo; e que me assente Convosco se quereis, prazendo ao guia
36 Dos passos meus, assentirei contente”. —
— “Se um momento um de nós” — me respondia
— Aqui parasse, imóvel anos cento, 39 Pelo fogo ferido jazeria.
“Caminha: que eu te irei no seguimento.
Depois hei de juntar-me à companhia 42 Dos que pranteiam no eternal
tormento”. — Eu da estrada a descer não me atrevia Por
ir com ele; mas a fronte inclino 45 Reverente; e, falando prosseguia.
— “Que fortuna” — me disse — “ou que
destino Antes da morte aqui te há conduzido? 48 De quem recebes na
jornada ensino?” — “Antes de haver da idade o tempo enchido
Sobre a terra na vida sossegada; 51 Num vale” — respondi —
“fiquei perdido.
“Ontem costas lhe dei por madrugada; Ele acudiu-me, quando atrás
voltava, 54 E me conduz assim por esta estrada”. — — “Se
bem vaticinei, quando gozava, Da vida bela, glorioso porto 57 Te há
de o teu astro conduzir” — tornava.
“Se antes do tempo eu não stivesse morto.
Vendo que tanto o céu te era benigno, 60 Te dera nos trabalhos o conforto.
“Mas esse ingrato povo é tão maligno, Que outrora de
Fiesole viera 63 E tem de penha o coração ferino, “Em
ti, por seres bom, mal considera.
É justo: que entre acerbos sovereiros 66 Crescer doce figueira não
se espera.
“Velha fama os diz cegos, sempre useiros Na soberba, na inveja, na
avareza.
69 Deles te esquiva; em vícios são vezeiros.
“Te guarda a sorte de honras tal grandeza, Que hás de ser dos
partidos cobiçado; 72 Mas das garras lhes fica longe a presa.
“Ceve em si própria o fiesolano gado Os instintos brutais; não
toque a planta, 75 Que inda haja em tal nateiro germinado, “E em que
a semente ressuscite santa Dos romanos, que ali restaram, quando 78 Teceu-se
o ninho de malícia tanta”. — — “Se o céu”
— tornei — “meus votos escutando, Deferisse, da vida o lume
agora 81 Ainda aos olhos vos raiara brando;
“Que a doce imagem vossa inda memora Saudosa a mente e o paternal desvelo
84 Com que me heis ensinado de hora em hora “Como homem faz-se eternamente
belo.
Enquanto eu vivo for, agradecido 87 Ao mundo bem patente hei de fazê-lo.
“O vaticínio vosso, reunido A outro, há de explicar-me
sábia Dama, 90 Quando à sua presença houver subido.
“E como a consciência me não clama, Sabei que, quando
a sorte avessa esteja, 93 A todo o mal sou prestes, que ela trama.
“O que ouvi não cuideis novo me seja: Volva-se a roda como a
sorte a lança, 96 Lavre a terra o vilão como deseja”.
— Então meu douto Mestre, que se avança, Girando à
destra e me encarando, disse: 99 “Bem compreende quem tem boa lembrança!”
— Não me vedou, porém, que eu prosseguisse Na prática;
e a Brunetto os mais famosos 102 Pedi que dos seus sócios referisse.
— “Alguns convém saber, mais numerosos Em silêncio
deixar louvável sendo: 105 Míngua o tempo aos discursos copiosos.
“Sabe, em suma, que clérigos havendo Todos sido e letrados mui
famosos.
108 Se mancharam num só pecado horrendo.
“Vão na turba daqueles desditosos Acúrio e Prisciano;
alguns protervos 111 Se ver quiseres, por tal lepra ascosos.
“Olha o que, como quis servo dos servos, Pra Bacchiglione foi do Arno
mudado 114 E ali deixou seus deformados nervos.
“Não mais dizer, nem ir posso ao teu lado, Pois do areal já
vejo de repente 117 Vapor novo surgir afogueado.
“Não devo andar com bando diferente.
O meu Tesouro eu muito te encomendo: 120 Nele inda vivo, e rogo isto somente”.
— Voltou-se; e foi tão rápido correndo, Como os que correm
pelo pálio verde No campo de Verona, parecendo 124 Mais ser quem vence
do que ser quem perde.
30. Messer Brunetto, Brunetto Latino, autor do “Tesouro”, e mestre
de Dante. — 62 Fiesole, pequena cidade perto de Florença. —
110. Acúrcio, Francesco d’Accursio, jurisconsulto bolonhês.
Prisciano, gramático de Cesaréia — 112. Olha o que, etc.
Andréia de Mozzi, bispo de Florença e, depois, de Vicência.
CANTO XVI
Perto do limite do terceiro compartimento do sétimo círculo
os Poetas encontram outro bando de almas de sodomitas, no qual se destacam
três ilustres compatriotas de Dante. Reconhecendo-o, falam da decadência
das virtudes políticas e civis de Florença.
Chegam, depois à orla de outro precipício, onde a um sinal
de Virgílio, sobe, voando pelos ares, uma figura estranhíssima.
EM lugar stava já donde se ouvia Rumor, igual de abelhas ao zumbido,
3 De água, que noutro círculo caía: Eis três sombras
partir vi comovido, Correndo, de uma turba que passava 6 Debaixo do martírio
desmedido.
Vinham a nós, e cada qual gritava: “Detém-te; por teus
trajos se afigura 9 Seres alguém da nossa terra prava”. —
Ah! que chagas nos membros, na figura O fogo lhes abria, novas e antigas!
12 Só recordando, eu sinto mágoa pura.
O mestre, que escutara — “Não prossigas! Cumpre-te”
— disse, o rosto me voltando, —
15 “Aguardando, lhes dar mostras amigas.
“Não estivesse o fogo dardejando, Como o lugar requer, te caberia
18 Mais pressa do que estão manifestando”. — Paramos. Renovando
a vozeria Um círc’lo junto a nós os três formaram,
21 Em que as mãos cada qual dos três unia.
Como atletas, que, nus, de óleo se untaram, Mas, antes de lutar, dos
adversários 24 No fraco atentam, no seu prol reparam: Eles, se revolvendo
em giros vários, Olhavam-me em tal modo colocados, 27 Que os colos
aos seus pés stavam contrários.
“Se a miséria, em que somos trateados, Se o triste aspecto da
tostada face 30 Te move a desdenhar súplices brados, “Nossa fama
o teu ânimo traspasse; E pois, dize quem és que, ufano, o inferno
33 Calcas antes que a vida se finasse.
“Este, por quem os passos meus governo, Escoriado e nu, que ora estás
vendo, 36 Mais do que o crês no mundo foi superno.
Da famosa Gualdrada o neto sendo, Chamou-se Guido Guerra, e foi na vida 39
Por esforço e prudência reverendo.
A Tegghiaio Aldobrandi, que em seguida Me vai, por sua voz, por seus bons
feitos 42 Devera ser a pátria agradecida.
Eu que também da pena sofro efeitos Jacopo Rusticucci fui: da esposa
43 O maior mal causaram-me os defeitos”. — Se houvesse amparo
à chuva pavorosa (Virgílio o consentira), eu me lançara
48 Entre eles, da alma na expansão piedosa; Porém naqueles fogos
me abrasara, Sobrepujou temor vivo desejo, 51 Que de abraçá-los
súbito me entrara.
“Não desdém, mas piedade neste ensejo, Que não
se extinguira, me tem movido” 54 Lhes disse — “o padecer
em que vos vejo, “Tanto que o Senhor meu há proferido Palavras,
que a presença me indicaram 57 De almas quais sois neste lugar temido.
“Da vossa terra sou: sempre exaltaram Meu apreço e o dos que
vos conheceram
60 Ações que os nomes vossos tanto honraram.
“Por meu Guia veraz esperançado, Deixo o fel por doçura
permanente 63 Tendo primeiro o centro visitado”. — “Que
no teu corpo a vida longamente Persista!” — a sombra disse. —
“Dure a fama 66 Do nome teu com lume resplendente! “Na pátria
nossa inda revive a flama Da honra, do valor, que ali brilhara, 69 Ou de todo
a expeliu ódio que infama? “Pois Guilherme Borsiere, que baixara,
Há pouco, e vai chorando nesta ardência, 72 Cruciou-nos contando
o que notara”. — “Íncolas novos, súbita opulência,
— Florença, orgulho e vícios te acenderam, 75 De que tu
própria temes a influência!” — Gritei alçando
a fronte: e os três, que me eram Atentos, à resposta se encararam,
78 Como se essas verdades lhes prouveram.
“Se tão pouco te custa” — me tornaram — “Sempre
aos outros expor teu pensamento, 81 Feliz tu! Vozes tais assaz te honraram.
“E, pois, voltando a luz do firmamento, Se alfim saíres desta
estância horrente, 84 Quando — “Lá fui!” —
disseres, de contente, “Nos olvidar não deixa a humana gente”.
— Então, rompendo o círculo, fugiram, 87 Como se asas
tiveram, velozmente.
Em menos tempo aos olhos se esvaíram Do que proferir amen se gasta.
90 Logo aos passos do Mestre os meus seguiram.
Dali distância curta nos afasta, Eis da água os sons ouvimos,
tão de perto, 93 Que a voz forçar para se ouvir não basta.
Como o rio que, no álveo próprio aberto, Em Veso nasce e vai
para o oriente, 96 Ao lado esquerdo do Apenino, e ao certo Aquaqueta se chama,
da eminente Parte enquanto não desce, mas, tomando 99 Nome diverso
em Forli de repente, Rebomba e cai pela quebrada, quando Acerca-se a S. Bento,
o grão mosteiro 102 Que dar a mil pudera asilo brando: Assim desde
um penhasco sobranceiro Da água rubra troava alto estampido,
105 Que fora de surdez risco certeiro.
De uma corda eu me achava então cingido Com que outrora prender quis
a pantera, 108 De pêlo em malhas várias repartido.
Que a tirasse Virgílio me dissera: Eu descingi-me presto, lha entregando
111 Enrolada, como ele prescrevera.
Então ele à direita se voltando, A distância da borda
alcantilada 114 Lançou-a longe para o abismo infando.
— “Àquela ação não de antes praticada,”
— Pensei — “há de seguir-se estranho efeito, 117
Que do Mestre a atenção tem despertada”. — Quanta
cautela deve haver e jeito, Tratando-se com quem vê não somente
120 Os atos, mas também o que há no peito! — “Surgirá”
— disse o Mestre — “brevemente O que espero: o que tens
no pensamento 123 Logo aos teus olhos ficará patente.” Verdade,
que pareça fingimento, Evita proferir homem discreto: 126 Sofre desar,
de culpa estando isento.
Nada posso omitir, leitor dileto: Desta comédia pelos cantos juro
129 (Sejam assim de longo aplauso objeto!) Que subir por aquele ar grosso,
escuro Nadando vi figura temerosa 129 Ao peito mais intrépido e seguro:
Tal quem desceu pela onda perigosa A desprender de ocultos embaraços,
Lá no fundo, a fateixa vagarosa, 136 Subindo, encolhe as pernas, tende
os braços.
38. Guido Guerra, florentino, combateu em Montaperti. — 40.
Tegghiaio Atdobrandi, também patriota florentino. — 44. Jacopo
Rusticucci, valoroso cavaleiro florentino que combateu também na batalha
de Montaperti. — 70. Guilherme Borsiere, gentil- homem florentino. —
135. Fateixa, pequena âncora.
CANTO XVII
Enquanto Virgílio fala com Gerion, para convencer essa horrível
fera a levá-los ao fundo do abismo, Dante se aproxima das almas dos
violentos contra a arte. Dante reconhece alguns deles. A cada um pende do
peito uma bolsa na qual são desenhadas as armas da sua família.
Volta depois o Poeta para o lugar onde está Virgílio, que assentado
já sobre o dorso de Gerion, põe-no diante de si, e assim descem
ao oitavo círculo.
“EIS a fera, que a horrenda cauda enresta, Que arneses, montes, muros
atravessa 3 E com seu bafo impuro o mundo empesta!” Assim Virgílio
a me falar começa.
Para acercar-se logo lhe acenava 6 Ao marmóreo anteparo que ali cessa.
Da fraude o vulto imundo aproximava! A cabeça avançou e o torpe
busto, 9 Porém pendente a cauda lhe ficava A cara assomos tinha de
homem justo, Tanto era o parecer beni’no e brando! 12 No mais serpe,
movia horror e susto.
Grandes, hirsutos braços dilatando,
Alçava peito, ilhais, dorso malhados, 15 Mil rodelas e nós
se entrelaçando.
Mais cores nos estofos recamados Tártaros, Turcos nunca misturaram,
18 Nem Aracne em tecidos variegados.
Como os batéis, que à praia se amarram, No mar a popa têm,
a proa em terra; 21 E, como em regiões, que se deparam Sob o voraz
Tudesco, a fazer guerra Embosca-se o castor: assim se via 24 O monstro à
orla, que as areias cerra.
No ar a extensa cauda revolvia; E a venenosa ponta bipartida, 27 Do escorpião
qual dardo, se erigia “Té onde a fera atroz jaz estendida.
Convém seja o caminho desviado 30 Da senda” — disse o
Vate — “prosseguida” — Descendo, pois, pelo direito
lado Para o fogo fugir e a areia ardente 33 Passos dez pela borda hemos andado.
Chegados nós de Gerião em frente, Um tanto além sentado
um bando achamos 36 Na areia, perto desse abismo ingente.
— “Do recinto por teres, em que estamos” — Virgílio
disse — “a experiência inteira 39 A sorte vai saber dos
que avistamos.
“Os discursos, porém, filho aligeira.
Entanto impetrarei da fera infanda 42 Que prestar-nos seus ombros fortes
queira”. — Só pela borda, como o Vate manda, Vou do círculo
sétimo seguindo, 45 Dos mestos pecadores em demanda.
A dor, que brota em lágrimas, sentindo, Socorre-se das mãos
a aflita gente 48 Contra o solo e o vapor, que está caindo.
Assim lebréus, durante a calma ardente Dos dentes e unhas valem-se,
mordidos 51 De tavões por enxame impertinente.
Quando encarei nos rostos doloridos De alguns, que os fogos tanto cruciavam,
54 Que eram todos achei desconhecidos.
Bolsas pendentes dos seus colos stavam, Pelos sinais distintas, pelas cores:
57 Contemplando-as, seus olhos se enlevavam.
E vi já me acercando aos pecadores
Bolsa, na qual em campo de ouro havia 60 Azul, que era leão nos seus
lavores, A vista, que já noutra se embebia, Em sangüíneo
rubor ganso eu notava, 63 Que a brancura do leite escurecia.
Grávida, azul jardava um, que ostentava, Broslada sobre cândida
escarcela, 66 — “Que buscas neste abismo?” perguntava.
“Retira-te! Se a vida gozas bela, Sabe que à sestra mão
Vitaliano, 69 Vizinho meu terá condigna sela.
“Entre estes Florentinos sou Paduano; A todo instante aturdem-me os
ouvidos, 72 Bradando: — O nobre venha, o soberano, “Que os três
bicos na bolsa traz sculpidos”. — Depois, torcendo a boca, a língua
tira, 75 Qual boi, que os beiços lambe, ressequidos.
Não querendo mover desgosto ou ira Em quem mor brevidade me ordenara,
78 Os mesquinhos deixei: assaz ouvira.
Disse-me o Guia então, que cavalgara O dorso do animal fero e possante:
81 “Sê forte, a tudo o ânimo prepara!
“Se desce em tal escada de ora avante; Sobe-te ao colo; ao meio irei
sentado: 84 Que não te ofenda a cauda penetrante.” De quartã
qual doente, que, chegado Supondo o acesso, lívido estremece 87 Somente
ao ver lugar fresco, assombrado Tal quando ouvi, meu peito, desfalece.
Ante o Mestre dá-me o pejo alento: 90 Bom amo o servo esforça
que esmorece.
Já sobre a espalda do animal cruento, Quero ao vate gritar: “Senhor,
me abraça!” 93 A voz, porém, não corresponde ao
intento.
Ele, que a mente espavorida e lassa Em circuito mais alto me animara, 96
Sustendo-me, nos braços seus me enlaça, E disse a Gerião:
“Vai, mais não pára.
Em circuitos largos sem ter pressa: 99 Na carga, que ora tens, nova repara!”
— Bem como esquife, que voar começa, Manso e manso recua: assim
moveu-se.
102 Quando ao largo sentiu-se, eis endereça A cauda aonde o peito
seu tendeu-se.
Meneando-a, a retesa como enguia; 105 Das patas agitado o ar fendeu-se.
Feton, quando as rédeas já perdia, Ao ver do céu o incêndio,
ainda aparente; 108 Ícaro, quando lhe cair sentia Da cera cada pluma
ao sol ardente, Gritando o pai; — “Ai! filho! Erraste a strada!”
111 De pavor não se entraram mais veemente, Do que eu nessa viagem
desusada, No ar quando me vi, quando enxergava 114 Só a cerviz da fera
maculada: Com tardo movimento ela nadava, Que gira e baixa pelo vento eu sinto
117 Que em torno ao rosto e abaixo se agitava.
Já ouvia à direita bem distinto, Troar da catadupa fragorosa:
120 Olhos inclino ao fundo do recinto.
A mente estremeceu mais temerosa Ao chamejar de fogo, ao som de pranto: 123
Encolhi-me ante a cena pavorosa.
De que descia então, com mor espanto, Pelos males, que via, fiquei
certo, 126 A mim se avizinhar a cada canto.
Qual falcão que no ar pairava incerto, Sem ver reclamo ou cobiçada
presa 129 Perdida a esp’rança ao caçador esperto, Descamba,
fatigado e sem presteza, Em voltas mil por onde se arrojara, 132 E longe pousa,
ou de ira, ou de tristeza: Tal Gerião, enfim, no fundo pára
Ao pé da penedia alcantilada, Livre do peso já que carregara,
136 Sumiu-se como seta disparada.
18. Aracne, personagem da mitologia grega, transformada por Minerva em aranha.
— 68. Vitaliano, usurário paduano, ainda vivente. — 72.
O nobre venha, Giovanni Baiamonti, florentino, que tinha como brasão
três bicos de pássaro. — 106. Feton, filho de Apolo, que,
no guiar o carro do Sol, precipitou-se. — 108. Ícaro, filho de
Dédalo, que voando com as asas de cera fabricadas pelo pai, precipitou
ao solo.
CANTO XVIII
Encontram-se os Poetas no oitavo círculo, chamado Malebolge, o qual
é dividido em dez compartimentos concêntricos. Em cada um deles
é punida uma espécie de pecadores, condenados por malícia
ou fraude. No primeiro compartimento são punidos com açoites
pela mão de demônios os alcoviteiros; e entre eles Dante reconhece
Venedico Caccianemico e Jasão. No segundo jazem em esterco os aduladores
e as mulheres lisonjeiras, entre outros, Alessio Interminelli, de Lucca e
Taís.
TEM o inferno, de rocha construído, De férrea cor, de muro
igual cercado 3 Um lugar: Malebolge o nome havido.
Lá no centro do plaino inficionado Se escancara grão poço,
amplo e profundo: 6 Direi a compostura em tempo asado.
Espaço em torno estende-se rotundo Entre o poço e o penhasco
pavoroso: 9 Reparte-se em dez cavas o seu fundo.
Qual de fossos dobrados, cauteloso, Se apercebendo, o alcáçar
se assegura 12 Dos assaltos de imigo poderoso:
De abismos tais o aspecto se afigura.
Como da levadiça ponte entrada, 15 Aos de fora, do mundo na cintura,
Assim, do val no fundo começada, Cada cava uma rocha atravessava 18
Em arco, para o poço concentrada.
De nós o monstro aqui se descargava: À sestra mão seguiu
logo o poeta, 21 E eu de perto fiel o acompanhava.
Novo tormento à destra me inquieta, Novos algozes vejo, novas dores,
24 De que a primeira cava era repleta.
Stão lá no fundo nus os pecadores: Do meio contra nós
muitos caminham, 27 Outros conosco, em passos já maiores.
Em Roma, assim, às turbas, que se apinham Do jubileu no tempo, sobre
a ponte 30 Se abriu aos que iam trânsito e aos que vinham: De um lado
andavam, os que tendo em fronte O castelo, a S. Pedro se endereçam,
33 E do outro lado os que iam para o monte.
Daqui, dali nas bordas, os apressam
Cornígeros demônios, açoitando 36 Com grandes azorragues,
que não cessam, Como aos golpes primeiros cada bando Se apressa! Como
cada qual evita 39 Que se repita o estímulo execrando! Nesse andar
minha vista num se fita, Da parte oposta vindo, e logo eu disse: 42 —
“Hei conhecido esta figura aflita”. — Atentei mais, por
que melhor o visse; Deteve-se comigo o doce Guia 45 E deu que atrás
o passo eu dirigisse.
Aos olhos esquivar-se-me queria, Os seus baixando; mas foi vão o intento.
48 —“Tu, que te curvas, já te hei visto um dia.
“Se as feições não mudou-te o passamento Venedico
tu és Caccianemico.
51 Por que trato padeces tão cruento?” — — “De
mau grado o que exiges significo; Mas cedo ao claro som dessa loquela, 54
Que à memória me traz o mundo inico.
“Eu fui aquele, que Ghisola bela Do Marquês entreguei ao vil
desejo: 57 Ora a verdade a minha voz revela.
“Comigo de Bolonha muitos vejo; Com tantos nesta cava choro e peno,
60 Que a menos lá no mundo dá-se ensejo.
“De dizer sipa entre o Savena e o Reno, Se a prova queres, lembra-te
somente 63 De que em nós da avareza influi veneno”. — Mas
um demônio o atalhou. Furente, Disse tangendo: — “Ó
rufião, avante! 66 Mulher não há que vendas impudente!”
— Ao Mestre me tornei; — pouco distante Era um rochedo, a que
nos acercamos; 69 Da riba se elevava pra diante.
Assaz ligeiramente nos alçamos; Fomos pela fragura à mão
direita 72 E o eterno recinto assim deixamos.
Chegados onde a curva estava feita Para passagem dar aos fustigados, 75 O
sábio Guia disse: — “A face espreita “Agora desses
outros malfadados, Em que ainda atender não conseguiste, 78 Porque
não stavam para nós voltados”. — Da antiga ponte
divisamos triste,
Longa fileira: contra nós andava.
81 Cruel açoite em flagelar persiste.
Virgílio, quando eu nada perguntava, — “Repara bem”
— me diz — “na sombra altiva, 84 A quem pranto de dor faces
não lava.
“De Rei conserva a majestade viva! É Jasão: conquistou
por força e manha 87 O velocino em Colcos fera e esquiva.
“A Lenos foi, depois que horrenda sanha Feminil aos varões cortara
a vida, 90 Nenhum poupando aquela fúria estranha.
“Ali, de amor no enlevo embevecida, Hipsífile enganou, que já
iludira 93 Suas irmãs, de compaixão movida.
“Grávida e só deixou-a: atroz mentira Mereceu-lhe dos
tratos a amargura.
96 Vingada está Medéia, a quem traíra.
“Quem perjurou como ele, há pena dura.
Do val primeiro baste o que sabemos 99 E de quantos aqui sofrem tortura”.
— Numa estreita vereda já nos vemos, Que co’a borda segunda
se cruzava, 102 Sustentando outra ponte, a que tendemos.
Turba dali ouvimos, que chorava De outra cava no encerro e que, assoprando,
105 Com suas próprias mãos se arrepelava.
Estava-lhe as paredes incrustando A exalação que sobe e ali
se prende.
108 Ferindo o olfato e a vista horrorizando.
E tanto pelo abismo a cava estende, Que só divisa quando está
no fundo 111 Quem lá do cimo, perscrutando, atende.
Subimo-nos: então no fosso imundo Vi gente em tal cloaca mergulhada,
114 Que a sentina figura ser do mundo.
Enquanto olhava ali tão conspurcada Cara notei, que distinguir não
pude, 117 Se padre ou leigo fora a alma danada.
— “Dizei por que tua vista não se mude De mim, a imundos
tantos desatenta!” — 120 Gritou-me. — E eu: — “Se
a mente não me ilude, “Te vi sem cabeleira tão nojenta.
Alessio Interminei de Lucca hás sido: 123 Em ti por isso a vista é
mais atenta”. —
Ferindo a face, disse-me o descrido: — “Aqui lisonjas vis me
submergiram; 126 Língua indefessa em bajular hei tido”. —
Logo depois que vozes tais se ouviram, Meu Guia: — “Olhos dirige
um pouco avante, 129 E as feições me declara se atingiram “De
mulher desgrenhada e petulante Que de unhas asquerosas se lacera, 132 Mudando
de postura a cada instante.
“É Taís, a meretriz, que respondera Ao namorado seu,
quando dizia: — “Te devo gratidão?” — “Muita
e sincera!” — 136 Mas vamos: temos visto em demasia”. —
50. Venedico Caccianemico, bolonhês, que induziu sua irmã Ghisola
a entregar-se a Obizzo d’Este, marquês de Ferrara. — 61.
Dizer sipa etc., palavra do dialeto bolonhês que vale por sim ou seja.
— 86. Jasão, chefe dos argonautas, que, auxiliado por Medéia,
que ele seduziu e depois enganou, conquistou em Cólquida o velocino
de ouro. — 92. Hipsífiles, enganada por Jasão. —
122. Aléssio Interminei, patrício de Lucca. — 133.
Taís, meretriz, personagem de uma peça de Terêncio.
CANTO XIX
No terceiro compartimento, onde os Poetas chegam, são punidos os simoníacos.
Estão eles, de cabeça para dentro, metidos em furos feitos no
fundo e nas encostas do compartimento. As plantas dos pés, que estão
fora dos buracos, são queimadas por chamas. Dante quer saber quem era
um danado que mais do que os outros agitava os pés. É o papa
Nicolau III da Casa Orsini, o qual diz que estava à espera de ser rendido
por outros papas simoníacos. O Poeta, indignado, rompe numa veemente
invectiva contra a avareza e os escândalos dos papas romanos. Virgílio,
depois, o leva novamente para a ponte.
Ó SIMÃO MAGO, ó míseros sequazes Por quem de
Deus os dons só prometidos 3 A virtude, em rapina contumazes, Por ouro
e prata estão prostituídos! Por vós tange ora a tuba
sonorosa: 6 Jazeis na tércia cava subvertidos.
À outra tumba chegamos temerosa, Da rocha nos subindo àquela
parte, 9 Que, a prumo ao centro, eleva-se alterosa.
Saber supremo! Que inefável arte Mostras no céu, na terra e
infernal mundo! 12 Oh! teu poder quão justo se reparte!
145
Por toda a cava, aos lados e no fundo Furos na pedra lívida se abriam,
15 De igual largura e cada qual rotundo.
Semelhar na grandeza pareciam Aos que em meu S. João belo e esplendente
18 Para batismo ministrar serviam.
Quebrei um, não há muito, mas somente Para infante salvar,
que ali morria: 21 Fique a verdade a todos bem patente.
De cada um orifício eu sair via Os pés, até das pernas
a grossura, 24 De um pecador: o resto se sumia.
Stavam ardendo as plantas na tortura, E tanto as juntas rijo se estorciam,
27 Que romperiam a prisão mais dura.
Do calcanhar aos dedos percorriam As chamas, como a superfície inteira.
30 Em corpo de óleo ungido morderiam.
— “Quem padece” — disse eu — “por tal
maneira, Que mais que os sócios estorcer-se vejo 33 Em mais rúbida
flama e mais ligeira? — “Se ao fundo eu te levar, por teu desejo,
Por declive, que jaz mais inclinado, 36 De ouvir-lhe o nome e os crimes dou-te
ensejo”.
— — “Aceito o que te praz, muito a meu grado: Senhor do
meu querer, és quem conhece 39 Quanto hei mister e a mente há
reservado”. — Passando à quarta borda, ali se desce Para
a esquerda voltando, até chegar-se 42 Lá onde tanto furo se
oferece.
De mim não quis o Mestre aligeirar-se Senão quando daquele,
que gemia 45 Pelos pés, conseguiu apropinquar-se.
— “Tu, és assim voltada” — eu lhe dizia —
“Como estaca plantada, ó alma opressa, 48 Responder-me possível
te seria?” — Eu stava aí, qual monge, que confessa Assassino,
que em cova já fincado 51 O chama, pois, em tanto, a pena cessa.
— “Já tens” — gritou: já tens aqui
chegado? Já, Bonifácio, como tens descido? 54 Em anos muitos
tenho a conta errado.
“Tão depressa desse ouro te hás enchido, Pelo qual bela
esposa atraiçoando,
57 A tens por tantos crimes afligido?” Eu fiquei como quem, não
penetrando No sentido do que outro respondera, 60 Enleado e corrido fica olhando.
Mas Virgílio: — “Depressa lhe assevera: Eu não
sou, eu não sou quem tu cogitas” — 63 Respondi como o Vate
prescrevera.
Ouvindo, as plantas estorceu malditas; Depois a suspirar, com voz de pranto
66 — “Por que” — disse — “a falar assim
me excitas? “Se conhecer quem sou anelas tanto, Que assim baixaste ao
vale tenebroso, 69 De Papa sabe que hei vestido o manto.
“Filho de Ursa, deveras, cobiçoso Em bolsa tudo pus por meus
Ursinhos, 72 Lá ouro, aqui o esp’rito criminoso.
“Sob a cabeça minha estão vizinhos, Em simonia os que
me antecederam, 75 Sobrepondo-se um no outro esses mesquinhos.
“Hei de ao fundo descer, como desceram, Logo em chegando aquele, que
eu cuidara 78 Seres tu, quando as vozes me romperam.
“Mas, ardendo-me os pés se me depara Intervalo mais longo, assim
voltado, 81 Do que em tormento igual se lhe prepara.
“Virás de mores culpas outro inçado, Pastor sem lei,
das partes do ocidente 84 Que há de ser sobre nós depositado.
“Jasão novo será: condescendente Teve o outro seu Rei,
diz a Escritura, 87 Da França este o senhor terá potente”.
Não sei se ousado fui e se foi dura A resposta, que dei ao condenado.
90 — “Tesouros exigira porventura “Nosso Senhor de Pedro,
ao seu cuidado E zelo quando as chaves cometia? 93 — Segue-me —
apenas lhe há recomendado.
“Dinheiro não tomaram de Matia Pedro e os outros, por ser o
preferido 96 Ao lugar, que o traidor perdido havia.
“Pena, pois: mereceste ser punido; E guarda a que extorquiste, vil
moeda 99 Que te fez contra Carlos atrevido.
“Não fora a referência, que me veda,
Das santas chaves, que empunhaste outrora, 102 No tempo, em que fruíste
a vida leda, “Voz mais severa eu levantava agora Contra a avidez, que
o mundo assaz contrista, 105 Que os bons oprime, o vício exalta e adora.
“A vós vos figurava o Evangelista, Quando a que é sobre
as águas assentada 108 Prostituir-se aos Reis foi dele vista: “Nascera
de cabeças sete ornada, E o valor nos dez cornos possuía, 111
Enquanto ao esposo seu virtude agrada.
“De ouro a vossa cobiça um Deus fazia: Por um dos que os gentios
adoraram 114 Abrange cento a vossa idolatria.
“Constantino! Ah! que males derivaram, Não do batismo teu, mas
da riqueza 117 Que deste a um Papa e a quem outras se juntaram!” Sentindo
destas notas a aspereza, Ele tomado de remorso ou de ira, 120 Agitava os dois
pés com mor braveza.
Virgílio, creio, com prazer me ouvira: Aplaudir seu semblante revelava
123 Verdades que eu, sincero, proferira.
Jubiloso nos braços me levava, E, depois que apertara-me ao seu peito,
126 Por onde descendera, se tornava.
Sempre cingido desse abraço estreito, Do arco ao cimo transportou-me
o Guia: 129 Caminho à quinta cava era direito.
Ali suavemente me descia Em rochedo tão íngreme e empinado,
Que às cabras ínvio ser me parecia, 133 De lá foi-me
outro val descortinado.
1. Simão Mago queria comprar dos Apóstolos a virtude de chamar
o Espírito Santo. O mercado das coisas sagradas é, por isso,
chamado simonia. — 17. São João, pia na qual Dante foi
batizado. — 53. Bonifácio, Bonifácio VIII, que o danado
(Nicolau III) pensa seja vindo para substituí-lo. — 83. Pastor
sem lei, Clemente V, ligado a Filipe, o Belo, rei de França e que mudou
a sede do papado para Avinhão. — 85. Jasão, que comprou
o sumo sacerdócio de Antíoco, rei da Síria. — 106.
O Evangelista, S. João. — 115-117. Constantino, no tempo de Dante
se acreditava que Constantino, ao mudar-se para Bizâncio, teria doado
ao papa Roma e o domínio temporal.
CANTO XX
No quarto compartimento são punidos os impostores que se dedicaram
à arte divinatória. Eles têm o rosto e o pescoço
voltados para as costas, pelo que são obrigados a caminhar ao reverso.
Virgílio mostra a Dante alguns entre os mais famosos, entre os quais
a tebana Manto, da qual se origina Mântua, cidade natal de Virgílio.
NOVA pena convém dizer em versos E dar matéria ao meu vinteno
canto, 3 Do cântico onde punem-se os perversos.
Eu era já disposto tanto, quanto Fora preciso para ver o fundo 6 Da
cava, que banhava amargo pranto.
De almas vi turba, pelo val rotundo, Que taciturna vinha e lacrimosa 9 Ao
passo usado em procissões no mundo.
Mirei mais baixo e cada desditosa Notei que fora o mento retorcido 12 Do
colo ao começar: cousa espantosa! Para o dorso era o rosto seu volvido:
Só recuando caminhar podia;
15 Que em frente olhar estava-lhe tolhido.
Talvez por força já de par’lisia De alguém o corpo
ao todo se torcesse; 18 Não vi: crê-lo difícil me seria.
Que te seja, Leitor, a Deus prouvesse Proveitosa a lição! Pensa,
atilado, 21 Quanto em mim, vendo, a compaixão crescesse, O parecer
humano tão mudado, Que o pranto, que dos olhos derivava 24 Banhava
o tergo a cada condenado.
Do rochedo eu a um ângulo chorava Com tanta dor, que o Mestre de repente
27 — “Insensato és também?” — me interrogava.
“Aqui piedade é morte em toda mente: Quando Deus condenou, quem
mais malvado 30 Do que esse, que ternura por maus sente? “Alça
a fronte, alça, atento ao condenado, Que ante os Tebanos se abismou
na terra.
33 Gritavam-lhe: — Como andas apressado, “Anfiarau? Como assim
foges da guerra? — Ele tombava entanto, ao val descendo, 36 Onde Minos
os réprobos aferra.
“Pelo futuro penetrar querendo, Tem o dorso adiante em vez do peito,
39 E a recuar caminha, atrás só vendo.
“Eis Tirésias, o que mudara o aspeito, Femíneas formas
e feições tomara, 42 Sendo-lhe o que era varonil desfeito.
“Ao sexo seu tornou, quando encontrara, Inda uma vez, travadas serpes
duas 45 E outra vez com bordão as separara.
“Volta-lhe Arons ao ventre as costas nuas: De Luni em monte, aos agros
iminentes, 48 Onde o Carrara ergueu moradas suas, “Teve em gruta marmórea
permanente Estância, donde contemplar podia 51 As estrelas, as ondas
livremente.
“Essa mulher” — continuou meu Guia — “Que o
seio oculta em traça flutuante 54 E de velos a pele tem sombria, “Foi
Manto, que vagara incerta e errante Até pousar na terra, em que hei
nascido.
57 No que ora digo irei um pouco avante.
“Vendo o pai já da vida despedido
E a cidade de Baco em jugo triste, 60 O mundo largo tempo há percorrido.
“Junto ao Alpes na bela Itália existe, Além Tirol, já
perto da Alemanha, 63 Um lago, que chamar Benaco ouviste.
“Veia de fontes mil, que a plaga banha Entre Garda, Camônica
e Apenino, 66 De águas conduz ao lago cópia manha.
“Ilha há no meio, em que o Pastor trentino, E com ele os de
Bréscia e de Verona, 69 Possuem de benzer juro divino.
“Onde é mais baixa do Benaco a zona, A Bérgamo fazendo
e a Bréscia frente, 72 Pesqueira, forte em bastiões, se entona.
“É dali que das águas o excedente, Que ter em si não
pode o lago, brota 75 Em rio e cobre os prados largamente.
“Quando prossegue, outro apelido adota, Chama-se Míncio, perde
o nome antigo: 78 No Pó junto a Governol, há fim sua rota.
“No verão à saúde traz perigo; Em vasto plaino
o álveo dilatando, 81 Forma paul, das infeções amigo.
“Manto, a virgem selvage ali passando, Terreno viu desabitado, inculto
84 Naquele pantanal, que o está cercando “Esquiva a humano trato
e estranho vulto, Fez ali de suas artes oficina 87 E viveu té sofrer
da morte o insulto.
“Povo, ao diante, para ali se inclina, Em torno esparso, e abrigo,
o julga forte: 90 De águas cercado com pauis confina.
“Onde aqui o elegeu colhera a morte, A cidade erigiram, que chamaram
93 Mântua, do nome seu sem tirar sorte.
“Os habitantes lá mais avultaram, Quando ainda os ardis de Pinamonte
96 De Casalodis a insânia não fraudaram.
“Ciente fica, pois: se de outra fonte A pátria minha originar
quiserem, 99 A mentira à verdade nunca afronte”. — —
“As cousas, que tuas vozes me referem, Tão certas são”
— disse eu — “que me parece 102 Carvão extinto o
que outros me disserem.
“Mais dize, ó Mestre: acaso não merece
Dos que avançam nenhum reparo ou nota? 105 Na mente de o saber desejo
cresce”. — — “Aquele, a quem do mento ao dorso brota
Barba esquálida, um áugur se dizia, 108 Quando de homens a Grécia
tal derrota Teve, que infantes só no berço havia.
Em Áulide com Calcas indicara 111 Tempo, em que a frota desferrar
devia.
“Eurípilo chamou-se: assim narrara Num dos seus cantos, a tragédia
minha, 114 Bem sabes, pois tua mente a arrecadara.
“Esse, que, tão delgado, se avizinha, Miguel Escotto foi, que,
certamente, 117 Perícia em fraudes da magia tinha.
“Olha Guido Bonati, encara Asdente Que cuidar só devera da sovela:
120 Arrepende-se agora inutilmente.
“Das tristes ora a turba se revela, Que, desdenhando a agulha, a horrível
arte 123 De encantos infernais acharam bela.
“Mas no limite, que hemisférios parte, É Caim com seu
fardo, o mar tocando, 126 Lá de Sevilha além do baluarte.
“A lua, a face plena já mostrando (Te lembras?) ontem viste
na sombria Selva, em que te ajudou seu fulgor brando”. — 130 Assim
falando, a passo igual seguia.
34. Anfiarau, que morreu no sítio de Tebas, e prevendo a sua morte
tentara esquivar-se de tomar parte nesse sítio. — 40.
Tirésias, adivinho tebano, que foi transformado em mulher e depois
retornou homem. — 46. Arons, adivinho lembrado na “Farsália”
de Lucano. — 55. Manto, filha de Tirésias, que a tradição
diz ter fundado a cidade natal de Virgílio, Mântua. — 63.
Benaco, hoje lago de Garda. — 95-96. Quando ainda etc.
Pinamonte dei Bonacolsí para apoderar-se de Mântua induziu o
governador Alberto de Casalodi a praticar atos violentos que revoltaram o
povo contra ele. — 110. Calcas, adivinho da antigüidade. —
112. Eurípilo, outro célebre adivinho.— 116.
Miguel Escotto, célebre adivinho do tempo de Frederico II. —
118. Guido Bonati, astrólogo do conde Guido de Montefeltro. —
Asdente, sapateiro e adivinho de Parma.
CANTO XXI
No quinto compartimento são punidos os trapaceiros que negociaram
os cargos públicos ou roubaram aos seus amos. Eles estão mergulhados
em piche fervendo. Os dois Poetas presenciam a tortura de um trapaceiro luquense
por obra de um demônio. Virgílio domina os demônios que
queriam avançar contra eles. Virgílio e Dante, escoltados por
um bando de demônios, tomam o caminho ao longo do aterro.
ASSIM, de ponte em ponte, discursando Do que nesta comédia se não
cura, 3 De outro arco acima nos subimos, quando Detemo-nos por ver a cava
escura, Por ouvir de outros prantos vão sonido; 6 Com pasmo olhei a
hórrida negrura.
No arsenal de Veneza, derretido Como referve o pez na estação
fria 9 Para reparo ao lenho combalido, Incapaz de vogar: qual com mestria
Baixel novo constrói; qual alcatroa 12 O que teve em viagens avaria;
Qual pregos bate à popa qual à proa;
Qual remos faz, qual linho torce ou parte; 15 Qual mezena e artemão
aperfeiçoa: Assim, por fogo não, por divina arte Betume espesso,
ao fundo refervia, 18 As bordas enviscando em toda parte.
Mas no pez só na tona eu distinguia Borbulhão, que a fervura
levantava, 21 Que ora inchava, ora rápido abatia.
No fundo enquanto os olhos eu fitava, Exclamando Virgílio: —
Eia! Cuidado! — 24 Para si donde eu era me tirava.
Voltei-me então como homem, que apressado É por saber o que
fugir convenha, 27 De súbito pavor sendo atalhado, Olha sem que por
isso se detenha, E logo atrás de nós eu vi correndo 30 Negro
demônio sobre aquela penha.
Ah! que aspecto feroz! Ah! quanto horrendo Nos meneios parece e temeroso,
33 Veloz nos pés e as asas estendendo! No dorso agudo e enorme um criminoso,
Escarranchado, em peso, carregava: 36 Dos pés prendia o nervo ao desditoso.
— “Malebranche!” já perto ele bradava — —
“Eis um dos anciões de S. Zita! 39 Mergulhai-o, pois torna à
gente prava, “Que nessa terra em grande soma habita.
Venais todos lá são menos Bonturo.
42 O no, por ouro, lá se muda em ita“.
Ao pez o arroja, e pelo escolho duro Se torna: após ladrão
tanto apressado 45 Não vai mastim, que estava antes seguro: O maldito
afundou; surdiu curvado.
Sob a ponte os demônios lhe gritaram: 48 — “Não
acharás aqui Vulto Sagrado, “Nem banhos, quais no Serchio se
deparam.
Se não queres no pez star imergido.
51 A te espetar as fisgas se preparam”. — Com croques cem mordendo
esse descrido — “Bailar” — disseram — “deves
bem coberto; 54 Se puderes furtar, furta escondido”. — Tal ordem
em cozinha o mestre esperto Aos ajudantes seus que na caldeira 57 Mergulhem
naco à tona descoberto.
— “Por que” — falou-me o Guia — “alguém
não queira Molestar-te em te vendo, busca abrigo: 60 Num recanto o
acharás desta pedreira.
“Não temas que me ofenda o bando imigo; Muito bem sei como o
furor lhe afronte; 63 Já venci de outra vez igual perigo”. —
Até o extremo então passou da ponte; Mas, quando a sexta borda
já subia, 66 Mister lhe foi mostrar serena fronte.
Qual fremente matilha, que se envia Ao pobre, quando pára esbaforido
69 E pede alívio à fome que o crucia: De baixo arremeteu-lhe
o bando infido, Aceso em ira, os croques seus brandindo.
72 Mas gritou-lhes: — “Nenhum seja atrevido! “Os croques
suspendi: até mim vindo Me preste algum de vós atenção
toda.
75 Fere, se ousais porém antes me ouvindo”.
Clamaram todos: — “Ouça — o Malacoda!” Enquanto
os mais ficavam no seu posto, 78 — “Que queres?” —
disse alguém que sai da roda; E o Mestre: — “És,
Malacoda, a crer disposto
Que as ameaças vossas superasse 81 Para aqui vir, se por celeste gosto
E supremo querer não caminhasse? Deixa-me ir; pois a lei divina ordena.
84 Que eu nesta agra jornada outrem guiasse”.
De Malacoda o orgulho já serena; Aos pés lhe cai o croque;
aos ais voltado 87 Lhes disse: — “Este não pode sofrer
pena”.
E o Mestre me falou: — “Tu, que abrigado Estás entre os
penedos cauteloso, 90 Volve a mim, do temor descativado”.
Corri para Virgílio pressuroso.
Eis os demônios todos investiram: 93 Roto o concerto, pois, cria ansioso.
De Caprona os soldados, que saíram A partido assim vi que estremeciam,
96 Quando envoltos de imigos se sentiram.
Nos sevos gestos seus se me prendiam Os olhos, e a Virgílio vinculado
99 Os braços o meu corpo todo haviam.
Os croques inclinados: — “No costado Fisguemo-lo” —
entre si dois prorromperam.
102 E os outros: — “Oh! pois não! seja espetado!”
Ao que o Mestre falava desprouveram Palavra tais, e então bradou depressa:
105 “Sê quedo, Scarmiglione!” — Emudeceram.
Depois assim nos disse: — “Andar por essa Rocha não podereis;
jaz destruído 108 Todo arco sexto sem restar-lhe peça.
Se avante quereis ir, seja seguido Desta borda o caminho: não distante
111 Está rochedo ao passo apercebido.
“Ontem, cinco horas mais do que este instante Mil e duzentos com sessenta
e seis 114 Anos houve: é então a rocha hiante.
“Dos sócios meus na companhia ireis; Vão ver se alguém
ao banho quer furtar-se.
117 Ide em paz: molestados não sereis.
“Calcabrina, Alichino vão juntar-se Com Cagnazzo, a decúria
comandando 120 Barbariccia! E não podem separar-se “Droghinaz,
Libicocco, deste bando! Graffiacane, o dentudo Ciriatto, 123 Farfarel, Rubicante
vão marchando! “Na ronda cada qual se mostre exato!
Sejam a salvo os dois encaminhados 126 Da ponte ao arco até agora
intato!” “Que vejo, ó Mestre!” — eu disse —
“Acompanhados!” Se sabes ir só, vamos prontamente; 129
De guias tais dispensam-se os cuidados.
“Se tu és, como sóis, Mestre, prudente, Não vês
que os dentes seus estão rangendo, 132 Que nos encaram com furor crescente?”
“Não temas” — disse o Mestre, respondendo —
“Ranger os dentes deixa-os a seu gosto: 135 É contra os que ardem
lá no pez horrendo”.
À sestra os dez então fizeram rosto; Nos dentes cada qual mostra
primeiro, Por mofa a língua ao cabo já disposto; 139 E ele trompa
fazia do traseiro.
38. Anciões de S. Zita, supremos magistrados de Lucca, cidade de que
S. Zita é protetora. — 41. Bonturo, Bonturo Dati, magistrado
mais venal do que os outros. — 42. O no, por ouro etc., por dinheiro
o não se transforma em sim. — 112-114.
Ontem, etc., o demônio falava cinco horas antes do meio-dia de 26 de
março de 1300. Ao meio-dia teriam transcorrido 1266 anos da morte de
Cristo.
CANTO XXII
Andando os dois Poetas pelo aterro à esquerda, vêem muitos trapaceiros,
que, por aliviar-se, boiam acima do piche fervendo.
Sobrevêem os diabos e um deles é lacerado. É este Ciampolo,
de Navarra, que consegue, depois, livrar-se das garras dos diabos, o que dá
motivo a uma briga entre os demônios.
MARCHAR vi cavaleiros à peleja, Travar luta, enlear-se no combate
3 E até pedir à fuga que os proteja; Em vossa terra esquadras
dar rebate Vi, Aretinos; vi as cavalgadas, 6 Torneios, justas no mavórtico
embate, De tubas ao clangor, às badaladas, Com sinais de castelos,
de tambores, 9 Com artes novas ou entre nós usadas: Não vi mover
peões, nem corredores, Nem baixéis, que regula a terra ou estrela,
12 De igual clarim aos sons atroadores.
Com dez demônios (que companha bela!) Partimo-nos, porém rezar
com santo, 15 Urrar com lobos discrição revela.
Minha atenção no pez se engolfa, entanto, Por saber quanto
encerra a negra cava, 18 Ali quem pena, quem derrama pranto.
Como o delfim, que da tormenta brava O nauta avisa, o dorso recurvando, 21
Presságio do mau tempo, que se agrava.
Um lenitivo à pena, assim, buscando, Mostrava o tergo algum dos condenados,
24 Qual relâmpago, logo se esquivando.
Como à borda de charcos enlodados A fronte deixa à rã
ver da água fora, 27 Pernas e corpo tendo resguardados: Assim no pez
a gente pecadora.
Mas, Barbariccia próximo já sendo, 30 Na resina se esconde
abrasadora.
Eu vi (e ainda agora estou tremendo!) Em cima retardar-se um desditoso 33
Qual rã, que fica, as mais desparecendo.
Perto ali stava Grafiacane iroso: Fisgou-o na enviscada cabeleira, 36 E alçou,
qual lontra, ao ar o criminoso.
Sabia os nomes da caterva inteira;
Ouvindo-os, atentei nos escolhidos: 39 Distingui-los podia de carreira.
“Eia! depressa os teus ferrões compridos No costado lhe crava,
ó Rubicante!” 42 Os demônios gritaram-lhe incendidos.
“Ó Mestre” — disse — “inquire insinuante
Quem seja aquele mísero e mesquinho 45 Que em mãos caiu da turba
petulante”.
Moveu-se o Mestre e, à cava já vizinho, Perguntou-lhe em que
terra ele nascera.
48 — “Em Navarra” — tornou-lhe — eu tive o
ninho.
“De um fidalgo ao serviço me pusera Minha mãe, quando
o pai meu devastara 51 Fazenda e a própria vida com mão fera.
“D’El-rei Tebaldo eu na privança entrara: Vendia os seus
favores fraudulento; 54 Sofro a pena do mal, que praticara”.
Então os dentes lhe cravou cruento, De javardo quais presas, Ciriatto:
57 Armam-lhe a boca, servem de instrumento: Nas mãos de imigo seu caíra
o rato: Barbariccia, entre os braços o estreitando,
60 — “Alto!” — lhe diz — “A mim cabe
seu trato”.
E o rosto para o Mestre meu voltando, Falou: — “Pergunta, se
ainda mais desejas 63 Antes que o tenha lacerado o bando”.
“Algum dos pecadores, com quem stejas” Virgílo interrogou
— “Latino há sido?” 66 Tornou: — “Vou
contentar-te no que almejas.
“No pez deixei alguém por tal havido…
Ah! não temera, estando lá coberto, 69 Ser de unhas e farpões
ora ferido”.
— “É demais!” — Libicocco diz, que perto Estava;
e um braço ao triste dilacera, 72 Do croque ao golpe, aquele algoz
esperto.
Às pernas Draghignaz também quisera Do mísero investir;
o cabo iroso 75 Acesos olhos volve e os dois modera.
Cessa um pouco o rumor e pessuroso Pergunta o Mestre àquela sombra
aflita, 78 Que do golpe olha o efeito doloroso: “Quem foi essa alma,
como tu prescita, Que, por vires à tona, hás lá deixado?”
81 Responde o pecador: — “Foi Frei Gomita
De galura, nas fraudes consumado Que do seu amo a imigos poupou dano, 84
E, traidor, foi por eles premiado.
“Por ouro os deixou ir, como de plano Confessa; e em tudo o mais provou
ter foro 87 Nas tretas, ser nos dolos soberano.
“Miguel Zanche, o Juiz de Logodoro, Com ele ostenta, em práticas
freqüentes 90 De crimes, em Sardenha, o seu tesouro.
“Ai! vede como esse outro range os dentes! Iria por diante; mas receio
93 Na pele a fúria dos ferrões pungentes”.
Atenta o cabo de olhos no meneio Com que a ferir se apresta Farfarello.
96 “Vai daí!” — lhe gritou — “pássaro
feio!” — “Se Toscanos, Lombardos tens anelo De ver e ouvir”
— o triste prosseguia — 99 “Traça darei, com que
satisfazê-lo.
Suspendam Malebranche essa porfia; Não temam sócios meus dura
vingança, 102 Que eu, sentado, um só não, muitos faria
“De lá surdir, segundo a nossa usança, Ao sinal de assovio,
que de ausente
105 Perigo ao vir à tona dá fiança”.
Cagnazzo alça o focinho, de repente, E, abanando a cabeça,
diz — “Cuidado! 108 Astúcia é por lançar-se
ao pez fervente”.
Ele, que em cópia ardis tinha guardado, Tornou: — “Sutil
astúcia, na verdade, 111 Causar aos meus tormento redobrado!”
Dos outros contra o aviso, por vaidade, Alichino lhe disse: — “Se
abalares, 114 Não provarei de pés agilidade, “Hei de,
voando, te agarrar nos ares.
Vamos do cimo e à riba retiremos: 117 Maravilha, se a tantos enganares!“
Leitor, logração nova contemplemos.
Já todos volvem de outro lado a vista: 120 Quem mais avesso assim
primeiro vemos.
O Navarro estudara-o como invista; E arrancando, de súbito, ao betume
123 Se arroja e a liberdade então conquista.
Da afronta sentem todos o azedume, Inda mais quem motivo dera ao feito, 126
Gritando: — “Preso estás!” — salta do cume,
Porém do medo se avantaja o efeito Ao das asas: um baixa ao fundo
presto, 129 No ar sustém-se o outro, alçando o peito.
Assim mergulha o pato na água lesto, Quando avista o falcão:
perdida a presa, 132 Se torna o caçador cansado e mesto.
Calcabrina, da raiva na braveza, Após o sócio voa, por ter
briga, 135 Se a alma como deseja, vence empresa.
Vendo que ao fundo o malfeitor se abriga, As garras volta contra o companheiro:
138 Furor à luta sobre o lago o instiga.
As unhas o outro, gavião ligeiro, Lhe crava e, entrelaçando-se
espantosos, 141 Tombam ambos no pez, de corpo inteiro.
Separa o grão fervor os dois raivosos; Em vão, porém,
subir-se pretenderam, 144 Que as asas prendem borbulhões viçosos.
Os outros vendo o caso, se doeram: Envia quatro o cabo diligente; 147 E de
croques armados acorreram.
De um lado e de outro chegam velozmente.
Tendem farpões aos sócios enviscados,
Cozidos já naquela crusta ardente, 151 E desta arte os deixamos atalhados.
48-54. Em Navarra etc., Ciampo de Navarra, o qual serviu na corte do rei
Tebaldo II de Navarra. 81. Frei Gomita, vicário de Ugolino Visconti,
por dinheiro deu liberdade aos inimigos do seu senhor. — 88. Miguel
Zangue, vicário do rei Enzo em Logodoro.
CANTO XXIII
Prosseguem os dois Poetas o seu caminho, descartando-se dos diabos. Vendo-os,
porém, voltar novamente, Virgílio abraça-se com Dante
e deixam-se resvalar pelo declive do precipício.
Encontram os hipócritas vestidos de pesadas capas de chumbo dourado.
Falam com dois frades, Catalano e Loderigo, bolonheses. Um dos frades, inquirido
por Vigílio, indica-lhe o modo de subir ao sétimo compartimento.
EM silêncio, a companha má deixada, Seguíamos, após
um do outro andando, 3 Como frades menores em jornada.
Meu pensamento à rixa se voltando, A fábula de Esopo relembrava,
6 Em que ao rato arma a rã laço nefando.
Se aqueles casos dois eu confrontava, Como issa e mo, iguais me pareciam,
9 Quando o princípio e fim seus recordava.
E, como os pensamentos se associam, Outros logo daquele me brotaram, 12 Que
em dobrado temor a alma envolviam.
Pensava: — esses demônios que passaram,
Por causa nossa, tal vergonha e dano, 15 Do fato certamente se enojaram.
Se a maldade agravar rancor insano, Eles no encalço nos virão
ferozes, 18 Qual cão, que a lebre aboca enfim no plano.
Aguardando os horríficos algozes, Arrepiam-se as carnes e o cabelo.
21 — “Ó Mestre meu, as garras temo atrozes!” Exclamo:
— “Ache depressa o teu desvelo Para nós contra o bando
amparo e abrigo.
24 Após os passos nossos cuido vê-lo”.
“Se espelho eu fora, a imagem tua, amigo, Tanto não refletira
claramente, 27 Quanto às idéias na tua alma sigo.
“Agora iguais me estão surgindo à mente, Concordes tanto
nas feições, em tudo, 30 Que um parecer entre ambos há
somente.
“À destra inclina a encosta, ou eu me iludo: Por lá baixando
à mais vizinha cava, 33 Teremos contra assaltos seus escudo”.
Não acabava, quando a turba prava Assoma: de asas pandas se enviando
36 Contra nós, não mui longe a divisava.
De súbito nos braços me tomando, Qual mãe, que ao despertar
se vê cercada 39 De furiosas flamas, e, apertando Ao seio o filho, foge
acelerada, E ao pudor véus esquece angustiosa, 42 Só por salvar
aquela prenda amada: Lá do cimo da riba alta e fragosa Resvala o Mestre
pela penha dura, 45 Muralha de outra cava tenebrosa.
Água não corre mais veloz da altura Por canal a impulsar de
engenho a roda, 48 Quando, vizinha aos cubos, se apressura, Do que a descer
o Guia meu se açoda, Como a filho estreitando-me ao seu peito, 51 Não
como a companheiro a quem se engoda.
Da cava, apenas atingira o leito, Quando ao cimo os demônios se mostraram:
54 Mas de iras suas malogrou-se o efeito.
Por lei da Providência terminaram Funções, que exercem
na caverna quinta, 57 Toda vez que o recinto seu deixaram.
Gente, que de brilhante cor se pinta
Vemos, que a tardo passo em torno andava; 60 Chorava e em forças parecia
extinta.
Capa e capuz trazia, que ocultava Seus olhos, dessa forma de vestidos 63
De Colônia entre os monges mais se usava.
De ouro por fora, dentro guarnecidos De chumbo: comparando a peso tanto,
66 De palha os de Fred’rico eram tecidos.
Por toda a eternidade, ó duro duro manto! Com tais almas, à
sestra, caminhamos, 69 Atentos escutando o triste pranto.
Tanto as oprime o peso, que as passamos No lento caminhar; e a cada instante
72 De nova companhia ao lado estamos.
“Mostra-me — eu disse ao Guia, suplicante — Algum por nome
ou feitos afamado; 75 Busca, sem te deter, Mestre prestante!” —
Tendo vozes toscanas escutado, Um atrás nos gritou: — “Cessai
da pressa, 78 Com que ides a correr pelo ar cerrado! “Cousa talvez direi,
que te interessa”.
Volta-se o Mestre e diz-me: — “Agora espera; 81 Para o passo
igualar-lhes não te apressa”.
Cessando, vejo um par que se acelera; Seus gestos dizem que acercar-se aspiram,
84 Malgrado a estrada e o peso, que os onera.
Aqueles dois, já próximos, remiram Com vesgos olhos, sem falar,
meu rosto; 87 Depois entre eles vozes tais se ouviram: “O que respira
ainda em vida é o posto? Se mortos ambos são, por que motivo
90 Da plúmbea capa evadem-se ao desgosto?” E disseram: —
“Toscano, que, inda vivo, Vens de hipócritas ver o grêmio
triste, 93 Dizer quem sejas, não recusa esquivo”.
— “Nasci na grã cidade, à qual assiste Com suas
belas margens o Arno ameno, 96 E o corpo, em que hei crescido, lá persiste.
“Quem sois que da aflição tanto veneno Na face amargo
pranto denuncia? 99 Qual penar tendes de esplendor tão pleno?”
“Tanto chumbo se encobre” — um me dizia — Destas capas
sob o ouro, que oscilamos, 102 Qual balança, que ao peso hesitaria.
“De Bolonha e Godente, nos chamamos
Um Loderigo e o outro Catalano: 105 Juntos ambos Florença governamos,
“Por que ficasse a paz livre de dano.
Em vez de um regedor; do que hemos sido 108 O Gardingo dá prova e
desengano”.
“Ó irmãos” — comecei — “o mal
nascido…” Atalhei-me: jazendo um condenado 111 Com puas três
em cruz via estendido.
Em vendo-me estorceu-se angustiado.
Altos suspiros arrancou do peito.
114 Catalano acercou-se apressurado.
“Este” — disse — “que geme em duro leito, Que
a um homem dessem morte, aconselhara 117 Aos Fariseus, do povo por proveito.
“Através do caminho é nu, repara: De quem passa, desta
arte, ele conhece 120 O peso, quando por calcá-lo pára.
“Igual martírio o sogro seu padece, Assim como cada um desse
concilio, 123 Semente pra os Judeus de horrenda messe”.
Maravilhar-se então mostrou Virgílio, Posto em cruz o prescito
contemplando 126 Com tanto opróbrio lá no eterno exílio,
Voltou-se a Catalano assim falando: “Dizei, se assim vos apraz e é
permitido, 129 Se à direita há vereda, onde, passando, Deste
recinto vamo-nos temido, Sem que os anjos perversos obriguemos 132 Caminho
a nos mostrar não conhecido”.
Tornou: — “Mais perto do que julgas temos Rochedo, que, do muro
se estendendo, 135 Dá ponte a cada val, em que gememos.
“Este não cobre, outrora se rompendo; Mas subir podereis pela
ruína, 138 Que do declive ao fundo se está vendo”.
Ouvindo, o Guia um pouco a fronte inclina E diz: — “Bem más
explicações nos dava 141 Quem tanto os pecadores amofina”.
Logo o frade: “Em Bolonha me constava Que o demônio, entre os
vícios com que stenta, 144 De ser pai da mentira se ufanava”.
A passo largo o Mestre já se ausenta; Ira ressumbra o rosto carregado.
Deixa a turba, que em capas se atormenta, 148 As pegadas seguindo-lhe apressado.
8. “Mo” e “issa” advérbios que, ambos, significam:
agora. — 66.
De Frederico etc., em comparação, as capas que Frederico II
mandara colocar nos presos eram levíssimas. — 104. Loderigo e
Catalano, frades que foram chamados a governar Florença, depois da
derrota de Manfredo (1266) e que se aproveitaram da sua posição,
causando um motim no qual foi incendiada a casa dos Uberti, perto do Gardingo.
— 115. Este etc., Caifás, o sumo sacerdote de Israel, que aconselhou
a morte de Jesus. — 121. O sogro seu etc., Anah, sogro de Caifás.
CANTO XXIV
Encaminham-se os Poetas pelo rochedo e chegam ao sétimo compartimento
no qual estão os ladrões, os quais, picados por serpentes horríveis,
inflamam-se e, depois, ressurgem das cinzas. Entre eles Dante reconhece Vanni
Fucci, o qual por desafogar o despeito de ser colhido em tal vergonha e miséria,
prediz-lhe a derrota dos Brancos.
NAQUELA parte do ano incipiente, Em que as comas do sol se fortalecem 3 No
Aquário, e a noite iguala o dia ausente, Quando as geadas matinais
parecem Da alva irmã figurar a imagem pura, 6 Mas tais feições
em breve se esvaecem.
Campino, que a indigência já tortura, Ergue-se, e vendo o prado
embranquecido.
9 No coração calar sente a amargura.
Torna ao tugúrio e carpe-se abatido, Como quem toda a esp’rança
já perdera; 12 Mas vendo em breve o campo estar despido Do triste manto,
o alento recupera.
Revigorado então, corre ao cajado
15 E as ovelhas ao pascigo acelera.
De temor me senti, dessa arte, entrado Do mestre merencóreo ante o
semblante; 18 Mas logo ao mal foi bálsamo aplicado.
À ruína chegamos: nesse instante Virgílio volve àquele
doce gesto, 21 Que eu da colina ao pé vira ofegante.
Reflete um pouco, o estado manifesto Da rocha examinando: eis-me, estendendo
24 Os braços, resoluto ergueu-me presto.
Como aquele que uma obra entre mãos tendo.
Logo noutra tarefa põe o intento, 27 Num rochedo Virgílio me
sustendo, Já de outro acima me avisava atento.
“Mais alto agora sobe” — me dizia — 30 “Vê
se a rocha está firme! Toma tento!” De capa ali ninguém
transitaria; Pois nós, leves e eu sempre transportado, 33 Subíamos
a custo a penedia.
Se mais alto o declive do outro lado Não fora do que esse outro, em
que ora estamos, 36 — Dele não sei — ficara eu lá
prostrado.
Que Malebolge inclina-se notamos À boca enorme do profundo poço;
39 As encostas, são tais — expr’imentamos — Que uma
é baixa, outra excelsa em cada fosso.
Vimos, enfim, do topo à roca extrema, 42 Dessa ruína ao último
destroço.
Lá chegado, afã tanto o peito prema, Que avante um passo dar
eu mais não pude; 45 Sentei-me então na inanição
suprema.
“Eia! toda a fraqueza em ti se mude! Em ócio” —
disse o Mestre — “ou sobre a pluma 48 Prêmios ninguém
conquista da virtude.
“Aquele que a existência assim consuma, Tal vestígio de
si deixa na terra, 51 Como o fumo no ar e na água a espuma.
“Ergue-te, pois! Torpor de ti desterra! Recobra o esforço que
os perigos vence! 54 Impere alma no corpo em que se encerra! “Que vais
subir muito alto a mente pense; Desse abismo não basta haver saído.
57 Será teu prol, se a minha voz convence”.
Alço-me então, mostrando-me impelido De alento, que não
tinha; e ao Mestre digo:
60 “Avante! Forte já me sinto e ardido!” Pela rocha asperíssima
prossigo Mais estreita, inda menos acessível 63 Que a outra: os passos
de Virgílio sigo.
Por provar-me às fadigas insensível Falando andava. Eis ouço
de outra cava 66 Ressoar voz bem pouco perceptível.
O que disse não sei, posto me achava Da ponte sobre a parte culminante;
69 Mais parecia iroso quem falava.
Curvei-me para ver no fosso hiante, Mas alcançar não pude o
fundo escuro.
72 Ao Mestre disse então. “Se apraz-te, avante Passando, desceremos
deste muro; Daqui ouço uma voz, mas não a entendo; 75 Fito os
olhos, mas nada me afiguro”.
“Respondo aos teus desejos, acedendo; Que o pedido discreto assim declaro
78 Se cumpre, não falando, mas fazendo”.
Fomos da ponte à parte, donde é claro Que se vai ter à
ribanceira oitava: 81 Ficou patente a cava ao meu reparo.
De serpes tal cardume se enroscava, Horríficas na infinda variedade,
84 Que ao sangue, inda ao lembrar, terror me trava.
Não tenha a Líbia de criar vaidade, De quersos, fares, cencris
no seu seio 87 E anfisbenas, tamanha quantidade.
Nem do mar Roxo* em plagas, nem no meio Da Etiópia, tropel tão
pavoroso 90 De flagelos jamais a lume veio: Por entre o enxame atroce e temeroso
Almas corriam nuas e transidas, 93 Heliotrópia não sperando
ou pouso.
Atrás as mãos por serpes são tolhidas, Que, transpassando
os rins, cauda e cabeça, 96 Lhes tinham por diante em laços
unidas.
Eis uma de repente se arremessa Ao prescito, que perto nos demora: 99 Morde-lhe
o colo aonde a espádua cessa.
Um O traçar ou I mais custa agora Do que ser o mesquinho incendiado:
102 Em cinzas cai o pecador, que chora.
Stando em terra desta arte derribado,
Juntando-se a cinza e logo reformou-se, 105 Como de antes, o triste condenado.
Dos sábios na escritura já narrou-se Que a Fênix morre
e logo após renasce, 108 Quando aos anos quinhentos acercou-se.
Viva, já nunca em cibo ela se pasce, Em lágrimas, porém,
de incenso e amono; 111 De nardo e mirra em ninho extremo apraz-se.
Como aquele que cai sem saber como, Do demônio ao poder, que à
terra o tira, 114 Ou de outra opilação sentindo o assomo; Levantando-se,
em torno a si remira, Da angústia inda aturdido, que o mordera, 117
E, em seu soçobro, pávido suspira: Assim parece o pecador, que
ardera.
Contra os pecados na final vingança, 120 Ó Justiça de
Deus, quanto és severa! Quem fora inquire o Mestre, e dele alcança
Estas vozes: — “Há pouco, da Toscana 123 Chovi no abismo,
onde ninguém descansa.
“Vida brutal vivi, não vida humana.
Chamei-me Vanni Fucci, híbrida besta; 126 Pistóia, meu covil,
de mim se ufana”.
Ao Mestre eu disse: — “Referir-nos resta O crime, que deu causa
à morte sua: 129 Sei que em sangue banhara a mão funesta”.
O pecador, que me ouve, não se amua: Volta-me presto a cara, em que
a tristeza 132 Com sinais de vergonha se insinua E diz: — “Sinto
da dor mais a aspereza, Porque em miséria tanta me vês posto,
135 Do que quando da morte hei sido a presa.
“Ao que exiges respondo com desgosto: Por ter roubado alfaias e ornamento
138 Da igreja, aqui estou, sendo meu gosto “Que pelo crime houvesse
outro tormento.
Se deste antro saíres algum dia, 141 Por que não sejas do meu
mal contento, “Ouve bem o que a voz minha anuncia: De si Pistóia
os Negros expulsando, 144 Povo, modos, Florença então cambia.
“Vapor de Val de Magra Marte alçando, O traz em torvas nuvens
envolvido; 147 E, enquanto a tempestade está raivando, “No campo
de Picen será ferido
Combate; a névoa logo se esvaece; Dos Brancos cada qual será
batido.
151 “Sabe-o, pois: certo, a nova te entristece”.
125. Vanni Fucci, ribaldo que roubou o tesouro de S. Jacopo em Pistóía.
— 143-150. De si Pistóia etc., Vanni Fucci sabendo que Dante
era do partido dos Brancos, lhe prediz que os Brancos serão exilados
de Florença e, depois, derrotados em Campopiano.
—* NE: Roxo na fonte digitalizada. No original italiano, Mar Rosso
[che sopra al Mar Rosso] (Mar Vermelho) – Traduzido por Roxo para efeito
de métrica?
CANTO XXV
Vanni Fucci depois das negras predições desafia a Deus, pelo
que o centauro Caco, todo coberto de serpentes, lhe corre atrás.
Dante reconhece entre os danados alguns florentinos que, em Florença,
desempenharam funções importantes, aproveitando-se dos dinheiros
públicos e descreve suas transformações de homens em
serpentes e vice-versa.
ASSIM dizia o roubador e, alçando Ambas as mãos, que figuravam
figas: 3 “Toma, ó Deus” exclamou “o que eu te mando”.
Serpes me foram desde então amigas: Porque logo uma ao colo se enroscava,
6 Como a dizer: — “Não quero que prossigas!” Tolhendo-lhe
outra os braços, se enlaçava Diante sobre o peito, e o movimento
9 Com rebatido vínculo atalhava.
Ah! Pistóia! ah! Pistóia! o incendimento Teu decreto, extinguido
nome impuro, 12 Pois dás da extirpe tua ao vício aumento! Tão
soberbo não vi no abismo escuro, Contra Deus outro esp’rito;
nem o ousado,
15 Que de Tebas caiu morto do muro.
Sem mais dizer fugira o condenado.
Eis rábido centauro vi correndo 18 A gritar: — “onde está
o celerado?” Nem tem Marema de répteis horrendo Bando igual ao
que o dorso carregava 21 Té onde a humana forma está-se vendo.
Na espádua, abaixo da cerviz pousava, As asas estendendo, atroce drago,
24 Que fogo a quanto encontra arrevessava.
“É Caco” — o Mestre diz — “que a imane
estrago Afeito do Aventino se aprazia, 27 Sob as penhas, de sangue em fazer
lago.
“Dos seus irmãos não segue a companhia, Por haver depredado,
fraudulento, 30 Armentio, que próximo pascia.
“Tiveram fim seus crimes: golpes cento Sobre ele desfechou de Alcide
a clava: 33 Aos dez perdera já a vida o alento”. — Foi-se
o centauro enquanto assim falava.
Abaixo eis três espíritos chegando, 36 Nos quais nenhum de nós
inda atentava,
“Quem sois?” — romperam súbito bradando.
A Narração então suspende o Guia; 39 E só deles
curamos, escutando.
Nenhum dessa companha eu conhecia; Mas então, como às vezes
acontece, 42 Um, chamando por outro, assim dizia: “Onde é Cianfa,
que assim desaparece?” Dedo nos lábios fiz nesse momento 45 A
Virgílio sinal, por que atendesse.
Em crer o que eu contar se fores lento, Não há de ser, leitor,
para estranhado; 48 Quase o que eu vi descrê meu pensamento.
Quando eu dos três a vista era engolfado, Sobre seis pés se
via uma serpente 51 Contra um deles e o tem todo enlaçado.
Abraçam-lhe os do meio rijamente O ventre; aos braços aos de
cima rendem, 54 Ambas as faces morde-lhe furente.
Os de baixo nas coxas já se estendem, Interpondo-se a cauda, que,
subindo 57 Por detrás, voltas dá que os rins lhe prendem.
Hera, de árvores os ramos recingindo.
Não os enleia tanto, como a fera
60 Alheios membros ao seu corpo unindo.
Fundiram-se depois, de quente cera Com feitos; travando as suas cores, 63
Um nem outro parece o que antes era: Como em papel, do fogo ante os ardores
Procede escura cor; inda não sendo 66 Negro, vão fenecendo os
seus albores.
Os dois, a maravilha percebendo, Gritavam-lhe: — “Ai! Agnel,
quanto hás mudado! 69 Um já não és mas dois ser
não podendo!” Numa cabeça as duas se hão tornado;
Confundidos estavam dois semblantes 72 Num rosto, em que se haviam misturado.
São dois os braços, que eram quatro de antes, Foram coxas e
pernas, ventre e peito 75 Membros, que nunca hão tido semelhantes.
Perdeu-se assim todo o primeiro aspeito; Seres dois e nenhum nessa figura
78 Se via; e o montro foi-se a passo estreito.
Quando o fervor canicular se apura, Cruza o lagarto, como o raio, a estrada,
81 E uma mouta deixando, outra procura.
Tal menor serpe, lívida, inflamada.
Negrejando, qual bago de pimenta, 84 Aos outros dois se arroja acelerada.
E na parte, por onde se alimenta Primeiro a vida nossa, um dos dois fere
87 E ante ele tomba em queda violenta.
Olha o ferido, mas nem voz profere; E sobre os pés imóvel bocejava,
90 Como quem sono prenda ou febre onere.
Fitava olhos na serpe, e esta o encarava; A chaga de um eu via, do outro
a boca 93 Fumegar; e o seu fumo se encontrava.
Emudeça Lucano, quando toca Em Sabelo infeliz mais em Nascídio.
96 Escute: mor portento ora se evoca.
De Cadmo e Aretusa cale Ovídio: Se fonte a esta, àquela fez
serpente, 99 Não o invejo: aqui há pior excídio, Não
converteu dois seres frente a frente, Tanto que permutasse formas duas 102
Sua própria matéria de repente.
Desta sorte compõem-se as partes suas: A cauda à serpe fende-se
em forquilha,
105 Cerra o ferido em uma as plantas nuas.
Tal prisão coxas, pernas envencilha Que em breve nem vestígio
há de juntura, 108 Sinal, ou numa ou noutra, de partilha.
Fendida a cauda assume essa figura Que perde o homem; numa é tão
macia 111 A pele, quanto noutro fez-se dura.
Entrar os braços nas axilas via; Tanto estendia os curtos pés
a fera, 114 Quanto o outro os seus braços encolhia.
Os pés o drago extremos retorcera, Na parte, que se esconde, se mudando,
117 Que em duas no mesquinho se fendera.
Enquanto o fumo os dois ia velando De nova cor e a serpe o pêlo empresta,
120 Que em todo perde o pecador nefando, Ergue-se um, cai o outro e no chão
resta, Os ímpios olhos sem torcer, que viram 123 Dos gestos seus a
conversão funesta.
Ao que era em pé às frontes lhe subiram Do rosto as sobras:
cada face afeita 126 Uma orelha, de duas, que saíram.
Quanto de mais ficara então se ajeita, O nariz conformando-lhe na
cara 129 E de lábios lhe ornando a boca estreita, A beiça o
que jazia dilatara; Qual caramujo, que as antenas cerra, 132 À cabeça
as orelhas retirara.
A língua unida e no falar não perra Partiu-se, enquanto a do
outro, forquilhada, 135 Uniu-se; o fumo desde então se encerra.
Essa alma, que em réptil era mudada, Pelo vale arremete sibilando,
138 Falando, a outra escarra e a segue irada.
Depois, seu novo dorso lhe voltando, Disse à terceira sombra: “Corra
o Buoso, 141 Como eu, por esta senda rastejando”.
Assim vi no antro sétimo espantoso Mútuas transformações:
tanta estranheza 144 Desculpe o canto rude e descuidoso.
Posto empanar dos olhos a clareza E entrar o assombro no ânimo eu sentisse,
147 Não fugiram com tanta sutileza, Nem tão prestes que eu bem
não discernisse Puccio Sciancato, que dos três somente
Fora o que transmudado se não visse, 151 Deu-te o outro, Gavili, dor
pungente.
14. Nem o ousado etc., Capaneu, V. Inf. XIV. — 25. Caco, ladrão,
ao roubar o rebanho de Hércules, para despistar, puxou as ovelhas pela
cauda. — 43. Cianfa dei Donati, ladrão florentino que veremos
transformado em serpente. — 68. Agnel, Agnello Brunelleschi, ladrão
florentino. — 95. Sabelo e Nascidio, personagens dos “Farsálias”
de Lucano que, mordidos por cobras, mudam de aspecto. — 97. Cádmio
e Aretusa, personagens das “Metamorfoses” de Ovídio que
se transformam o primeiro em serpente e o segundo numa fonte. — 149.
Puccio Scianeato, ladrão florentino.
CANTO XXVI
Chegando os Poetas ao oitavo compartimento, distinguem infinitas chamas,
dentro das quais são punidos os maus conselheiros. Numa chama bipartida
estão Diômedes e Ulisses.
Este último, a pedido de Dante, narra a sua última navegação,
na qual perdeu a vida com os seus companheiros.
FOLGA, ó Florença! A fama tens tão grande, Que asas
bates por terra e mar, vaidosa! 3 Até no inferno o nome teu se expande!
Entre os ladrões, ó cousa vergonhosa! Principais cinco achei,
que em ti nasceram: 6 Serás por honra tal, vangloriosa? Se os veros
sonhos por manhã se geram, Em breve hás de sentir o que os de
Prato, 9 Quanto mais outros, por teu dano esperam.
Presto que venha, será tarde o fato; Se o mal tem de ferir, fira apressado:
12 Mais velho me há de ser mais grave e ingrato.
Partimos: do rochedo alcantilado Os degraus, em que havíamos descido,
15 Sobe o Mestre e por ele eu fui levado.
Em nosso ermo caminho e desabrido Prosseguimos por entre agras fraguras,
18 Pelas mãos sendo o pé favorecido.
Inda nalma exacerbam-se amarguras, Do que hei visto lembranças avivando;
21 E, quanto posso, o coração nas puras Veredas da virtude vou
guiando, Por que o bem, por bom astro ou Deus doado, 24 Eu próprio
não converta em mal nefando.
O rústico, no outeiro reclinado, Na estação, em que
o sol o mundo aclara, 27 Mais lhe mostrando o seu semblante amado, Já
quando a mosca o sucessor depara, Pririlampos não vê tão
numerosos 30 No vale, onde vindima, ou ceifa ou ara, Quando, no fosso oitavo,
os temerosos Fogos, que avisto, dos que, ao cimo alçado, 33 Fito no
fundo os olhos curiosos.
Como aquele que de ursos foi vingado, Quando voou de Elia o carro ardente,
36 Ao céu por frisões ígneos transportado, Seguiu c’a
vista o lume, que somente
Dos ares na extensão aparecia, 39 Qual nuvens se elevando velozmente;
Assim naquele abismo se agitando As flamas via; em cada qual estava 42 Uma
alma, em seus fulgores se ocultando.
Para ver, lá da ponte, me inclinava: Se amparado da rocha eu não
stivesse, 45 Tombara ao fundo dessa hiante cava.
O Mestre, ao ver que a mente se embevece, “Em cada fogo” —
diz-me — “um condenado, 48 Como em hábito, envolto, arde
e padece”.
“Sou, te ouvindo” — tornei — “certificado Do
que era, há pouco, em mim simples suspeita.
51 Pretendia inquirir, maravilhado, Que significa o fogo, que endireita A
nós, e se partindo, iguala a pira, 54 Para imigos irmãos outrora
feita”.
— “Estão lá dentro dessa flama dira Diômedes
e Ulisses: em castigo 57 Sócios são, como outrora hão
sido em ira.
“Lá dentro geme o pérfido inimigo, Inventor do cavalo,
que foi porta, 60 Por onde a Roma veio o início antigo;
“Chora-se a fraude, que Deidamia morta, Ainda exprobra a Aquiles, ressentida;
63 Pelo Paládio a pena se suporta”. “Se à labareda,
ó Mestre, é permitida A fala” — eu disse —
“te suplico e rogo 66 Com instância, mil vezes repetida, “Aguardar
me concedas esse fogo, Que, bipartido para nós caminha. 69 Vês
meu anelo: ah! dá-lhe o desafogo!” “Merece toda a complacência
minha Teu rogo: eu de bom grado o atendo e aceito. 72 Mas cala-te; que hás
de ser contente asinha. “Falar me deixa; sei qual teu conceito, Talvez
que desses Gregos na alma esquiva 75 Produza o teu dizer ingrato efeito”.
Propínqua estando a nós a flama viva, E, asado ao Mestre, parecendo
o ensejo, 78 Nesta linguagem disse persuasiva: “Ó vós,
que nesse fogo eu juntos vejo, Se por serviços meus, quando vivia,
81 Revelei de aprazer-vos o desejo, “Nos sonoros versos que escrevia,
Detende-vos: benévolo um nos diga 84 Onde viu fenecer o extremo dia”.
A parte superior da flama antiga A tremular começa murmurando, 87 Como
a que o vento lhe assoprando instiga. E a um lado e a outro o cimo meneando,
Como se língua fora, que falasse, 90 Estas vozes profere, e diz-nos:
“Quando “De Circe a encantos me esquivei fugace, Em que um ano
passei junto a Gaeta, 93 Antes que assim Enéias a chamasse, “A
saudade do filho, a mui dileta Velhice de meu pai, de alta consorte 96 Santo
amor, em que ardia sempre inquieta, “Não dominaram esse anelo
forte Que me impulsava a ser do mundo esperto, 99 Das manhas das nações,
da humana sorte. “Lancei-me às vagas do alto mar aberto; Sobre
um só lenho me seguiu companha 102 De poucos, mas de afouto peito e
certo. “As ondas perlustrando, hei visto a Espanha, Marrocos, logo a
ínsula dos Sardos 105 E as outras que o cerúleo pego banha.
“Já da velhice nos sentidos tardos, Alfim chegamos ao famoso
estreito, 108 Onde Alcides aos nautas pôs resguardos, “Que devem
respeitar por seu proveito. Deixei Septa, que jaz ao esquerdo lado, 111 E
Sevilha, que ao lado está direito. “Perigos mil vencendo e avesso
fado” Lhes disse — “irmãos, chegastes ao Ponente!
114 Da existência este resto, já minguado, “Razão
não seja, que vos tolha a mente De além do sol, tentar nobre
aventura, 117 E o mundo ver, que jaz órfão de gente. “Da
vossa raça refleti na altura! Viver quais brutos veda-o vossa origem!
120 De glória vos impele ambição pura! “Com tanto
esforço os ânimos se erigem, Falar me ouvindo assim, que ir por
diante 123 De entusiasmo sôfregos, exigem. “Já, com popa
ao Nascente flamejante, Asas os remos são na empresa ousada, 126 E
o lenho sempre à esquerda voga avante. “Já do outro polo
a noite levantada,
Via os astros brilhar: o nosso, entanto, 129 Na planície imergia-se
salgada: “Cinco vezes a luz do etéreo manto A lua difundira e
após minguara, 132 Depois que arrosto do oceano o espanto, “Quando
imensa montanha se depara: Envolta em cerração, longe aparece;
135 Na altiveza outra igual nunca avistara. “O prazer nosso em pranto
se esvaece: Da nova terra eis súbito irrompendo 138 Contra o lenho
um tufão medonho cresce. “Vezes três em voragens o torcendo,
A quarta a popa levantou-lhe ao alto, E a proa, ao querer de outrem, foi descendo”.
142 Cerrou-se o pego sobre nós de salto.
8. Prato, pequena cidade perto de Florença. — 56. Diômedes
e Ulisses, heróis gregos que combateram juntos no assédio de
Tróia. — 58-63. O Poeta lembra três façanhas astuciosas
de Ulisses: o cavalo de madeira para enganar os troianos; a descoberta de
Aquiles disfarçado em mulher entre os companheiros de Deidâmia;
e o roubo de uma estátua de Palas que tornava Tróia inexpugnável.
— 92. Gaeta, Enéias ao fundar a cidade de Gaeta deu-lhe o nome
de sua nutriz. — 107. Famoso estreito, Gibraltar, cujos montes (as colunas
de
Hércules) eram considerados como aviso para que não se passasse
além.
CANTO XXVII
Outro danado, entra a falar com Dante. É Guido de Montefeltro, o qual
pede notícias da Romanha sua terra natal. Conta, depois, que foi condenado
por causa de um mau conselho que, fiado na prévia absolvição,
dera ao papa Bonifácio VIII. A FLAMA já se erguia e estava quieta,
Não mais falando, e já se retirava 3 Com permissão do
meu gentil Poeta, Quando outra, que de perto caminhava, Pelos confusos sons,
que desprendia, 6 Olhar nos fez seu cimo, que oscilava. Como o sículo
touro, que mugia A vez primeira, o pranto ressoando 9 Do inventor, que seu
prêmio recebia; Berrava pela voz do miserando, Na brônzea forma,
em dor tanto pungente, 12 Que parecia vivo estar penando: Assim se convertia
o som plangente De flama no rumor, lhe falecendo 15 Caminho, em que irrompesse
prontamente.
Mais se exalar pelo ápice em podendo Dar-lhe impulso por ter já
conseguido 18 Desse mesquinho a língua, se movendo, “Tu, a quem
me dirijo” — hemos ouvido — “Que, inda há pouco,
dizias em lombardo: 21 Podes ir, tens assaz já respondido. “Posto
em chegar um tanto eu fosse tardo, De ouvir-me não despraza-te a demora;
24 Bem vês, me não despraz: entanto eu ardo. “Se a este
abismo tenebroso agora Tombas saudoso dessa doce terra 27 Latina, onde hei
pecado tanto outrora, “Se os Romanhóis têm paz, dize-me,
se guerra, Pois eu fui lá dos montes, entre Urbino 30 E essa, origem
do Tibre, altiva serra”. Para escutar atento a fronte inclino. Eis,
tocando-me a um lado, diz meu Guia: 33 “Podes ora falar, que este é
Latino”. Eu, que já prestes a resposta havia, Tornei ao pecador
incontinente: 36 “Alma, que o fogo assim veste e crucia, “Tua
Romanha em guerra permanente Sempre é no coração dos
seus tiranos.
39 Porém nenhuma agora tem patente. “Hoje é Ravena o
que era, há longos anos, De Polenta a águia forte ali se aninha;
42 Com largas asas cobre à Cérvia os planos. “A terra,
que no tardo assédio tinha Pelo sangue francês sido inundada
45 Sob verde leão, sofre mesquinha. “Dos Mastins de Verruchio
a subjugada Gente os dentes cruéis inda sentia: 48 Morte a Montagna
deram desapiedada. “Em Lamone, em Santerno inda regia Do alvo ninho
o leão, se convertendo 51 De um pra outro partido cada dia. “A
cidade que o Sávio banha, sendo Entre o plaino e a montanha, em liberdade
54 Ou vive ou sob o jugo vai sofrendo. “Ora nos diz quem foste na verdade;
Condescendente sê, como hemos sido: 57 No mundo haja o teu nome longa
idade”. O fogo rumoreja e comovido De um lado a outro a ponta aguda
agita; 60 Depois emite a voz neste sentido:
“Se esta resposta minha fosse dita A quem do mundo à luz daqui
voltasse, 63 Queda ficara a minha língua aflita. “Mas como é
certo que jamais tornasse Quem no inferno caiu, se não me engano, 66
De falar não hei medo, que embarace, “Homem de armas, depois
fui Franciscano, Crendo pelo cordão ser emendado; 69 Por crê-lo
certo, me esquivara ao dano, “Se o Papa (todo o mal seja-lhe dado!)
Não me volvesse à primitiva estrada. 72 Como e por que te fique
declarado. “Enquanto a humana forma era habitada Por mim, não
provei ser leão por feitos, 75 Mas raposa, por astúcia abalizada.
“Estratégia sutil, ardis perfeitos Tantos soube, que os âmbitos
da terra 78 Eram à fama de meu nome estreitos. “Da existência
na quadra, em que muito erra Quem, de surgir no porto esperançado,
81 Nem colhe os cabos nem as velas ferra, “Odiei quanto houvera mais
amado E humilhei-me confesso e arrependido…
84 E o perdão, ai de mim! fora alcançado… “Dos novos
Fariseus Príncipe infido, Em Latrão guerra crua declara: 87
Não contra Mouro, nem Judeu descrido, “Contra cristãos
as iras ateara; Nenhum traidor contra Acre combatera 90 Ou do Soldão
na terra traficara. “Sacras ordens em si não considera, Nem cargo
excelso, em mim o da humildade 93 Cordão, que os penitentes seus macera.
“Como foi de Sirati à soledade Constantino a Silvestre pedir
cura 96 Da lepra: assim também à enfermidade “De seu febril
orgulho este procura Remédio em meu conselho. Escrupuloso 99 Calei-me:
de ébrio vi nele a loucura. “Fala — insistiu — não
sejas temeroso! Absolto és desde já, se Palestrino 102 A vencer
me ensinares ardiloso. “Eu abro e fecho o céu: poder divino As
duas chaves têm, a que há negado 105 O meu antecessor preço
condi’no.
“Já destas razões graves abalado, Pior partido no silêncio
vendo, 108 Lhe tornei: — Padre Santo, se o pecado, “Em que ora
vou cair, stás-me absolvendo, Darás ao sólio teu glória
e conforto 111 Prometendo demais, pouco fazendo. “Francisco me acudiu,
quando fui morto; Mas clamou anjo negro apressurado: 114 — Não
mo tomes; assim me causas torto! “Lugar foi-lhe entre os meus assinalado:
Dês que há dado o conselho fementido, 117 Ficou pelos cabelos
agarrado. “Perdão só tem quem geme arrependido; Pecado
à penitência não se amanha, 120 Não pode aquele
andar a esta unido. “Ai! qual foi meu pavor, quando, com sanha Empolgando-me,
disse: — Creste acaso 123 Que me falta de lógico arte e manha?
“A Minos me arrastou, que sem mais prazo, Da cauda em voltas oito o
dorso enreda, 126 Raivoso morde-a e diz: — É neste caso “Que
aos maus prisão se dá na labareda. Assim onde me vês,
fiquei perdido,
129 Vou chorando, em tais vestes, minha queda”. Tendo, pois, desta
sorte concluído, Aquela flama se partiu gemendo 132 E agitando o seu
vórtice estorcido. Eu e Virgílio, então, seguido havendo
Pelo rochedo, ao arco nós subimos, Que o nono fosso cobre, onde sofrendo
136 Os que cizânia semearam vimos.
7. Sículo touro, o touro de bronze de que Falarides, tirano de Agrigento,
se servia para queimar os seus inimigos. — 29. Fui lá dos montes
etc., Guido de Montefeltro, que, depois de valoroso guerreiro, fez-se franciscano.
— 41. De Polenta a águia forte etc., a família de Polenta,
que tinha uma águia por emblema, dominou Ravena e Cérvia. —
46. Mastinos de Verruchio, Malatesta e Malatestino de Verruchio, senhores
de Rímini. — 48. Montagna, prisioneiro guelfo que Malatestino
mandou matar. — 49 Lamone e Santerno, as cidades de Faenza e Imola.
— 52. A cidade etc. Cesena. — 70. O papa, Bonifácio VIII.
— 86. Em Latrão etc., os Colonenses moravam perto da igreja de
S. João em Latrão. — 89. Contra Acre, que os Sarracenos
tomaram aos cristãos em 1291. — 94. Como foi de Sirati etc.,
conforme uma lenda Constantino foi curado da lepra por São Silvestre,
que morava numa gruta do monte Sirati. — 102. Palestrina, onde os Colonenses
se tinham retirado. — 105. O meu antecessor, Celestino V.
CANTO XXVIII
No nono compartimento os Poetas encontram os semeadores de cismas e escândalos
civis e religiosos. Dante vê Maomé, que o encarrega de uma embaixada
para o herege rei Dolcino; fala também com outros danados. DIZER o
sangue e as chagas espantosas, Que eu vi neste lugar, quem poderia, 3 Em livre
prosa e em vezes numerosas? Nenhuma língua, certo, bastaria; Fraca
a palavra, inábil nossa mente 6 Para horror tanto compreender seria.
Quando junta estivesse toda gente, Que lá da Apúlia na infelice
terra, 9 Perdera o sangue seu na luta ingente Dos romanos por mãos;
e em crua guerra A que tantos de anéis deixou vencida, 12 Como refere
Lívio, que não erra; E a que fora por golpes abatida, Quando
a Roberto Guiscardo resistia; 15 E a que tem sua ossada inda espargida
De Ceperan no campo, onde traía Cada Apulhês; e que no Tagliacozzo
18 O Velho Alard sem combater vencia: Das feridas o aspecto lastimoso Não
fora, qual no fosso nono imundo 21 Apresentava o bando criminoso. Qual tonel,
que aduelas perde ao fundo, Estava um pecador, que roto eu via 24 Das fauces
ao lugar que é menos mundo. As entranhas pendiam-lhe; trazia Patentes
os pulmões e o saco feio, 27 Onde o alimento de feição
varia. A contemplá-lo estava de horror cheio, Eis me encara e me diz,
abrindo o peito: 30 “Vê como eu tenho lacerado o seio! “Mafoma
sou, quase pedaços feito; Antecede-me Ali, que se lamenta: 33 Do mento
à testa o rosto lhe é desfeito. “Todos, que a dor aqui
tanto atormenta, De escândalos, de cismas inventores, 36 Pendidos têm,
qual vês, pena cruenta. “Demônio deixo atrás que
os pecadores Aos fios passa de cruel espada.
39 Da multidão nenhum aos seus furores “No giro escapa da afrontosa
estrada. Cerrar-se em todo cada golpe horrendo 42 Antes que torne a olhar-lhe
a face irada. “Mas quem és, que, na rocha te detendo, Estás
dessa arte a dilatar a pena, 45 Que Minos te aplicou, teus crimes vendo?”
— “Não é morto; sentença o não condena”
— Torna o Mestre — “não vem por seu castigo, 48 Mas,
para ter experiência plena. “Descendo ao mais profundo vai comigo,
Que morto sou, dos círculos temidos: 51 Tão certo é como
falo ora contigo”. Ouvindo mais de cento dos punidos, De espanto a me
encarar se demoraram, 54 Dos seus próprios tormentos esquecidos. —
“A Frei Dolcino diz, pois não findaram Teus dias e hás
de ao sol tornar em breve, 57 Se desejos de ver-me o não tomaram, “Que
se aperceba; pois, cercando-o, a neve Dará triunfo à gente de
Novara, 60 A quem vencê-lo assim há de ser leve”.
Para partir um pé Mafoma alçara Ao tempo, em que palavras tais
dizia: 63 Baixou-o e foi-se, apenas rematara. De guela golpeada outro acorria;
Té as celhas nariz tendo truncado, 66 Uma orelha somente possuía.
Como os mais, contemplando-me pasmado, Aos mais se antecipou e, escancarando
69 O canal, que de sangue era inundado, “Ó tu” —
falou-me — “que não stás penando, Que outrora hei
visto em região latina, 72 Se eu não erro, aparências
aceitando, “Recorda-te de Pier de Medicina Se tornar-te for dado ao
belo plano, 75 Que de Vercello a Marcabó se inclina. “E aos dois
nobres varões dize de Fano, Misser Angiolello e Misser Guido, 78 Se
o futuro antevendo, eu não me engano, “Que do baixel, que os
haja conduzido, De Católica ao pé, ao mar lançados 81
Serão por ordem de um tirano infido. “Por Gregos, por piratas
perpetrados, Entre Chipre e Maiorca ao infame feito
84 Não viu Netuno crimes igualados. “O traidor, que de um olho
tem defeito, Dessa terra opressor, que um companheiro 87 Meu tivera em não
vê-la mor proveito, “Irão a seu convite prazenteiro Para
acordo; mas votos de Foscara 90 Não fará por temer vento ponteiro”.
“Revela-me” tornei-lhe — “e me declara, Desse favor,
que deprecaste, em troca, 93 Quem de ver essa terra se pesara”. As mãos
de um pecador alçando à boca, Escancarou-a e disse-me gritando:
96 — “É este; a voz, porém, se lhe sufoca. “Exulado,
ele foi quem, dissipando Hesitações de César, lhe afirmava
99 Que a ocasião perdia demorando”. Oh! quão pávido
Cúrio se mostrava, Tendo cortada a língua na garganta, 102 Que
outrora tanta audácia aconselhava! Dos decepados braços alevanta
Outro os cotos ao ar caliginoso: 105 Banha-lhe o sangue a face, que me espanta.
Gritou: — “Memora Mosca desditoso! Fui quem disse: — O
seu fim tem cousa feita! 108 Fatal dito, à Toscana, ai! bem danoso!”
“E à tua raça, que à morte foi sujeita!”
Atalhei. Sobre a dor, dor se acendendo 111 Em desesp’rança se
partiu desfeita. Aquela multidão stava atendendo, Cousa assombrosa
eis vejo, que inda hesito 114 Em narrar, provas outras eu não tendo.
Da consciência já me alenta o grito, Sócia fiel, que o
homem torna forte, 117 Sob o arnês da verdade, sempre invicto. Eu via,
e cuido ver na mesma sorte Apropinquar-se um corpo sem cabeça, 120
Por entre os outros da infeliz coorte, Caminha, alçando-a pela coma
espessa, Da mão pendente a modo de lanterna: 123 Gemendo, os olhos
seus nos endereça. Servia ele a si próprio de luzerna, Eram
duas em um, era um em duas: 126 Como ser pode, sabe o que governa. Chegado
ao pé da ponte, das mãos suas Um ao alto a cabeça levantava
129 Para lhe ouvirmos as palavras cruas. “Vê meu duro castigo!”
— assim falava — “Tu, que os mortos visitas, sendo em vida:
132 Outro já viste igual ao que me agrava? “Eu sou — faz
minha história conhecida, Voltando à luz — Bertran de
Born, que há dado 135 Ao jovem Rei consulta, em mal tecida. “Pai
e filho inimigos hei tornado: As iras de Absalão mais não movera.
138 Contra Davi Aquitofel malvado. “Laços tais como eu, pérfido,
rompera, Meu cérebro assim levo desunido Desse princípio, que
no corpo impera: 142 Por lei sou, pois, de talião punido”.
14. Roberto Guiscardo, combatendo contra os Sarracenos, conquistou o reino
de Nápoles. — 15. De Ceperan, onde Manfredo foi derrotado por
Carlos d’Anjou. — 17. Tagliacozzo, onde morreu Corradino. —
31. Mafoma, Maomé, fundador do Islamismo. — 32. Ali, parente
de Maomé. — 55. Frei Dulcino, cismático, pertencente à
seita dos Irmãos Apostólicos. — 73. Pier de Medicina,
por dinheiro fomentou a discórdia entre os senhores da Romanha. —
76-90. E aos dois etc., Pier de Medicina prediz a morte violenta de Messer
Guido del Cassero e de Messer Angiolello de Carignano. — 106. Mosca
dei Lamberti, induziu à matança de Buondelmonte dei Buondelmonti,
dando inicio à luta em Florença entre guelfos e gibelinos. —
134.
Bertran de Born, poeta e guerreiro francês, infiltrou a discórdia
entre o rei Henrique II da Inglaterra e seu filho. — 137-38. As iras
de Absalão, Arquitofel induziu Absalão a rebelar-se contra o
seu pai, o rei Davi.
CANTO XXIX
Chegando ao décimo compartimento, os Poetas ouvem os lamentações
dos falsários, que aí são punidos com úlceras
fétidas e enfermidades nauseantes. Em primeiro lugar estão os
alquimistas, entre os quais Griffolino e Capocchio. MEUS olhos tanto inebriado
haviam A turba enorme e o seu cruel tormento, 3 Que alívio em pranto
procurar queriam. “Por que assim” — diz Virgílio
— “estás atento? Por que a vista dos tristes mutilados
6 Prende-te ainda o duro sofrimento? “Tal não fizeste em antros
já passados. Estão, se os resenhar é tenção
tua, 9 Por milhas vinte e duas derramados. “Já sob os nossos
pés evolve a lua; É-nos escasso o tempo concedido: 12 O que
ainda hás de ver detença exclua”. “Talvez se houveras”
— torno — “conseguido Ver o motivo, por que eu tanto olhava,
15 Mais demora tivesses permitido”.
Já se partia; e eu logo caminhava, Enquanto assim falava-lhe em resposta,
18 Acrescentando: “Lá, naquela cava, “Onde a vista cuidosa
estava posta, Da stirpe minha um spírito carpia 21 Por culpa, a que
mor pena está disposta”. “Não te confranjas mais”
— responde o Guia — “Nos males, que padece, cogitando. 24
De aí cuida; estar nesse antro merecia. “Ao pé da ponte
o vi, que, te indicando, O dedo alçava em cominante gesto: 27 Geri
del Bello estavam-no chamando. “Eras absorto no semblante mesto Daquele
que senhor foi de Altaforte: 30 Quando atentaste, se ausentara presto”.
“Ó Mestre” — eu disse — “a violenta morte
Que ainda não punia justa vingança 33 De quem naquela afronta
era consorte, “Deu causa a usar, ao ver-me, essa esquivança Talvez
e ao seu silêncio: assim pensando 36 Maior piedade do seu mal me alcança”.
Ao rochedo chegamos praticando, Donde outro vai divisa-se: o seu fundo
39 Todo se vira, a luz não lhe faltando. Subidos do final claustro
profundo De Malebolge à ponte, onde os conversos 42 Já distinguia
do recinto imundo. Lamentos e ais feriram-me diversos; De mágua tanta
o peito assetearam, 45 Que os ouvidos tapei aos sons adversos. Tão
penetrante dor denunciaram, Como se da Marena e da Sardenha 48 Enfermos no
verão se incorporaram. De outros à turba, que remédio
venha Nos hospitais buscar de Valdichiana. 51 Odor surdia, igual ao que já
tenha Corrupto corpo, e se gangrena o dana. Baixando à sestra até
a riva extrema 54 Mais claramente da caverna insana Então vimos o fundo,
onde a Suprema Infalível Justiça, a raça ímpia
57 Dos falsários em pena infinda prema. “De Egina quando o povo
adoecia, E o ar maligno aos animais a morte 60 Trazendo, os próprios
vermes extinguia,
Deserta sendo a terra de tal sorte Que às formigas (poetas o afirmavam)
63 Deveu a antiga gente o alento forte: Cenas tais mais tristeza não
causavam Do que almas ver, que essa prisão sombria 66 Em rumas várias
lânguidas juncavam. Qual sobre a espalda de outro se estendia, Qual
sobre o ventre seu, qual se arrastando 69 Na dolorosa estrada se estorcia.
Silentes, passo a passo caminhando, Vemos, ouvimos míseros prostrados,
72 Em vão para se erguerem se esforçando. Sentados dois, um
no outro recostados, Quais torteiras que juntas se aquecessem, 75 Vi do alto
aos pés de pústulas manchados Os criados, que os amos seus apressem,
Ou que estejam velando de mau grado 78 Almofaça não vi que assim
movessem, Como cada um se agita acelerado, Com implacáveis unhas se
mordendo, 81 De raivoso prurido atormentado. Iam da pele as crostas abatendo,
Como a faca do sargo arranca a escama
84 Ou de peixe, na casca mais horrendo. “Ó tu” contra
um dos dois Virgílio exclama, Que os dedos teus convertes em tenazes
87 Por desmalhar do corpo a extrema trama, “Diz-me se entre estas almas
contumazes Existe algum Latino; eternamente 90 Sejam-te as unhas de servir
capazes!” “Latinos somos” — torna diligente Um dos
dois padecentes lacrimoso, 93 “Mas tu quem és? Em declarar consente”.
— “Eu sou que” — diz Virgílio ao desditoso
“De círc’lo em círc’lo este homem vivo guia
96 Por lhe mostrar o abismo pavoroso”. Já cessa o mútuo
arrimo, que os unia: A mim volveu-se cada qual tremendo; 99 Turba imitou-os,
que em redor ouvia. Acercou-se-me o Guia assim dizendo: “Quanto quiseres
tu agora dize”. 102 Eu logo comecei lhe obedecendo: “Nunca a memória
vossa finalize! Na primeira mansão da humana raça! 105 Mas por
sóis numerosos se abalize!
“Quem sois? E donde? De o dizer a graça Fazei: a vossa pena,
imunda é certo, 108 De responder-nos pejo vos não faça.
“De Arezzo fui” disse um “de Siena Alberto Morte me deu
nas chamas, truculento, 111 Por feito a que não fora o inferno aberto.
“Dissera, em gracejar só pondo o intento. “Alçar-me
aos ares posso velozmente”. 114 Essa arte, por ter curto o entendimento,
“Houve ele de saber desejo ardente. Como o não fiz um Dédalo,
à fogueira 117 Mandou-me quem seu pai foi certamente. “Mas das
cavas caí na derradeira Por sentença de Minos rigorosa: 120
Foi meu crime a alquimia traiçoeira”. E ao Vate eu disse: “Nunca
tão vaidosa Gente, pôde alguém ver como a de Siena? 123
Nem a de França há sido tão sestrosa!” O segundo
leproso então me acena Dizendo: “Salvo Stricca, homem poupado,
126 Que todo o excesso em desprender condena! “Salvo Nicoló,
aquele que inventado Do cravo tinha a rica especiaria,
129 O seu uso deixando enraizado! “Salvo Caccia de Ascian e a companhia,
Com quem vinhas e bosques esbanjava 132 E o Abbagliato as chanças esgrimia!
“Para que saibas quem desta arte agrava Contra os de Siena o teu severo
asserto, 135 No meu triste semblante os olhos crava. “De que ora vês
Capocchio já estás certo, Que alquimista, os metais falsificara,
Sabes como eu, se em recordar acerto, 139 Natura, hábil bugio, arremedara”.
27. Geri del Bello, primo do pai de Dante, morto a traição
por um da família Sachetti. — 58. Egina etc. Segundo Ovídio,
Egina, despovoada por pestilência, foi repovoada pelas formigas que
se transformaram em homens. — 109. De Arezzo etc., Griffolino de Arezzo,
alquimista, que foi mandado queimar por Alberto de Siena. — 125-32.
Salvo etc., por ironia — Strica, Nicoló Salimbene, Caccio de
Asciano e Bartolomeu dei Folcacchieri, alcunhado o Abbagliato foram todos
de Siena e conhecidos como dissipadores de dinheiro. — 136. Capocchio
de Siena, alquimista que foi queimado vivo.
CANTO XXX
No décimo compartimento são punidos outras espécies
de falsários. Os falsificadores de moedas, tornados hidrópicos,
são constantemente atormentados por furiosa sede; entre eles está
mestre Adão de Brescia, o qual narra que, à instigação
dos condes Guidi, falsificou o florim de Florença. Os que falaram falsamente
são perseguidos por febre ardentíssima. O canto termina com
uma altercação entre mestre Adão e o grego Sinon. Virgílio
repreende Dante pois este pára, escutando as injúrias que os
dois trocam entre si. QUANDO Juno, de Semele ciosa, Contra o sangue tebano
se inflamava, 3 Como o provou por vezes impiedosa, Tanta insânia Atamante
perturbava, Que a esposa ao ver, ao colo seu trazendo 6 Os filhos dois, que
a ele encaminhava, Gritou: “Redes tendamos! Já stou vendo Leoa
e leõzinhos da embosacada!” 9 Disse e, raivoso, os braços
estendendo De um, Learco, travava e de pancada Rodou-o e o percutiu em penedia.
12 Ao mar lançou-se a mãe com outro abraçada
Quando a fortuna a cinzas reduzia A pujança de Tróia, em tudo
altiva, 15 E com seu reino o morto rei jazia, Hécuba triste, mísera,
cativa, Depois de morta Polixena vira, 18 Do Polidoro seu em plaga esquiva,
Súbito quando o corpo descobrira Uivou qual cão, de angústia
possuída. 21 Tanto a pungente dor nalma a ferira! Mas em Tebas ou Tróia
destruída Homens ou feras nunca revelaram 24 Raiva, em tantos extremos
desmedida, Como almas duas lívidas, que entraram Nuas correndo, os
dentes amostrando, 27 Quais cerdos, que à pocilga se esquivaram. Uma
alcançou Capocchio e, lhe cravando No colo as presas, rábida,
arrastava 30 Sobre o ventre na rocha o miserando. Mas o de Arezzo, que tremendo
estava “É Gianni Schicchi” — disse — esse raivoso:
33 De outros a pena o seu furor agrava!” “Possas livrar-te do
outro esp’rito iroso!” Falei — “Se não te causa
assim fadiga,
36 Diz quem seja, antes de ir-se o furioso”. “Aquele é”
— respondeu — “uma alma antiga; É Mirra infame, que
paixão impia 39 Instigou ser do pai a sua amiga. “Para o seu
crime consumar fingia De outra pessoa as formas e o semblante. 42 Igual ardil
usara Schicchi um dia: “Para em prêmio alcançar égua
farfante: Contrafez Buoso morto e ao testamento 45 Falso a norma legal deu,
que é prestante”. Aos dois raivosos estivera atento Até
que de ante os olhos se apartaram; 48 De outros volvi-me ao cru padecimento.
Num do alaúde as formas se notaram Se as pernas lhe tivessem cerceado
51 Na parte, em que do tronco se separam. Da grave hidropisia molestado, Que
tanto o humor vicia e tanto ofende, 54 Que o rosto estreita e faz o ventre
inchado, A boca ter cerrada em vão pretende, Qual hético de
sede ressequido. 57 A quem um lábio se alça e o outro pende.
“Ó vós, que ao negro abismo haveis descido (Não
sei por que razão) de pena isentos, 60 Olhai” — disse —
“prestando atento ouvido, “De mestre Adam miséria e sofrimentos
Tive abastança; agora, ai! desejando 63 De água uma gota, passo
mil tormentos, “Dos ribeiros, que ao Arno, murmurando Do Casentino lá
na verde encosta 66 Se vão, por moles álveos inclinando, “Na
mente a imagem sempre tenho posta. Não em vão: mais me seca
e me fustiga 69 Que o mal, de que esta face é descomposta. “Quer
Justiça, que austera me castiga, Que o teatro, onde hei crimes cometido,
72 Mais me acendendo anelos, me persiga. “Lá demora Romena, onde
hei fingido Em falso cunho a imagem do Batista; 75 Assim meu corpo o fogo
há consumido. “Se a sombra achasse aqui, se aqui já exista,
De Guido ou de Alexandre ou seu germano! 78 Fonte-Branda esquecera ante essa
vista. “Mas um já veio, se induzir-me a engano Os raivosos, que
giram, não quiseram.
81 Que importa? Para andar em vão me afano. “Se os meus pés
transportar-me inda puderam, De um sec’lo ao cabo, espaço de
uma linha, 84 Já postos a caminho se moveram, “A fim de o ver
na multidão mesquinha Do val, que milhas onze em torno amplia, 87 Com
largura, que de uma se avizinha. “Star lhes devo em tão triste
companhia: Florins cunhei, aos três obedecendo, 90 Nos quais quilates
três de liga havia”. “Quem são” — lhe
disse — os dois que ora estou vendo? Quais no inverno mãos úmidas
fumegam, 93 À destra tua próximos jazendo”. “Já
stavam quando vim: eles se entregam, Dês que desci, a quietação
completa; 96 E creio, assim a eternidade empregam. “Uma acusou José,
falsária abjeta, Outro é Sinon, de Tróia o Grego tredo:
99 Lançam por febre essa fumaça infecta”. Anojado um do
par, que estava quedo, Por ver em vozes tais afronta e ofensa, 102 À
pança o punho lhe vibrou sem medo:
Soou, qual de zabumba a pele tensa. O braço Mestre Adam lhe envia
à face 105 E assim lhe dá condi’na recompensa. “Inda
que” — disse — os membros meus enlace Moléstia, que
me tolhe o movimento, 108 Presteza a destra tem, com que rechace”. “Foste”
— o outro tornava — “mais que lento Quando forçado
ao fogo caminhavas. 111 Só presto eras no ofício fraudulento”.
“É certo; mas verdade não falavas” O hidrópico
diz — “quando exigiram 114 Em Tróia essa verdade, que ocultavas”.
“Se os lábios meus perjúrio proferiram, Tu falsaste moeda:
eu fiz um crime, 117 Aos teus nunca em demônio iguais se viram”.
“Do cavalo a façanha inda te oprime” — Responde o
que a barriga tinha inchada — 120 Sobre o teu nome infâmia o mundo
imprime”. “Arda em sede tua língua já gretada!”
Grita o Grego — “Hajas de água saniosa 123 O ventre impando,
a vista embaraçada!” “Escancaras a boca venenosa”
O moedeiro diz — “por mal somente; 126 Se sede eu tenho e a pança
volumosa “Ardes tu e a cabeça tens fervente. Por lamberes o espelho
de Narciso 129 A um aceno correras de repente”. Atento estava aos dois
mais do preciso, Eis Virgílio me fala: — “Oh! toma tento!
132 Quase que eu contra ti me encolerizo!” Iroso assim falar neste momento
O Mestre ouvindo, voltei-me corrido: 135 Ainda sinto rubor em pensamento.
Como quem sonha danos ter sofrido, Que em sonho espera que sonhando esteja
138 E anela que o que é já não tenha sido, A mente, sem
dizer, falar deseja. Desculpas aspirando à falta sua; 141 Stá
desculpada e cuida que o não seja. “Menos rubor lavara a culpa
tua” Disse o Mestre — “se houvera mor graveza: 144 Fique-te
a mente da tristeza nua. “E quando queira o acaso que à torpeza
De iguais debates se ofereça ensejo. De que eu steja ao teu lado faz
certeza,
148 Que é ter querendo ouvi-los, vil desejo”.
1-2. Juno etc., por ciúme de Semele, tebana, mãe de Baco, vingou-se
de toda a sua estirpe, tornando louco a Atamante, rei de Tebas, o qual matou
um dos filhos, e no entanto a mulher com outro filho se lançou ao mar.
— 16. Hécuba, viúva de Príamo, ao ver mortos todos
os seus filhos, pela dor foi transformada em cadela. — 32. Gianni Schicchi,
florentino, de acordo com o filho do morto, fingiu-se de Buoso Donati moribundo,
ditando o testamento. — 38. Mirra, filha de Cinira, rei de Chipre, apaixonou-se
pelo pai. — 61. Adam, de Brescia, falsificador de moedas. — 77.
Guido etc., dos condes Guidi, induziu mestre Adam a falsificar o dinheiro
de Florença. — 97. Falsária abjecta etc., mulher de Putifar,
que acusou injustamente a José. — 98. Sinon de Tróia,
que com as suas mentiras induziu os troianos a introduzirem na cidade o cavalo
de madeira.
CANTO XXXI
Dando as costas ao oitavo círculo, caminham os Poetas para o centro,
onde se abre o poço pelo qual se desce ao nono. Em torno do poço
estão os gigantes rebeldes, cujas figuras horrendas Dante descreve.
Um deles, Anteu, a pedido de Virgílio, toma nos braços os dois
poetas e suavemente os depõe sobre a orla do último reduto internal.
A LÍNGUA, que me havia vulnerado E a vergonha nas faces me acendera,
3 O bálsamo aplicava ao mal causado: Assim de Aquiles e seu pai fizera,
Dizem, outrora a lança portentosa: 6 Sarava o corpo, que cruel rompera.
Damos costas à estância desditosa, Sem proferir palavra atravessando
9 Sobre a borda, que em torno jaz fragosa. Noite não sendo e dia não
reinando, Pouco distante eu divisar podia, 12 Eis som de trompa escuto, retumbando
Tão alto, que o trovão transcenderia, Donde irrompera contra
a parte andava
15 E sôfrego a um só ponto olhos prendia. A de Orlando tão
forte não soava Na derrota fatal, que a santa empresa 18 De Carlos
Magno o desbarato dava. Já assim por diante: eis a grandeza De muitas
e altas torres me aparece. 21 “Qual é” — digo —
“essa vasta fortaleza?” “Pois de tão longe e em trevas
te apetece Julgar” — Virgílio diz — “um erro
agora 24 Imaginando estejas acontece. “Verás ali chegado, sem
demora, Quanto a distância a vista nos engana: 27 O passo acelerar convém
por ora”. Da mão travou-me e em voz suave e lhana O Mestre prosseguiu:
“Antes que avante 30 Passes, dessa ilusão te desengana. “O
que torre imaginas é gigante. Da cinta aos pés imergem-se no
poço, 33 E alçam bustos em torno ao espaço hiante”.
Quando o sol gasta o nevoeiro grosso, Pouco a pouco se mostra e é discernido
36 Quanto oculta o vapor ao olhar nosso:
Vendo assim por esse ar escurecido, Da borda mais e mais me apropinquando,
39 Fugia o erro, o horror tinha crescido. Como torres em roda se elevando,
Montereggion guarnecem de coroa: 42 Assim do poço a margem circundando,
Torreiam com metade da pessoa Os horríveis gigantes, que ameaça
45 Do céu ainda Jove, quando troa. Distingo a cara de um (e me transpassa
O medo), logo os braços, peitos e parte 48 Do ventre, que da borda
a altura passa. Bem fez a natureza, quando essa arte De tais monstros criar
há descurado, 51 De iguais agentes desarmando Marte. Se ainda a selva
e mar têm povoado Do elefante e baleia, sutilmente 54 Quem pensa justa
e sábia a tem julgado. Mal seria aos humanos permanente, Se perspicaz
engenho encaminhasse 57 Maligno instinto em robustez ingente. Larga e comprida,
pareceu-me a face, Qual de S. Pedro, em Roma, a brônzea pinha:
60 A proporção nas outras partes dá-se. O corpo, que
da borda acima vinha, Tanto ao ar elevava a grã figura, 63 Que três
Frisões, por lhe atingir a linha Da cerviz, não fariam tanta
altura, Porquanto eu esmava em trinta grande palmos 66 Do colo ao pescoço
a válida estatura. Rafael mai amècch zabi almos A pavorosa boca
assim bradava; 69 Não podia entoar mais doces salmos. Disse-lhe o Mestre:
“Ó alma bruta e brava! Tange a trompa, se queres lenitivo 72
À paixão, que te acende ardente lava. “A roda busca do
pescoço altivo O loro, a que se prende alma confusa! 75 Vê que
te cruza o vasto peito esquivo”. Depois a mim: “De quanto fez
se acusa, É Nemrod; por tomar estulta empresa 78 O mundo uma linguagem
só não usa. “Deixêmo-lo: falar-lhe é vã
despesa. Como idioma de outros não compreende, 81 A quem o escuta o
seu move estranheza”.
Vamos então caminho, que se estende À sestra. Outro, de besta
quase a tiro, 84 Está mais fero, o ar mais alto fende. Que mão
cativa o monstro, que admiro Dizer não sei: o seu direito braço
87 Ao dorso preso vi, e ao peito diro O outro, de grilhão no estreito
laço, Que com círculos cinco lhe cercava 90 Do enorme corpo
o descoberto espaço. “Esse réprobo” — diz
Virgílio — “ousava Medir forças com Jove soberano:
93 Eis o fruto do orgulho, que o danava! “Era Efialto: executou seu
plano, Quando aos Deuses gigantes aterraram. 96 Jamais os braços mover
pode o insano”. “Os meus olhos, ó Mestre, assaz folgaram,
De Briaréu se vissem desmarcado 99 As formas” vozes minhas lhe
tornaram. “Anteu verás”, — me diz — muito afamado:
Stá solto, fala e nos demora perto, 102 Há de ao fundo levar-nos
de bom grado. “Remoto esse outro fica, e tem por certo Que em grilhões
e estatura àquele iguala:
105 Mais fero em vulto, em mal é mais esperto”. Jamais um terremoto
a torre abala Em convulsões tão rápido, tão forte,
108 Como Efialto a mover-se. Eu já sem fala, Assombrado, cuidei ter
perto a morte; E de pavor sem dúvida expirara, 111 Se ele preso não
fosse, e de tal sorte. Presto ao lugar seguimos, onde pára Anteu: fora
a cabeça, em cinco braças 114 À borda sobreleva, o que
separa. “Tu, que no val feliz, aonde as graças E as palmas de
Cipião colheu da glória, 117 Quando Aníbal vexavam só
desgraças, “Mil leões apresaste por memória; Que,
aos irmãos se ajudaras na alta guerra, 120 Se crê triunfo registrasse
a história “Dos fortes filhos da fecunda Terra! Ao fundo transportar-nos
sê servido, 123 Onde ao Cocito o frio as águas cerra: “Te
hemos a Tifo e a Tício preferido. Dar pode este varão o que
mais se ama: 126 Curvando-te compraz ao seu pedido.
“No mundo pode restaurar-te a fama, Pois vive e ainda longa vida espera,
129 Salvo se a Graça antes do tempo o chama”. Falara o Mestre.
Anteu não considera: Toma-o logo nas mãos, que lesto of’rece
132 E a que sentira Alcide a força fera. Quando entre os dedos seus
Virgílio vê-se, Diz-me: “Faze-te prestes, que eu te abrace!”
13S Ao Mestre o meu querer pronto obedece. Quem Carisenda, em seu pendor olhasse,
Cuidara, ao passar nuvem, que iminente 138 Ruína ao lado oposto ameaçasse:
Tal Anteu parecia de repente Do corpo ao menear; quando o inclinava, 141 Estrada
eu preferia diferente. Mas de leve no fundo nos pousava, De Judas e de Lúcifer
assento. A postura deixando, que o dobrava, 145 Qual mastro empertigou-se
num momento.
4-6. Assim etc., a lança de Peleu e do seu filho Aquiles curava as
feridas que produzia. — 16-18. A de Orlando etc., a trompa de Orlando,
ferido em Roncisvalle foi ouvida a oito milhas de distância por Carlos
Magno. — 41. Montereggion, castelo do val
d’Elsa. — 63. Prisões, habitantes da Frísia, de
elevada estatura. — 67. Rafael, etc., palavras cujo significado é
ignorado [NE: No original: «Raphèl mai amècche zabi almi”].
— 77. Nemrod, que edificou a torre de Babel, da qual adveio a confusão
das línguas. — 94. Efialto, um dos gigantes que moveram guerra
aos deuses. — 98. Briareu, gigante com cem mãos. — 100.
Anteu, gigante que lutou com Hércules. — 124. Tifo e Tício,
outros gigantes. — 136. Carisenda, torre pendente de Bolonha.
CANTO XXXII
Os dois Poetas se encontram no círculo, em cujo pavimento de duríssimo
gelo estão presos os traidores. O círculo é dividido
em quatro partes; na Caina, de Caim, que matou o irmão, estão
os traidores do próprio sangue; na Antenora, de Antenor, troiano que
ajudou os Gregos a conquistar Tróia, os traidores da pátria
e do próprio partido; na Ptoloméia, de Ptolomeu, que traiu Pompeu,
os traidores dos amigos; na Judeca, de Judas, traidor de Jesus, os traidores
dos benfeitores e dos seus senhores. Dante fala com vários danados,
enquanto atravessam o gelo procedendo para o centro. SE usasse rimas ásperas,
rouquenhas, Próprias do poço lôbrego e tristonho, 3 Que
do inferno sustém as outras penhas, Melhor idéia do lugar medonho
Dera; mas tal vantagem me falece. 6 O meu conceito, pois, tímido exponho.
É árdua empresa, em que o ânimo esmorece O centro descrever
do mundo inteiro: 9 Para empenho infantil ser não parece. Das Musas
se ajudar poder fagueiro, Como a Anfião em Tebas o mostraram, 12 Fiel
serei dizendo e verdadeiro.
Ó malfadada turba, a quem tocaram Deste abismo os castigos, bruto
gado 15 Sendo, fados melhores te aguardaram. Descidos nós ao poço
negregado Das plantas muito abaixo do gigante, 18 O alto muro mirava-lhe espantado,
Quando ouvi: “Tem cuidado, ó caminhante! Não calques de
irmãos teus desventurados 21 As frontes”. Eu, voltando-me, adiante
E sob os pés, de um lago vi gelados Os planos tanto, que os dizer podia,
24 Não de água, de cristal, porém, formados. Do Danúbio
a corrente não seria Tanto em Áustria no inverno enrijecida,
27 Nem do Tanais, na zona sempre fria. Do lago sobre a face empedernida Caísse
ou Tambernich ou Pietrana: 30 Não fora ao peso enorme combalida. Qual
rã, que no paul coaxando, ufana Um pouco emerge, enquanto a camponesa
33 Sonhando está que a respigar se afana: Tais gemiam as sombra na
frieza
Té a cintura lívidas, batendo, 36 Como a cegonha, os queixos
com presteza. Para o seio a cabeça lhes pendendo, Do frio a boca indícios
claros dava, 39 Nos olhos a tristeza está-se vendo. Quando atentei
no quanto em roda estava, Duas vi aos meus pés, em tal abraço,
42 Que, travado, o cabelo se enleava. “Quem sois que os peitos nesse
estreito laço Apertais?” — perguntei. Então, voltando
45 Os colos para trás, um curto espaço Me encararam; porém
dos olhos quando Lhes brotavam as lágrimas, a neve 48 Cerrou-os entre
os cílios as coalhando. Nunca dois lenhos tanto unidos teve Cavilha:
eles, de irados, se investiram, 51 Quais capros, que a marrar o furor leve.
Terceiro, a quem, geladas lhe caíram As orelhas, com rosto baixo fala:
54 “Por que teus olhos sôfregos nos miram? “O par desejas
conhecer, que cala? Próprio lhes fora e ao genitor Alberto 57 O vale,
onde o Bisênzio faz escala.
“De um só ventre nasceram; tu, por certo, Não acharás
mais di’nos em Caína, 60 De ter de gelo o vulto seu coberto,
“Nem esse, a quem de Artus destra assassina De um bote o peito e a sombra
transpassara; 63 Nem Focácia e o que a fronte agora inclina, “A
vista me tolhendo, e se chamara Mascheroni Sassol, bem conhecido: 66 Se és
Toscano, esse nome te bastara. “Fique, por vozes escusar, sabido Que
Pazzi eu sou e que, em Carlin chegando, 69 Serei por menos criminoso havido”.
Mil outros via roxos tiritando: Desde então de arrepios sou tomado
72 Ante gélidos vaus, este lembrando, E o centro demandando, em que
firmado Do universo gravita todo o peso, 75 Trêmulo havia a treva eterna
entrado, Eis, sem querer, da sorte ou por desprezo, Entre tantas cabeças
caminhando, 78 A face de um calquei no gelo preso. “Por que me pisas?”
reclamou chorando,
“De Monte Aperti ao feito por vingança 81 Inda me estás
desta arte molestando? “Mestre, espera-me aqui” — disse
— “Me lança Em dúvida este mau: solvê-la quero.
84 Eu depois correrei, se houver tardança”. Parou; e ao pecador
falei, que fero, Duras blasfêmias proferia agora: 87 “Quem és
tu, que me increpas tão severo?” “E tu mesmo quem és,
que na Antenora” Tornou — “dessa arte as faces me espezinhas?
90 Um vivo, certo, menos cru me fora”. “Sou vivo e posso entre
as memórias minhas Do nome teu apregoar a fama” 93 Respondi —
“se te aprazem louvaminhas”. “Só quer o olvido quem
te fala” — exclama “Vai-te! De sobra já me estás
molesto. 96 Aqui não cabe da lisonja a trama”. Travei da nuca
ao pecador infesto E disse: — “Ou perderás todo o cabelo,
99 Ou quem tu foste me declara presto!” “Mil vezes podes arrancar-me
o pêlo, De ver-me a face não terás o gosto 102 E de saber
qual foi meu nome e apelo”.
As mãos lhe havia no cabelo posto; Da guedelha uma parte arrepelara:
105 Ganindo ele abaixava sempre o rosto, Quando outro brada: “Ó,
Boca, isso não pára? Pois os queixos bater não te é
bastante? 108 Já lates! Que demônio em ti dispara?” “Não
mais, ímpio traidor” — no mesmo instante Respondo —
“exijo; o que de ti stou vendo 111 Contarei por te ser mais infamante”.
“Vai! Se saíres deste abismo horrendo, Quanto queiras refere,
do apressado, 114 Que de língua assim foi, não te esquecendo.
“Ouro chora, que a França lhe há doado. Eu vi —
podes dizer — Boso Duera 117 De outros muitos no gelo acompanhado. “Se
perguntarem quem aqui mais era, Olha e terás ao lado Beccaria, 120
A quem Florença degolar fizera. “Gian del Soldanier, há
pouco eu via Além com Ganellon e Tribaldello. 123 Que abriu Faenza,
enquanto se dormia”. Deixâmo-lo; mas súbito de gelo
Postos em furna vi dois condenados: 126 Cabeça de uma a de outra era
cabelo. Como a pão se agarrando os esfaimados, Por cima um no outro
os dentes aferrava 129 Onde a cerviz e o crânio estão ligados.
Qual Tideu, que a dentadas lacerava De Menalipo a fronte enraivecido, 132
Ele o cérebro e os ossos mastigava. “Tu, que, de ódio
tão sevo possuído, Te encarniças feroce no inimigo, 135
“Dize — exclamo — por que foi produzido. “Se eu souber
que a justiça está contigo E houver da culpa e réu conhecimento,
No mundo a compensar-te ora me obrigo, 139 Se não perder a língua
o movimento”.
11. Anfião, foi auxiliado pelas Musas na edificação
dos muros de Tebas. — 27. Tanais, o rio Don, na Rússia. —
55-60. O par etc, filhos de Alberto degli Alberti, os quais brigaram e se
mataram reciprocamente. — 61. Nem esse Mordrec, filho do rei Artur,
morto pelo pai. — 63. Focaia, dei Cancellieri matou alguns parentes
do partido inimigo. — 65. Mascheroni Sassuol, florentino, assassinou
traiçoeiramente um seu primo. — 68. Pazzi, Comicion dei Pazzi
matou o seu primo Ubertino. — Carlin, Carlino dei Pazzi traiu os seus
companheiros, entregando várias fortalezas aos florentinos Negros.
— 88.
250
Antenora, onde são punidos os traidores da pátria, de Antenor,
troiano, que favoreceu os gregos que sitiavam Tróia. — 106.
Boca, Bocca degli Abati, na batalha de Montaperti (1260)
causou a derrota dos florentinos, passando ao inimigo. — 116.
Boso Duera, traiu o rei Manfredo, por ter recebido dinheiro de
Carlos d’Anjou. — 119. Beccaria, de Pavia, legado pontifício
na
Toscana, foi decapitado pelos florentinos, na suposição de ter
favorecido os gibelinos. — 121. Gian del Soldanier, gibelino, que
em 1266 chefiou uma rebelião em Florença. — 122. Ganellon,
Gano de Mogunça, traidor de Carlos Magno. — Tribaldello,
faentino, traiu a sua cidade natal Faenza.
251
CANTO XXXIII
O conde Ugolino della Gherardesca conta a Dante a sua trágica
morte na torre dos Gualandi. Na Ptoloméia o Poeta encontra o
frade Alberico de Manfredi, o qual lhe explica que a alma dos
traidores cai no Inferno logo depois de consumada a traição
e que
um diabo toma conta do corpo até chegar o tempo do seu fim no
mundo.
DO fero cevo os lábios desprendendo,
Na coma o pecador os enxugava
3 Desse crânio, a que estava atrás roendo.
“Queres de infanda mágoa” — começava —
Renove a dor, que, só pensando a mente,
6 Antes que falte, o coração me agrava.
“Mas se a voz minha deve ser semente,
Que ao traidor, que eu devoro a infâmia brote.
9 Falar, chorar, verás conjuntamente.
“Não sei quem sejas, não sei como note
Tua presença aqui, por Florentino
12 Te ouvindo a língua, é força que te adote.
“Saber deves que fui Conde Ugolino,
Que Arcebispo Rogério aquele há sido:
252
15 Direi qual nos juntou cruel destino.
“Contar não hei mister como iludido
Por minha confiança, em cárcer posto.
18 Fui morto por maldade deste infido.
“Não conheces, porém, que atroz desgosto
O meu fim precedera: atenção presta,
21 Quanto ofendido fui verás exposto.
“Por vezes da prisão por breve fresta,
Torre da fome — após o meu tormento,
24 Que há de a outros ainda ser funesta
“Brilhava a lua em pleno crescimento,
Quando o véu do futuro horrível sonho
27 Rasgou, do exício meu pressentimento.
“Este, como senhor, então suponho
Ao monte, que ver Lucca a Pisa obstava
30 Lobo e pequenos seus correr medonho.
“Magros cães, destros, feros açulava
Dos Galandis, Sismondis e Lanfrancos
33 A companha, que à frente cavalgava.
“Em breve o pai e os filhos, lassos, mancos,
Já dos famintos galgos mal feridos,
36 Dar pareciam últimos arrancos.
253
“Desperto ao primo alvor; dos meus queridos
Filhos que eram comigo, choro soa:
39 Pedem pão, stando ainda adormecidos.
“És cruel, se a tua alma não magoa
O prenúncio da dor, que me aguardava:
42 Se não choras, que pena há que te doa?
“Despertaram; e a hora já chegava
Em que alimento escasso nos traziam:
45 O sonho a cada qual nos aterrava.
“Da horrível torre à porta então se ouviam
Martelos cravejar: eu mudo e quedo
48 Nos filhos encarei, que esmoreciam.
“Não chorava; era o peito qual penedo.
Choravam eles, e Anselmuccio disse:
51 Assim nos olhas, pai? Do que hás tu medo?”
“Nem lágrimas, nem voz dei, que se ouvisse,
No dia e noite, que seguiu-se lenta,
54 Até que ao mundo novo sol surgisse.
“Quando a luz inda escassa se apresenta
No doloroso carcer, meu semblante
57 Nos quatro rostos seus se representa.
“Mordi-me as mãos de angústia delirante.
Eles, cuidando ser a fome o efeito,
254
60 De súbito e com gesto suplicante,
“Disseram: “Menos mal nos será feito
Nutrindo-te de nós, pai; nos vestiste
63 Desta carne: ora sirva em teu proveito”.
“Contendo-me, evitei lance mais triste.
Em silêncio dois dias se passaram. ..
66 Ah! por que, terra esquiva, não te abriste?
“Do quarto dia os lumes clarearam:
Gaddo caiu-me aos pés desfalecido:
69 “Pai me acode!” os seus lábios murmuraram.
“Morreu; e, qual me vês, eu vi, perdido
O sizo, os três, ao quinto e ao sexto dia,
72 Um por um se extinguir exinanido.
“Apalpando os busquei — cego os não via
Dois dias, os seus nomes repetindo:
75 Da fome mais que a dor, pôde a agonia”.
Calou-se e os torvos olhos retorquindo,
Como de antes cravou no crânio os dentes
78 E os ossos, qual mastim, foi destruindo.
Ah! Pisa, opróbrio aos povos residentes
Na bela terra, onde o si ressona!
81 Pois te não vêm punir vizinhas gentes.
255
Presto a Capraia mova-se e a Gorgona
Do Arno à foz, entupindo-lhe a saída
84 Teu povo assim pereça, que se entona.
E se foi a Ugolino atribuída
De entregar teus castelos à maldade,
87 Por que à prole em tal cruz tirar a vida?
Tebas moderna! Pela tenra idade
Ugoccione e Briga tá insontes eram
90 E os irmãos, em que usaste a feridade.
Seguindo além, os olhos se of’receram
Outros, que em gelo têm duro tormento:
93 Destes os rostos para trás penderam.
Lhes causa o pranto ao pranto impedimento;
E a dor, que desafogo em vão procura,
96 Lhes cresce, recalcada, o sofrimento.
As lágrimas coalhando em neve dura
Formam nos olhos seus vítrea viseira,
99 E todo o espaço interior se obtura.
Conquanto quase a faculdade inteira
De sentir no meu rosto se embotasse
102 Dês que era nessa perenal geleira,
Cuidei que um sopro me tocara a face.
“Do que este sopro” — inquiro — “se origina?
256
105 Se aqui não há vapor, donde ele nasce?”
E o Mestre: “Irás onde a resposta di’na
Os teus olhos darão; e ali chegando
108 O que virem do sopro a causa ensina”.
Dos tristes padecentes um gritando,
Nos disse: “Almas cruéis, almas danadas
111 (Pois que no extremo abismo estais penando)
“Tirai-me aos olhos gélidas camadas,
Por desafogo dar-me ao peito aflito,
114 Antes de eu ter as lágrimas coalhadas”.
“Se o lenitivo queres, que tens dito,
Teu nome diz: se não me desobrigo,
117 Desça eu do gelo ao pelágio maldito”.
Respondeu logo: “Eu sou frei Alberigo,
Pelos pomos famoso do mau horto:
120 Aqui recebo tâmara por figo”.
“Oh!” — disse — “porventura tu stás
morto?”
“Não sei como é meu corpo lá no mundo”,
123 Tornou “e se vivendo tem conforto.
“Este condão possui sem ter segundo
Ptoloméia: aqui star alma é freqüente
126 Antes que a mande Atropos ao profundo.
257
“E por que mais de grado e prontamente
Estas vidradas lágrimas romovas,
129 Sabe que apenas de traição a mente
“Inquina-se, como eu, por funções novas
Passa o corpo a demônio, que o governa
132 Té completar da vida últimas provas:
“Rui a alma, entanto, à lôbrega cisterna,
Talvez na terra folgue o corpo ledo,
135 Cuja sombra após mim trêmula inverna.
“Se és recém-vindo, sabe que esse tredo
É Branca d’Ória: há prolongados anos
138 Jaz enleado no infernal enredo”.
“Este é” tornei “mais um dos teus enganos:
Desfruta alegre Branca d’Ória a vida
141 E come e bebe e dorme e veste panos”.
“Dos Malebranche em cava denegrida,
Não era“ disse ainda “em pez viscoso
144 Alma de Miguel Zanche submergida,
“E um demônio esse infame criminoso
Deixou no corpo; o mesmo um seu parente,
147 Que de traição foi sócio proveitoso.
“Das mãos auxílio presta ora clemente,
Me abrindo os olhos!” Tal não fiz; que errara
258
150 Com tal vilão me havendo cortesmente.
Ah! Genoveses! raça impura e avara,
Que nos costumes tem mancha tamanha!
153 Quem da face da terra vos lançara!
Junto ao pior esp’rito da Romanha
De entre vós um traidor vi tanto imundo,
Que a alma sua em Cocito já se banha,
157 Enquanto o corpo vida finge ao mundo.
13. Conde Ugolino, della Gherardesca, de Pisa, foi acusado pelo
arcebispo de Pisa, Ruggiero degli Ubaldini, de ter traído a sua
cidade natal. Preso com dois filhos e dois netos numa torre,
onde todos morreram de fome. — 29. Monte, San Giuliano, entre
Pisa e Luca. — 32. Galandis etc., famílias pisanas. — 118.
Frei
Alberigo, Manfredi, de Faenza, convidou dois parentes seus a
comerem na sua casa e, no fim do jantar, ao pedir que
trouxessem a fruta, os criados penetraram na sala e mataram
os hóspedes. — 137. Branca d’Ória, genovês,
convidou o sogro
Miguel Zanche a comer em sua casa e matou-o para usurpar o
castelo de Logodoro.
259
CANTO XXXIV
Na Judeca estão os traidores dos seus senhores e benfeitores. No
meio está Lúcifer, que com três bocas dilacera três
entre os mais
horrendos pecadores: de um lado Judas, do outro Bruto e Cássio,
que mataram a Júlio César. Virgílio, ao qual Dante se
agarra,
desce pelas costas peludas de Lúcifer até o centro da terra.
Dai
seguindo o murmúrio de um regato, saem e avistam as estrelas
no outro hemisfério.
VEXILIA regis prodeunt inferni
Contra nós; pra diante os olhos tende
3 Disse o Mestre, se a vista já discerne”.
Como quando no ar névoa se estende,
Ou ao nosso hemisfério a noite desce,
6 Um moinho distante a atenção prende.
Um edifício igual verme parece.
Tanto era o vento, que eu busquei guarida
9 Atrás do Mestre, que outra não se of’rece.
À parte era chegado, onde imergida
Cada alma em gelo está (tremo escrevendo),
12 Bem como aresta no cristal contida.
Erguidas umas stão, outras jazendo
260
Qual sobre a fronte ou sobre os pés firmada
15 Qual com seus pés o rosto arco fazendo.
Quando distância tal foi superada,
Que aprouve ao Mestre me tornar patente
18 A criatura bela ao ser formada,
Se afastando de mim, disse: “Detém-te!
Eis Satanás! Eis o lugar horrendo
21 Em que deves te armar de esforço ingente!
Quanto assombrei-me aquele aspecto vendo
Não inquiras leitor: não te expressara
24 Com verbo humano o que encarei tremendo.
Não morto, porém vivo não ficara.
Qual me achava te pinte a fantasia,
27 Se morte ou vida em mim se não depara!
Do aflito reino o imperador eu via:
Do gelo acima o seio levantava.
30 A um gigante igualar eu poderia,
Se um gigante a um seu braço eu comparava!
Do todo vede a proporção qual fora,
33 Quando tão vasta a parte se ostentava!
Quem foi tão belo, quanto é feio agora,
Contra o seu criador a fronte alçando
36 Vera causa é do mal, que o mundo chora.
261
Qual meu espanto há sido em contemplando
Três faces na estranhíssima figura!
39 Rubra cor na da frente está mostrando;
Das outras cada qual, da pádua escura
Surdindo, às mais ajunta-se e se ajeita
42 Sobre o crânio da infanda criatura.
Entre amarela e branca era a direita;
A cor a esquerda tem que enluta a gente
45 Do Nilo às margens a viver afeita.
Via asas duas sob cada frente,
Tão vastas, quanto em ave tal convinham:
48 Velas iguais não abre nau potente.
Plumas, como em morcego, elas não tinham;
De contínuo agitadas produziam
51 Os três gélidos ventos, que mantinham
Os frios, que o Cocito enrijeciam.
Chorava por seis olhos, por três mentos
54 Pranto e sangüínea espuma se espargiam.
Qual moinho, com dentes truculentos
Cada boca um prexito lacerava:
57 Padecem três a um tempo assim tormentos.
Mas ao da frente a pena se agravava,
262
Porque das garras o furor constante
60 Do dorso a pele ao pecador rasgava.
“O que esperneia em dor mais cruciante”
O Mestre disse: “É Juda Iscariote:
63 Prende a cabeça a boca devorante.
“Dos dois, que estão pendendo, coube em dote
A negra face Bruto: sem gemido
66 Se estorce da dentuça a cada bote.
“O outro é Cássio, de membros bem fornido.
Mas a partir a noite insta, assomando:
69 Aqui já tudo havemos conhecido”.
Do Mestre o colo enlaço por seu mando.
Ele em lugar e tempo apropriado,
72 De Lúcifer as asas se alargando,
Ao peito hirsuto havia-se agarrado;
Depois de velo em velo descendia
75 Entre os ilhais e o lago congelado.
Chegado àquela parte, em que se unia
Da coxa o extremo dos quadris à altura,
78 Com grande ofego e mor abalo o Guia
Pôr a fronte onde os pés firmou procura,
Como quem sobe às crinas agarrado:
81 Assim tornar cuidei do inferno à agrura.
263
“Segura-te! Por tais degraus alado”
Lasso Virgílio já disse anelante,
84 “Deste império do mal serás tirado”.
De uma rocha então sai por fresta hiante;
Sobre a borda me assenta cauteloso;
87 Depois a mim se acerca vigilante.
Olhos alcei julgando curioso
Ver Lúcifer, qual de antes o deixara;
90 De pernas para o ar vi-o em seu pouso!
De que enleio a minha alma se tomara,
Deixo ao vulgo pensar pouco instruído,
93 Que o ponto não compreende, em que eu
passara.
“Eia! Vamos!” o Mestre diz querido,
“Longa jornada e mau caminho temos;
96 E a meia terça o sol já tem corrido”.
De paço em salas nós de andar não temos;
Mas de antro natural em solo duro
99 Os passos nossos dirigir devemos.
“Antes que eu deixe em todo o abismo escuro
Erro, em que estou, meu Mestre, desvanece”
102 Disse erguendo-me um pouco mais seguro.
264
“Onde o gelo? Por que nos aparece
Assim Lúcifer posto? E já tão presto,
105 Cessando a noite, o sol nos esclarece?”
“Tu cuidas ser, do que ouço é manifesto
Lá no centro, onde ao pêlo me prendera
108 Do que atravessa o mundo, verme infesto.
“Ali stiveste, enquanto descendera
Ao voltar-me do ponto além tens sido,
111 Que o peso atrai na terreal esfera.
“Foste àquele hemisfério transferido,
Que se opõe ao que a terra está lançado,
114 Em cujo excelso cume há padecido;
“Quem nasceu, quem viveu sem ter pecado
Sobre uma esfera estreita os pés agora,
117 Da Judeca ao reverso, tens firmado.
“É noite lá; nós temos luz nesta hora;
E o que nos velos seus nos deu a escada
120 Na postura se firma, em que antes fora.
“Caiu aqui da altura sublimada,
E a terra, que se alçava entumescente,
123 Do mar fez véu e veio de enfiada
“Para o nosso hemisfério de repente.
Também fugiu de medo, a que se avista;
265
126 Vácuo deixando aqui, fez monte ingente”.
Lá no profundo há um lugar, que dista
Tanto de Belzebú, quanto se estende
129 Seu sepulcro: ali não penetra a vista.
Revela-o som de arroio, que descende
Por brecha do rochedo, que escavara,
131 Em torno serpeando, e pouco pende.
Para voltar do mundo à face clara
Nessa vereda escusa penetramos:
135 De nós nenhum de repousar cuidara.
Virgílio e eu, logo após, nos elevamos,
Té que do ledo céu as cousas belas
Por circular aberta divisamos:
139 Saindo a ver tornamos as estrelas.
1. Vexilas etc. — Aparecem os vexilos do rei do Inferno. É o
primeiro verso de um hino da Igreja. — 38. Três faces etc.,
Lúcifer tem três faces em contraposição à
Trindade divina. —
62. Juda Iscariote, que traiu Jesus. — 65-67. Bruto e Cássio,
que mataram Júlio César. — 80. Como quem sobe etc. Passado
o centro da terra, Virgílio para encaminhar-se ao hemisfério
oposto deve subir e não mais descer. — 113-15. Que se opõe
etc., ao hemisfério que cobre a terra em cujo cume (Jerusalém)
foi crucificado Jesus Cristo. — 130. Arroio, o rio Lete que desce
do Purgatório. — 137. As cousas belas, as estrelas que Dante
percebia da pequena abertura a que chegaram.
266
Purgatório
CANTO I
Saindo do Inferno, Dante respira novamente o ar puro e vê fulgentíssimas
estrelas. Encontra-se na ilha do Purgatório.O guardião da ilha, Catão Uticense,
pergunta aos dois Poetas qual é o motivo da sua jornada. Ele os instrui, depois,
relativamente ao que devem fazer, antes de iniciar a subida do monte.
DO engenho meu a barca as velas solta
Para correr agora em mar jucundo,
3 E ao despiedoso pego a popa volta.
Aquele reino cantarei segundo,
Onde pela alma a dita é merecida
6 De ir ao céu livre do pecado imundo.
Ressurja ora a poesia amortecida,
Ó Santas Musas, a quem sou votado;
9 Unir ao canto meu seja servida
Calíope o som alto e sublimado,
Que às Pegas esperar não permitira
12 Lhes fosse o atrevimento perdoado.
Suave cor de oriental safira,
Que se esparzia no sereno aspeito
15 Do ar até onde o céu primeiro gira,
268
Recreia a vista; e eu ledo me deleito
Em surdindo da estância tenebrosa,
18 Que tanto os olhos contristara e o peito.
A bela estrela, a amor auspiciosa
Sorrir alegre faz todo o Oriente,
21 Vela os Peixes, que a seguem, luminosa.
Ao outro pólo endereçando a mente,
Volto-me à destra, e os astros quatro vejo,
24 Que vira só a primitiva gente.
Folgar o céu parece ao seu lampejo.
Do Norte, ó região, viúva hás sido,
27 De os contemplar te não foi dado ensejo.
Depois de os remirar, já dirigido
Olhos havia para o pólo oposto,
30 Donde a Carroça havia-se partido,
Eis noto um velho, perto de mim posto,
Que reverência tanta merecia,
33 Que mais do pai não deve o filho ao rosto.
Nas longas barbas nívea cor saía,
Sendo na coma sua semelhante,
36 Que em dupla trança ao peito lhe caía.
A luz dos santos astros rutilante
269
De fulgor tanto lhe aclarava o gesto,
39 Que o vi, como se o sol lhe fosse adiante.
— “Quem sois que em contra o rio escuro e mesto
Do eterno cárcere heis fugido os laços?” —
42 Movendo as nobres plumas, disse presto.
“Quem vos guiou alumiando os passos
Para a profunda noite haver deixado,
45 Que enluta sempre os infernais espaços?
“As leis do abismo acaso se hão quebrado?
O céu dá, seus decretos revogando,
48 Que dos maus seja o meu domínio entrado?” —
Travou de mim Virgílio, me exortando
Por voz, aceno e mãos: como queria
51 Os joelhos curvei, olhos baixando.
— “De motu meu não vim” — lhe respondia —
De Dama aos rogos, que do céu descera
54 Socorro este homem, sirvo-lhe de guia.
Pois que é desejo teu que a nossa vera
Condição definida mais te seja,
57 Prestar me cumpro explicação sincera.
“Aura da vida este home’inda bafeja,
Mas tanto, de imprudente, se arriscara,
60 Que é maravilha vivo ainda esteja.
270
“Disse como a salvá-lo me apressara:
Por onde os passos dirigir pudesse
63 Essa vereda só se deparara.
“Mostrei-lhe a gente, que por má padece;
Mostrar-lhe intento os que ora estão purgando
66 Pecados no lugar, que te obedece.
“Longo seria como o vou guiando
Dizer-te: é força do alto a que me impele,
69 Para te ver e ouvir o encaminhando,
Digna-te, pois, bení’no ser com ele:
A liberdade anela, que é tão cara:
72 Sabe-o bem quem por ela a vida expele.
“Por ela a morte não te há sido amara
Em Útica, onde a veste foi deixada,
75 Que em Juízo há de ser de luz tão clara.
“Por nós eterna lei não é violada:
Ele inda vive; Minos não me empece;
78 No círc’lo estou, onde acha-se encerrada
“Tua Márcia, que em casto olhar parece
Rogar-te ainda que por tua a tenhas:
81 Lembrando-a em favor nosso te enternece.
“Ir deixa aos reinos teus, não nos retenhas;
271
Hei de a Márcia dizê-lo agradecido,
84 Se lá de ti falar-se não desdenhas.” —
— “Márcia, a meus olhos tão jucunda há sido
Que — tornou-lhe Catão — eu de bom grado
87 No mundo quanto quis lhe hei concedido.
“Estando além do rio detestado,
Mover-me ora não pode: este preceito
90 Me foi, deixando o Limbo, decretado.
“Se por dama celeste hás sido eleito,
Como disseste, é vã lisonja agora;
93 O que requeres em seu nome aceito.
“Vai, pois: cingindo este homem sem demora
De liso junco, lava-lhe o semblante;
96 Toda a impureza seja posta fora.
“Cumpre que, quando ele estiver perante
O anjo, que do céu vier primeiro,
99 Névoa nenhuma os olhos lhe quebrante.
“Lá onde baixa o ponto derradeiro
Do mar batido, esta ilha tem viçoso
102 Juncal que alastra todo o seu nateiro.
“Não pode vegetal rijo ou frondoso
Ter vida ali; porque não dobraria
105 Ao embate das ondas caprichoso.
272
“Aqui tornar inútil vos seria.
Vereis ao sol, que surge, o melhor passo
108 Para subir do monte à penedia.” —
Sumiu-se. Ergui-me, então, sem mais espaço,
E em silêncio; olhos fitos no semblante
111 De Virgílio, amparei-me com seu braço.
— “Comigo, ó filho” — diz-me — “segue
avante.
Atrás voltemos; pois daqui se inclina
114 O plano para o mar, que jaz distante.” —
Fugia ante a alva a sombra matutina;
Já nos ficava aos olhos descoberta,
117 Posto remota, a oscilação marina.
Pela planície andávamos deserta,
Como quem trilha a estrada, que perdera,
120 E teme não achar vereda certa.
Chegando à parte, onde não pudera
Do rocio triunfar o sol nascente,
123 Porque à sombra o frescor pouco modera,
Sobre a relva meu Mestre brandamente
As mãos ambas abriu: o movimento
126 Lhe noto e, o compreendo, diligente,
As lacrimosas faces lhe apresento.
273
Virgílio as cores restaurou-me ao gesto,
129 Que desbotara o inferno nevoento.
Vimos à erma praia a passo lesto:
Nunca sobre águas suas navegara
132 Homem que o mundo torne a ver molesto.
Cingido fui, como Catão mandara.
Portento! A humilde planta renascida,
Qual antes vi no solo, onde a arrancara,
136 Sem diferença, de súbito crescida.
10. Calíope — Musa da epopéia. — 11. Pegas, as
filhas de
Pierio, desafiaram as Musas para cantarem com elas e,
vencidas, foram transformadas em pegas. — 19. A bela estrela,
Vênus. — 21. Os Peixes, a constelação dos Peixes.
— 31. Um
velho etc., Catão Uticense, que, para não entregar-se a Júlio
César, suicidou-se em Útica. — 40. Rio escuro e mesto,
o
Aqueronte. — 79. Márcia, esposa de Catão.
274
CANTO II
Estão os Poetas ainda na praia, incertos em relação
ao caminho,
quando chega uma barca, guiada por um Anjo, da qual saem
almas destinadas ao Purgatório. Uma delas, o músico Casella,
amigo de Dante, a convite do Poeta, começa a cantar uma sua
canção. Os dois Poetas e as almas ficam a ouvir o canto
harmonioso. Sobrevém. porém, o severo Catão, que as repreende,
e as almas fogem para o monte.
RESPLENDECIA o sol já no horizonte
Que tem meridiano, onde iminente
3 O zênite fica de Solima ao monte.
Na parte oposta a noite diligente
Do Ganges co’as Balanças se elevava,
6 Que lhe caem da mão, quando é excedente.
Já nesse tempo a idade transformava
A branca e rósea cor da bela Aurora
9 Noutra, que a de áureos pomos simulava.
Do mar ao longo inda éramos nessa hora,
Como quem, na jornada embevecido,
12 Se apressa em mente, os pés, porém, demora:
Eis, qual sobre manhã, enrubescido,
275
Das névoas através, Marte chameja
15 No ponente das ondas refletido,
Uma luz (praza a Deus de novo a veja!)
Tão veloz pelo mar vi deslizando,
18 Que não há vôo de ave, que igual seja.
Maior mostrou-se e mais fulgente, quando,
Depois de ter-me ao Guia meu voltado,
21 De novo olhei o seu brilho contemplando.
Nívea forma também, a cada lado,
Lhe divisei; abaixo aparecia
24 De igual cor outro vulto assinalado.
Té asas discernir permanecia
O sábio Mestre meu silencioso.
27 Mas então, como o nauta conhecia,
Bradou: “Curva os joelhos respeitoso,
Junta as mãos: eis de Deus um mensageiro!
30 De ora avante hás de ver outros ditoso.
“Vê que, aos humanos meios sobranceiro,
Para vir de tão longe velas, remos
33 Possui das asas no volver ligeiro.
“Como ele as alça para o céu já vemos,
Eternas plumas suas agitando;
36 Não mudam como dos mortais sabemos.” —
276
Em tanto, mais e mais se apropinquando,
Mais clara sobressai a ave divina:
39 Olhos abaixo à luz me deslumbrando.
O anjo logo à riba a nave inclina,
Tão rápida, tão leve, que parece
42 Voar somente na amplidão marina.
Na popa erguido o nauta resplendece:
Feliz quanto é lhe está na fronte escrito;
45 Das almas turba ao mando lhe obedece.
In exitu Israel de Egypto
A uma voz cantavam juntamente
48 E o mais, que foi no santo salmo dito.
Sinal da Cruz lhes fez devotamente:
Todos então à riba se lançaram
51 E tornou, como veio, incontinente.
Em volta remirando, os que ficaram
Pareciam de espanto apoderados,
54 Como quem a estranheza se acercaram.
O sol frechava os lumes seus dourados,
Lá do meio do céu tendo expelido
57 O Capricórnio a tiros reiterados,
Quando as almas, que haviam descendido,
277
Perguntam-nos: — “Sabeis, para indicar-nos,
60 Por onde o monte pode ser subido?”
Tornou Virgílio: — “Vos apraz julgar-nos
Do lugar sabedores; mas viandantes,
63 Como sois vós, deveis considerar-nos.
Chegáramos aqui, de vós, pouco antes,
Por estrada tão árdua e temerosa,
66 Que esta subida a par, jogo é de infantes.” —
Notando aquela turba, curiosa,
Que eu, pelo respirar, era homem vivo,
69 Enfiou ante a vista portentosa.
E como, a quem da paz ramo expressivo
Presenta, o povo acerca-se cuidoso
72 Em tropel de notícias por motivo:
O bando assim das almas venturoso
Em meu rosto atentava alvoroçado,
75 Quase esquecido de ir a ser formoso.
Uma, tendo-se às mais adiantado
A me abraçar correu com tanto afeito,
78 Que fui de impulso igual arrebatado.
Sombras vãs, verdadeiras só no aspeito!
Três vezes quis nos braços estreitá-la,
81 Só as três vezes estreitei ao peito.
278
Ante o espanto, que o gesto me assinala,
Sorriu-se; e, como já se retirasse,
84 Avançando, eu tentei acompanhá-la.
Suavemente disse que eu parasse,
Pedi-lhe, com certeza a conhecendo,
87 Que um pouco a praticar se demorasse:
— “Como te amei” — me respondeu — “vivendo
No mortal corpo, assim eu te amo agora.
90 Por que vais? Dize: ao teu desejo atendo.” —
“Caro Casella” — disse-lhe — “hei de embora
Tornar, ao fim desta jornada, à vida.
93 Por que de vir hás delongado a hora?” —
“Se a passagem negou-me requerida
Anjo, que as almas, quando apraz-lhe, guia,
96 Ofensa não me fez imerecida;
“Pois a justo querer obedecia.
Na barca em paz, três meses há somente,
99 A todos dá a entrada apetecida.
“Eu, que na plaga então era presente,
Onde no mar o Tibre as águas deita
102 Por ele aceito fui benignamente,
“A essa foz seus vôos endireita;
279
Pois sempre ali a grei stá reunida,
105 Às penas do Aqueronte não sujeita.” —
— “Se não é por lei nova proibida
Memória e usança do amoroso canto,
108 Que as mágoas todas me adoçou da vida,
“Praza-te amigo, confortar um tanto
Minha alma, que molesta, que amofina
111 Star envolta no corpóreo manto.” —
— “Amor que em minha mente raciocina” —
Entoou ele então com tal doçura,
114 Que o som donoso inda alma me domina.
Ao Mestre, a mim, a todos a brandura
Do saudoso cantar tanto elevava,
117 Que de ai a mente nossa então não cura.
Na toada, absorvida, se engolfava,
Eis de repente o velho venerando:
120 — “Que fazeis, descuidosos?” — nos bradava.
“Pois estais na indolência assim ficando?
Ide ao monte, a despir essa impureza,
123 Que a vista vos está de Deus vedando!” —
Quais pombos, que dos agros na largueza,
Em desejado pascigo embebidos,
126 Como olvidada a natural braveza,
280
Súbito arrancaram, de temor pungidos,
Se algum mal iminente lhes parece,
129 De cuidados maiores possuídos:
Tal a recente grei o canto esquece,
E, como homem, que vai sem ter roteiro,
Corre à costa, que aos olhos se oferece:
133 Não foi nosso partir menos ligeiro.
1-3. Resplendecia etc., colocando o Purgatório num hemisfério
antípoda àquele da terra, o Poeta nota que onde ele estava o
sol
despontava e na mesma hora em Jerusalém (Solima) descia a
noite. — 46. In exitu, etc., primeiro verso do Salmo 114. — 91.
Casella, músico florentino amigo de Dante e que havia
musicado algumas canções dele. — 119. O Velho, Catão.
281
CANTO III
Os dois Poetas se aprestam a subir o monte. Enquanto estão
procurando o lugar onde a subida seja mais fácil, vêem um grupo
de almas que lhes vêm ao encontro. Perguntam a elas onde seja
a subida. Uma das almas se dá a conhecer a Dante. É Manfredo,
rei de Nápoles e da Sicília. Ele narra como morreu, pedindo
a
Deus, na hora extrema. Estão juntas com ele, as almas dos que
foram inimigos da Santa Igreja.
ENQUANTO aquela fuga repentina
Pela planície as sombras impelia
3 Ao monte, que a razão a amar ensina,
Ao sócio meu fiel eu me cingia:
Como sem ele houvera prosseguido?
6 Quem para alçar-me esforço me daria?
De remorsos parece possuído.
Ó consciência pura e sublimada,
9 Leve falta pesar te dá subido!
Quando atalhava a pressa, que é vedada
A quem dos atos no decoro atente,
12 Eu, que sentira a mente angustiada,
Tornando ao meu intento afoutamente
282
Os olhos à eminência levantava,
15 Que para o céu mais alto eleva a frente.
Nas espaldas o sol nos dardejava
Rubra luz, que o meu corpo interrompia,
18 Pois aos seus raios óbice formava.
Escuro ante mim só aparecia
O solo: eu, de abandono receoso,
21 Voltei-me ao lado onde era o sábio Guia.
Virgílio então me encara. — “Suspeitoso
Te mostras?” — diz — “Cuidavas, porventura,
24 Que eu não mais te acompanhe cuidadoso?
“Surge Vésper lá onde a sepultura
Guarda o corpo em que sombra já fizera
27 Tomando-o a Brindes, Nápole o assegura.
“Se ante mim não a vês, não te devera
Dar pasmo como lá no firmamento
30 Se a luz a luz não tolhe e não movera.
“Para calma sentir, frio ou tormento
Dispôs-nos corpo a suma Potestade.
33 Como o fez? Não nos deu conhecimento.
“Fátuo é quem julga à humana faculdade
Franco o infindo caminho e sempiterno,
36 Por onde segue o Ente Uno em Trindade.
283
“Homem, vos baste o quia: se ao superno
Saber alevantar-vos fosse dado,
39 Da Virgem ao seio não baixara o Eterno.
“Já viste porfiar sem resultado
Os que, cevar podendo seu desejo,
42 Em perpétua aflição o têm tornado.
“De Aristóteles falo neste ensejo,
De Platão, de outros mais.” — Baixando a fronte,
45 Calou; mostrava torvação e pejo.
Chegamos nós em tanto ao pé do monte
Onde era a rocha de tal modo erguida,
48 Que de subir capaz ninguém se conte.
A vereda mais erma e desabrida,
Que de Léria a Túrbia se encaminha,
51 Dá, confrontada, cômoda subida.
E o Mestre, assim falando, os pés detinha:
“Quem sabe onde a este monte o passo ascende?
54 Como aqui sem ter asas se caminha?”
Enquanto, baixo o rosto, o Mestre entende
Na jornada, em sua mente interrogando,
57 E pela altura a vista se me estende,
Divisei turba a nós endireitando
284
Da mão destra; o seu passo era tão lento,
60 Que não me parecia estar andando.
— “Aos que vêm” — disse ao Mestre — “mira
atento;
Por eles pode ser conselho dado,
63 Se o não te of’rece o próprio pensamento…”
—
Olhou-me, e com semblante asserenado
— “À turba vagarosa” — tornou — “vamos,
66 E a esperança te esforce, ó filho amado!” —
Passos mil para a grei nos caminhamos
E de tiro de pedra inda à distância,
69 Por mão destra arrojada, nos chamamos
Quando aqueles espíritos estância
Junto aos penhascos vi fazer, cerrados,
72 Qual transviado da incerteza em ânsia.
“Vós, eleitos ao bem, no bem finados” —
Disse Virgílio — “pela paz ditosa,
75 Em que sois todos, creio, esperançados,
“Dizei-me onde a montanha alta e fragosa
Subir permite, um pouco se inclinando:
78 Do tempo a perda ao sábio é desgostosa.” —
Como as ovelhas o redil deixando
A uma, duas, três e a cerviz tendo
285
81 Baixa as outras vão tímidas ficando;
Todas como a primeira, se movendo,
Conchegam-se-lhe ao dorso, se ela pára,
84 O porque, simples, quietas não sabendo:
Assim a demandar-nos se apressara
A venturosa grei, que no meneio
87 Traz a moléstia e o pudor na cara.
Tomada foi, porém, de tanto enleio,
Por minha sombra em vendo a luz cortada
90 A destra, em direção da rocha ao seio,
Que a vanguarda parou, como torvada:
Pelos mais sem detença foi seguida,
93 Mas sem lhes star a causa revelada.
— “A explicação previno apetecida:
Que um vivo corpo vedes confesso
96 E a luz do sol por este interrompida.
“Não haja em vós de maravilha excesso;
Do céu pela virtude socorrido,
99 Da montanha atingir quer o cabeço.” —
Disse Virgílio. — E foi-lhe respondido:
— “Voltai-vos; caminhai de nós diante.” —
102 E o lugar indicavam referido.
286
— “Sem que um momento deixes ir avante,
Quem quer que sejas, olha-me e declara”, —
105 Disse um deles, — “se hás visto o meu
semblante.” —
Volvi-me, olhos fitando em quem falara.
Formoso e louro, tinha heróico aspeito;
108 Um golpe o seu sobrolho separara.
Tornei-lhe — “não” — tomado de respeito.
— “Olha!” — falou a sombra me indicando
111 Larga ferida no alto do seu peito.
“Vês Manfredo — sorriu-se me falando —
Que neto foi da Imperatriz Constança.
114 A minha bela filha diz, voltando,
(Mãe daqueles por quem tanta honra alcança
Aragão com Sicília) o que hás sabido,
117 Qual a verdade seja lhe afiança.
“Depois que foi o corpo meu ferido
De golpes dois mortais, a Deus piedoso
120 Alma entreguei, chorando arrependido.
“Fui de horrendos pecados criminoso,
Mas a Bondade Infinda acolhe e abraça
123 Quem perdão lhe suplica pesaroso.
“Se o Bispo que enviou Clemente à caça
287
Do meu cadáver, respeitado houvesse
126 Esse preceito da Divina Graça,
“Do corpo meu os ossos me parece,
Que em frente à ponte, ao pé de Benevento,
129 Em guarda o grave acervo inda tivesse.
“Agora os banha a chuva e açouta o vento,
Do reino meu distantes, junto ao Verde,
132 Onde os lançou sem luz, sem saimento.
“Mas anátema tanto alma não perde
Que, quando verde a esp’rança lhe floresce,
135 Do eterno amor do Criador deserde.
“Por certo, em contumácia o que fenece
Contra a Igreja, ainda quando se arrependa
138 Na hora extrema sua, aqui padece
“Tempo, que trinta vezes compreenda
Da impenitência o espaço, se ao decreto
141 Preces não trazem benfazeja emenda.
“Vês, pois, que podes me tornar quieto:
Revelando à piedade de Constança
Que interdito me hás visto ainda exceto
145 Pelas preces de lá muito se alcança.” —
288
25. Surge Vésper etc., o cadáver de Virgílio de Brindes
foi
transportado para Nápoles, onde, neste momento, descia a
noite. — 37. Vos baste o guia, chega saber o que é, sem
procurar a razão. — 50. De Léria a Túrbia, o caminho
entre
estas duas aldeias da Ligúria. — 112. Manfredo, filho do
imperador Frederico II e neto da imperatriz Constança. — 114-
16. Minha bela filha, Constança, esposa de Pedro III de Aragão
teve dois filhos: Jaime que sucedeu ao pai em Aragão e
Frederico, rei de Sicília. — 124. Se o bispo etc., Bartolomeu
Pignatelli, bispo de Cosenza, por ordem do papa Clemente IV,
desenterrou o corpo de Manfredo, que era excomungado, e o
mandou jogar no Rio Verde. — 133. Anátema, excomunhão
dos
papas.
289
CANTO IV
Seguindo os conselhos recebidos, os Poetas, através de um
caminho apertado e difícil, sobem ao primeiro salto. Virgílio
explica a Dante que, encontrando-se em hemisfério antípoda
àquela terra, o Sol gira em direção contrária.
Vendo muitas almas
recolhidas à sombra de um rochedo, e aproximando-se a elas,
Dante reconhece o seu amigo Belacqua. Ai estão os espíritos
preguiçosos dos que esperaram para arrepender-se o termo da
vida.
QUANDO ou pelo prazer ou por desgosto
Das faculdades uma é possuída,
3 Concentrando-se, o espírito indisposto
Se mostra à ação, de outra qualquer nascida;
Verdade, que refuta a crença errada
6 — Quem em nós uma alma está noutra
acendida.
E, pois, se vendo, ouvindo, alma engolfada,
Lia-se à cousa, que a atenção cativa,
9 Sem sentir vai-lhe o tempo à desfilada.
Pois faculdade só no ouvir ativa
Difere dessa, em que alma se domina:
12 Uma presa, outra a vínculos se esquiva.
290
Experiência ao claro isto me ensina.
Aquela sombra atônito escutando,
15 Já com cinqüenta graus o sol se empina,
Sem que eu me apercebido houvesse, quando
Ao ponto fomos, onde a turba, unida,
18 — “Haveis o que anelais!” — disse, bradando.
Estando a vinha já madurecida,
Pelo aldeão de espinhos com braçada
21 Da sebe a estreita aberta é defendida.
Mais larga é que a vereda alcantilada
Por onde fui subindo após meu Guia,
24 Quando a grei nos deixou abençoada.
A Noli e a San-Leo por árdua via
Com pés se vai, Bismântua assim se alcança;
27 Ter asas de ave aqui mister seria;
Ou asas de um desejo, que não cansa,
Para o vate seguir que, desvelado,
30 Me servia de luz, me dava esp’rança.
Por carreiro entre penhas escavado,
Sempre de agudas pontas empecido,
33 Pelas mãos cada passo era ajudado.
Chegados da alta escarpa ao topo erguido
291
Da eminência no dorso descoberto,
36 — “Por onde ir”— disse então —“Mestre
querido?”
— “Eia!” — tornou — “não dês
um passo incerto!
Vai subindo após mim pela montanha;
39 Guia acharemos no caminho esperto.” —
Não mede a vista elevação tamanha:
Linha que o centro corte de um quadrante,
42 Por certo a ingrimidez não lhe acompanha.
Sem forças já, falei-lhe titubante:
— “Volve a face, pai meu: olha piedoso
45 Que só me deixas, indo por diante” —
— “Para ali, filho” — diz — “te alça
animoso!” —
E o seu braço indicava uma planura,
48 Que torneia o declive temeroso.
Dessas vozes esforça-me a doçura
Tanto, que a rastos lhe seguia o passo
51 Até meus pés tocarem nessa altura.
Sentamo-nos a par, então, de espaço
Ao nascente voltados, qual viageiro
54 A estrada olhando, que calcara lasso;
Abaixo os olhos dirigi primeiro,
Ao sol voltei depois; notei pasmado
292
57 Da esquerda o lume vir desse luzeiro.
Disse Virgílio ao ver quanto enleado
Stava, o carro da luz considerando
60 Que era entre nós e o Aquilão entrado:
— “Se um e outro hemisfério alumiando,
Castor e Pólux junto a si tivera
63 O vasto espelho, que ora está brilhando,
“Da Ursa ainda mais propínqua à esfera,
A roda do Zodíaco observaras,
66 Se a costumada estrela não perdera.
“Meditando, a verdade logo acharas,
Se colocados de Sião o monte,
69 E este outro na terra imaginaras,
“Ambos guardando idêntico horizonte
E hemisférios diversos, onde passa
72 Estrada, em que tão mal correu Fetonte,
“E se a razão em ti não for escassa,
Verás que, enquanto a um vai por um lado,
75 Ao outro pelo oposto o sol perpassa.” —
— “Tanto ao claro jamais, ó Mestre amado,
Como ora, o meu esp’rito compreendera,
78 Quando estava por dúvida nublado.
293
“Que o círc’lo médio da mais alta esfera,
Que sempre Equador chama-se em certa arte
81 Entre o inverno e o sol se considera,
“Deve (se pude a mente penetrar-te)
Para o norte volver-se, e, no entretanto,
84 Viam-no Hebreus de Áustro pela parte.
“Agora, se te apraz, dize-me quanto
Hemos de andar; que os olhos, da eminência
87 Não atingindo o fim, se enchem de espanto.” —
— “Da montanha” — responde — “é
a excelência
Fadiga no começo causar grave;
90 Quem mais sobe acha menos resistência.
“Ao tempo, em que te parecer suave
Tanto, que a subas ágil e ligeiro,
93 Como descendo da água o curso a nave,
“No termo te acharás deste carreiro:
Após afã desfrutarás repouso:
96 Quanto digo hás de ver que é verdadeiro” —
Mal acabando o Mestre carinhoso,
Perto soa uma voz: — “Talvez te seja,
99 Antes de lá chegar, preciso um pouso.” —
Volveu-se cada qual para que veja
Quem falara; alta penha deparamos;
294
102 Então só vemos que à mão sestra esteja.
Multidão, cercando-nos, achamos
Que à sombra demorava quietamente;
105 Por desídia detidos os julgamos.
Mostra-se um mais que os outros negligente:
Sentado abraça as pernas, tendo o rosto
108 Recostado aos joelhos, qual dormente.
Disse então: — “Vê senhor, quanto disposto
É à inércia o que ali stá parecendo:
111 Como irmão da preguiça fica posto.” —
Ele um pouco voltou-se olhos movendo
Para o meu lado, sem mudar postura,
114 — “Pois vai tu, que és valente!” — me dizendo.
Reconheci quem era. Inda me dura
Da agra ascensão em parte o grande ofêgo;
117 Mas endereço os passos à figura.
A fronte mal ergueu, quando me achego.
— “Como conduz o sol carro à esquerda
120 Tens reparado?” — disse com sossego.
Por meneio tão lento e voz tão lerda
Fui algum tanto a riso provocado.
123 — “Belacqua” — disse eu — “mas a tua
perda
295
Não choro. Por que estás aqui sentado?
Esperas guia? Acaso, como outrora,
126 Da preguiça te sentes cativado?” —
Tornou-me: — “Irmão, subir que importa agora?
De Deus o anjo, que defende a entrada,
129 Me deixaria dos martírios fora.
“Tanto a porta me tem de ser vedada,
Quanto no mundo me durara a vida:
132 Pesei-me só a morte ao ver chegada.
“Mas antes ser me pode permitida
Pela oração de quem da Graça goza;
135 Que vai outra, do céu desatendida?” —
Mas o Vate seguia na penosa
Jornada. — “Vem!” — dizia — “Resplandece
O sol no meio-dia; e tenebrosa
139 Sobre Marrocos ora a Noite desce.” —
5. A crença errada etc., de atribuir ao homem diversas almas,
crença dos platônicos e dos maniqueus. — 15. Já
com cinqüenta
graus etc., o Sol percorre 15 graus por hora; portanto haviam
passado quase 3 horas e meia. — 25-26. Noli, na Ligúria; São
Leo, perto de Urbino; Bismântua, perto de Urbino. — 57. Da
esquerda etc., o Purgatório se encontra num hemisfério
antípoda, e portanto o sol aparecia a Dante pela esquerda
quando no nosso hemisfério parece levantar-se à direita e
caminhar à esquerda. — 68. Sião, Jerusalém, que
é o lugar
296
antípoda ao Purgatório. — 123. Belacqua, florentino,
fabricante
de instrumentos musicais, amigo de Dante. — 139. Sobre
Marrocos, sendo meio-dia no Purgatório, em Jerusalém, no
hemisfério oposto, era meia-noite, e a noite começava em
Marrocos.
297
CANTO V
Prosseguindo os dois Poetas a sua viagem, encontram uma
multidão de almas que se aproximam deles, depois de ter
percebido que Dante é vivo. São espíritos de pessoas
que saíram
da vida por morte violenta, mas no fim se arrependeram e
perdoaram a seus inimigos.
OS passos do meu Guia acompanhando,
Dessas almas um pouco era distante,
3 Quando uma, atrás de nós, o dedo alçando,
— “Vede! A luz” — exclamou — “não
é brilhante
À sestra do que vai mais demorado;
6 Pelo meneio a um vivo é semelhante.”
Olhos volvi daquela voz ao brado,
E as vi notar, de maravilha cheias,
9 Como eu, andando, a sombra tinha ao lado.
— “Por que tanto, ó meu filho, assim te enleias?”
Disse o Mestre. — “Por que deténs o passo?
12 Acaso o murmurar daqui receias?
“Segue-me: a vozes vãs ouvido escasso!
Qual torre, inabalável sê, dos ventos
15 À fúria opondo válido embaraço;
298
“Quem firmeza não tem nos pensamentos,
Do fim se aparta, a que alma se endereça
18 E, assim, malogra, instável, seus intentos.
— “Sigo-te!” — ao Mestre meu tornei depressa.
Cumpria assim falar; meu voto incende
21 O rubor, que ao perdão a falta apressa.
Entanto por atalho a costa ascende
Adiante de nós turba cantando
24 Devota Miserere, e ao cimo tende.
Ao ver que estava o corpo meu vedando
Dos luminosos raios a passagem
27 O canto suspendeu, rouco “oh!” soltando
E dois dos seus em forma de mensagem
Correndo contra nós assim falaram:
30 “Quem sois, que assim fazeis esta viagem?”
Disse Virgílio: — “Aos que vos enviaram
Tornai que ao corpo do homem que estais vendo
33 Vitais alentos inda não deixaram.
“Se os passos, como cuido, estão detendo,
Por ver-lhe a sombra, a causa é conhecida;
36 Terão proveito, as honras lhe fazendo.” —
Mais prontos que os vapores à descida
299
Da noite, o ar sereno aluminando,
39 Ou névoa, ao pôr do sol, do céu varrida,
Partem, à grei de novo se ajuntando;
Como esquadrão, que corre à desfilada,
42 Voltam todos, a nós se arremessando.
“Ao nosso encontro vem turba avultada;
Pretensões todos têm” — disse-me o Guia
45 — “Andando, os ouve; não convém parada.”
— “Ó alma, que do céu vais à alegria
No próprio corpo, em que feliz nasceste,
48 Demora o passo um pouco” — a grei dizia,
“De entre nós vê se alguém reconheceste
Para ao mundo levares a notícia;
51 Por que deter-te ainda não quiseste?
“Morte a todos causou cruel nequícia;
Pecamos sempre até que à final hora
54 Do céu a luz se nos mostrou propícia.
“Assim, contritos, perdoando, fora
Fomos da vida, a paz com Deus já feita;
57 De o ver desejo nos acende agora.”
— “A feição vossa” — eu disse —
“é tão desfeita,
Que nenhum reconheço; mas, se acaso
60 Ser útil posso no que a vós respeita,
300
“Pela paz, a servir-vos já me emprazo,
Que busco, deste sábio acompanhado,
63 De mundo em mundo, no mais breve prazo.”
“Cada qual” — me tornou — “está confiado
Em ti, mister não há teu juramento,
66 Se não faltar poder ao teu bom grado.
“Aos outros me antecipo: ao rogo atento,
Tu se fores à terra que demora
69 Entre a Romanha e a que é de Carlo assento,
“Aos meus em Fano compassivo exora
Que com preces sufraguem-me piedosos
72 Para o mal expurgar que fiz outrora.
“Nasci lá, sofri golpes espantosos,
Que a existência cortaram-me tão cara,
75 De Antenórios nos planos pantanosos,
“Onde o funesto fim nunca esperara.
Assim o quis do Marquês d’Este a ira,
78 Que o exício meu injusto aparelhara.
“Ah! se, fugindo, me acolhesse a Mira
Quando alcançou-me de Oriais perto,
81 Eu fora inda hoje aonde se respira.
“Mas, correndo ao paul, sem rumo certo,
301
Caí, no ceno e juncos enleado:
84 De sangue um lago fez meu peito aberto.”
“Se for” — outro então disse — “executado
Desejo que te impele ao alto monte,
87 Sê por mim de piedade impressionado.
“De Montefeltro fui e fui Buonconte;
De mim Joana, e ninguém mais, não cura;
90 Entre todos por isso abaixo a fronte.”
— “Que força — que má ventura
Tão longe te arrastou de Campaldino,
93 Que se ignora onde tens a sepultura?”
— “Oh!” — replicou-me — “Ao pé
de Casentino
Um rio passa que se chama Arquiano,
96 Nascido lá sobre o Ermo, no Apenino.
“De dor lá onde o perde o nome, insano,
Cheguei: ao pé fugia, e, traspassado,
99 O colo meu ensangüentava o plano.
“Da vista e fala ao ser desamparado,
No suspiro final bradei — Maria! —
102 E o corpo meu tombou, da alma deixado.
“Direi verdade: aos vivos o anuncia.
De Deus anjo tomando-me, o do inferno
105 — “Servo do Céu, mo tomas?” lhe bramia.
302
“Dele me usurpas o princípio eterno
Por uma tênue lágrima fingida;
108 Mas do seu corpo cabe-me o governo.
“Bem sabes que nos ares recolhida
Vaporosa umidade em chuva desce,
111 Quando é do frio às regiões subida
“Como quem com maldade o engenho tece,
Névoas e vento acumulava, usando
114 Da pujança infernal que lhe obedece.
“Depois, o dia terminado estando,
Do Pratomagno à serra, o vale envolve
117 Em treva, ao céu a abóbada enlutando.
“Túmido o ar, em catadupas volve,
E a água que na terra não se entranha,
120 Espumosa em torrentes se revolve.
“Veloz os álveos aos arroios ganha,
E para o régio rio se arrojando,
123 Os óbices abate, que se assanha.
“Junto à foz meu cadáver encontrando
Levanta-o Arquiano impetuoso
126 Ao Arno o impele, os braços desligando
“Da cruz que fiz no transe doloroso.
303
Por fundo e margens rola-o, sepultado
129 Na areia o deixa, que arrastara iroso.” —
— “Ah! quando à luz do mundo hajas tornado,
Quando repouses da jornada extensa” —
132 Foi por terceiro espírito impetrado:
“De Pia recordando-te, em mim pensa;
Siena fizera o que desfez Marema.
Sabe-o quem me esposara e em recompensa
136 No dedo pôs-me anel com rica gema.” —
24. Miserere, o salmo que começa com essa palavra. — 68-69.
A
terra que demora etc., a Marca de Ancona. — 73. Nasci lá etc.
Quem fala é Jacopo de Cassero, de Fano, que foi assassinado
pelos sicários do Marquês Azzo III d’Este, quando se dirigia
a
Milão, em 1298. — 75. De Antenórios etc. no território
de Pádua
(cidade que se diz fundada por Antenor). — 88. Buonconte de
Montefeltro, filho de Guido (Inf. XXVII), capitão gibelino, morreu
na batalha de Campaldino. — 89. Joana, sua esposa. — 96.
Ermo de Camaldoli. — 122. Regio rio, o Arno. — 133. Pia del
Guastelloni. Casada com um gentil-homem da família Tolomei,
ficou viúva e casou novamente com Nello Pannocchieschi, que a
fez matar, talvez desconfiado da sua fidelidade, num castelo da
Marema, em 1295.
304
CANTO VI
Dante promete às almas que a eles se recomendaram que não se
esquecerá delas quando voltar ao mundo dos vivos. Os dois
Poetas encontram o poeta Sordello, o qual, ao ouvir o nome da
sua pátria, Mântua, abraça o mantuano Virgílio.
Esse espisódio
move Dante a uma violenta invectiva contra as divisões e as
guerras internas que devastam a Itália.
QUANDO o jogo da zara é terminado,
Na amargura, o que perde, só ficando,
3 Os bons lances ensaia contristado.
A turba o vencedor acompanhando,
Qual vai diante qual por trás o prende,
6 Ao lado qual se está recomendando:
A este e àquele sem deter-se atende;
O que lhe alcança a mão parte se apressa;
9 De importunos desta arte se defende.
Cerca-me assim a multidão espessa,
Ora a uns ora a outros me volvendo,
12 De cada qual me livro por promessa.
O Aretino aqui stava: golpe horrendo,
De Ghin Tacco por mau, cortou-lhe a vida,
305
15 E o que na fuga se afogou, horrendo.
Aqui rogou-me em súplica sentida,
Frederico Novello e esse Pisano
18 Por quem Mazucco ação fez tão subida.
Vi o Conde Orso e aquele que o seu dano
Mortal, pelo ódio e inveja, recebera,
21 Como dizia, não por feito insano.
Aludo a Pedro Brosse. A que ora impera,
Do Brabante, se apressa a ter cautela,
24 Se não, da grei maldita a estância a espera.
Quando enfim, pude me esquivar àquela
Turba, que preces sôfrega pedia
27 Para a entrada apressar na mansão bela,
— “Em texto expresso” — eu disse — “ó
douto
Guia,
Do teu livro afirmaste que a vontade
30 Do céu por orações não se movia.
“Mas pede-as essa grei com ansiedade:
Seria acaso vã sua esperança?
33 Ou compreender não pude essa verdade?” —
— “Seu sentido a tua mente” — disse — “alcança;
Por vã essa esperança não falece;
36 Quanto é certa a razão nô-lo afiança:
306
“A Justiça do céu não desfalece,
Porque flama de amor num só momento
39 O devedor redime, que padece.
“Lá onde expus aquele pensamento
Não podia oração solver pecado,
42 Pois distante de Deus estava o intento.
“Porém neste problema sublimado
À mente por que há suma ciência
45 Te será puro lume revelado.
“Por quem? Por Beatriz. A continência
Feliz ridente lhe verás, ao viso
48 Quando houveres subido da eminência.” —
Tornei: — “Andar mais presto ora é preciso;
Como de antes, não sinto mor fadiga,
51 E da montanha a sombra já diviso.” —
— “Como podemos, é mister prossiga
O passo, enquanto o dia não se finda;
54 Mas te engana o desejo que te instiga.
“Antes do cimo aguardarás a vinda
Desse astro oculto agora pela encosta;
57 Não refranges os raios seus ainda.
“Aquela sombra vê, de parte posta,
307
Que, em soledade, atenta nos esguarda:
60 A vereda dirá melhor disposta.” —
Chegamo-nos. Ó nobre alma lombarda,
Como estavas altiva e desdenhosa.
63 Dos olhos no meneio grave e tarda!
Ela em nós encarou silenciosa,
Mas deixava-nos vir, nos observando,
66 Qual leão no repouso, majestosa.
Virgílio apropinquou-se, lhe rogando
Nos mostrasse a mais cômoda subida:
69 Respondeu-lhe, somente perguntando
Qual fora a pátria nossa e a nossa vida.
A falar o meu Guia começava:
72 “Em Mântua…” quando a sombra, comovida,
A ele se enviou donde se achava,
“Sordello sou” — dizendo — “em Mântua
amada
75 Nasci também.” — E amplexo os estreitava.
Ah! serva Itália, da aflição morada!
Nau sem piloto em pego tormentoso!
78 Rainha outrora em lupanar tornada!
Esse espírito nobre e deleitoso
Nome escutando só da doce terra,
81 Logo o patrício acolhe carinhoso:
308
Os vivos raivam no teu solo em guerra;
Se encarniça um no outro ferozmente
84 Os que um só muro, uma só cava encerra.
Busca, ó mísera Itália, diligente
No mantimo teu, busca em teu seio:
87 Onde acha paz a tua infausta gente?
Justiniano em vão te ajeitar veio
A brida; a sela fica abandonada:
90 Maior vergonha te há causado o freio.
Ah! Cúria! Aos teus deveres dedicada
Deixar-te cumpre a César todo o mundo,
93 Como a lei quer por Cristo decretada!
Vê como, aos maus instintos se entregando
Ira-se a fera por faltar-lhe espora,
96 Depois que inábil mão stá governando.
Alberto de Germânia! Atente agora
Que é tornada indômita e bravia:
99 Cavalgado a deveras ter outrora!
Do céu justo castigo deveria
Os teus ferir — tão novo e tão sabido,
102 Que espante o sucessor da monarquia!
Tu e o teu genitor heis consentido,
309
Distantes, por cobiça, em terra estranha,
105 Que do Império o jardim steja esquecido.
Vê, descuidoso, na aflição tamanha,
Capelletti e Montecchi entristecidos.
108 Monaldi e Filippeschi, alvo de sanha.
Vem, cruel, ver fiéis teus suprimidos:
De tanto opróbrio seu toma vingança.
111 Vê como em Santaflor estão regidos!
Vem ver tua Roma! De carpir não cansa!
Viúva e só a todo o instante clama:
114 Vem, César! Vem! Não mates minha esp’rança!
Vem ver como a si próprio o povo se ama!
E se por nós piedade não te move,
117 Mova-te o zelo pela tua fama!
Se me é dado dizer, Supremo Jove,
Dos homens por amor sacrificado,
120 Mal tanto a nos olhar não te comove?
Ou tens ao nosso mal aparelhado,
Lá dos conselhos teus no abismo imenso,
123 Algum bem, ao saber nosso vedado?
As cidades de Itália um tropel denso
De tiranos subjuga e, qual Marcelo
126 Se aclama o faccioso, à pátria infenso.
310
Hás de, Florença minha, haver por belo
Este episódio a ti não referente,
129 Mercê do povo teu, de outros modelo.
Muitos, justiça tendo em peito e mente,
Por desfechar seu arco ensejo aguardam:
132 Teu povo a tem nos lábios permanente.
Muitos de encargos públicos se guardam;
Mas teu povo solícito se of’rece,
135 Gritando: — ”Pronto estou! em darmos
tardam!” —
Exulta! A causa o mundo bem conhece:
Tens prudência, tens paz, possuis riqueza.
138 Falo a verdade, e o efeito transparece.
Atenas, Sparta, que a tão suma alteza
Por leis e instituições se sublimaram,
141 Sem governo viveram na incerteza,
Se, Florença, contigo se comparam,
Que em novembro tens visto revogadas
144 Leis sutis, que em outubro se forjaram.
Quantas vezes hão sido transformadas,
Em breve tempo, lei, moeda, usança?
147 Quantas índoles e forma renovadas?
311
Se vês ao claro e tens viva a lembrança,
Ao enfermo hás de achar que és semelhante,
Que, no leito jazendo, não descansa;
151 Em vão se agita, a dor vai por diante.
1. Jogo da zara — jogo de dados. — 13. O Aretino etc., o juiz
Benincasa de Laterina, que foi assassinado pelo famoso
bandoleiro Ghino del Tacco. — 15. E o que etc., Guccio Tarlati,
de Pietramala, morreu afogado no Arno, perseguindo os
inimigos derrotados numa batalha. — 17. Frederico Novello,
morto ao socorrer os Tarlati de Pietramala. — Esse Pisano,
Farinata degli Scornegiani, morto a traição. Seu pai Mazucco,
que se fizera frade, perdoou ao assassino do filho. — 19. Conde
Orso degli Alberti, assassinado por um seu primo. — E aquele,
Pedro Brosse, médico de Filipe III de França, enforcado sob
falsas acusações. — 28-30. Em texto expresso etc. Virgílio
na
“Eneida” (livro VI) negou que pudessem modificar-se os decretos
do Céu. — 42. Pois distante etc., a prece só foi aceita
depois do
advento do Cristianismo. — 74. Sordello de’ Visconti de Mântua,
poeta, jurisconsulto e guerreiro do século XIII. — 88. Justiniano,
que consolidou a legislação romana. — 97. Alberto de Germânia,
Alberto I, filho do imperador Rodolfo, eleito em 1296. — 107-8.
Cappelletti e Montecchi, famílias de Verona. Monaldi e
Filippeschi, famílias de Orvieto. — 111. Santaflor, feudo imperial
nas vizinhanças de Siena. — 118. Supremo Jove, Jesus Cristo.
— 125. Qual Marcelo, Cláudio Marcelo, adversário de Júlio
César.
312
CANTO VII
Sordello, ao saber que aquele que abraçou é Virgílio,
lhe faz
novas e ainda maiores demonstrações de afeto. O Sol está
próximo ao ocaso e ao Purgatório não se pode subir à
noite.
Guiados por Sordello, os dois Poetas param num vale, onde
residem os espíritos de personagens que no mundo desfrutaram
de grande consideração e que somente no fim da vida elevaram
o
seu pensamento a Deus.
DE doce afeto as mútuas mostras sendo
Por três ou quatro vezes reiterado
3 — “Quem sois?” — se retraiu Sordel dizendo.
— “Tinha Otávio os meus ossos sepultado
Já quando a este monte se elevaram
6 Almas que ao bem havia Deus chamado.
Virgílio sou: do céu não me afastaram
Pecados; me faltava a fé somente.” —
9 Do meu Guia estas vozes lhe tornaram.
Como quem ante si vê de repente
Maravilha: ora crê, ora duvida,
12 E diz: — É certo ou minha vista mente? —
Assim essa alma. Dobra a frente erguida
313
Humildemente, ao Vate se avizinha
15 E lhe abraça os joelhos comovida.
— “Ó glória dos Latinos!” — disse asinha
—
Que ergueste a língua nossa a tanta altura!
18 Honra eterna da amada pátria minha!
“De ver-te o que me dá graça e ventura?
Dize, se di’no de te ouvir hei sido,
21 De qual círculo vens da estância escura.”
— “Tenho aqui” — Virgílio diz — “subido,
Do triste reino os círc’los visitando,
24 Sou do céu por virtude conduzido.
“Não por fazer, mas de fazer deixando,
Ver o sol, que desejas, me é vedado:
27 Conheci-o já tarde — ai miserando!
“Lá embaixo um lugar foi destinado
Não a martírio, à treva onde há somente
30 Suspiros, não gemer de angustiado.
“Ali stou eu, no meio da inocente
Grei, que a morte cruel mordeu, enquanto
33 Da culpa humana inda era dependente.
“Com aqueles stou eu, em quem seu manto
Três celestes virtudes não lançaram,
36 Lhes dando à vista o mais suave encanto.
314
“Mas sabes se veredas se deparam
Que ao Purgatório a entrada facilitem?
39 Os indícios nos diz, se te constaram.” —
Tornou: — “Lugar não há, que almas habitem
Aqui; na direção vou, que me agrada;
42 Guiarei quanto os passos me permitem.
“Mas vê: declina o dia; na jornada,
Que fazeis, caminhar a noite veda:
45 Busquemos sítio a cômoda pousada.
“À destra e à parte multidão stá queda:
Iremos até lá, se acaso o queres,
48 Talvez te seja a sua vida leda.” —
E o Mestre: — “Como? Pelo que proferes,
Impossível será subir sem dia?
51 Ou a alguém, que o proíba, te referes?” —
Com seu dedo Sordel linha fazia
No chão e disse: — “Além ninguém passara
54 Se, ausente o sol, a noite principia.
“Mas óbice qualquer não deparara
Quem caminhar, subindo, pretendesse:
57 Para tolhê-lo a noite já bastara.
“Bem pudera baixar, se lhe aprouvesse,
315
Pelo declive em volta da montanha:
60 Enquanto o sol sob o horizonte desce.” —
Torna Virgílio, então, que ouvindo estranha:
— “Ao lugar, que nos dizes, pois, nos guia,
63 Onde a demora o júbilo acompanha.” —
Pouco longe dali notei que havia
Depressão na montanha, semelhante
66 À que na terra um vale formaria.
— “Iremos” — disse a sombra — “um pouco
avante
Té onde a encosta encurva, se escavando:
69 De lá voltar vereis a luz brilhante.” —
Entre a escarpa e o plano se inclinando
Trilha ao vale conduz obliquamente,
72 O pendor mais que ao meio, se adoçando.
Prata, alvaiade, grão, ouro fulgente,
Índico lenho límpido e lustroso,
75 Pura esmeralda, ao lapidar, luzente,
Por flores e ervas desse val formoso
Se achariam na cor escurecidos
78 Como cede o mais fraco ao mais forçoso.
Aos donosos males espargidos
Mil suaves aromas se ajuntavam,
316
81 Em peregrino muito reunidos.
Sobre a relva entre as flores entoavam
Salve Regina, as almas, que da vista
84 Externa no recinto se ocultavam.
“Do sol enquanto a luz inda persista” —
O Mantuano disse, que nos guia,
87 “Ir não queiras à grei que de nós dista.
“Gestos e vultos seus conheceria
Qualquer de vós daqui mais claramente
90 Do que, de perto os vendo, o poderia.
“O que parece, aos outros, eminente.
Da quebra em seus deveres pesaroso
93 E a geral melodia ouve silente,
“É Rodolfo que fora poderoso.
Conta o mal que já tem a Itália morta:
96 Quem lhe dará porvir esperançoso?
“O que com seu semblante ora o conforta
Governava esse reino onde a água brota,
99 Que o Molta ao Álbia, o Álbia ao mar
transporta.
“É Otocar: na infância melhor nota
Teve que o filho, Venceslau barbudo,
102 Na luxúria e preguiça a vida esgota.
317
“Morrendo, o que não tem nariz agudo
E fala a esse outro de benino aspeito,
105 Deixou dos lizes deslustrado o escudo.
“Atentai: como bate ele no peito!
Vede aquele que ao ar suspiros lança
108 Da mão fazendo à sua face um leito.
“Sogro e pai do flagelo são da França;
Cientes do viver seu vergonhoso,
111 Dor stão sentindo, que ora não descansa.
“Esse membrudo, que o cantar piedoso
Segue do que nariz tem desmarcado,
114 Das virtudes no culto foi zeloso.
“Se o mancebo, ora atrás dele assentado,
Ao trono sucedera-lhe, subira
117 Valor de um Rei por outro fora herdado.
“Dos maus herdeiros qual pôs nisso a mira?
Jaime Fred’rico havendo o reino tido,
120 Nenhum a melhor parte possuíra.
“Rara vez tem nas ramas ressurgido
Primor alto da estirpe; assim o ordena
123 Aquele, a quem ser deve o bem pedido.
“Ao narigudo aplicação tem plena
318
Meu dito e a Pedro, que ao seu lado canta:
126 Apúlia com Provença, geme e pena.
“Tanto ao seu fruto excede em preço a planta,
Quanto, mais que Beatriz e Margarida,
129 Constança ações do esposo seu decanta.
“Ali vedes o Rei de simples vida
Sentado à parte, Henrique de Inglaterra:
132 Teve este em ramos seus melhor saída.
“Mais abaixo notai sentado em terra
Marquês Guilherme e para o alto olhando,
Por quem, sofrendo Alexandria guerra,
136 Montferrat, Canavese estão chorando.” —
4. Otávio, o imperador Augusto. — 94. Rodolfo, de Habsburgo,
imperador de 1273 a 1291. — 96. Quem etc., o imperador
Henrique VII, que tentou pôr ordem na Itália. — 98. Esse
reino
etc., a Boêmia, onde nasce o rio Moldava (Molta), que
desemboca no Elba (Albia). — 100. Otocar II, adversário de
Rodolfo, foi de melhor índole que seu filho Venceslau. — 103.
O
que não tem nariz agudo, Filipe III de França, pai de Filipe
o
Belo e de Carlos de Valois. — 104. Esse outro, Henrique I de
Navarra, sogro de Filipe o Belo e pai de Joana I. — 109. Do
flagelo da França, Filipe o Belo. — 112. Esse membrudo, Pedro
III de Aragão, que, depois da revolução das Vésperas,
conquistou a Sicília. — 113. Ao que nariz tem desmarcado,
Carlos I de Ànjou que, vencendo Manfredo, conquistou a Sicília.
— 115-20. Se o mancebo, Afonso III, primogênito de Pedro de
Aragão, que morreu moço, foi melhor príncipe do que os
seus
sucessores, Jaime II no reino de Aragão e Frederico na Sicília.
319
— 126. Apúlia etc., os reinos de Provença e de Nápoles
lamentam a morte de Carlos I, pois são mal governados pelo seu
sucessor Carlos II. — 127-29. O fruto etc., tão inferior é
Carlo II
de Anjou a Carlos I, quanto este foi inferior a Pedro III. — 131.
Henrique III, da Inglaterra, o qual teve um bom sucessor na
pessoa de Eduardo I. — 134. Marquês Guilherme, senhor de
Monferrato, cuja morte originou uma guerra desastrosa para os
seus súditos.
320
CANTO VIII
No começo da noite dois anjos descem do Céu para expelir a
serpe maligna que quer entrar no vale. Entre as sombras que se
aproximam dos Poetas, Dante reconhece Nino Visconti, de Pisa.
Conrado Malaspina pede a Dante notícias de Lunigiana, sua
pátria; Dante responde elogiando a sua família.
ERA o tempo, em que mais saudade sente
Do navegante o coração no dia
3 Do adeus a amigos, que relembra ausente;
E ao novel peregrino amor crucia,
Distante a voz do campanário ouvindo,
6 Que ao dia a morte, flébil, denuncia.
Não mais ouvia os olhos dirigindo
Perto um espírito vi que levantado,
9 Acenava, que ouvissem-no pedindo.
E, havendo as duas mãos juntas alçado,
Parecia, olhos fitos no Oriente,
12 A Deus dizer: És todo o meu cuidado!
Te lucis entoou devotamente
Com tão suave, tão piedoso canto,
15 Que me enlevava em êxtase a mente.
321
Com igual devoção e igual encanto,
Nas supernas esferas engolfados,
18 Repetiram os outros o hino santo.
Leitor, tem da alma os olhos afiados
Para os véus da verdade penetrares:
21 Fácil é, tão sutis são, tão delgados.
A nobre turba, após os seus cantares,
Calou-se; então notei que, como à espera,
24 Pálida e humilde a vista erguia aos ares.
E vi sair descendo, da alta esfera
Anjos dois, empunhando flamejantes
27 Gládios a que truncada a ponta era.
Verdes quais folhas novas vicejantes
As vestes suas são, as agitando
30 As plumas das suas asas viridantes.
Um acima de nós se colocando,
Baixara o outro sobre o lado oposto,
33 Desta arte as almas de permeio estando.
A flava coma via-lhes: seu rosto
Contemplar impossível me seria:
36 Confunde a vista o lúcido composto.
“Do sólio ambos descendem de Maria”
322
Sordelo diz — “a do vale por amparo,
39 Onde a serpente vai chegar ímpia.”
Por onde ela viesse estando ignaro
Em torno olhei e, do terror tomado,
42 Busquei refúgio ao pé do amigo caro.
Sordel prossegue: — “É de falar chegado
Àqueles grandes spíritos o instante:
45 Ledos serão de ver-vos ao seu lado.” —
Para baixar ao val me foi bastante
Três passos dar: um spírito fitava
48 Perscrutadora vista em meu semblante.
Já de sombras o ar se carregava;
Mas aos seus e aos meus olhos embaraço
51 Não era para ver-se o que ali stava.
A mim vem, eu para ele aperto o passo:
— “Nino exímio juiz quanto me agrada
54 Ver-te liberto do infernal regaço!”
De afeto após a mostra reiterada,
Inquiriu: — “Por longínquas águas quando
57 Chegaste ao pé da altura alcantilada?”
— “Oh!” — lhe tornei — “esta manhã,
passando
Pela triste mansão: ainda a vida
60 Primeiro gozo e a outra vou buscando.” —
323
Mal fora esta resposta proferida,
Nino e Sordel, de pasmo, recuaram;
63 Como se fora maravilha ouvida.
Ao Vate este volveu-se; e se escutaram
Vozes de Nino a outro: — “Vem, Conrado, —
66 De Deus ver o que as leis determinaram!”
— “Por essa gratidão” — a mim voltado
Disse — “que ao Ente deves invisível,
69 Cuja ação compreender nos é vedado.
“Te imploro que, em passando o mar temível,
Digas à filha minha que suplique
72 Por mim: Deus à inocência é tão sensível!
“Não creio que em prol meu a mãe se aplique
Depois que os brancos véus trocou demente:
75 Dor terá infeliz! — que mortifique.
“Se conhece, por ela, facilmente
Quanto em mulher de amor fogo perdura
78 Se o caminho falece e o olhar freqüente.
“Não lhe fará tão bela sepultura
A víbora com que Milão se ostenta,
81 Como a fizera o galo de Galura.” —
Assim dizia Nino. Ainda o alenta
324
O justo zelo, que traduz no rosto,
84 Que brando ardendo, o ânimo aviventa.
Ávido os olhos tinha eu no céu posto,
À parte em que os luzeiros são mais lentos,
87 Qual roda onde o seu eixo está disposto.
E o Mestre: — “Os olhos ao que tens atentos?” —
Respondi-lhe: — “Aos três astros luminosos,
90 Que o pólo acendem, célicos portentos.” —
— “As quatro estrelas” — me tornou — “formosas,
Que por manhã já vimos, se ocultaram.
93 Aí mesmo estas surgem fulgurosas.” —
Sordel, quando estas vozes me voaram,
O tira a si dizendo: — “eis o inimigo!” —
96 Os olhos o seu dedo acompanharam.
Do val na parte exposta ver consigo
Uma serpe, que a rastos coleava:
99 Talvez o pomo deu, de Eva perigo.
Entre as ervas e flores avançava,
A um lado e a outro a fronte volteando;
102 Lambendo o dorso, a língua dilatava.
Não pude ver como ao réptil nefando
Os celestes açores se enviaram;
105 Mas atônito os vi ambos pairando.
325
O sussurro que as asas no ar formaram,
Em sentido, fugiu presto a serpente:
108 Os anjos logo aos postos seus tornaram.
A sombra, que viera incontinênti
Do juizo ao chamado enquanto o assalto
111 Durou, me estava olhando atentamente
— “Tenha o fanal, que te conduz ao alto
No teu desejo válido alimento!
114 De luz para subir não sejas falto!
“Mas se houveste” — me diz — “conhecimento
De Valdimagra ou terra que confina,
117 Declara: eu de poder lá tive aumento.
“Chamado fui Conrado Malaspina;
Não o antigo, porém seu descendente:
120 Amor, que tive aos meus aqui se afina.” —
— “Lá não fui” — respondi-lhe reverente
—
“Mas da Europa em que parte a excelsa fama
123 Dos feitos vossos não tem eco ingente?
“A glória que o solar vosso proclama,
Honra o domínio, honra os seus senhores
126 Quem nunca os viu louvores seus aclama.
“Juro, e tão certo eu veja os esplendores
326
Do céu, que a vossa raça guarda intatos
129 Da opulência e bravura altos primores.
“Por sua índole egrégia, por seus atos,
Enquanto ao mundo um chefe mau transvia,
132 Só ela segue o bem e o prova em fatos.” —
— “Vai!” — disse — “Antes que o belo
astro do dia
Sete vezes penetre nesse espaço,
135 Que o Áries cobre na celeste via,
“Tão boa opinião com fundo traço
Melhor será na tua fronte impressa
Do que de outro por voz a cada passo,
139 Se do Sumo Querer ordem não cessa.” —
1. Era o tempo etc., começava a cair a noite. — 13. Te lucis
etc.,
começo de um hino da Igreja. — 19-21. Leitor etc., o Poeta
adverte que além do sentido literal o que vai dizer tem um
sentido alegórico. — 53. Nino exímio juiz, Ugolino Visconti,
juiz
de Galura, na Sardenha. — 65. Conrado, Conrado Malaspina,
marquês de Lunigiana. — 71. À filha minha, Joana, filha
de
Nino. — 73. A mãe, Beatriz d’Este, viúva de Nino,
desposara em
segundas núpcias a Galeazzo Visconti. — 80. A víbora,
brasão
da família Visconti. — 119. O antigo, o avô de Conrado
Malaspina, do mesmo nome. — 136. Tão boa opinião etc.,
em
1306 Dante teve boa acolhida nos Castelos dos Malaspina, em
Lunigiana.
327
CANTO IX
Ao despontar do novo dia Dante adormece e, no sono é
transportado por Luzia até a Porta do Purgatório. Aproximam-se
da entrada e aqui um anjo abre-lhes a porta, depois de ter
gravado na testa de Dante sete PP.
JÁ clareava de Titão antigo
A concubina as fímbrias do oriente,
3 Deixando os braços do seu doce amigo;
Era-lhe a fronte de astros refulgente,
Figura do animal frio formando,
6 Que vibra a cauda contra a humana gente.
No lugar, em que estávamos, se alçando
Dos passos seus havia a Noite andado,
9 E o terceiro ia as asas inclinando,
Quando eu, tendo o que Adam nos há legado,
De sono sobre a relva fui vencido,
12 Lá onde junto aos quatro era sentado.
Ante-manhã, na hora, em que gemido
Triste a andorinha a soluçar começa,
15 Talvez na antiga dor pondo o sentido;
328
Já não stando da carne mais opressa
A mente e livre do pensar terreno,
18 Quase divina por visões pareça,
Pairar sonhei que via no ar sereno
De áureas plumas uma águia, que mostrava
21 Querer baixar, das asas pelo aceno.
Estar eu na montanha imaginava,
Onde os seus Ganimede abandonara
24 Alado à corte excelsa, que o esperava.
E eu pensava: talvez esta ave rara,
Caçar aqui soindo, a nédia preia
27 Fazer noutros lugares desdenhara;
A traçar giros vários avistei-a:
Eis, terrível, qual raio, a mim se envia,
30 E lá do fogo à região me alteia.
Esta águia, então julguei, comigo ardia
Tanto, que foi o sonho meu quebrado
33 Pelo fingido incêndio, que eu sentia.
Como, acordando, Aquiles espantado
Ficou por não saber onde se achava
36 No lugar aos seus olhos devassado,
Quando a mãe que a Quíron o arrebatava,
O transportou a Sciro adormecido,
329
39 Donde astúcia depois lho retirava:
Assim fiquei ao ser desvanecido
Das pálpebras o sono, semelhante
42 A quem desmaia em cor de horror transido.
Junto a mim eu só vi naquele instante
Virgílio; o sol duas horas já media;
45 Ao mar tinha eu voltado inda o semblante.
— “Não teme!” — estas palavras proferia —
“Sê tranqüilo, o bom porto não mais dista,
48 Alarga o coração, não entibia;
“O Purgatório já daqui se avista.
Onde a rocha é fendida está a entrada,
51 A rocha o cinge e tolhe o aspeto à vista.
“Ao romper da alva ao dia antecipada,
Quando no vale em sono eras jazendo
54 Sobre a ervinha de flores esmaltada,
“Eis mostrou-se uma Dama nos dizendo:
Sou Luzia; pois dorme, vou trazê-lo,
57 Leve assim a jornada lhe fazendo —
“Ficando as nobres almas com Sordelo,
Tomou-te; e como já raiasse o dia
60 Subiu: seguiu seus passos, com desvelo
330
“Depôs-te; e por seus olhos me dizia
Que próxima ali stava a entrada aberta.
63 Ela se foi e o sono te fugia.” —
Como quem stando em dúvida, se acerta,
Converte o seu temor em confiança,
66 Logo em sendo a verdade descoberta:
Assim me achei mudado. Ele que alcança
Que esforçado já stou, vai por diante
69 Pela altura; o meu passo após avança.
Vês, leitor, que assunto altissonante
Se faz; e não estranhes se mais arte
72 Mor lustre lhe acrescenta de ora avante.
Acercamo-nos, pois, da rocha à parte,
Onde eu antes rotura divisava
75 Como em muralha fenda que reparte;
Ora uma porta e degraus três notava
Para entrar, cada qual de cor dif’rente,
78 E um porteiro que tácito ficava.
E, de mais perto olhando, claramente
No mais alto degrau o vi sentado:
81 Ofuscava-me a face refulgente.
Na destra um gládio eu tinha empunhado,
que tão vivos lampejos refletia,
331
84 Que em vão fitava os olhos deslumbrado.
— “Parai e respondei-me” — principia —
“Que intentais? Quem vos guia na jornada?
87 Efeitos não temeis dessa ousadia?” —
— “Dama do céu, de tudo isso inteirada”
— Falou Virgílio — “disse-nos: — Avante!
90 Não longe fica a porta desejada.” —
— “Seja ela aos vossos passos luz brilhante”
— Logo beni’no o anjo nos tornava —
93 “Aos degraus nossos vinde por diante.” —
Chegamos: o degrau primeiro estava
De alvo mármor tão terso, tão polido,
96 Que a minha imagem nele se espelhava.
Era escuro o segundo e não brunido,
Tosca pedra o formava e calcinada;
99 Ao longo a via e de través fendido.
De pórfiro o terceiro e carregada
Tinha a cor de vermelho flamejante,
102 Qual sangue, que da veia flui rasgada.
Neste firmava o anjo rutilante
Os pés, ao limiar sentado estando,
105 Que ser me pareceu de um só diamante.
332
Tirado por Virgílio vou-me alçando
Jubiloso. Ele disse — “Humildemente
108 Requer, que te abra a porta deprecando.” —
Aos sacros pés dobrei devoto a frente;
Misericórdia, vezes três batendo
111 Nos peitos, para abrir pedi fervente.
Da espada a ponta sete PP me havendo
Na testa aberto, disse o anjo: — “Lava
114 Lá dentro estes sinais te arrependendo.” —
Chaves duas tomou quando acabava,
De sob as vestes, onde a cor, atento
117 De terra seca eu cinzas observava.
Uma era de ouro, a outra era de argento.
Primeiro a branca, após a flava aplica
120 À porta: foi completo o meu contento.
— “Se emperrada das duas uma fica
E não dá volta” — disse — “à
fechadura,
123 Isto entrada defesa significa.
“Se mais preço um tem, noutra se apura
Mais arte para abrir e mais engenho,
126 Das molas cede-lhe a prisão mais dura.
“Mandou Pedro de quem as chaves tenho
Que em abri-la antes erre que em cerrá-la
333
129 Aos que a exoram com ardente empenho.” —
Tocando a santa entrada, ainda nos fala:
— “Penetrai; mas, de agora, vos previno,
132 Quem olha para trás pra fora abala.” —
Os portões já se movem do divino
Recinto, e os espigões, rangendo, giram
135 Nos gonzos de metal sonoro e fino:
Quando, vãos de Metelo os esforços, viram
Roubado o erário, com estrondo tanto
138 As portas de Tarpéia não se abriram.
Aos rumores atento, doce canto —
Te Deum laudamus escutar julgava,
141 De conceitos unido ao meigo encanto.
Ouvindo, em mim a sensação calava,
Que a voz bem modulada nos motiva,
Quando com ternos sons de órgão se trava;
145 Que uma voz emudece, outra se esquiva.
1. De Titão antigo etc., a concubina do velho Titão é
a aurora. —
5-6. Animal frio etc., talvez a constelação dos Peixes ou do
Escorpião. — 23. Onde os seus Ganimede abandonara, quando
Júpiter o fez raptar para servir de copeiro aos deuses, no
Olimpo. — 34. Aquiles espantado etc., Tétis, mãe de Aquiles,
o
transportou para a ilha de Sciro, de onde os gregos Ulisses e
Diômedes o conduziram à guerra de Tróia. — 56. Luzia,
Santa
334
Luzia. — 112. Sete PP, os sete pecados mortais. — 136. Quando
vãos de Metelo os esforços etc., as portas do Purgatório
se
abriram com maior estrondo do que se abriram as portas da
rocha Tarpéia, quando, apesar da resistência de Cecílio
Metelo,
Júlio César as abriu para apossar-se do dinheiro público.
335
CANTO X
Os dois Poetas sobem ao primeiro compartimento do Purgatório,
cuja escarpa é de mármore, no qual estão esculpidos vários
espisódios de humildade. Eles os observam e no entanto vêem
em sua direção várias almas curvadas sob o peso de grandes
pedras. São as almas dos que no mundo foram soberbos.
PASSADO estando o limiar da porta,
Das paixões pelo excesso desusada,
3 Que reta faz supor a estrada torta,
Pelo estrondo senti que era cerrada.
Se atrás volvesse os olhos, qual seria
6 A desculpa da falta perpetrada?
Subíamos por fenda que se abria
Na rocha, a um lado e ao outro serpeando,
9 Qual onda, que ora acerca, ora desvia.
“Aqui ser destro cumpre, acompanhando” —
Disse o Mestre — “o caminho árduo, fragoso,
12 Que as sinuosas voltas vai formando.” —
A passo íamos, pois, tão vagaroso,
Que a lua o crescente reclinado
15 Era já no seu leito de repouso,
336
Quando aquela estreiteza hemos deixado
Espaços livres alcançando e abertos,
18 Onde o monte pra trás era inclinado;
Eu inanido e ambos nós incertos
Da vereda, em planura enfim paramos,
21 Mais solitária que áridos desertos.
Do precipício a borda calculamos
Distar da oposta, em que o rochedo alteia,
24 Comprimento que em homens três achamos.
Na extensão, que ante mim se patenteia,
Da direita ou da esquerda igual largura
27 Nessa cornija aos olhos se franqueia.
Não déramos um passo na planura,
Quando notei que a escarpa sobranceira,
30 Que ascender não permite a sua altura,
Era alvo mármor, tendo a face inteira
Talhada com primor, que a Policleto
33 Tomara e à natureza a dianteira.
O anjo, que da paz trouxe o decreto,
Tantos séc’los com lágrimas pedido,
36 Que o céu abriu, donde o homem stava exceto,
Ao vivo ali mostrava-se insculpido,
337
No gesto e no meneio tão suave,
39 Que em pedra não parece estar fingido.
Quem não jurara que profere o Ave,
Pois juntamente figurada estava
42 Quem do supremo amor volvera a chave?
Seu semblante estas vozes expressava
Ecce ancilla tão propriamente,
45 Como na cera imagem, que se grava.
— “Num ponto só não prendas tanto a mente”
—
Virgílio me falou, tendo-me ao lado,
48 Aonde o coração bater se sente.
Para mais longe olhei: maravilhado
Após Maria então vi que disposta,
51 Da parte, em que era o Mestre colocado,
Fora outra história em mármore composta.
Ao sábio adiantei-me: de mais perto
54 Aos meus olhos melhor ficara exposta.
O carro com seus bois na rocha aberto
E a Arca santa que conduz, mirava:
57 Lembra aos profanos o castigo certo.
Em coros sete o povo ali cantava:
Do olhar em mim o ouvido dissentia,
60 Pois se um dizia sim, outro negava;
338
De igual modo na pedra percebia
Ao ar o fumo se elevar do incenso:
63 Da vista o asserto o olfato desmentia.
Da Arca adiante, com fervor imenso,
Dançando humilde via-se o salmista,
66 Mais e menos que um Rei no zelo intenso.
Mícol, do régio paço, em frente, a vista
No Rei fitava, o ato lhe estranhando,
69 Que lhe move desgosto e que a contrista.
Desse lugar depois eu me afastando,
De perto contemplar fui outra história,
72 Que além um pouco, estava branquejando.
Aqui brilhava a preminente glória
Desse famoso Imperador romano,
75 Por quem Gregório obteve alta vitória.
Ao natural tirado era Trajano:
Do freio do corcel mulher tratava;
78 Dizia o pranto sua dor, seu dano.
De cavalheiros tropa se apinhava,
E nas bandeiras a águia de ouro alçada
81 Acima dele aos ventos tremulava.
A infeliz, dos guerreiros rodeada,
339
Parecia dizer: — “Senhor, vingança!
84 Morto é meu filho e eu gemo atribulada.”
E Trajano tornar: — “Toma esperança
Até que eu volte.” — E a mísera pungida
87 Da dor que, em mãe, a tudo se abalança:
— “Senhor, se não voltares?” — “Deferida
Serás de herdeiro meu.” — “Bem que outro faça
90 Que val’, se a obrigação tens esquecida?” —
E ele: — “Ânimo esforça na desgraça.
Meu dever cumprirei sem mais espera,
93 Justiça o exige, compaixão me enlaça.” —
Quem novas cousas nunca vê, fizera
Visível sobre a pedra esta linguagem:
96 Arte não sobe a tão sublime esfera.
Enquanto me enleava em cada imagem,
Em que há dado aos extremos da humildade
99 De operário a perícia mor vantagem,
— “Eis almas lentamente em quantidade
Acercam-se; a mais alta” — disse o Guia —
102 “Nos pode encaminhar sua bondade.” —
A vista, que em portentos se embebia,
De olhar outros já sôfrega, volvendo,
105 Atentei no que o Mestre me advertia.
340
Mas, leitor, que esmoreças não pretendo,
Nem que os bons pensamentos te faleçam,
108 Como os pecados pune Deus sabendo.
Nem os martírios nímios te pareçam;
Pensa bem no porvir; pois, em chegando,
111 O grão Juízo, em caso extremo, cessam.
E eu disse: — “O que ora a nós vem caminhando
Não creio sombras ser: o que é portanto?
114 Não sei, a percepção turbada estando.” —
— “Do seu tormento, que te movo espanto
É condição à terra irem curvados:
117 Também a vista duvidou-me um tanto.
“Olhos fita; imagina levantados
Os que vêm dessas pedras oprimidos:
120 Já vês quanto eles são atormentados.”
Cristãos soberbos, míseros, perdidos,
Cegos da alma, que haveis pra trás andado,
123 De tanta confiança possuídos,
Que vermes somos não vos stá provado,
De que surge a celeste borboleta,
126 Que incerta voa ao tribunal sagrado?
Por que do orgulho assim passais a meta,
341
Se sois insetos no embrião somente,
129 Vermes de formação inda incompleta?
A modo de pilar ver-se é freqüente,
Joelhos, peito unindo, uma figura
132 Cornija ou teto a sustentar ingente.
Da dor mera ficção move tristura
Em quem olha: senti então notando
135 Das almas penitentes a postura.
Mais umas, outras menos, se dobrando
Iam, segundo o fardo, que traziam;
E as que eram mais sofridas, pranteando,
139 Não posso mais! — dizer me pareciam.
32. Policleto, célebre escultor grego. — 34. O anjo, Gabriel.
—
42. Quem, etc., a virgem Maria. — 57. Lembra aos profanos o
castigo certo, Oza caiu fulminado por ter-se aproximado da
Arca, que ameaçava cair (Samuel II-6). — 65-66. Dançando
humilde via-se o salmista, Davi dançava precedendo a Arca. —
67. Mícol, esposa de Davi manifestava censura pelo ato humilde
do esposo. — 74-75. Desse famoso imperador, Trajano, que,
segundo uma lenda, o papa Gregório I conseguiu, com suas
preces, voltasse à vida terrena e, batizado, fosse para o Céu.
—
124-126. Que vermes somos etc., como do verme nasce a
borboleta, assim nós homens outra coisa não somos senão
vermes dos quais devem surgir as borboletas dignas de subir ao
Céu.
342
CANTO XI
Virgílio pergunta às almas que purgam o pecado da soberbia
qual
é o caminho para subir ao segundo compartimento, e uma delas
dá a indicação requerida. Umberto Aldobrandeschi dá-se
a
conhecer e fala com Dante, que, depois, reconhece Oderisi de
Gubbio, pintor e gravador. Oderisi dá-lhe notícia de Provenzano
Salvani, que está junto com eles.
VÓS, que nos céus estais, ó Padre nosso,
Não circunscrito, mas porque haveis dado
3 Mais aos primeiros seres o amor vosso,
“Vosso nome e poder seja louvado!
Graças à criatura jubilosa
6 Ao saber vosso renda sublimado!
“Do reino vosso a paz venha ditosa!
Que vão de havê-la o empenho nos seria,
9 Se não vier da vossa mão piedosa.
“Como a vós a vontade se humilia
Dos vossos anjos, entoando hosana,
12 Façam assim os homens cada dia!
“A substância nos dai quotidiana
Hoje: sem ela em áspero deserto
343
15 Se atrasa quem por ir além se afana!
“E como a quem nos faz mal descoberto
Damos perdão, nos perdoai clemente,
18 Indi’nos sendo nós, Senhor, por certo.
“Oh! não deixeis cair a defidente
Virtude nossa em tentação do imigo!
21 Livrai-nos dele, em nos pungir ardente!
“Não mais somos, Senhor, nesse perigo,
Em que precisa esta oração nos seja;
24 Mas não os que hão mister na terra abrigo.” —
Ao céu rogando que ao seu bem proveja
E ao nosso, as almas sob o peso andavam,
27 Como o que oprime a quem sonhando esteja.
Com desigual gravame se arrastavam
Ofegantes no círculo primeiro,
30 E do pecado as névoas expurgavam,
Se em bem nosso com zelo verdadeiro,
Oram, como em seu prol fará no mundo
33 Quem tem no bem querer seu peito useiro?
Ajudemo-las, pois, vestígio imundo
A lavar, por que leves, puras sejam,
36 Do céu se alando ao brilho sem segundo.
344
“Ah! compaixão, justiça vos consigam
Presto alívio, e possais, o vôo erguendo,
39 Ir até onde os desejos vos instigam!
“Valei-nos a vereda nos dizendo
Mais curta ou a que é menos escarpada,
42 Mais de um caminho a se ascender havendo.
“Ao companheiro meu assaz pesada
É a carne de Adam, que inda o reveste:
45 Por mais que esforce, o afana esta jornada.” —
A voz, que respondeu ao Mestre a este
Dizer, não sei a que alma pertencia
48 Por indício qualquer, que o manifeste:
— “Vinde à direita em nossa companhia
Pela encosta, e vereis o passo estreito,
51 Que uma pessoa viva subiria.
“Se este penedo não tolhesse o jeito,
A cerviz orgulhosa me domando
54 E obrigando a juntar o rosto ao peito,
“Deste homem para a face, atento olhando,
(Não sei quem é) talvez o conhecera,
57 E assim me fora compassivo e brando.
“Toscano fui, ilustre pai tivera.
Guilherme Aldobrandeschi se chamava:
345
60 O nome seu algum de vós soubera?
“Tanta arrogância a glória me inspirava
Do meu solar e os feitos valorosos,
63 Que a nossa mãe comum não mais pensava,
“Olhos volvendo a todos desdenhosos.
Perdi-me assim; os atos meus em Siena
66 Foram em Campagnatico famosos.
“Chamei-me Umberto; da soberba a pena
A mim não coube só: de igual desgraça
69 Vem a causa que aos meus todos condena.
“Este fardo, que os passos me embaraça
Mereço, por cumprir-se a lei divina:
72 Vivo o não fiz, é justo que ora o faça.” —
Enquanto, ouvindo, a fronte se me inclina,
Uma das almas (não a que falava)
75 Sob o peso se torce, que a amofina.
E viu-me e, conhecendo-me, chamava,
Os olhos seus fitando esbaforida
78 Em mim, que, recurvado a acompanhava.
— “Oderisi não foste” — eu disse — “em
vida,
Honra de Agubbio, honra daquela arte
81 Que iluminar Paris ora apelida?” —
346
— Tornou-me: — “Hoje o pincel (cumpre
informar-te)
De Franco de Bolonha mais agrada:
84 A honra é toda sua, minha em parte.
“Por mim não fora em vida proclamada
Esta verdade, quando esta alma ardia
87 Na ambição de primar nessa arte amada.
“Aqui de tal soberba o mal se expia;
Staria alhures; mas a Deus eu pude
90 Mostrar que de pecar me arrependia.
“Quanto a vaidade o peito humano ilude!
Dessa flor como esvai-se a formosura,
93 Se não seguir-se um séc’lo inculto e rude!
Cimabue cuidou ter na pintura
A liça dominado: mas vencido
96 Ficou: a glória Giotto fez-lhe escura.
Assim de estilo na arte cede um Guido,
A palma a outro: agora é bem provável
99 Seja de ambos o mestre já nascido.
“Rumor mundano é como vento instável
Que a direção varia de repente:
102 Conforme o lado, o nome tem mudável.
“De ti que fama ficará manente,
347
Se da velhice cais no extremo passo,
105 Ou se findas na infância inconsciente,
“De hoje a mil anos, tempo mais escasso,
Da eternidade em face, que um momento
108 Ante a esfera a mais tarda lá no espaço?
“Quem me precede e vai assim tão lento
Na Toscana entre todos foi famoso:
111 Apenas salvo está do esquecimento.
“Em Siena, que há regido poderoso,
Quando perdeu-se a raiva florentina.
114 Soberba então, objeto hoje asqueroso.
“A fama vossa iguala-se à bonina,
Que flore e morre: o sol, por quem nascera
117 Na terra a prostra e a cor cresta à mofina.” —
Respondi-lhe: — “O dizer teu em mim gera
Saudável humildade e o orgulho mata.
120 Esse, que apontas, conta-me quem era.” —
“De Provenzan Salvani” — diz — “se trata:
Aqui stá, porque Siena ele cuidara
123 Ter nas mãos — presunção de alma insensata!
“Caminha assim curvado, e nunca pára
Dês que a vida perdeu eis o castigo
126 De quem tanto à soberba se entregara!” —
348
— “Se o que demora até final perigo
A penitência” — eu disse — “e errado corre,
129 Subir não pode e aqui não acha abrigo,
“Se uma oração piedosa o não socorre,
Durante prazo igual ao da existência,
132 Como ao martírio Provenzan concorre?” —
— “Quando era” — torna — “no auge da
influência,
Sobre a praça de Siena, suplicando,
135 Ter ante o povo humilde continência,
“De um amigo o resgate procurando,
Que era por Carlos em prisão detido,
138 Tremeu angustiado e miserando.
“Não mais: não sou, de obscuro, compreendido,
Mas te há de ser em breve isto explicado
Por filhos dessa terra em que hás nascido. —
142 “Por tão bom feito o ingresso lhe foi dado.”
59. Guilherme Aldobrandeschi, senhor de Grosseto. Quem fala é
o filho Umberto, que guerreou contra Pisa. — 79. Oderisi de
Gubbio, excelente pintor e miniaturista. — 83. Franco de
Bolonha, célebre miniaturista. — 94-96. Giotto e Cimabue,
célebres pintores. Giotto, discípulo de Cimabue, superou o
mestre na sua arte. — 97-98. Um Guido e outro, Guido
Cavalcanti superou a Guido Guinicelli na arte da poesia. — 121.
349
Provenzano Salvani, de Siena, senhor muito poderoso, morto na
batalha de Colle em 1269. — 133-138. Quando era etc., para
obter a libertação de um amigo prisioneiro de Carlos d’Anjou,
ele se humilhou a pedir a esmola aos seus concidadãos.
350
CANTO XII
Os dois Poetas continuam a viagem. No pavimento do círculo
estão pintados vários exemplos de soberbia castigada. Um anjo
vem junto dos Poetas e os guia até a escada que sobe ao
compartimento sucessivo. Com a asa, depois, apaga da testa de
Dante um dos PP.
A PAR, como dois bois, que o jugo unira,
Eu com essa alma opressa e titubeante
3 Ia, enquanto Virgílio permitira.
Eis disse-me: — “Deixando-a, segue avante:
Deve fazer de vela e remos força
6 Quem quer à parca impulso dar constante.” —
A caminhar dispus-me à voz, que esforça,
Erguendo logo o corpo, inda que a mente
9 Na humildade a modéstia acurve e estorça.
Já os pés acelero e facilmente
A Virgílio acompanho: de porfia,
12 Se mostra cada qual mais diligente.
— “À terra olhos inclina” — então dizia
—
“Para a jornada aligeirar atenta
15 No solo, onde o meu passo aos teus é guia.”
351
Assim como na campa se aviventa
A memória dos mortos, insculpindo
18 Imagem, que a existência representa,
Que de saudade os corações ferindo,
À piedade propensos e à ternura,
21 Os vai ao pranto muita vez pungindo:
Assim, com perfeição sublime e pura,
Figuras via sobre aquela estrada,
24 Que sobe, serpeando, pela altura.
Via, a um lado, dos céus precipitada
Das criaturas a mais bela e nobre,
27 Qual raio, pelo espaço arremessada.
A vista, o outro, Briaréu descobre
De projétil celeste transpassado:
30 Gélido a terra desmedido cobre.
Com Marte e Palas stava figurado
Timbreu, em torno ao pai de armas fornidos,
33 Vendo o campo de imigos alastrado.
Nemrod olhos volvia espavoridos,
Junto à feitura imensa, aos companheiros,
36 Que a Sanaar seguiram-no, descridos.
Ó Níobe, com braços verdadeiros
352
Que dor nos olhos teus aparecia,
39 Os filhos mortos vendo, quais cordeiros!
Saul, a própria espada te extinguia
Sobre a montanha Gelboé — maldita,
42 Orvalho ou chuva ali não mais caía.
Ó louca Aracne, tua face aflita,
De aranha parte entre os destroços stava
45 Da teia, origem da fatal desdita.
Não mais a tua imagem cominava;
Num carro foges, Roboam cruento,
48 À fúria popular, que te assombrava.
Amostrava ainda o duro pavimento
Como fez Alcmeon pagar tão caro
51 À mãe o funestíssimo ornamento.
Mostrava mais como flagício raro
Senaqueribe no templo assassinado
54 Por filhos, que deveram ser-lhe amparo.
Mostrava também Ciro degolado
E Tamíris dizendo acesa em ira
57 — Sede tinhas de sangue, sê saciado! —
A multidão de Assírios que fugira,
Mostrava ao verem de Holoferne a morte,
60 E o castigo que os passos lhes seguira.
353
Via no pó, nas cinzas Tróia forte:
Ó soberba Ílion, a pedra dura
63 Mostrava a tua lamentável sorte!
Que mestre no pincel ou na escultura
Posturas, sombras tais traçar pudera,
66 Pasmo ao gênio, que atinja a suma altura?
Real ou morte ou vida aos olhos era:
A verdade não viu na própria cena
69 Melhor que eu quando a efígie a olhar stivera.
A fronte entonai, pois, de orgulho plena,
Ó filhos de Eva, os olhos não baixando
72 Ao caminho, onde achais devida pena!
Mais íamos no monte caminhando
E no seu giro o Sol mais avançara
75 Do que eu cuidava, absorto contemplando,
Quando aquele, que sempre me guiara
Desvelado, me disse: — “Alça a cabeça!
78 Não te engolfes! atento sê! repara!
“Olha aquele anjo que caminha à pressa
Ao nosso encontro: acaba a terra sexta
81 Do dia o lavor certo e outra começa.
“Reverência em teu gesto manifesta
354
Para o anjo à viagem ser propício,
84 Não volta o dia de que pouco resta.” —
Aproveitar do tempo o benefício
Era do Mestre a regra; e, pois, naquela
87 Matéria não lhe achei de obscuro o indício.
Já nos demanda a criatura bela:
Trajava branco, a face resplendia,
90 Qual, tremulando, matutina estrela.
Braços abria e asas estendia,
Dizendo: — “Vinde! que os degraus stão perto:
93 A jornada já fácil se anuncia.” —
Raros escutam essa voz, por certo:
Ó gente humana, para o céu nascida,
96 Por que decaís do vento a um sopro incerto?
Imos à rocha, por degraus partida:
De uma das asas me roçou na fronte,
99 Prometendo-me próspera subida.
Como à direita quem se erguer ao monte,
Donde se avista a igreja que domina
102 A bem regida ao pé de Rubaconte,
Sente que aos pés a ingremidade inclina
Pela escada talhada antes que houvesse
105 Em livros e medidas a rapina:
355
Adoça-se o pendor assim; pois desce
De um círc’lo a outro a rocha que alterosa
108 A um lado e ao outro augusto passo of’rece.
Subindo em melodia tão donosa
Beati pauperes spiritu escutamos,
111 Que a voz, que o diga é pouco vigorosa
Quão dif’rentes os áditos que entramos,
Dos infernais! Aqui suave canto,
114 Lá gritos de ira ouvindo caminhamos.
Vencendo esses degraus do monte santo
Mais ágil me sentia: lá no plano
117 Fácil nunca a jornada fora tanto.
Eu disse: — “Ó Mestre, de que peso insano
Sinto-me livre, pois no estreito passo,
120 Como de antes agora não afano!” —
— “Quando os PP que inda tens em vivo traço
Sobre a fronte” — tornou-me — “se apagarem,
123 Como não hás de ter mais embaraço,
“Segundo o teu desejo os pés andarem
Sentirás sem fadiga, e até gozando
126 Deleite, para a altura ao caminharem.”
Como o que traz, na praça passeando,
356
Cousa, que ignora, na cabeça posta,
129 E, por ver sinais de outrem, suspeitando,
À mão pede socorro; ela, em resposta,
Procura, acha, um serviço assim rendendo,
132 A que a vista não pode ser disposta:
Assim, da destra os dedos estendendo,
Conheci que das letras, que o anjo abrira,
Stavam somente seis remanescendo.
136 Sorriu-se o Mestre, que o meu gesto vira.
25-27. Via, a um lado etc., Lúcifer, o anjo que se rebelou contra
Deus. — 28. Briareu, gigante que se rebelou contra Júpiter e
foi
fulminado. — 31. Marte, Palas e Timbreu (Apolo), que
dominaram os gigantes rebeldes. — 34-35. Nemrod etc., que na
planície de Senaar, começou a construção da torre
de Babel. —
37. Níobe, desprezando Latona por ter esta somente dois filhos,
quando ela tinha doze, por castigo foram todos mortos por
Apolo e Diana. — 40-41. Saul, rei de Israel, derrotado em
Gelboé, suicidou-se. — 43-45. Aracne, tendo desafiado Minerva
para saber quem melhor tecia, foi por esta transformada em
aranha. — 47. Roboam, filho de Salomão, oprimiu o povo de
Israel no seu reinado e foi obrigado a fugir em conseqüência de
revolta popular. — 50. Alcmeon, matou a própria mãe Erifiles,
pois esta, para ganhar um colar de ouro, havia revelado o
esconderijo do seu marido Anfiarau aos inimigos. — 53.
Senaqueribe, rei dos Assírios, foi morto pelos filhos. — 55-57.
Tamíris, rainha dos Massagetas, tendo vencido Ciro, o mandou
matar num odre cheio de sangue, dizendo: Sacia-te de sangue,
monstro. — 59-60. Holofernes, general assírio, morto por Judite
durante o sítio da cidade de Betúlia. — 61-63. Tróia
ou Ílion,
357
destruída pelos gregos. — 80. A terra sexta, a hora sexta, meio-
dia. — 102. Rubaconte, ponte de Florença.
358
CANTO XIII
Chegam os Poetas ao segundo compartimento, no qual estão os
pecadores que expiam o pecado da inveja. Os invejosos têm os
olhos cosidos com fio de arame. Entre eles está Sápia, senhora
de Siena, com a qual Dante fala.
DA escada ao topo havíamos chegado,
Onde, outra vez cortado, o monte estreita,
3 Que alma sobe, expiando o seu pecado.
Como a primeira, outra cornija feita
Circundava a colina, só dif’rente
6 Em que a um arco menor ela se ajeita.
Relevo, formas, como a precedente,
Não mostra: e, lisa sobre a escarpa a entrada,
9 Lívida cor a pedra tem somente.
— “Se a presença de alguém fosse esperada,
Que nos preste conselho” — diz meu Guia —
12 “Temo que fique a escolha retardada.” —
Os olhos para o sol depois erguia,
E, sobre o pé direito se firmando,
15 Para a esquerda girava e se volvia.
359
— “Tu, de quem tudo fio, ó lume brando
No caminho conduz-nos que se of’rece
18 Como o exige o lugar” — disse — “guiando!
“Raiando, o teu calor o mundo aquece:
Se motivo não surge de embaraço,
21 De conduzir-nos teu fulgor não cesse!”
Vencido em breve tínhamos espaço,
Que por milha na terra calculamos,
24 Porque o desejo estimulava o passo:
Em direitura a nós voar julgamos
Invisíveis espíritos, chamando
27 De amor à mesa em lépidos reclamos.
A voz primeira que passou voando,
Vinum non habent proferiu sonora
30 E ainda muito além foi reiterando.
Mas antes de perder-se pelo ar fora,
Outra acercou-se. — “Orestes sou!” — dizia;
33 E apartou-se igualmente sem demora.
— “Que vozes estas são, Mestre?” — inquiria.
Mas, apenas falara, eis vem terceira.
36 — “Amai imigos vossos!” — eu lhe ouvia.
— “Pune este círc’lo a culpa traiçoeira”
—
O Mestre diz — “da inveja; o açoite aplica
360
39 O amor, que os rigores lhe aligeira.
“Contrário som, porém, o freio indica.
Antes que atinjas do perdão a entrada,
42 Terás de ouvi-lo; e disto certo fica.
“Tem ora a vista para além fitada;
De espíritos, ao longo do alto muro,
45 Assentados verás soma avultada.” —
Mais que de antes então a vista apuro;
Almas distingo, que envolviam mantos,
48 Que a cor imitam do penhasco duro.
Um pouco avante ouvi de esp’ritos tantos
A voz bradar: — “Por nós orai, Maria,
51 Pedro, Miguel e todos os mais Santos!”
Na terra homem tão fero não seria,
Que não sentisse o coração pungido
54 Em vendo o que aos meus olhos se of’recia.
Acerquei-me por ser mais distinguido
De cada sombra o menear e o gesto:
57 Pelos olhos à dor alívio hei tido.
Então foi claramente manifesto
Que entre si, uns aos outros se arrimavam,
60 Todos à pedra, em seu cilício mesto.
361
Assim os pobres cegos mendigavam
Nos dias de Perdão da igreja à porta,
63 Mutuamente as cabeças encostavam;
Pois a piedade o coração nos corta,
Quando ao som das palavras se acrescenta
66 Da vista a ação que o peito desconforta
E como o sol aos cegos não se ostenta,
Assim também às sombras que alivia,
69 Não mais do céu a luz olhos alenta.
Fio de ferro as pálpebras prendia
A todas, como ao gavião selvage
72 Para domar-lhe a condição bravia.
Cuidei, se andasse, lhes fazer ultraje,
Lhes vendo as faces e ocultando a minha:
75 E o Mestre olhei em tácita linguage.
E o Mestre, bem sabendo o que convinha,
Antecipou-se logo ao meu desejo
78 E disse: — “Arguto sê, e fala asinha.” —
Virgílio caminhava neste ensejo
Do lado, onde à cornija falta amparo;
81 Dali cair se pode e o risco eu vejo.
As almas do outro lado eram; reparo
Que dos olhos a hórrida costura
362
84 Provoca pranto copioso e amaro.
Voltei-me e disse: — “Ó almas, que a ventura
De ver tereis ao certo o excelso Lume;
87 De que somente o vosso anelo cura,
“Dissolva a Graça em vós todo o negrume
Da consciência e nela manar faça
90 Da mente o rio em límpido corrume!
“Concedei-me o que mais me satisfaça:
Dizei-me qual de vós latina há sido;
93 De eu sabê-lo algum bem talvez lhe nasça.” —
— “Por pátria, irmão, só hemos conhecido
A cidade de Deus: dizer quiseste
96 Peregrina na Itália haja vivido.” —
De mim remota a voz parece deste,
Que assim disse; e portanto, passo avante
99 Por saber certo a quem atenção preste.
E uma senhora entre as mais vi, que, distante,
Aguardava-me. E como eu a distinguia?
102 Qual cego, alçava o mento pra diante.
— “Tu, que para subir penas” — dizia —
“Quem foste, onde nasceste diz: te imploro,
105 Se é tua voz que, há pouco, respondia.”
363
— “Fui de Siena” — tornou — “com este
choro
Os graves erros de perversa vida,
108 E a Deus que se nos dê, clemente, exoro.
“Chamei-me Sápia, mas não fui sabida.
Mais deleite me deu o alheio dano
111 Do que a dita a mim própria concedida.
“E por que não presumas que te engano,
Se fui louca verás pelo que digo.
114 Já no declínio do viver humano
“Eu era, quando a rebater o inimigo
Em Colle os meus patrícios campearam;
117 A Deus roguei que lhes não fosse amigo.
“Destroçados, à fuga se lançaram,
E a mim, que estava aquele transe vendo,
120 Indizíveis prazeres me tornaram,
“Em modo, que atrevida, olhos erguendo,
— “Não mais Deus tenho!” — contra o céu
gritava
123 Qual melro, instantes de bonança tendo.
“Com Deus quis paz, mas quando já tocava
Da vida o termo; e ainda não pudera
126 A dívida solver, que me onerava,
“Se Pedro Pettinanho não se houvera,
Nas santas operações de mim lembrado:
364
129 Em prol meu, caridade o comovera.
“Mas quem és, que nos tens interrogado,
Que estando, creio, de olhos não tolhidos
132 E respirando indagas nosso estado?” —
— “Olhos” — disse — “terei também
cerzidos,
Porém por pouco tempo; que da inveja
135 No mundo hão sido rara vez torcidos,
“Maior receio o peito me dardeja
De outro tormento; e tanto me angustia,
138 Que o seu fardo a sentir cuido já steja.̶#8221; —
— “Mas quem ao monte” — me tornou — “te
guia,
Pois de voltar ao mundo tens certeza?” —
141 — “Quem tenho ao lado e voz não pronuncia.
“Inda vivo; e, pois fala com franqueza,
Alma eleita, se queres que os pés mova
144 Em prol teu lá na terra com presteza.” —
— “O que dizendo estás, cousa é tão nova
Que por mim rogues fervorosa peço,
147 Pois da divina dileção dás prova.
“E pelo que te merecer mais preço
Suplico-te: ao pisar terra toscana
150 Ao meu nome entre os meus aviva o apreço.
365
“Terás de vê-los entre a gente insana,
Que espera em Talamone, mas como antes,
Quando buscava as águas do Diana:
154 Mor engano há de ser dos almirantes.” —
29. Vinum non habent, é a frase que Maria disse a Jesus para
incitá-lo a fazer o milagre da transformação da água
em vinho.
— 32. Orestes sou, Orestes para salvar Pílades, condenado à
morte, apresentou-se em seu lugar. — 36. Amai imigos vossos,
v. Evang. S. Mateus V. — 44-51. Por nós orais etc., prece. —
109. Sápia, senense, casada com Ghinigaldo Saraceni. — 116.
Em Colle, onde os senenses foram derrotados pelo florentinos.
Sápia rejubilou-se disso, pois era inimiga do senhor de Siena,
Provenzano Salvani. — 127. Pedro Pettinanho, morto em fama
de santidade. — 151-154. A gente insana, os senenses. Tendo
eles comprado Telamone, queriam transformar essa cidade em
porto de mar, mas não foi possível devido à insalubridade
do
clima. Não tiveram êxito também na descoberta de um rio
subterrâneo que devia passar debaixo de Siena e que chamaram
Diana. Mais do que outros serão enganados os almirantes.
366
CANTO XIV
Dante conversa com outras almas de invejosos. Respondendo o
Poeta a uma pergunta de Rinieri de Calboli, intervém Guido del
Duca, imprecando contra as cidades de Toscana e lamentando,
depois, a degeneração das famílias nobres de Romanha.
Os
Poetas ouvem vozes que lembram episódios nos quais o pecado
da inveja foi castigado.
“ESTE quem é ao nosso monte vindo,
Sem ter-lhe a morte as asas desatado,
3 Os olhos, quando quer, fechando e abrindo?” —
— “Ignoro; mas vem de outro acompanhado.
Tu, que és mais perto, a perguntar começa,
6 E, para nos falar, mostra-lhe agrado.” —
De dois esp’ritos junto se endereça
A mim desta arte a voz: stão-me a direita,
9 Cada um para trás alça a cabeça.
— “Ó alma” — disse-me uma — “que,
na estreita
Prisão corpórea ainda, aos céus ascende,
12 Dá-nos consolo, à caridade afeita.
“Quem és e donde vens? Porque nos prende
Pasmo notando a Graça, que te ampara,
367
15 Portento que ninguém viu, nem compreende.”
—
Tornei-lhe: — “Na Toscana se depara
Rio, que brota em Falterona escasso
18 E nunca, milhas cem correndo, pára:
“Este corpo dali conduzo lasso.
Dizer quem sou discurso vão seria:
21 Meu nome inda não soa em largo espaço.” —
— “Se bem te entendo” — assim me respondia
A sombra, que antes de outra eu tinha ouvido —
24 “Ao Arno o dizer teu se referia.” —
— “Por que” — lhe atalha a outra — “ele
escondido
Nos tem do rio o nome verdadeiro?
27 Cousa horrível se encerra em seu sentido?” —
Disse-lhe a sombra, que falou primeiro:
— “Não sei; mas fora bem feliz o instante,
30 Em que o nome pereça ao vale inteiro:
“Dês que nasce lá onde é redundante
De águas a serra que o Peloro unira,
33 Noutras partes, porém, pouco abundante,
“Até que o mar do seu tributo aufira
Reparo ao que no seio o céu lhe suga,
368
36 E vida assim pra novos rios tira,
“Todos ali virtude hão posto em fuga,
Qual víbora inimiga, ou por efeito
39 Do clima, ou por moral, que o bem refuga.
“Natureza por vícios se há desfeito
Na gente desse vale impuro,
42 Como de Circe apascentada a jeito.
“Cava o rio primeiro o leito escuro
Entre porcos mais di’nos de bolota
45 Do que de cibo, em que haja humano apuro.
“Baixando, acha de gozos mó abjeta,
Em que o furor à força não se iguala,
48 E, como por desdém, busca outra meta.
“Essa maldita e desgraçada vala
Tantos mais cães em lobos vê tornados
51 Quanto mais corre e mais caudal resvala.
“Imerge em princípios mais rasgados,
Onde encontra raposas tão manhosas,
54 Que os laços mais sutis ficam frustrados.
“Do porvir direi cousas espantosas,
E quem me ouvir conserve na lembrança
57 Verdades que há de ver bem dolorosas.
369
“Teu neto os lobos a caçar se lança
Desse rio maldito sobre a riva:
60 Enquanto os não destroça não descansa.
“A carne sua vende, estando viva,
Como reses depois mata-os cruento;
63 Muitos da vida e a si da glória priva.
“Da triste selva sai sanguinolento
E a deixa, tal que ainda após mil anos
66 Tornar não há de ao primitivo assento.” —
Como, ao presságio de futuros danos,
Merencório se mostra o interessado,
69 Onde quer que a fortuna urda os enganos;
Assim o outro espírito: voltado
Para escutar se havendo, se entristece,
72 Depois que teve o sócio terminado.
Como saber seus nomes eu quisesse,
Ouvindo aquele, ao outro o gesto vendo,
75 A pergunta entre rogos se oferece.
O que falara respondeu dizendo:
“Pedes que eu, pronto, quanto anelas faça,
78 A instância minha em pouco apreço tendo.
“Mas como em ti de Deus transluz a Graça,
Não te há de ser Guido del Duca esquivo
370
81 Tanto, que o teu querer não satisfaça.
“Da inveja o fogo ardeu em mim tão vivo,
Que ao ver sorriso de outrem no semblante,
84 Em meu rosto o libor era expressivo.
“Semeei: colho o fruto repugnante.
Oh! por que, raça humana, o que repele
87 Qualquer partilha almejas ofegante?
“Este foi Rinieri: estava nele
Dos Calboli o primor: ao nome honrado
90 Herdeiro não deixou que a glória zele.
“Não só à prole sua tem faltado,
Entre o Pó e a montanha, o mar e o Reno
93 O bem para a verdade e o prazer dado;
“Pela extensa amplidão desse terreno
Alastram tudo abrolhos perigosos:
96 Quando extirpar se pode um tal veneno?
“Onde Mainardi e Lizio estão famosos?
Qual de Carpigna e Traversaro o fado?
99 Ó Romanhóis bastardos desbriosos!
“Quando um Fabro se tem nobilitado,
Como em Faenza um Fosco Bernardino,
102 Varas gentis de tronco definhado!
371
“O pranto meu não julgues pouco di’no,
Se com Guido de Prata rememoro
105 O companheiro nosso, Azzo Ugolino;
“Se Fred’rico Tignoso e a prole choro;
Solares de Anastagi e Traversara,
108 Sem herdeiros extintos, se eu deploro,
“Cavaleiros e damas, glória rara,
Que inspiravam amor e cortesia
111 Na terra, que a virtude desampara!
“Cai em ruínas, Brettinoro ímpia!
Em ti viver tua gente não quisera;
114 Com mais outras, temendo o mal, fugia.
“Bem faz Bagnacaval: prole não gera,
Castrocaro faz mal e pior Cônio
117 Que a tais condes da vida o lume dera.
“Os Pagani irão bem, quando o Demônio
Deixá-los; mais não podem nome puro
120 Já nunca possuir no solo ausônio.”
Ugolin Fantolin, ficou seguro
Da fama tua o lustre; pois já agora
123 Não terás filhos pra torná-lo escuro.
“Podes, Toscano, prosseguir embora:
Pranto, mais que discursos, me deleita;
372
126 Lembrando a pátria, o coração me chora.” —
O passo as almas na vereda estreita
Ouviam-nos, silêncio elas guardando.
129 Era a jornada com certeza feita.
Já ficaríamos sós, avante andando,
Eis brada voz nos ares de repente;
132 Veloz, qual raio, vinha a nós chamando:
— “Quem me encontrar me mate incontinênti” —
E fugiu qual trovão que distancia
135 Se o vento a nuvem rasga de repente.
O terrível clamor cessado havia,
Com medonho fracasso eis outra brada,
138 Como um trovão que a outro sucedia:
— “Aglauro sou, em rocha transformada” —
E a Virgílio acercar-me então querendo,
141 Dei, não avante, um passo atrás na estrada.
Tranqüilo o ar por toda parte vendo,
— “Este é” — falou-me o Mestre — “o
duro freio,
144 Que os homens deve estar sempre contendo:
“Mas vós mordeis a isca em triste enleio
E o prístino inimigo do anzol tira:
147 De conter ou pungir que vale o meio?
373
“O céu vos chama, em torno de vós gira,
Esplendores eternos vos mostrando;
Mas a vista, enlevada, a terra mira,
151 “E quem vê tudo então vai castigando.” —
17. Rio que brota em Falterona, o Arno. — 32. Peloro,
promontório siciliano. — 42. Circe, sereia que transformava os
homens em animais. — 58. Teu neto, Fulcieri de Calboli, neto de
Rinieri, que foi “podestà” de Florença perseguiu
o partido dos
Bancos, ao qual Dante pertencia. — 80. Guido del Duca, senhor
de Bertinoro, na Romanha. — 88. Rinieri dei Paolucci, senhor de
Calboli. — 97 e seg. Mainardi e Lizio, Carpigna e Troversaro,
Fabbro, Fosco Bernardino, Guido de Prata, Azzo Ugolino,
Frederico Tignoso, Anastagi e Traversara, senhores e famílias da
Romanha notáveis por cortesia e generosidade. — 115-117.
Bagnacaval, Castrocaro, Cônio, cidades da Romanha cujos
senhores eram maus. — 118. Pagani, nobre família de Faenza,
da qual fazia parte Mainardo (Inf. XXVI, 49-51) alcunhado o
demônio pelas suas crueldades. — 121. Ugolin Fantolin, gentil-
homem de Faenza. — 133. Quem me encontrar me mate
incontinênti, palavras pronunciadas por Caim depois de ter
assassinado o irmão Abel. — 139. Aglauro, filha de Eretero rei
de Atenas, foi transformada em pedra por Mercúrio, por ter
inveja da irmã Erse que era amada pelo deus.
374
CANTO XV
Caindo a noite, os dois Poetas chegam ao terceiro compartimento.
Aí Dante, em êxtase, vê exemplos de mansuetude e misericórdia.
Voltando a si, encontra-se imerso num fumo que obscurece o ar e
impede a visão.
QUANTO caminho faz da tércia hora,
No giro seu, a luminosa esfera,
3 — Sempre a mover-se qual criança — à aurora,
Tanto, para acabar o curso, espera
O sol, e para dar à tarde entrada:
6 Lá vésperas, aqui meia-noite era.
De luz me estava a face então banhada;
Porque, em torno à montanha prosseguindo,
9 Do ocaso em direção ia a jornada,
Quando, mais vivo resplendor fulgindo,
Ofuscado fiquei mais do que dantes:
12 Desse portento a ação pasmei sentindo.
Acima de meus olhos, por instantes,
As mãos alcei — sombreiro, que antepara
15 O mor excesso aos raios deslumbrantes.
375
Assim como de espelho ou linfa clara
Ressalta a luz de encontro à oposta parte,
18 Subindo logo após, como baixara;
Da linha vertical não se disparte,
Uma distância igual sempre mantendo,
21 Como nos mostra experiência e arte:
Em frente à luz, assim, se refrangendo,
Tão penetrante a vista me feria,
24 Que a dirigi a um lado, olhos volvendo.
“Qual é” — ao Mestre amado então dizia —
Aquele objeto, que me ofusca tanto
27 E ao nosso encontro, ao parecer, se envia?” —
— “Que inda te ofusque não te mova espanto
A celeste família” — me há tornado: —
30 “Falar-te vem um mensageiro santo.
“A veres com delícia aparelhado
Serás em breve um lume refulgente,
33 Quanto ser pode ao ente humano dado.” —
Acercados ao anjo, alegremente
Nos disse: — “Aqui passai, menos penosa
36 Subida nesta escada está patente.”
Andando, atrás cantar em voz donosa
Beati Misericordes nós ouvimos
376
39 E “Exulta na vitória gloriosa”,
Para cima, portanto, nós subimos;
E eu das vozes do Vate cogitava
42 Colher proveito, enquanto sós nos imos.
E, me voltando, assim lhe perguntava:
“O que Guido del Duca nos dizia,
45 Quando em bens não partíveis nos falava?” —
— “Do seu vício pior” — tornou — “sabia
Os danos; não se estranhe, se o acusando,
48 Do mal que fazer possa prevenia;
“Porque, do mundo os bens vós desejando,
A que partilha todo o apreço tira,
51 Arde a inveja, suspiros provocando.
Mas, se a esfera imortal vossa alma aspira,
Levantando-se o anelo àquela altura,
54 Esse temor no peito voz expira.
“Tanto mais lá cad’um goza ventura,
Quanto por muitos ela mais se estende,
57 Quanto mais caridade lá se apura.” —
— “O entendimento” — eu digo — “ora
compreende
Menos do que antes de eu te haver falado;
60 À mente ora mor dúvida descende.
377
“Como um bem, que é de muitos partilhado,
A cada possessor dá mais riqueza
63 Do que se a posse fora apropriado?” —
— “Teu spírito” — replica — “na
rudeza
Das cousas terreais stando imergido,
66 Vê trevas onde a luz tem mais clareza,
“Esse inefável bem, no céu fruído,
Infindo, para o amor, correndo desce,
69 Qual raio a corpo lúcido e polido.
“Se ardor acha mais vivo, mais se of’rece;
Quanto mais caridade está fulgindo,
72 Virtude eterna mais sobre ela cresce.
“Quanto mais vai a multidão subindo,
Mais amar podem, mais a amor se aplicam,
75 Bem como espelho, um no outro refletindo.
“Se persistindo as dúvidas te ficam,
Hás de ver Beatriz: da sábia mente
78 Razão escutarás, que tudo explicam.
“Para apagares, pois, sê diligente.
As chagas cinco, que inda em ti stou vendo:
81 Há de cerrá-las contrição pungente.”
—
Quando eu ia dizer — Mestre, compreendo —
378
No círculo eis penetro imediato:
84 Calei-me, a vista alucinada tendo.
Julgava então, de uma visão no rapto,
Extático, que em templo se mostrava
87 Multidão grande, de oração no ato.
Com piedoso semblante, à entrada estava
Meiga matrona. — “Ó filho meu querido,
90 Por que assim procedeste?” — interrogava.
“Eu e teu pai, com ânimo dorido,
Te buscamos.” — E como se calara,
93 Logo a visão fugiu-me do sentido.
Depois de outra no rosto se depara
Pranto acerbo, que mágoas anuncia
96 De quem de ira no incêndio se inflamara.
“Se mandas na cidade” — assim dizia —
“Por cujo nome os deuses contenderam
99 E onde a luz da ciência se irradia,
“Pune os braços, que ímpios, se atreveram,
Pisístrato, a estreitar a filha tua!” —
102 Ele, a quem vozes tais não comoveram,
Tranqüilo respondia à esposa sua:
“O que faremos a quem mal nos queira,
105 Se ira ao amor corresponder tão crua?”
379
Vi depois multidão, que a raiva aceira:
A pedradas mancebo assassinava,
108 Bradando — morra! morra! — carniceira.
A dolorida fronte debruçava,
Já mal ferido, o mártir para a terra:
111 Portas ao céu os olhos seus tornava,
Pedindo a Deus, naquela horrível guerra,
Que aos seus perseguidores perdoasse:
114 Riso piedoso os olhos lhe descerra.
Quando em minha alma o êxtase desfaz-se,
Conheci que no sonho aparecia,
117 Não da ficção mas da verdade a face.
Virgílio, a quem talvez eu parecia
Homem, que o sono deixa de repente,
120 — “Por que estás vacilante?” — me inquiria.
“Tens meia légua andado certamente
Com titubante pé, de olhos caídos,
123 Como quem desse ao vinho ou sono a mente.”
—
— “Vou expor, meu bom mestre, aos teus
ouvidos” —
Tornei — “quanto os meus olhos contemplaram,
126 Quando os joelhos tinha enfraquecidos.”
380
— “Se másc’ras cento a face te ocultaram” —
Disse Virgílio — “ocultos não seriam
129 Pensamentos, que, há pouco, te enlevaram.
“As imagens, que hás visto, te induziam
Águas da paz a receber no peito,
132 Que as fontes perenais dos céus enviam.
“Não perguntara, como quem de feito
Somente vê por olhos, obcecados
135 Quando o corpo da morte jaz no leito;
“Mas por serem teus pés mais apressados:
Excitar assim cumpre os preguiçosos,
138 Que se esquivam à ação stando acordados.” —
Nas horas vespertinas pressurosos
Andávamos, os olhos alongando,
141 Do sol cadente aos raios luminosos,
Eis pouco a pouco, um fumo se elevando.
Se condensa ante nós, qual noite, escuro;
Abrigo ali de todo nos faltando,
145 A vista nos tolheu, tolhendo o ar puro.
1-5. Quanto caminho etc., faltavam três horas para o ocaso, pois
o Poeta nota que deveria transcorrer tanto tempo para o pôr do
sol quanto transcorre entre o princípio do dia até a hora terça.
381
— 6. Lá vésperas etc., no Purgatório faltavam
três horas para o
ocaso, eram vésperas; na Itália era meia-noite. — 16-21.
Assim
como etc., o poeta descreve o refletir-se da luz que bate sobre
um espelho ou na água, no qual o ângulo de refração
é igual ao
ângulo de incidência. — 38. Beati misericordes, Evang. S.
Mateus V, 7. — 80. As chagas cinco, os cinco PP, que ainda
Dante tem na testa. — 89. Meiga matrona, Maria Virgem, a qual
tendo perdido o seu filho, encontrando-o depois de três dias, o
repreende com mansuetude. — 94. De outra etc., a mulher de
Pisístrato, príncipe de Atenas, pediu ao marido vingança
contra
um jovem que beijara publicamente a sua filha. — 107. A
pedrada mancebo assassinava, Santo Estevão que foi
apedrejado pela multidão.
382
CANTO XVI
Sempre ao lado de Virgílio, Dante continua a viagem. Denso fumo
envolve os iracundos. Entre eles está Marco Lombardo, o qual
lamenta os tempos, que eram bons e agora ficaram maus. Dante
pergunta de que depende essa mutação, e Marco responde que a
corrupção dos tempos novos procede do mau governo do mundo e
especialmente da confusão entre o poder espiritual e o poder
temporal.
SOMBRA de inferno e noite carregada,
Em que o céu de um só astro não se aclara,
3 De nuvens, quanto o pode ser, toldada,
Véu tão grosso ao meu rosto não lançara,
Nem, ao contacto, fora tão pungente,
6 Como o fumo, que ali nos rodeara.
Fechados tinha os olhos totalmente:
Fiel o sábio sócio, me acudindo,
9 Deu-me em seu ombro arrimo diligente.
Qual cego, que ao seu guia vai seguindo
Por se não transviar, correr perigo,
12 Ou sofrer morte, de encontrão caindo,
Tal eu por aquele ar escuro sigo,
383
Atento ao Mestre meu, que repetia:
15 — “Cuidado! Não te afastes! Vem comigo!” —
Então vozes ouvi; me parecia,
Que paz, misericórdia suplicavam
18 Ao Cordeiro, que as culpas alivia.
Por Agnus Dei suaves começavam,
A letra era uma só como a toada,
21 Consonância entre si todas as guardavam.
— “Por quem esta oração, que ouço, é
cantada?”
—
Perguntei. Disse o Mestre: — “É bom que o
aprendas:
24 Assim da ira a culpa é mitigada.” —
— “Quem és para que a névoa nossa fendas
E assim fales, qual viva criatura,
27 Que inda o tempo calcula por calendas?” —
Disse uma voz do fundo na negrura.
E Virgílio falou: — “Responde e exora
30 Se por aqui se sobe para a altura.” —
— “Ó alma, que” — disse eu — “a
graça implora
De ir a Quem te criou mais pura e bela,
33 Maravilha ouvirás, segue-me embora.” —
— “Até onde for dado” — tornou-me ela —
384
“Irei, e, se te ver não deixa o fumo,
36 Nos tornará propínquos a loquela.” —
— “Nas mantilhas, que a morte acaba, ao sumo
Assento” — comecei — “ora me alteio,
39 Do inferno tendo vindo pelo rumo.
“Se Deus permite, de bondade cheio,
Que a dita eu goze de lhe ver a corte
42 Por este, hoje de todo estranho, meio,
“Revela-me quem foste antes da morte
E qual nos deva ser a melhor via:
45 Guiarás nossos passos desta sorte.” —
— “Fui Lombardo e de Marco o nome havia;
O mundo exp’rimentei, feitos amando,
48 Pelos quais ninguém mais hoje porfia.
A subir bom caminho vais trilhando.” —
Falou-me assim e acrescentou: — “E rogo
51 Intercedas por mim, ao céu chegando.” —
— “Quanto me pedes” — lhe replico logo —
“Juro fazer, mas acho-me oprimido
54 Por dúvida a que anelo desafogo.
“Era simples; te ouvindo, tem subido
A duplo grau, e assim me torna certo
57 Do que hei aqui e noutra parte ouvido.
385
“O mundo de virtude está deserto;
Tens sobeja razão, quando o lamentas,
60 Impa de mal, de vícios é coberto.
Dize-me a causa, se na causa atentas?
Sabendo-a, aos outros revelá-la quero;
63 Virá do céu ou lá na terra a assentas?”
Suspiro em que se exprime dó sincero
Com hui, do peito exala. — “Irmão — prossegue
—
66 Que o mundo é cego em ti bem considero.
“Vós, os vivos, julgais o céu entregue
De toda causa, a tudo assim movendo
69 Por necessária lei, que o mundo segue.
“Desta arte o livre arbítrio fenecendo,
Ao homem não coubera o que merece,
72 No bem prazer, no mal dor recebendo.
“Primeira inspiração aos atos desce
Do alto; a todos não; mas quando o diga,
75 No mal, no bem a luz não vos falece.
“Livre sendo o querer, quem se afadiga
E a primeira vitória do céu goza,
78 Vencerá tudo, se em querer prossiga.
386
“Natureza melhor, mais poderosa
Vos sujeita — a que cria e vos concede
81 Mente, que ao céu não prende-se humildosa.
“Se a causa, que do bom caminho arrede
O mundo em vós a tendes persistente;
84 Explorarei, fiel, o que sucede.
“Alma surge das mãos do Onipotente
Que, inda antes de nascida, lhe sorria
87 Qual menina, que ri, chora, inocente.
“Ingênua e simples, ela só sabia
De um Deus beni’no ser meiga feitura,
90 E a tudo, que a deleita, se volvia.
“Dos mais frívolos bens prende-a a doçura,
E, deles namorada, após lhes corre,
93 Se guia ou freio o amor lhe não segura.
“Nas leis consiste o freio, que a socorre;
Rei foi mister, que, ao menos, acertasse
96 Da cidade de Deus em ver a torre.
“Leis há, mas não quem leis executasse;
Rumina esse pastor que os mais precede,
99 Mas a unha fendida não lhe nasce.
“E vendo a grei que o próprio guia a excede
Em almejar os bens que mais deseja,
387
102 Nestes se engolfa e mais nem quer nem pede.
“Portanto, porque mau governo veja,
Fica o mundo de culpas inquinado,
105 Não porque em vós a corrupção esteja.
“Bens sobre o mundo havendo derramado,
Tinha Roma dois sóis, que alumiaram
108 O caminho de Deus e o do Estado.
“Um ao outro apagou, e se ajuntaram
Do Bispo o bago e do guerreiro a espada:
111 Por viva força unidos, mal andaram.
“Não mais se temem na junção forçada:
Vê a espiga que prova estes efeitos;
114 Pela semente é a planta avaliada.
“Valor e cortesia altos proveitos
Deram na terra que Ádige e Pó lavam,
117 Antes que visse de Fred’rico os feitos.
“Por ali os que outrora se pejavam
De entrar dos bons na prática e na liga,
120 Livres passam do quanto receavam.
“Só três velhos opõe a idade antiga,
Como censura, à nova: é-lhe já tardo
123 Que Deus os chame dessa terra imiga:
388
“Conrado de Palazzo, o bom Gherardo
E Guido de Castel, que foi chamado,
126 Ao estilo francês simples Lombardo.
“De Roma a Igreja fique proclamado,
Cai no ceno os poderes confundido,
129 Se enloda a si e o fardo seu pesado.”
— “Tuas sábias razões, Marcos, ouvindo,
Vejo” — disse — “por que a Lei da herança
132 Partiu, de Levi os filhos excluindo.
“Mas qual Gherardo trazes à lembrança,
Como glória e brasão da antiga gente,
135 Que censura a este séc’lo impuro lança?” —
— “Queres” — tornou — “tentar-me ou
certamente
Iludir-me? Em toscano me falando
138 Do bom Gherardo dizes-te insciente?
“Sobrenome de todo lhe ignorando,
Dou-lhe o de Gaia, sua filha cara.
141 Guarde-vos Deus, que eu vou-me, vos
deixando.
“Do fumo a densidão se torna rara,
Branqueja o dia: devo já partir-me,
Que a apresentar-se o anjo se prepara.” —
389
145 Assim falando, mais não quis ouvir-me.
19. Agnus dei, Jesus símbolo de mansuetude, virtude contrária
ao vício da ira. — 27. Calendas, uma das três partes em
que o
mês era dividido pelos romanos. — 46. Fui Lombardo e de Marco
o nome havia, Marco de Veneza, chamado o Lombardo, homem
sábio e prudente. — 98. Rumina esse pastor etc. A imagem
deriva da lei mosaica pela qual se proibia se comessem os
animais não ruminantes e que não tivessem a unha partida. O
ruminar exprime a sabedoria, a unha partida a ação. —
116. Na
terra etc., a Lombardia e o Marca Trevisana. — 117. De
Frederico os feitos, as guerras entre os papas e Frederico II da
Suábia. — 124-25. Conrado de Palazzo, da Brescia; Gherardo de
Camino; e Guido de Castello, de Reggio — 131-132. Lei da
herança etc., segundo a lei mosaica os descendentes de Levi,
isto é, os levitas (os sacerdotes) não podiam possuir bens
temporais.
390
CANTO XVII
Saindo do denso fumo, Dante, novamente em êxtase, vê exemplos
de ira punida. Tornando a si, vê um anjo que está perto da
escada do quarto compartimento. Os dois Poetas continuam a
subir. Sobrevindo, porém, a noite, param e Virgílio explica
ao
discípulo que o amor é o princípio de todas as virtudes
e de todos
os vícios.
LEITOR, se lá na alpina cordilheira
Te colheu névoa, que de ver tolhia,
3 Como se olhos tivemos de toupeira,
Lembra que, quando a úmida e sombria
Cortina a delgaçar começa, a esfera
6 Do sol escassa luz ao ar envia.
E mal tua mente imaginar pudera
Como de novo à vista se mostrava
9 O sol, que ao seu poente descendera.
Ao lume, que nos planos se finava,
Do Mestre os passos fido acompanhando
12 Saí da cerração, que me cercava.
Fantasia que, o espírito enlevando,
Tanto o homem dominas, que não sente
391
15 Clangor de tubas mil, juntas soando,
O que te move, estando o siso ausente?
Luz que desce por si, no céu formada,
18 Ou por querer do céu onipotente.
Cuidei súbito ver a que mudada,
Dos crimes seus em pena, foi nessa ave,
21 Que em trinar mais se mostra deleitada.
Tanto minha alma, na visão suave,
Extática ficou, que não sentia
24 Outra impressão qualquer que a prenda e
trave.
Naquele êxtase logo após eu via
Em cruz um homem de feroz semblante:
27 Nem a morte a arrogância lhe abatia:
Stava o grande Assuero não distante,
Ester, a esposa e Mardoqueu prudente,
30 Justo nos feitos, no dizer prestante.
E fugiu-me esta imagem prontamente,
Como a bolha, que de água se formara
33 E à falta de água esvai-se de repente.
Donzela eis na visão se me depara
Que em prantos exclamava: — “Ó mãe querida
36 Por que tomaste irosa a morte amara?
392
“Perdes, por não perder Lavínia, a vida
E perdida me tens: teu fim deplora,
39 Mas não o de outro, a filha dolorida.” —
Como se rompe o sono, se de fora
Luz repentina às pálpebras nos desce;
42 Não morre logo, em luta se demora:
Minha visão assim se desvanece,
Quando as faces clarão tão vivo lava,
45 Que na terra outro igual nunca esclarece.
Volvi-me para ver onde me achava;
Mas, ouvindo uma voz — “Sobe esta escada” —
48 De qualquer outro intento me apartava.
Por saber quem falara foi tomada
Minha alma de um desejo tão veemente,
51 Que fora, se o não viesse, conturbada.
Como ao sol, que deslumbra em dia ardente,
Sendo-lhe véu seu lume flamejante,
54 Senti perdida a força incontinênti.
— “Espírito é celeste: vigilante
Sem rogos, o caminho nos indica:
57 O próprio brilho esconde-o fulgurante.
“Como o homem consigo, assim pratica;
393
Quem, mal extremo vendo, só rogado
60 Acode, esquivo ser já significa.
“A tal convite o pé seja apressado!
Antes da noite rápidos subamos;
63 Depois somente quando o sol for nado.” —
Disse o meu Guia; e logo encaminhamos
Os passos, de uma escada em direitura.
66 Ao primeiro degrau quando chegamos
Mover de asas ao perto se afigura,
Bafejo sinto; e ouço: — “É venturoso
69 Quem ama a paz, isento de ira impura!” —
No alto já do céu o luminoso
Rasto, da noite precursor, surgira,
72 De astros assoma o exército formoso.
— “Ai de mim! Por que a força minha expira?”
Disse, entre mim, sentindo que, esgotada,
75 Súbito às pernas o vigor fugira.
Tendo alcançado o topo já da escada,
Imóveis nos quedamos, imitando
78 A nau, que aferra a praia desejada.
A escutar stive um pouco, interrogando
Daquele novo círc’lo algum sonido;
81 Depois ao Mestre me voltei falando:
394
— “No lugar em que estamos, pai querido,
Que pecado recebe a pena sua?
84 Parando os pés, teu verbo seja ouvido.”
Tornou-me: — “Se do bem o amor recua
No seu dever, aqui se retempera;
87 Sobre o remisso a expiação atua.
“Por melhor compreenderes, considera
No que digo: a detença, porventura,
90 Dará o fruto, que tua mente espera.
“Ao Criador, meu filho, e à criatura
Nunca falece amor — tens já sabido —
93 Ou venha da alma ou venha da natura.
“O amor natural de erro é despido;
Pode pecar o outro pelo objeto,
96 Por nímio ardor, por star arrefecido.
“Quando aos bens principais ele é direto
E nos bens secundários moderado,
99 Causar não pode criminoso afeto.
“Se ao mal, porém, se torce ou, desregrado,
De menos ou de mais ao bem se move,
102 Ofende ao Criador quem foi criado.
“Tens, pois, o necessário, que te prove
395
Que amor em vós semente é de virtude,
105 Como é dos feitos, que o céu mais reprove.
“E como o amor o bem somente estude
Do seu sujeito, quando o amor domina,
108 Não pode ser que em ódio a si se mude.
“E porque nenhum ente se imagina
Sem ter no que criou a causa sua,
111 Ódio em nenhum contra este se origina:
“Contra o próximo é, pois, que se insinua
Do mal o amor, pecaminoso.
114 No humano limo em modos três atua.
“Qual, da grandeza, e glória cobiçoso,
As espera em ruína de outro, e anela
117 Vê-lo em terra prostrado e desditoso;
“Qual, temor de perder, triste, revela
Valia, honra e poder, se outro os partilha
120 E em querer-lhe o contrário se desvela;
“Mágoa sentindo de uma injúria filha,
Qual porfia em vingar-se, e, de ira ardendo,
123 De mal fazer os meios esmerilha.
“Do mal este amor tríplice nascendo,
Lá embaixo se expia; mas atende
126 Ao que vai desregrado, ao bem correndo.
396
“Confusamente cada qual se acende
Por certo bem e sôfrego o deseja:
129 Por ter-lhe a posse, afana-se e contende.
“O que do bem no amor inerte seja
Depois que do pesar sofrerá agrura,
132 É justo que em martírio aqui se veja.
“Há outro bem; não dá, porém, ventura.
Felicidade não é, não é a essência
135 De todo o bem, o fruto, a raiz pura.
“O amor, que a tal bem vota a existência,
Acima em círc’los três há seu tormento:
Por que assim se divide, a inteligência,
139 Sem te eu dizer, dar-te-á conhecimento.” —
20. Nessa ave etc., Filomena, por vingar-se de ter sido ultrajada
por Teseu, deu-lhe de comer os próprios filhos e foi por isso
transformada pelos deuses em rouxinol. — 26. Em cruz um
homem etc. Aman, ministro do rei Assuero, foi crucificado na
cruz que ele havia mandado levantar para o inocente
Mardoqueu (Ester II, 5). — 34. Donzela, Lavínia, filha do rei
Latino e da rainha Amata. — 37-39. Perdes etc., A rainha
Amata supondo que Turno, noivo de Lavínia, tivesse sido morto
por Enéias, suicidou-se.
397
CANTO XVIII
Virgílio continua a falar sobre o amor. No entanto as almas dos
preguiçosos vão passando diante dos Poetas, lembrando
exemplos da virtude contrária à preguiça, e, depois,
de punição
da preguiça. Uma das almas dá-se a conhecer a Dante. É
o
abade de S. Zeno, em Verona. Dante cai em profundo sono.
PALAVRAS tais já proferido havia
O Vate excelso e, atento, me observava
3 Por ver se eu satisfeito parecia;
E eu, em maior sede me inflamava,
Calando-me, entre mim dizia: “O excesso,
6 Que nas perguntas há, talvez o agrava.” —
Mas o sincero pai, sempre indefeso,
Meu silêncio notando e o que o motiva
9 Logo animou-me a lho fazer expresso.
— “Minha vista” — falei — “tanto se aviva
À luz do verbo teu, Mestre, que ao claro
12 Vejo o que da razão tua deriva.
— “Rogo-te, pois, ó pai beni’no e caro,
Me ensines esse amor, de que descende
15 Todo o mal, todo o bem ao mundo ignaro.” —
398
— “Volve a mim” — disse — “a luz, que
mais se
acende
No espírito e há de ser-te bem patente
18 Quanto erra o cego que guiar pretende.
“Alma criada para amar ardente,
A tudo corre, que lhe dá contento,
21 Se despertada do prazer se sente.
“Do que é real o vosso entendimento
Colhe imagens que em modo tal desprega,
24 Que alma pra elas sente atraimento.
“Se alma, enlevada, ao seu pendor se entrega,
Esse efeito é amor, própria natura,
27 Em que o prazer novo liame emprega.
“E, como o fogo se ala para a altura
Por sua forma, que a elevar-se tende
30 Ao foco, onde o elemento seu mais dura,
Assim pelo desejo a alma se acende,
Ação esp’ritual que não se aquieta,
33 Se não consegue a posse, que pretende.
“Vê, pois, que da verdade excede a meta
Quem acredita e aos outros assevera
36 Que todo o amor de si é cousa reta.
399
“Em gênero talvez se considera
O amor sempre bom; mas todo selo
39 É bom, inda que seja boa a cera?
— “Se, te ouvindo” — tornei — “com mor
desvelo
Do que ser pode o amor fico inteirado,
42 Dúvidas hei, que esclarecer anelo.
“Pois que amor é de fora derivado,
Pois que a alma de outra sorte não procede,
45 No bem, no mal o mérito é frustrado.” —
— “Dizer-te posso o que a razão concede” —
Tornou — “do mais a Beatriz somente,
48 Por ser ato de fé, solução pede.
“Forma substancial, não depende
Da matéria, porém com ela unida,
51 Specífica virtude tem latente.
“Só, quando atua, pode ser sentida;
Denúncia do que seja dá no efeito,
54 Como em planta a verdura indica a vida.
“Das primeiras noções onde o conceito
Nasceu? Donde apetites vêm primeiros,
57 A que o homem no mundo está sujeito?
“Como o instinto do mel na abelha, inteiros
Em vós estão, louvor não merecendo,
400
60 Nem censura também, ínscios obreiros.
“Tudo desses pendores dependendo,
Inata a faculdade é que aconselha,
63 A porta do consenso em guarda tendo.
“Em tal princípio a causa se aparelha,
De que procede em vós merecimento:
66 Repele o mau amor, no bom se espelha.
“Os sábios, estudando o fundamento
Das cousas, vendo inata a liberdade,
69 Da moral vos tem dado o ensinamento.
“E, supondo que por necessidade
Nascesse todo o amor, que vos incende,
72 Tendes para contê-lo potestade.
“Nobre virtude ser Beatriz entende
O livre arbítrio; e, quando lhe falares,
75 A isto mesma a memória atento prende.” —
Como alcanzia a flamejar nos ares,
A lua à meia-noite, já tardia,
78 Escurecia os outros luminares;
E, contra o céu, caminho percorria,
Por onde o sol vai pôr-se, quando a Roma,
81 Entre Sardenha e Córsega, alumia.
401
Havia a sombra ilustre, por quem toma
A fama Ande à cidade mantuana,
84 Do peso meu aliviado a soma:
Quando eu, que explicação lúcida e plana
Sobre as minhas questões tinha alcançado,
87 Sinto que a mente sonolência empana.
Desse quebranto súbito arrancado
Por turba fui, que, após se encaminhando,
90 A nós vinha com passo acelerado.
E como o Ismeno e Asopo, outrora, em bando,
Correr viam Tebanos ofegantes,
93 Por noite Baco em alta voz cantando,
A multidão, assim, dos caminhantes,
De bom querer e justo amor tocados
96 Pelo círc’lo apressavam-se anelantes.
E, pois, tinham-se em breve apropinquado;
Na carreira chorando afadigosa,
99 Assim gritavam dois mais avançados:
— “Maria corre ao monte pressurosa;
César rende Marselha, e contra Ilerda
102 Rápido voa à Espanha revoltosa. —
— “Pressa; pressa! De tempo já sem perda!
Pouco zelo não haja!” — outros clamaram —
402
105 “Não refloresce a Graça nalma lerda!” —
— “Vós, em que tais fervores se deparam,
Que talvez negligência ides remindo
108 Dos tempos, que no bem não se empregaram,
“Dizei a um vivo (estais verdade ouvindo),
Que partir-se pretende à nova aurora.
111 Se é perto a entrada, donde vá subindo.”
A voz do Mestre meu desta arte exora.
Dos espíritos um lhe respondia:
114 — “Vem conosco: não longe ela demora.
“Anelo de ir avante nos desvia
De detença: perdoa, por bondade,
117 Se há, cumprindo um dever, descortesia.
“De S. Zeno em Verona fui abade
De Barba-roxa, o bom, sob o reinado
120 De quem Milão se lembra sem saudade.
“Alguém que à sepultura está curvado
Há de em breve chorar esse mosteiro
123 E o poder, com que o tinha dominado;
“Pois, em dano ao pastor seu verdadeiro,
Ao filho mal nascido, o cometera,
126 No corpo horrendo, na maldade useiro.”
403
Não sei se inda falou, se emudecera,
De nós já velozmente se alongara,
129 Mas ouvi-lo e notá-lo me aprazara.
Então disse-me quem me guia e ampara:
— “Volve-te, atenta nestes dois: correndo
132 Nos lentos mordem com censura amara.” —
— “Avante!” — os dois no couce vêm dizendo
—
Os que se abrir o mar viram, morreram,
135 A herança do Jordão não recebendo,
“E os que o filho de Anquises não quiseram
Seguir até seu fim nas árdua jornada
138 Fama e glória por gosto seu perderam.” —
Depois, daquela grei stando afastada
Tanto, que eu divisá-la não podia,
141 De nova idéia a mente foi tomada,
Outras surgindo após de romaria;
E tanto de uma em outra vagueava.
Que pouco a pouco o sono me invadia,
145 E o pensamento em sonho se mudava.
76. Alcanzia, bola de barro. — 77. A lua a meia noite, etc., a lua
que demorava a surgir até quase meia-noite, com o seu fulgor
escurecia as outras estrelas. — 79. E contra o céu etc., corria
de
ponente para o levante por aquele caminho do Zodíaco no qual
404
está o sol quando o habitante de Roma o vê descer entre a
Sardenha e a Córsega. — 83. Ande (depois Pietola) aldeia perto
de Mântua, na qual Virgílio nasceu. — 91. Ismeno e Asopo,
rios
da Beócia. — 100. Maria corre ao monte etc., a Virgem Maria,
logo depois do anúncio do nascimento de Jesus, correu a visitar
a sua prima Isabel (Evang. S. Lucas I, 39). — 101. César rende
etc., Júlio César, com grande celeridade, deixando parte do
seu
exército no assédio de Marselha, com a outra parte dirige-se
para Ilerda. — 118. De S. Zeno em Verona etc., Geraldo, abade
de S. Zeno. — 119. Barba-roxa o imperador Frederico I, que em
1162 destruiu a cidade de Milão. — 121. Alguém que à
sepultura está curvado etc., o velho Alberto della Scala, que
destituiu Geraldo do seu cargo de abade, substituindo-o por um
seu filho bastardo que, além de coxo, era malvado. — 134-135.
Os que se abrir o mar viram etc., os filhos de Israel que, pela sua
preguiça, morreram no deserto, não alcançando a Terra
Prometida. — 136. E os que o filho de Anquise etc., os Troianos
que não tiveram a coragem de seguir a Enéias (Eneida V, 604).
405
CANTO XIX
No sono, Dante tem uma visão misteriosa. Acordando, conta-a a
Virgílio, o qual a explica. Sobem, depois, os Poetas ao quinto
compartimento, no qual se purificam os avarentos, debruçados no
chão. Entre eles está o papa Adriano V, Ottobuono de Fieschi,
que lhe pede que a recomende à sua sobrinha Alagia.
CHEGADA essa hora, em que o calor diurno
Não mais da lua a frigidez aquece,
3 Pela terra vencido ou por Saturno,
Quando ao geomante fúlgida aparece
A Fortuna Maior lá no Oriente,
6 Donde rápida a noite se esvaece,
Sonhando vi mulher balbuciente,
Que vesga era nos olhos, nos pés torta,
9 De mãos truncadas e de tez palente.
Eu a encarava; e como o sol conforta
Os membros a que a noite o frio agrava,
12 Ao meu olhar assim a quase morta
Língua movia; o corpo já se alçava,
E no terreno e lívido semblante
15 A cor, que amor estima, se mostrava.
406
Soltando a voz, há pouco titubante,
Doce canto entoava tão donosa,
18 Que me absorvia o enlevo inebriante.
— “Sereia sou” — cantava — “deleitosa,
Que da rota desvia os mareantes,
21 Tanto prazer lhes movo poderosa.
“Detiveram meus cantos fascinantes
Ulisses vago; e raros me deixaram,
24 A todos prende o som dos meus descantes.” —
Junto a mim, mal seus lábios se fecharam,
Eis se mostrava dama santa e presta:
27 A sereia os seus olhos conturbaram.
— “Dize, ó Virgílio: que mulher é esta?”
—
Bradava irosa; e o Vate lhe acorria.
30 Respeitoso ante aquela face honesta.
Dela a dama travava e prosseguia,
Seus véus rasgava, o ventre desnudando:
33 Desperto ao cheiro infando que saía.
Olhos abri. Virgílio, me falando:
— “Três vezes te chamei” — disse — “eia!
asinha
36 Vamos, o passo onde entres, procurando.” —
Ergui-me logo. Alumiados tinha
407
O dia os círculos todos do alto monte;
39 Pelas costas surgindo o sol nos vinha.
Após o Mestre se me inclina a fronte,
Como a quem, de cuidados oprimido,
42 Curva a cerviz, semelha arco de ponte,
— “Aqui se passa: vinde!” — proferido
Foi por voz tão suave, tão beni’na,
45 Que não fora igual som na terra ouvido.
Da rocha entre os dois muros nos desi’na
Quem falara, o caminho, asas abrindo,
48 Que tem do cisne a alvura purpurina.
Depois as níveas plumas sacudindo,
— “Os que choram” — bradou — “são
venturosos
51 De consolo a esperança possuindo!” —
— “Por que os olhos no chão fitas cuidosos?” —
O Mestre perguntou, depois que alçou-se
54 Voando o anjo aos ares luminosos.
— “Em recente visão, Senhor, mostrou-se
Imagem” — respondi — “que tanto instiga
57 Que inda a sua impressão não mitigou-se.” —
— “A mágica” — me disse — “viste
antiga,
Que lá mais alto tanta dor motiva?
60 Como o homem viste dela se desliga?
408
“Não mais! Avante segue, o alento aviva!
Olhos volve ao reclamo, com que gira
63 Do Rei Eterno cada esfera altiva.” —
Como faz o falcão, que os pés remira,
Depois ao grito acode e, acelerado,
66 Contra a ralé, que avista, ao ar se atira:
Assim eu; e por onde era cortado,
Para trânsito dar ao monte erguido,
69 Corri té outro círculo, apressado.
Tendo ao círculo quinto já subido,
Jazer vi turba inúmera em lamento:
72 Para baixo era o rosto seu volvido.
“Adhaesit anima mea pavimento” —
Com tanta dor diziam suspirando,
75 Que da voz mal caí no entendimento.
— “Dizei, de Deus eleitos, que, penando,
Colheis alívio na justiça e esp’rança,
78 Por onde ao cimo iremos caminhando.” —
— “Se a nossa punição não vos alcança
E mais pronta quereis ter a subida,
81 À direita e por fora que se avança.” —
Do meu Guia a pergunta respondida
409
Foi por uma alma, que adiante estava:
84 Ser outra idéia eu cri nisso escondida.
Então, olhos voltando, interrogava
Virgílio, que aprovou com ledo gesto
87 O desejo, que o rosto denotava.
Da permissão do Mestre usando presto,
Daquele ente acerquei-me doloroso,
90 Que se fez por palavras manifesto.
— “Tu, que, expiando as culpas lacrimoso,
Apressas de te erguer à glória o dia,
93 Por mim pára em teu pranto fervoroso.
“Quem foste? Por que assim jazeis?” — dizia
“No mundo, donde venho vivo, impetre
96 Por teu bem querer cousa da valia?” —
— “Convém que o teu espírito penetre
Desta pena a razão; porém primeiro
99 Scias quod ego fui sucessor Petri.
“Do meu solar o título altaneiro
Origem teve nesse rio belo,
102 Que entre Chiaveri e Siestre flui ligeiro
“Em pouco mais de um mês vi que desvelo
Custa guardar o grande manto puro:
105 Todo outro fardo é pluma em paralelo.
410
“Quanto — ai de mim! — de converter fui duro!
Mas, apenas Pastor em Roma eleito,
108 Eu soube quanto mente o mundo impuro.
“Não gozou paz, nem quietação meu peito;
Mais alto já subir se não pudera:
111 Então da vida eterna ardi no afeito.
“Minha alma, triste e mísera, perdera
De Deus o amor em sórdida avareza:
114 Esta pena, que vês, bem merecera
“De tal pecado mostra-se a graveza
Aqui pelo castigo, em que se expia:
117 No monte outro não há de mor asp’reza.
“Como ao céu nossa vista não se erguia,
Nas cousas terreais embevecida,
120 Assim justiça à terra a prende e lia.
“Como a avareza em nós tinha extinguida
A propensão ao bem, aos santos feitos,
123 Assim nos tem justiça a ação tolhida.
“Pés e mãos ata em vínculos estreitos:
Enquanto a Deus prouver, nós, estendidos,
126 Imóveis estaremos nesses leitos.” —
De joelhos e de olhos abatidos
411
Quis falar-lhe; mas ele, conhecendo
129 Esse meu ato só pelos ouvidos,
— “Por que te curvas?” — me atalhou dizendo.
— “Em reverência à vossa dignidade:
132 Cumpro um dever dessa arte procedendo.” —
— “Ergue-te, irmão! Não erres! Em verdade,
Eu como tu, e o universo inteiro
135 A lei seguimos de uma só vontade.
“Do Evangelho o sentido verdadeiro
Que disse — neque nubente — se entendeste,
138 Verás o meu pensar quanto é certeiro.
“Vai-te agora, demais te detiveste.
Saudável pranto empece a tua estada:
141 Perdão apressam lágrimas, disseste.
“Sobrinha tenho, Alagia foi chamada:
É boa, se da raça tão funesta
Não pervertê-la a tradição danada.
145 Somente esta no mundo ora me resta.” —
1. Essa hora etc., a manhã, pouco antes do alvorecer. — 5. A
Fortuna maior, uma das combinações que os geomantes
desenhavam para adivinhar a sorte e que se parecia à
constelação do Aquário e, em parte, à dos Peixes.
— 7. Mulher
balbuciente etc., símbolo dos vícios. — 19-26. Dama Santa,
412
símbolo da prudência e das virtudes — Sereia — metade
mulher
e metade peixe. — 62. Reclamo, instrumento com o qual o
caçador atrai as aves. — 73. Adhaesit anima mea pavimento, a
minha alma esteve pregada ao chão (às coisas materiais), Salmo
C XIX, 25. — 99. Scias quod ego fui sucessor Petri, saibas que
fui sucessor de Pedro. É o espírito do papa Adriano V,
Ottobuono dei Fieschi, conde de Lavagna. — 137. Neque nubent,
palavras de Jesus aos saduceus; no Céu não há núpcias.
Com
essa expressão Adriano V quer que Dante entenda que ele não
deve mais considerá-lo esposo ou chefe da Igreja. — 142. Alagia
dei Fieschi, casada com Moroello Malaspína.
413
CANTO XX
Os dois poetas ouvem uma alma recordar exemplos de pobreza
honesta e da generosidade benfazeja. É Hugo Capeto, fundador
da casa dos reis da França, o qual censura asperamente os seus
descendentes. Ouve-se, no entanto, tremer o monte e cantar
“Gloria in excelsis Deo.”
EM luta, o bem querer ao mau se alteia.
Por contentar essa alma, eu, descontente,
3 Da água tirei a esponja, inda cheia.
Sigo os passos do guia diligente,
Do monte à extrema borda caminhando,
6 Como em muro entre ameias, cautamente.
O espaço mais largo enchia o bando,
Que a avareza, do mundo atroz imiga,
9 Expurga, pranto em fio derramando.
Maldita sempre seja, Loba antiga,
Mais do que as outras feras cobiçosas!
12 Jamais a fome tua se mitiga!
Ó céu, cuja carreira portentosa
As condições se crê reger da vida,
15 Quando virá quem lance a besta ascosa?
414
A passo lento e escasso era a subida,
Atento eu indo à turba, que exprimia
18 Por carpir lamentoso a dor sentida.
Eis ante nós dizer: — “Doce Maria!” —
Uma voz escutei no amargo pranto,
21 Qual mulher que no parto a dor crucia.
Acrescentou: — “Bem pobre foste e tanto,
Que à luz trouxeste lá no humilde hospício
24 Do seio virginal o fruto santo.” —
E logo após ainda: — “Ó bom Fabrício,
Com virtude antes pobre ser quiseste
27 Do que a opulência possuir com vício.” —
De tal prazer meu coração se veste
Ouvindo, que avançava pressuroso
30 Por que ao perto, maior atenção preste.
Também contava esse ato generoso,
Que em prol das virgens Nicolau fizera
33 Para guardar-lhes puro o estado honroso.
— “Alma, que tão bem falas, diz sincera,
Quem foste?” — lhe disse eu — “Por que somente
36 A tua voz a virtude aqui venera?
“Se eu à vida tornar, que brevemente
415
Levar-me deve ao suspirado porto,
39 Em te ser grato ficarei contente.” —
E ele: — “Falarei, não por conforto
Lá do mundo esperar, mas porque tanta
42 Graça refulge em ti antes de morto.
“Estirpe fui dessa maligna planta
Que o solo esteriliza à cristandade:
45 Se frutos bons produz, fato é que espanta.
“A vingança, se houvessem faculdade,
Lilla, Bruges, Conai, Grandja tomaram;
48 Férvido a peço à Suma Potestade.
“Na terra Hugo Capeto me chamaram:
Dos Filipes fui tronco e dos Luíses,
51 Que novamente a França dominaram.
“Foi meu pai carniceiro. Os infelizes
Antigos Reis progênie não deixando,
54 Exceto um monge, às minhas mãos felizes,
“Parar daquele reino veio o mando.
Tanto prestígio tinha, tal pujança
57 Dos povos na vontade fui ganhando,
“Que a c’roa o meu querer cingir alcança
Do filho meu à fronte, em que começa
60 A prole ungida desses Reis de França.
416
“O provençal grã dote havendo, cessa
Na raça minha a prístina vergonha:
63 Somenos, mas aos bons não fora avessa.
“Rapinas pela força e ardis, que sonha
Começando, invadiu por penitência
66 Pontois, Normandia com Gasconha.
“Carlos, Itália entrando, em penitência
Vitimou Conradino; e triunfante
69 Ao céu mandou Tomás, por penitência.
“Em tempo, do presente não distante,
Inda outro Carlos vir de França vejo
72 E fama a si e aos seus dar mais sonante.
“Sai sem armas; traz só naquele ensejo
Lança de Judas, que a Florença aponta:
75 Rasga-lhe o peito, como é seu desejo.
“Terás não terras, mas pecado e afronta,
Que se lhe há de tornar tanto mais grave,
78 Quanto ele a tem de pouco preço em conta.
“Outro, que preso sai da própria nave,
Vejo a filha vender, como fizera
81 Aos escravos pirata: ó pai suave!
“Avareza! o que mais de ti se espera,
417
Se o meu sangue a tal raiva hás arrastado,
84 Que te deu sua carne em pasto, ó fera?
“Para o mal igualar, porvir, passado,
Entrando Alagni flor-de-lis se ostenta,
87 E Cristo em seu Vigário é cativado.
“Injúrias vejo novas que exp’rimenta,
Fel, vinagre sorver o vejo ainda
90 E entre vivos ladrões ter morte lenta.
“Vejo o novo Pilatos, que, não finda
A sanha sua, sem decreto assalta
93 O Templo aceso na cobiça infinda.
“Senhor meu! Pois que excesso nenhum falta,
Quando ante a punição serei ditoso,
96 Que oculta, o teu juízo adoça e exalta?
“Quanto ao que me inquiriste curioso,
As palavras, que, há pouco, eu dirigia
99 Do Spírito Santo à Esposa fervoroso,
“São nossas orações enquanto é dia.
Mas contrários exemplos invocamos,
102 Quando a sombra da noite principia.
“Então Pigmalião nós recordamos
Que foi traidor, ladrão e parricida
105 A sua sede de ouro condenamos.
418
“E a miserável condição de Mida,
Do rogo seu estulto resultado,
108 Sempre do mundo inteiro escarnecida.
“De Acam o louco feito é memorado.
Que os despojos roubara, e ainda a ira
111 De Josué receia amendrontado.
“Com seu marido acusa-se Safira
E louva-se o mau fim de Heliodoro.
114 Por todo o monte imenso brado gira
“Contra o que tirou vida a Polidoro.
— Dize do ouro o sabor, Crasso avarento! —
117 Também clamamos todo nós em coro.
“Qual murmura, qual grita em seu lamento,
Segundo o afeto que o estimula e agita,
120 Segundo é fraco ou forte o sentimento.
“Eu único não era, pois, que em grita
O bem, que ao dia é próprio ia dizendo:
123 Não alçava outro perto a voz bendita.” —
Essa alma já deixáramos, fazendo
Esforço por vencer a altura ingente,
126 Que adiante se estava oferecendo,
Eis tremer sinto o monte de repente.
419
O coração no peito se me esfria,
129 Qual réu, que à morte arrasta-se palente.
Delos, por certo, assim não se movia,
Quando por ninho a preferiu Latona,
132 Que os dois olhos do céu parir queria.
De toda parte um brado então ressona
Tanto, que o Mestre, para mim voltando,
135 — “Não há risco” — me diz —
“teu Guia o
abona!”
Gloria in excelsis Deo — era entoado,
Quanto a voz perceber foi permitido
138 Do ponto, a que o rumor me foi levado.
Quedos, como os pastores tendo ouvido
À vez primeira outrora aquele canto,
141 Ficamos té findar moto e soído.
Depois seguimos no caminho santo,
Vendo as almas prostradas sobre a terra,
144 Sempre a verter o costumado pranto.
E se a memória nisto em mim não erra,
Jamais desejo, que a ignorância acende,
147 Na mente me excitara tanta guerra,
Quanto naquele instante em mim contende.
Nem pela pressa, eu perguntar ousava,
420
Nem o que ouvia o espírito compreende.
151 Tímido assim e pensativo andava.
10. Loba antiga, a avareza. — 23. Humilde hospício, a gruta
de
Belém, onde nasceu Jesus. — 25. Bom Fabrício, C. Fabrício,
general romano, que recusou o dinheiro que o inimigo de Roma
lhe oferecia. — 32. Nicolau, S. Nicolau, bispo de Mira, que dotou
várias jovens pobres. — 43. Estirpe fui, Hugo Capeto, fundador
da dinastia dos de França. — 52. Foi meu pai, etc. Segundo a
tradição, Hugo Capeto, filho de um carniceiro, desposou a filha
do último rei carlovíngio. — 61. O provençal, Carlos
I de Anjou
por casamento herdou a Provença. — 67. Carlos, Itália
entrando, Carlos I de Anjou, conquistou o reino de Nápoles,
mandou matar a Conradino de Suábia e, segundo uma tradição,
fez envenenar a S. Tomás de Aquino, quando este se dirigia
para o concilio de Lião. — 71. Outro Carlos, de Valois, que foi
a
Florença em veste de pacificador e expulsou os Brancos, entre
os quais Dante. — 86. Entrando Alagni etc., o papa Bonifácio
VIII, em 1303, por ordem de Filipe o Belo, foi aprisionado em
Alagni. — 103. Pigmalião, matou a traição seu tio
Siqueu para
roubá-lo. — 106. Mida, rei mitológico, recebeu a faculdade
de
transformar em ouro tudo o que tocava, morreu de fome. —
109. Acam, guerreiro israelita, depois da conquista de Jericó,
desobedecendo às ordens de Josué, escondeu o que saqueou e
foi condenado à morte. — 112. Safira e seu marido Ananias,
querendo roubar o dinheiro pertencente à comunidade cristã,
foram fulminados. — 113. Heliodoro, entrara no templo de
Jerusalém para roubar, mas foi expulso por um cavalo a
patadas. — 115. O que tirou a vida a Polidoro, Polinestor, rei da
Trácia matou a Polidoro, filho de Príamo, para roubá-lo.
— 116.
Crasso, romano, homem muito rico e avarento. — 130. Delos,
ilha do mar Egeu. Segundo a mitologia, era instável, antes que
nela se estabelecesse Latona, que deu à luz Apolo e Diana. —
136. Glória in excelsis Deo, é o canto dos anjos na noite em
que
nasceu Jesus.
421
CANTO XXI
Enquanto os dois Poetas continuam no seu caminho, uma alma
se aproxima deles. É o poeta latino Estácio, o qual explica
que o
abalo do monte que se deu pouco antes foi o sinal de que,
purificado dos seus pecados, ele pode subir ao Céu. Sabendo que
está falando com Virgílio, Estácio demonstra-lhe o seu
afeto.
A SEDE natural, que não sacia
Senão a água, que, súplice, implorava
3 Ao senhor a mulher de Samaria,
Molestando-me, os passos me apressava
Após meu Guia na impedida estrada,
6 E do justo castigo o dó me entrava.
Eis, como escreve Lucas na sagrada
História que Jesus aparecera,
9 Ressurgido, aos dois sócios na jornada,
Uma sombra surgiu; trás nós viera.
Andando aquela turba contemplava:
12 Dela fé nem o Mestre, nem eu dera.
— “Deus vos dê paz, irmãos!” — assim
falava.
Voltamo-nos de súbito, e Virgílio,
15 Cortês no gesto, a saudação tornava
422
Logo dizendo: — “Do feliz concílio
Te receba na paz a santa corte,
18 Que a mim me desterrou no eterno exílio!”
— “Como andais” — respondeu — “com passo
forte.
Se Deus no céu vos não permite a entrada?
21 Quem vos conduz na altura desta sorte?” —
— “Os sinais de que a fronte está marcada
Deste homem por um anjo” — diz meu Guia —
24 “To mostram di’no da eternal morada,
“Mas, como aquela, que, incessante fia,
Não lhe havia inda a estriga consumido,
27 Que impõe Cloto ao que a vida principia,
“Subir só não teria ao céu podido
A sua alma, irmã tua, como é minha,
30 Pois não há, como nós, ver conseguido.
“Do inferno às fauces fui tirado asinha
Para guiá-lo, e o guiarei contente
33 No que do meu saber não passe a linha.
“Se puderes, me diz, por que o eminente
Monte, há pouco, tremeu, e desde a c’roa
36 À base retumbou clamor ingente.” —
423
A pergunta ao desejo tão boa soa,
Que ouvi-la a sede ardente me alivia,
39 Somente uma esperança mitigou-a.
— “Quanto hás notado” — a sombra respondia
—
“Em nada os ritos da montanha altera:
42 De estranheza motivo não seria.
“Mudança aqui supor se não pudera:
Subindo ao céu quem pertencer-lhe deve,
45 A causa dá-se que esse efeito opera.
“Nunca saraiva, chuva, orvalho ou neve
Nesta montanha cai, passando a altura
48 Dos três degraus que estão na escada breve.
“Aqui não vê-se nuvem clara ou escura,
Relâmpago não luz, nem de Taumante
51 Mostra-se a filha, que tão pouco dura.
“Jamais daqueles três degraus avante,
Em que de Pedro o sucessor domina,
54 Seco vapor se eleva um só instante.
“Tremor talvez a sua base inclina;
Mas não atua no alto oculto vento,
57 Que não sei como dentro se amotina.
“Quando já de estar puro o sentimento
Uma alma tem e se ala ao céu, que a chama,
424
60 Segue o tremor e o grito ao movimento.
“Seu querer a pureza lhe proclama,
Prova que tem de alçar-se a liberdade
63 Por força do desejo, em que se inflama.
“Antes o tem; mas contra essa vontade
A divina justiça ardor lhe inspira
66 Por pena, como o teve por maldade.
“Eu que em martírio decorridos vira
Anos quinhentos, à melhor morada,
69 Momentos poucos há, pus livre a mira.
“Eis do tremor a causa declarada!
Do Senhor eis por que, louvor cantando,
72 Rogou cada alma em breve ser chamada!” —
Calou-se. E como, a tanto mais gozando
Está quem bebe, quanto é mor a sede,
75 Indizível prazer tive escutando.
— “Vejo” — disse Virgílio — “agora
a rede,
Que vos prende e depois dá liberdade,
78 Donde o tremor e o júbilo procede.
“Explicar-me te praza ainda, em verdade,
Quem tu foste e a razão por que hás jazido
81 Séc’los tantos em tanta asperidade.” —
425
— “No tempo em que o bom Tito, protegido
Por Deus, vingou as chagas que verteram
84 Sangue, por Judas” — replicou — “vendido,
“Na terra o nobre título me deram,
Que mais honra perdura, e fui famoso:
87 Inda os lumes da fé me não vieram.
“Dos meus cantos o som foi tão donoso,
Que de Tolosa a si me atraiu Roma:
90 C’roas me deu de mirto glorioso.
“De Estácio o nome ainda o tempo doma;
Tebas cantei e Aquiles esforçado:
93 Este das forças me exauriu a soma.
“Do vivo ardor, que a mente me há tomado,
Na flama divinal a causa estava,
96 Que em milhares de engenhos há brilhado.
“Mãe e nutriz a Eneida me alentava;
Estro bebi caudal no seio puro;
99 Quanto vali da Eneida derivava.
“Para viver no tempo (te asseguro)
Em que existiu Virgílio, mais um ano
102 Passara no, que deixo, exílio duro.” —
Estas vozes ouvindo, o Mantuano
Olhou-me. — Cala-te! — sem falar dizia;
426
105 Mas a vontade está sujeita a engano.
Ou no pranto ou no riso se anuncia
Tão rápida a paixão, quando se acende,
108 Que o querer nos sinceros prende e lia.
Sorri-me, como que sagaz, compreende.
Calou-se o esp’rito; e me encarava atento
111 Nos olhos onde a mente mais se entende.
— “Sejas” — disse — “feliz no excelso
intento!
Explica-me, porém, por que em teu rosto
114 Lampejar vi sorriso de momento.” —
Entre os extremos dois estava eu posto:
Um diz — silêncio! — outro a falar me instiga.
117 Suspiro, e o Mestre atenta em meu desgosto.
Responde, que ao silêncio nada obriga,
“Fique” — disse — “a verdade bem patente,
120 O que anela saber ele consiga.” —
— “Maravilha causou provavelmente” —
Tornei-lhe — “antigo espírito, o meu riso;
123 Maior será me ouvindo, certamente.
“Virgílio é quem me guia ao Paraíso:
Para deuses e heróis cantar tiveste
126 Por ele o esforço que lhe foi preciso.
427
“Se outra causa em meu riso supuseste,
Te enganaste: o motivo declarado
129 Nas palavras está que lhe disseste.” —
Quer os pés abraçar do Mestre amado,
E o Mestre: — “Irmão, que fazes?” — lhe dizia
—
132 “Vê que és sombra e de sombra estás ao lado!”
Erguendo-se ele: — “Tanto me extasia
O amor” — disse — “em que por ti me acendo,
Que da nossa vaidade me esquecia,
136 Tratar sombras, quais corpos, pretendendo.”
—
2-3. Água que suplica etc., a água simbólica que a Samaritana
pediu a Jesus, isto é, a verdade. — 7. Como escreve Lucas,
Evang. XXIV, 13-15. — 25. Aquela que, incessante fia etc.,
Laquesis não fiara ainda todo o fio que Cloto ajuntou e que
representa o decorrer da vida dos homens. — 48. Dos três
degraus, onde está a porta do Purgatório. — 50. De Taumante
a
filha, Íris, mensageira de Juno, foi transformada em arco-íris.
—
53. O sucessor de Pedro, o anjo. — 82-83. O Bom Tito, vingou as
chagas etc., Tito, destruindo Jerusalém, vingou a morte de
Jesus Cristo. — 91. Estácio, o poeta latino Papinio Estácio,
autor de “Tebaida”, morto no ano 96, d.C.
428
CANTO XXII
Subindo ao sexto compartimento, Estácio diz a Virgílio que,
não
pelo pecado da avareza, mas pela sua prodigalidade, teve de
ficar muito tempo no quinto compartimento; e, por não ter
declarado publicamente a sua conversão ao cristianismo,
precisou ficar muito tempo no quarto compartimento. Virgílio o
informa a respeito de muitos ilustres personagens da antigüidade
que estão no Limbo. Chegando os Poetas no sexto compartimento,
encontram uma árvore cheia de pomos perfumados, da qual
saem vozes que louvam a virtude da temperança.
O ANJO atrás já tínhamos deixado,
Que para o sexto círc’lo nos guiava,
3 Um P na fronte havendo-me apagado.
E à turba, que a justiça desejava,
Tinha dito Beati docemente
6 Com sitio e, após tais vozes, se calava.
Mais que em toda a jornada antecedente
Eu, ligeiro, seguia sem fadiga
9 Os Vates, que subiam velozmente.
— “Aquele amor, com que virtude instiga,
Reproduz” — disse o Mestre — “a própria chama
12 Mostras de si apenas dar consiga.
429
“Dês que, da vida terminada a trama,
Do inferno ao limbo, Juvenal descendo,
15 Saber me fez o afeto, que te inflama,
“Tão vivo bem-querer sabe te rendo,
Quanto haver pode a incógnita pessoa,
18 Contigo ora suave andar me sendo.
“Mas dize (e como amigo me perdoa,
Se em falar há nímia confiança
21 E em prática amigável arrazoa):
“Como avareza fez em ti liança
Com ciência, que o estudo te alcançava
24 E em que punhas cuidados e esperança?”
Às palavras do Mestre pronto estava
Estácio, e lhe sorrindo: — “O que me hás dito
27 Penhor caro é de afeto” — lhe tornava.
“Muitas vezes da dúvida o conflito
Por aparência errônea é suscitado,
30 Até que a exata causa surja ao esp’rito.
“Fica em tua pergunta declarado
Creres que eu fora avaro noutra vida,
33 Por ser no círc’lo a avaros destinado.
“Pois sabe que a avareza repelida
Por mim foi nimiamente, e a demasia
430
36 De luas em milhares foi punida.
“Minha alma eterno fardo volveria,
Se atenção tanta em mim não despertasse
39 A indi’nação, que nos teus versos via,
“Quando lançaste dos mortais à face:
— “A que extremos impeles os humanos,
42 Fome de ouro sacrílega e rapace!” —
“Então do excesso em despender, os danos
Aprender pude, agro pesar sentindo
45 Desse pecado e de outros tantos insanos.
“Chorarão, tosquiados ressurgindo,
Quantos não têm sabido à penitência
48 Dar-se em vida ou sua hora extrema em vindo!
“Cada culpa e a que tem contrária essência
Aqui a pena dão conjuntamente,
51 No martírio expurgando a virulência.
“Estive entre essa turba penitente,
Que o desvario chora da avareza
54 Por ter sido no oposto renitente.” —
— “Quando cantaste de armas a crueza,
Que duplamente molestou Jocasta” —
57 Disse o cantor da pastoril simpleza —
431
“Pois que de Clio então o ardor te arrasta,
Inda o fervor da fé não te incendia,
60 E o bem sem fé para salvar não basta:
“Que sol, que estrela, em treva tão sombria
Te aclarou e dessa arte alçar pudeste
63 Velas após o pescador, que se ia?” —
— “Primeiro” — disse Estácio — “tu
me deste
Do Parnaso a beber na doce fonte
66 E de Deus santa luz ver me fizeste.
“Hás sido, como à noite o guia insonte,
Que leva a luz, mas o seu bem não prova,
69 E aqueles serve, de quem vai na fronte,
“Quando disseste — “O séc’lo se renova,
Volta a justiça, volta a idade de ouro,
72 E progênie do céu descende nova.” —
“Por ti ganhei a fé, de vate o louro:
Isto deve, porém, ser-te explicado;
75 Dê ao desenho a cor de claro o foro,
“Já stava o mundo inteiro alumiado
Da vera crença que do reino eterno
78 Os mensageiros tinham propagado.
“O vaticínio teu, Mestre superno,
Aos predicantes novos se adatava;
432
81 Por isso, os freqüentando, o bem discerne.
“Tanto a virtude sua me enlevava,
Que, quando os perseguiu Domiciano,
84 Ao pranto seu meu pranto acompanhava.
“Enquanto estiver no viver humano,
Dei-lhes socorro e o seu exemplo austero
87 Ódio inspirou-me às seitas do erro insano.
“Antes já de cantar o cerco fero
De Tebas no batismo renascera:
90 Mas, de medo, ocultei meu crer sincero.
“Gentio largo tempo eu parecera;
Por isso hei tantos séc’los padecido
93 No círc’lo quarto; a pena merecera.
“Tu a quem devo, pois, ter conseguido
O véu rasgar, que tanto bem cobria.
96 Pois que tempo em subir é concedido,
“Onde Terêncio diz-me ora estancia?
Onde está Plauto Varro com Cecílio?
99 À qual parte do inferno a culpa os lia?” —
— “Aqueles, Pérsio e eu” — tornou Virgílio
—
E os outros mais o Grego acompanhamos
102 Predileto das Musas; lá no exílio
433
“Do círculo primeiro demoramos
Vezes freqüentes do famoso monte,
105 Das Camenas assento praticamos.
“Eurípede é conosco e Anacreonte,
Simônide, Agaton e outros inda
108 Gregos, que cingem de laurel a fronte.
“Stão heroínas, que cantaste: a linda
Antígone, Deifile com Argia,
112 Ismênia, em quem tristeza nunca finda;
“Vê-se também a que mostrou Langia,
Tétis se vê e de Tirésia a filha,
114 E das irmãs Deidama em companhia” —
Os dois, da poesia maravilha,
Calaram-se, ao que os cerca atentos stando,
117 Vencida sendo da subida a trilha.
Das ancilas do dia atrás ficando
A quarta, logo a quinta se jungia
120 Ao carro ardente, ao alto o encaminhando,
“Quando o Mestre — “Eu suponho” — nos dizia
“Que nós à destra caminhar devemos,
123 Volteando, como antes se fazia.” —
Desta arte na exp’riência a mestra havemos,
E no andar prosseguimos confiados,
434
126 Porque de Estácio o assenso recebemos.
Iam diante os Vates afamados,
E eu logo após, nas vozes escutando
129 Arcanos da poesia sublimados,
Eis rompe esse colóquio doce e brando
Uma árvore, que à estrada em meio achamos:
132 Lindos pomos na fronde estão cheirando.
Vão para cima decrescendo os ramos
De abeto; estes descendo diminuem:
135 Para alguém não subir — acreditamos.
Límpidos jorros do penedo ruem
Da parte, em que a montanha a entrada mura;
138 Sobre as folhas em rocio as gotas fluem.
Estácio com Virgílio se apressura
Para essa árvore, quando voz, da fronde,
141 Gritou: — “Não gozareis desta doçura!
“Maria (e o seu desejo não se esconde)
Atende mais das bodas à grandeza
144 Que ao seu gosto; e por vós ora responde.
“Das Romanas à antiga singeleza
Água bastava; e Daniel ciência
147 Logrou, tendo em desprezo a régia mesa.
435
“Chamou-se de ouro a idade da inocência;
Fez as glandes a fome saborosas;
150 Água em néctar tornou da sede a ardência.
“Ao Batista iguarias bem gostosas
Mel, gafanhotos foram no deserto:
Assim fez grandes obras gloriosas,
154 “Como pelo Evangelho ficou certo.” —
5-6. Beati etc., S. Mateus V, 6: “Beati qui esurient et sitium
justitiam.” — 14. Juvenal, poeta satírico latino. —
56. Jocasta,
mãe de Eteocles e Polinices, irmãos inimigos que originaram
a
guerra de Tebas. — 58. Clio, musa da história. — 63. O
pescador, S. Pedro. — 83. Domiciano, imperador romano que
reinou do ano 81 ao 96. d.C. — 97-100. Terêncio, Plauto, Varro,
Cecilio, Pérsio, poetas latinos. — 101-102. O grego… predileto
das Musas, Homero.— 106-107. Euripedes, Simônides,
Anacreonte, Agaton, poetas gregos. — 110. Antígone, filha de
Édipo, rei de Tebas; Deifile, esposa de Tideo; Argia, esposa de
Polinice. — 111. Ismênia, filha de Édipo. — 112.
A que mostrou
Langia, Isifiles, que mostrou o rio Langia às tropas sedentas de
Adrastro. — 113. Tétís, mãe de Aquiles; de Tirésia
a filha,
Dafne. — 114. Deidama, filha do rei Licomedes. — 142-144.
Maria etc., a mãe de Jesus para honrar a festa dos noivos de
Caná, pediu ao filho que transformasse a água em vinho. —
146-147. Daniel etc., o profeta Daniel que adquiriu sabedoria
pela sua abstinência.
436
CANTO XXIII
No sexto compartimento estão as almas dos gulosos. Elas são
atormentadas pela fome e pela sede; Dante descreve a sua
horrível magreza. O Poeta reconhece o seu parente Forense
Donati, o qual louva a sua viúva, Nella, e repreende a impudicícia
das mulheres florentinas.
FITAVA os olhos sobre a rama verde,
Qual caçador, que após um passarinho,
3 Correndo, parte da existência perde.
Quando o que me era mais que pai: — “Filhinho,
O tempo” — disse — “que nos está marcado,
6 Quer mais útil emprego. Eia! a caminho!” —
Voltando o rosto, a passo acelerado
Os sábios sigo e, atento ao que falavam,
9 Não me sentia, andando, fatigado.
Plangentes vozes súbito entoavam
Labia, Domine, mea por maneira,
12 Que piedade e prazer me provocaram.
— “Do que ouço”— disse então —
“ó Pai, me
inteira.”—
— “Almas” — tornou — “talvez que o meio
437
tentam,
15 Que o peso à sua dívida aligeira.” —
Peregrinos solícitos que atentam
Só na jornada, achando estranha gente,
18 Vontam-se apenas, mas o passo alentam:
Tal após nós vem turba diligente;
Em devoto silêncio se acercava;
21 Olhou-nos e afastou-se prestamente.
Os olhos encovados nos mostrava,
Pálida a face e o rosto descarnado,
24 Sobre os ossos a pele se estirava.
Não creio que Erisicton devastado
Tanto da fome horrível estivesse
27 Quando das forças viu-se abandonado.
Eu cogitava: — “O povo aqui padece,
Que Solima perdeu, quando Maria
30 Carnes comeu ao filho, que perece.” —
Cad’olho anel sem pedra parecia:
O que na humana face lesse “omo”
33 Bem claro o M aqui distinguiria.
Quem crer pudera, não sabendo como,
Efeito de desejo ser, nascido
36 Do frescor de água, junto a odor de pomo?
438
Atônito inquiria o que haja sido
De tal fome a razão, não manifesta,
39 Que tal magreza tenha produzido,
Eis lá da profundez da sua testa
Uma alma olhos volvia e me encarava,
42 Gritando: — “Mereci graça como esta?” —
Quem fora o gesto seu não me indicava;
Mas tive pela voz prova segura
45 Do que o aspecto seu não revelava.
Foi súbito clarão em noite escura,
Do rosto avivou traços deformados
48 Forese conheci nessa figura.
— “Ai! não fiquem teus olhos assombrados”
— Dizia — “a lepra ao ver que me descora,
51 E estes ossos mesquinhos, descarnados!
“Dize a verdade de ti próprio agora:
De quais almas te vejo companheiro?
54 Não haja, rogo, em responder demora.” —
— “Como outrora é meu dó tão verdadeiro,
Vendo-te o vulto que chorei já morto,
57 Tão dif’rente do que era de primeiro,
“Dize, por Deus, por que és tão sem conforto:
439
Tolhe-me a fala a vista, que me espanta;
60 Responder-te não posso, em mágoa absorto.” —
— “De tal poder” — tornou — “essa água
e planta
Sabedoria eterna tem dotado,
63 Que consumação em mim produziu tanta.
“Os que o rosto, cantando, têm banhado
De pranto, havendo entregue à gula a vida,
66 Sobem, na fome e sede, o santo estado.
“A fome, a sede sente-se incendida
Dos pomos pelo aroma e por frescura
69 Das águas, sobre as ramas espargida.
“Cada vez que giramos na fragura,
Revive nossa pena e mais agrava;
72 Erro chamando pena o que é doçura.
“Esse desejo ardente de nós trava,
Que fez Cristo dizer — Eli! contente,
75 Quando o sangue em prol nosso na Cruz dava.”
—
— “Forese” — hei respondido incontinênti —
“Dês que deixaste a terreal morada
78 Passaram-se anos cinco escassamente;
“Se a força de pecar stava esgotada
Antes de vir da dor bendita a hora,
440
81 Em que alma é com seu Deus conciliada,
“Como te vejo nesta altura agora?
Lá embaixo encontrar-te acreditara,
84 Onde o tempo com tempo se melhora.” —
— “Conduziu-me tão cedo Nela cara,
Por pranto, que incessante há derramado,
87 Do martírio a tragar doçura amara.
“De orações e suspiros sufragado
Assim, me alcei da encosta, onde se espera,
90 E fui dos outros círc’los resgatado.
“Tanto mais Deus com dileção esmera
Aquela, que extremoso amei na terra,
93 Quanto, só, em virtude ela é sincera.
“Pois a Barbagia de Sardenha encerra
Mulheres por pudor bem mais notadas,
96 Que a Barbagia, onde o vício acende guerra.
“Queres tu, doce irmão, manifestadas
Idéias minhas? Pouco dista o dia
99 Das vozes nesta prática empregadas,
“Em que proíba o púlpito a ousadia
Das impudentes damas florentinas,
102 Que têm, mostrando os seios, ufania.
441
“Morais ou quaisquer outras disciplinas
Hão mister para andarem bem cobertas
105 As mulheres pagãs ou marroquinas?
“Mas, se tais despejadas foram certas
Do castigo, que está-lhes iminente,
108 Bocas teriam para urrar abertas.
“E, se, antevendo, não me engana a mente,
Grande angústia hão de ter antes que nasça
111 Barba ao que em berço embala-se inocente.
“Ah! de dizer quem sejas faz-me a graça!
Não por mim; mas a turba atenta mira
114 Teu corpo e a sombra, que com ele passa.” —
— “Se agora à mente” — eu disse — “te
surgira
O que outrora um pra o outro havemos sido,
117 Desprazer inda agudo te pungira.
“Há pouco, me há do mundo conduzido
Quem me precede; havia então rotunda
120 A irmã do que vês aparecido.” —
E o sol mostrei — “Por noite a mais profunda
Dos verdadeiros mortos me há guiado,
123 Quando a carne inda os ossos me circunda.
“Tenho depois, por ele confortado,
Desta montanha pelos círc’los vindo,
442
126 Que em vós corrige o que trazeis errado.
“Quanto disse, acompanha-me, cumprindo
Té onde a Beatriz veja o semblante:
129 Então sem ele avante irei seguindo.
“Ei-lo! É Virgílio o guia meu constante!
É aquele outro a sombra venturosa
Por quem o vosso reino, vacilante,
133 Tremeu, quando partiu-se jubilosa.” —
11. Labia mea etc., verso 17 do Salmo 50: “Abre-me os lábios,
ó
Senhor, e a minha boca te louvará.” — 25. Erisiton, tendo
injuriado a Geres foi punido com fome insaciável. — 28-29. O
povo aqui padece çue Solima perdeu etc., o povo de Jerusalém
sofreu tanto a fome, que, segundo o historiador hebreu Flavio
José, uma mulher chamada Maria comeu o seu próprio filho. —
32. O que na humana face lesse “omo“, na face humana está
escrita a palavra “omo“ (homem), os olhos representando os dois
o e o nariz com as sobrancelhas o m. — 48. Forese Donati,
parente de Dante, morto em 1296. — 74. Cristo dizer: Eli!,
Cristo crucificado, pouco antes de morrer, disse: “Eli, Eli,
lamma sabactani”, isto é: “Meu Deus, meu Deus, por que
me
desamparaste?”
443
CANTO XXIV
Forese mostra a Dante outras almas de gulosos, entre as quais a
de Bonagiunta de Lucca, que prediz ao Poeta que se enamorará
de uma mulher da sua cidade, e lhe louva o estilo da poesia.
Procedendo, os Poetas encontram outra árvore e ouvem outros
exemplos de intemperança castigada.
NÃO era o passo e o praticar mais lento
Um do que outro; igualmente prosseguiam,
3 Qual nau servida por galerno vento.
As sombras, que duas vezes pareciam
Mortas, nos cavos olhos grande espanto,
6 De estar eu vivo certas, exprimiam.
Eu, a falar continuando, entanto,
Disse: — “Conosco para ir retarda
9 Sua ascensão essa alma ao reino santo.
Mas, rogo-te declara: onde é Picarda?
Afamada por feitos há pessoa
12 Entre a gente, que sôfrega me esguarda?” —
— “Tanto era minha irmã gentil e boa
Que não sei qual foi mais: triunfa leda
15 No Olimpo, onde alcançou formosa c’roa.
444
“Nomes dizer de mortos não se veda
Aqui” — Forese torna; e logo ajunta: —
18 “Tanto a fome as feições nossas depreda!”
“Este que vês de Lucca é Bonagiunta;
E aquela alma (seu dedo ia apontando),
21 Mais que todas desfeita, que lhe é junta,
“Foi Tours; já na Igreja exerceu mando.
Stá, por jejuns, anguilas de Bolsena,
24 Ver na ceia, afogadas, expurgando.” —
Muitos mais nomeou, que sofrem pena;
E todos demonstravam star contentes
27 De ouvir dizer Forese o que os condena.
Em vão de fome vi mover os dentes
Ubaldino de Pila e Bonifaço,
30 Que regeu com seu bago muitas gentes.
Misser Marchese vi, que largo espaço
Com menos sede em Forli consumia.
33 Em beber; mas julgava-o inda escasso.
Mas, como o que repara e que aprecia
Escolhendo, ao de Lucca eu me inclinava,
36 Porque mais conhecer-me parecia.
Submissa voz da boca lhe soava,
445
Causa do mal, que trouxe-lhe o castigo:
39 “Gentucca” ou não sei que pronunciava.
— “Ó alma” — disse — “que falar
comigo
Queres, ao claro te explicar procura:
42 Satisfeita serás como contigo.
— “Mulher nasceu, mas inda é virgem pura,
Por quem” — torna — “hás de amar minha
cidade,
45 Posto assunto haja sido de censura.
“Este prenúncio levas da verdade;
Se por meu murmurar te hás enganado,
48 Trazer-te há de o porvir à claridade,
“Se vejo aquele diz, que à luz há dado
Versos novos, que assim têm seu começo:
51 Damas que haveis de amor na mente entrado.
— “Que vês em mim” — lhe respondi — “confesso
Quem screve o que somente Amor lhe inspira:
54 O que em meu peito diz falando expresso.
“O óbice ora vejo que eu não vira
Que ao Notário a Guittone a mim tolhia
57 O doce estilo da moderna lira.
“As vossas plumas vejo que à porfia
Seguem de perto o inspirador potente;
446
60 Tanto alcançar às nossas não cabia.
“Quem, por mais agradar, mais alto a mente
Erguer que, não discerne um do outro estilo.”
63 Disse e calou-se de o dizer contente.
Como aves, que no inverno o noto asilo
Buscando ora num bando incorporadas,
66 Ora em fila apressadas vão-se ao Nilo,
Essas almas assim já demoradas,
Volvendo o rosto rápidas fugiram,
69 Da magreza e vontade auxiliadas.
Como aquele a quem forças se esvaíram
Correndo afrouxa os passos para o alento
72 Cobrar, em quanto os sócios se retiram;
Forese assim que a passo andava lento
Deixou passar a santa grei dizendo:
75 — “Quando de ver-te inda terei contento?” —
— “Quanto haja de viver” — fui respondendo —
“Não sei; por menos que me dure a vida
78 Mais ao seu termo os meus desejos tendo.
“Que onde foi a existência concedida
Mais escassa a virtude é cada dia:
81 Ruína espera triste e desmedida.
447
— “O que mor culpa tem” — me retorquia —
“À cauda de um corcel vejo arrastado
84 Ao vale, onde o pecado não se expia:
“Vai sempre, sempre mais acelerado
Aquele bruto na carreira fera:
87 Fica vilmente o corpo lacerado.
“Não há de girar muito cada espera
(Para o céu se voltava) antes que seja
90 Claro o que te explicar eu não pudera.
“Adeus, porém: quem neste reino esteja
Ao tempo dê seu preço verdadeiro;
93 O que eu perco ao teu lado já sobeja.”
Como a campanha deixa um cavaleiro,
A galope veloz se arremessando,
96 Por ter na liça as honras de primeiro:
Forese assim de nós foi-se alongando.
Fiquei dos dois espíritos ao lado,
99 Que o mundo está por mestres proclamando.
Quando em distância tanta era apartado,
Que as vistas nesse andar o acompanharam,
102 Como a mente ao que havia revelado.
Eis perto aos olhos meus, que se voltaram,
De outra árvore de pomos carregada
448
105 Os ramos vicejantes se mostraram.
As mãos alçava multidão cerrada
À fronde em brados; turba semelhava
108 De infantes, por desejos vãos turbada,
Um objeto implorando a quem negava,
E que o mostrando ainda mais acende
111 Desejo, que a cobiça lhes agrava.
Foi-se, porém, porque ninguém a atende.
Da grande árvore então nos acercamos,
114 Que a todo o rogo e pranto desatende.
Uma voz de entre as folhas escutamos:
— “Ide-vos logo; não chegueis ao perto!
117 Eva o fruto há mordido de outros ramos:
“Stão longe estes de lá provêm de certo.”
—
Então de lado os passos dirigimos,
120 Unidos no caminho, que era aberto.
— “Lembrai esses malditos” — inda ouvimos —
“Filhos das nuvens, duplos na figura,
123 Que atacaram Teseus, ébrios cadimos;
“E os que em beber acharam tal doçura,
Que os não quis Gedeão na companhia,
126 A Madiã marchando lá da altura.”
449
Por junto à borda o passo se volvia,
E as penas escutamos dos pecados
129 Mortais, que outrora a gula cometia.
Já pela estrada solitária entrados,
Demos mais de mil passos inda avante,
132 Contemplando, em silêncio mergulhados.
— “Em que cismais vós outros?” — retumbante
Soou voz. — Fiquei logo em sobressalto
135 Como o corcel de medo titubante.
Para ver levantei a fronte ao alto:
Aos olhos, dera em fusão, no forno ardente,
138 Vidro ou metal não dera igual assalto,
Como o anjo que eu vi resplendecente.
Dizia: — “A volta dai para a subida!
141 Quem quer paz para aqui vai certamente.” —
Daquele aspecto a vista foi tolhida:
Como quem pelo ouvido os passos guia,
144 Fui caminhando, aos Vates em seguida.
E qual aura de maio, que anuncia
A alvorada, das flores espalhando
147 E das ervas o aroma, que extasia,
Tal sobre a fronte um sopro senti brando,
Senti mover-se a pluma: então rescende
450
150 Odor celeste, o olfato me enlevando
Dizer senti: — “Feliz o que se acende
Na Graça o que, da gula desligado,
Ao sabor do apetite não se prende,
154 Comendo quanto é justo sem pecado!” —
10. Picarda, irmã de Forese Donati. — 19. Bonagiunta degli
Orbicciani, poeta contemporâneo de Dante. — 22. Tours, o papa
Martinho IV, que foi cônego da catedral de Tours. — 29.
Ubaldino de Pila, de nobre família pisana. — Bonifaço,
Bonifazio
dei Fieschi, arcebispo de Ravenna. — 31. Messer Marchese de
Rigogliosi, gentil-homem de Forli. — 39-43 Gentucca, senhora
de Lucca, que Dante amou, quando em 1314 esteve em Lucca
na casa do seu amigo Uguccione della Faggiuola. — 51. Damas
etc., primeiro verso de uma canção de Dante em louvor de
Beatriz. — 56. O notário, Jacopo de Lentini. — Guittone
de
Arezzo. — 82. O que mor culpa tem, Corso Donati, irmão de
Forese, chefe do partido dos Pretos, foi assassinado em 1308. —
121-123. Esses malditos… filhos das nuvens etc., os Centauros,
que foram mortos por Teseu quando tentavam raptar Ipodamia.
— 124-126. Os que não quis Gedeão etc., os soldados hebreus
que Gedeão, seguindo os conselhos de Deus, não quis por
companheiros, porque beberam avidamente, ajoelhando-se na
fonte.
451
CANTO XXV
Subindo por estreita senda, do sexto ao sétimo e último
compartimento, Dante pergunta a Virgílio como podem emagrecer
as almas, que não precisam de alimento. Respondem-lhe Virgílio,
antes, e depois Estácio. Este fala da geração do corpo
do homem,
da alma que nele Deus infunde, e da maneira de existência
depois da morte. O compartimento no qual acabam de chegar
está cheio de flamas, nas quais estão se purificando as almas
dos luxuriosos.
PARA subir o tempo nos urgia;
Meridiano ao Tauro o sol já dera,
3 Bem como a noite ao Scorpião cedia
Qual viajor, que o passo não modera,
Que em nada atenta e sempre segue avante,
6 Se em seu querer necessidade impera,
Nós penetramos no rochedo hiante,
Por escada estreitíssima subindo,
9 Que obriga um ir atrás outro adiante.
Da cegonha o filhinho, asas abrindo,
Por voar logo, encolhe-as e não tenta
12 Deixar o ninho, esforço não sentindo:
452
Tal o desejo em mim ferve e arrefenta
De perguntar chegando quase ao ato
15 De quem para dizer se experimenta.
O Mestre, sem parar, pressente o fato:
— “Tens da palavra o arco” — diz — “tendido,
18 Deixa a seta partir; não sê coato“. —
De confiança então já possuído,
Falei, — “Como é possível fique magro
21 Quem não precisa mais de ser nutrido?” —
— “Se recordaras” — torna — “Meleagro
Que, em ardendo um tição se consumia
24 Isso não fora de entender tão agro.
“Também de fácil crença te seria,
Se no espelho notaras que o teu rosto,
27 Segundo te movesses, se movia.
“Por dissipar-se a dúvida ao teu gosto,
Eis Estácio, a quem rogo fervoroso
30 Seja a dar-te o remédio bem disposto.” —
— “Se eu o eterno conselho explicar ouso”
— Disse Estácio — “quando és, Mestre, presente,
33 Ao teu querer me curvo respeitoso.
“Se, filho, o que eu disser guardas na mente,
Hás de ter — prosseguiu — “esclarecidas
453
36 Essas dúvidas tuas prontamente.
“Sangue puro, que as veias ressequidas
Não bebem, que de parte permanece
39 Quais viandas em mesas bem providas,
“Do coração tomou que lhe oferece
Virtude de que a forma aos membros veio,
42 Como o que às veias por fazê-los desce;
“Ainda, elaborado, desce ao seio
De canal que não digo; após, unido
45 Em vaso é natural com sangue alheio.
“É ali com outro confundido,
Paciente sendo um, sendo outro ativo,
48 Pela perfeita sede, em que há nascido.
“Trabalho então começa produtivo
Coagulando e depois vivificando
51 O condensado efeito primitivo:
“Em alma a força ativa se tornando,
Como em planta, é, no entanto, diferente:
54 Pára a planta, vai a alma caminhando.
“Prosseguindo, já move-se, já sente,
Como o fungo marinho; e logo emprende
57 Os sentidos, que em si tem qual semente.
454
“Ora contrai-se, filho, ora se estende
A força genetriz, do peito vinda,
60 Donde natura em todo o corpo entende.
“Mas, filho meu, não sabes certo ainda
Como a ser vem um ente cogitante:
63 É ponto em que um mais sábio no erro finda;
“Pois, na doutrina sua extravagante,
Distinto da alma fez o entendimento
66 Possível, não lhe vendo órgão bastante.
“Abre à luz da verdade o pensamento:
Vê que, no feto os órgãos em chegando
69 Do cérebro ao perfeito acabamento,
“O Primeiro Motor, ledo encarando
Da natureza tal primor, lhe inspira ,
72 Esp’rito, em que virtudes stão brilhando,
“E que ativo alimento dali tira
Para a própria substância; e alma se forma,
75 Que vive e sente e pensa e em si regira.
“Com meu dizer tua mente se conforma,
Notando que do sol calor em vinho,
78 Da uva ao sumo unido, se transforma.
“O esp’rito, se Laquésis não tem linho,
Deixa a carne e virtude, traz consigo
455
81 Dotes, que teve no corpóreo ninho.
“Sobem de ponto no valor antigo
A memória, a vontade, o entendimento,
84 Da mudez o mais fica no jazigo.
“Cai logo, de espontâneo movimento,
Por maravilha, numa ou noutra riba,
87 Onde há do rumo seu conhecimento.
“Vindo a lugar, que o circunscreva e iniba,
Da força informativa é rodeado,
90 Como em membros que a morte nos derriba.
“Bem como o ar de chuva carregado,
Se dos raios solares é ferido,
93 De cores várias mostra-se adornado,
“O ar vizinho assim fica inserido
Nessa forma, que desde logo amanha
96 Virtualmente o esp’rito ali contido;
“E semelhante ao fogo, que acompanha
Labareda, com ele se movendo,
99 Cada alma segue aquela forma estranha.
“Aparência de forma nela havendo
Sombra se chama; e, após, ela organiza
102 Sentidos, o da vista compreendendo.
456
“Fala, ri-se, ama, odeia ou simpatiza,
Exala dor, carpindo ou suspirando:
105 Neste monte já tens prova precisa.
“Segundo está sofrendo ou desejando,
Da alma também altera-se a figura:
108 Vê, pois, o que a magreza está causando.” —
Voltando à mão direita, da tortura
Entramos pela estância derradeira:
111 Então preocupou-nos outra cura.
Flamas brotava aqui a ribanceira,
Aura ativa da estrada respirava:
114 Subindo, as rechaçava subranceira.
Ao longe da árdua borda caminhava
Um por um: precipício temoroso
117 De um lado, e do outro o fogo eu receava.
Disse Virgílio: — “Aqui bem cauteloso
Deve aplicar aos olhos seus o freio
120 Quem não quiser dar passo perigoso.” —
Summae clementiae Deus stavam no seio
Do grande incêndio as almas entoando,
123 E de voltar-me o ardor então me veio.
Vi nas chamas espíritos andando:
Aos movimentos seus, aos meus estava
457
126 Atento, a vista a uns e a outros dando.
E quando aquele cântico findava
Virum non cognosco alto se ouvia,
129 E o cântico em tom baixo renovava.
E, terminando, o coro repetia:
“Diana expulsa da floresta Helice
132 Que o veneno de amor tragado havia.” —
Cantaram; cada qual como antes disse
Esposas e maridos, que hão guardado
135 A fé, que Deus mandou sempre os unisse:
Este modo há de ser, creio, alternado,
Enquanto os rodear a chama ardente:
A chaga por tal bálsamo e cuidado
139 Há de ser guarnecida finalmente.
2-3. Meridiano ao Touro, etc. No hemisfério do Purgatório eram
duas horas da tarde e no hemisfério antípoda eram duas horas
depois da meia-noite. — 22. Meleagro, personagem de Ovídio ao
qual, ao nascer, as fadas predisseram que a sua vida estava
ligada a um tição. Sua mãe Altéia guardou o tição
para
preservar-lhe a vida; mas, depois, irada contra o filho, o lançou
ao fogo no qual se consumiu, e Meleagro morreu. — 37-57.
Nestes tercetos é descrita a forma da geração humana.
— 63.
Um mais sábio, o filósofo Averroes que não encontrando
no
homem um órgão especial para o pensamento, como os olhos
para ver, as orelhas para ouvir etc., concluiu que o intelecto era
disjunto da alma do homem. — 70. O Primeiro Motor, Deus. —
458
79. Laquesis, a Parca que fia o estame da vida. — 121. Summae
Deus clementiae, hino eclesiástico com o qual se roga a Deus
que nos livre da luxúria. — 128. Virum non cognosco, palavras
da Virgem Maria ao arcanjo Gabriel. — 131. Helice, ou Calixto,
que foi expulsa da sua companhia por Diana, que sempre se
manteve virgem, por ter sido seduzida por Júpiter.
459
CANTO XXVI
Entre os luxuriosos e os que pecaram contra a natureza Dante
encontra o poeta Guido Guinicelli, ao qual exprime a sua
profunda admiração. Guido lhe aponta o poeta provençal
Arnaud
Daniel, que o saúda em versos provençais.
ENQUANTO imos a borda costeando.
Um após outro, o Mestre repetia:
3 “Eu te previno, vai com tento andando!’
O sol pela direita me feria;
Purpureava a luz todo o poente:
6 Do céu o azul de branco se tingia.
Co’a sombra minha ainda mais rubente
Parece a flama; e as almas, que passavam,
9 Notando-a davam-me atenção ingente.
Nessa estianheza ensejo deparavam
Para, entre si, conversação travarem.
12 “Não é fictício o corpo seu” — falavam.
Quando podiam, mas tendo cuidado
Avançavam por mais certificarem,
15 O fogo expiatório em não deixarem.
460
— “Tu, que vais após outros colocado,
Mostrando ser, não tardo, respeitoso,
18 Responde: em fogo e sede ardo, abrasado.
“Não sou eu só de ouvir-te desejoso:
Quantos vês da resposta sentem sede
21 Mais que Etíope da água cobiçoso.
“Diz-nos como o corpo teu parede
Oponha desta sorte à luz do dia:
24 Não te colheu da morte acaso a rede?” —
Uma sombra falou-me. Eu pretendia
Logo explicar; porém fui distraído
27 Pelo que então de novo aparecia.
Pelo caminho andando escandecido,
Outra grei ao encontro veio desta:
30 Atalhei-me, em mirar pondo o sentido.
De parte a parte se dirige presta
Uma alma a outra; osculam-se e em seguida
33 Vão-se, contentes dessa breve festa.
Assim da negra legião saída,
Em marcha, toca em uma outra formiga,
36 Por saber do caminho ou sorte havida.
Separando-se após a mostra amiga,
Antes que o giro sólito transcorra
461
39 Cada uma grei em brados se afadiga.
— “Sodoma!” — clama a última — “Gomorra!”
E a outra: — “Entrou Pasifae na vaca,
42 Por que à luxúria sua touro acorra.” —
Como grous, de que um bando se destaca
Para os Rifeus e o outro pra o deserto,
45 Pois calma ali e frio aqui se aplaca,
Uns se vão, outros vêm; voltando, ao perto
O hino se renova, e o pranto e o brado,
48 Que tem, qual mais convém, efeito certo.
Os mesmos, que me haviam perguntado,
De mim como inda há pouco, se acercaram:
51 Stá desejo nos gestos desenhado.
Vendo ainda o que já manifestaram,
— “Sabeis vós, que tereis de glória em dia,
54 Paz que os vossos martírios vos preparam,
“Que inda não jaz meu corpo em terra fria;
Comigo vem na própria compostura,
57 Com seu sangue e seus membros” — lhe dizia.
“Minha cegueira aqui a luz procura:
Lá no céu santa Dama há conseguido
60 Que eu, vivo, por aqui me eleve à altura.
462
“Dizei-me (e seja em breve concedido)
Quanto anelais, no céu, que é de amor cheio
63 E em que espaço mais amplo está contido!
“Para que eu tenha de narrá-lo o meio,
Quem fostes e também que turba é aquela,
66 Que como hei visto ao vosso encontro veio.” —
Se o pasmo seu o montanhês revela,
Quando rude e boçal vê de repente
69 Quanto pode encerrar cidade bela,
Na grei não foi o efeito diferente.
Tornando sobre si, porém, do espanto,
72 Que se esvai logo em peito preminente,
— “Ditoso tu, que vendo o nosso pranto” —
Respondeu quem primeiro há perguntado —
75 “Alcanças ao viver ensino santo!
“Inquinaram-se aqueles no pecado,
Porque César outrora, triunfando,
78 Rainha, em vitupério, foi chamado.
“Eis por que se acusavam se apartando,
Contra si de — Sodoma! alçando o brado,
81 Do fogo à pena o opróbrio acrescentando.
“Hermafrodito foi nosso pecado;
Mas tendo as leis humanas transgredido
463
84 De brutos no apetite desregrado,
“Por nossa injúria o nome é repetido,
Quando partimos, da mulher impura,
87 Que em bestial figura besta há sido.
“Se queres, vendo a nossa nódoa escura,
Do nome de cada um ser instruído,
90 Não sei, nem tempo para tal nos dura.
“Mas o meu te farei bem conhecido;
Vês Guido Guinicelli: o crime expia
93 Por se haver inda a tempo arrependido.” —
Quais, ante a fúria em que Licurgo ardia,
Os filhos dois achando a mãe, ficaram,
96 Tal senti, sem correr viva alegria,
Quando o nome essas vozes declararam
Do pai meu e do pai de outros melhores,
99 Que em doce metro amores decantaram.
Sem falar, sem ouvir perscrutadores
Longamente olhos meus o contemplaram:
102 Vedavam-me acercar do fogo ardores.
Depois que em remirá-lo se enlevaram,
Ao seu serviço declarei-me presto,
105 E solenes promessas o afirmaram.
464
— “Imprimiu tal vestígio o teu protesto” —
Tornou — “no peito meu agradecido,
108 Que fora além do Letes manifesto.
“Se hei de ti a verdade agora ouvido,
O que di’no me fez do sentimento,
111 Que tens na voz, nos olhos insculpidos?” —
E eu: — “Das rimas vossas o concento,
Que, enquanto usar-se do falar moderno,
114 Salvas hão de viver do esquecimento.” —
— “O que te indico, irmão” — tornou-me terno
(E seu dedo outra sombra me apontava)
117 Mais primor teve no falar materno.
“Nos versos, nos romances superava
A todos: stultos só dizer ousaram
120 Que o Limosim aquele avantajava.
“Pelo rumor verdade desprezaram,
E, como arte e razão desconheceram,
123 Sem fundamento opinião formaram.
“Assim muitos outrora procederam
Com Guittone e o seu nome hão proclamado;
126 Mas verdade alfim todos conheceram.
“E pois que o privilégio hás alcançado
De entrar nesse mosteiro portentoso,
465
129 Por Cristo, como abade governado,
“Um Pater Noster diz por mim piedoso;
Quanto mister havemos neste mundo,
132 Onde ato algum não há pecaminoso.” —
“Por dar lugar ao spírito segundo,
Já próximo, no fogo desparece.
135 Qual peixe, quando imerge de água ao fundo.
Acerquei-me da sombra que aparece,
E disse que ao seu nome apercebia
138 Meu desejo o lugar que assaz merece.
Logo assim livremente me dizia:
— “Tão cortês vosso rogo é, que escutando,
141 Me encobrir não quisera ou poderia.
“Arnaldo sou, que choro e vou cantando,
Triste os erros passados meus lamento,
144 E o fausto dia estou ledo esperando.
“E peço-vos pelo alto valimento,
Que da escada a eminência ora vos guia,
Que em tempo vos lembreis do meu tormento.”
148 E, após, ao fogo apurador se envia.
466
40. Sodoma… Gomorra, V. Inferno, canto XI, 50; cidades que
Deus destruiu por pecarem contra a natureza. — 41. Pasifae, V.
Inferno, canto XII, 13; mulher do rei de Creta, para unir-se com
um touro se colocou numa vaca de madeira; e desta união
nasceu o Minotauro. — 44. Rifeus, montanhas da Moscóvia
boreal. — 77. César… rainha, em vitupério, foi chamado,
conta
Suetônio que os soldados de César, no triunfo que lhe foi
concedido por ter vencido os Galos, cantavam: “César submeteu
as Gálias, Nicomedes a César”, aludindo às suas
relações com o
rei Nicomedes. — 92. Guido Guinicelli, célebre poeta bolonhês
n.
em 1230 e m. em 1276. — 94-95. Quais, ante a fúria etc.,
Ipsifile condenada à morte por Licurgo, rei da Neméida, mas
foi
salva pelos dois filhos que, antes, não a conheciam. — 115. O
que te indico etc., o trovador Arnaud Daniel, que viveu na
metade do século XII. — 120. O limosim, Gerault de Berneil de
Limonges, outro trovador provençal. — 125. Guittone de Arezzo,
poeta aretino do sécuio XII.
467
CANTO XXVII
Para chegar à escada que do sétimo e último compartimento
leva
ao cimo do monte, Dante é obrigado por um Anjo a atravessar as
flamas. Pouco depois de ter começado a subir, o ar escurece e
sobrevém a noite. Param e Dante, cansado, adormece.
Despertado pela madrugada, os Poetas recomeçam a subir,
chegando ao Paraíso Terrestre.
COMO, quando os primeiros raios vibra
Lá onde Cristo sangue derramara,
3 Sotopondo-se o Ebro à excelsa Libra,
E, ao meio-dia, o Gange aquece e aclara
Stava o sol; declinando a luz já se ia:
6 Eis ledo o anjo de Deus se nos depara.
Fora da flama, à borda ele se erguia,
Beati mundo corde modulando.
9 Em tom de voz, que a humana precedia.
“Para avante passar” — acrescentando —
“Apurai-vos no fogo, almas piedosas!
12 Entrai, de além nos hinos atentando.”
Lhe ouvindo ao perto as vozes sonorosas,
Sossobrei, como quem, perdido o alento,
468
15 Da tumba às trevas desce pavorosas.
Mãos cruzadas, quedei sem movimento;
De olhos na chama, os vivos relembrava,
18 Que das fogueiras vira no tormento.
A mim cada um dos Vates se voltava.
— “Não temas, filho! Aqui dor se padece,
21 Mas não morte” — Virgílio me exortava.
“Lembra! Lembra ou memória em ti falece?
Já sobre Gerião levei-te a salvo:
24 De Deus mais perto, em mim virtude cresce.
“Se destas chamas, crê, tu foras alvo
Em todo o espaço de um milheiro de anos,
27 De um só cabelo ficarias calvo.
“Se cuidas no que digo haver enganos,
Te acerca e por ti próprio experimenta,
30 Ao fogo expondo de tua veste os panos.
“Todo o temor do ânimo afugenta!
Vem, pois! Mostra que tens peito seguro!” —
33 Ouvi, mas o valor meu não se aumenta.
Vendo-me ainda pertinace e duro,
Merencório me disse: — “Ó filho amado,
36 De Beatriz a ti só este muro!” —
469
De Tisbe ao nome, Píramo chegado
À morte, os olhos para vê-la abria,
39 Quando há seu sangue à amora cor mudado;
A resistência minha assim cedia.
A Virgílio volvi-me, o nome ouvindo,
42 Que sempre o pensamento me alumia.
Então a fronte meneou; sorrindo,
Como a infante, que um pomo há seduzido,
45 Disse: — “Aqui ficaremos persistindo?” —
Sou por ele no fogo antecedido;
Estácio, que antes sempre caminhara,
48 Depois de mim seguia a seu pedido.
Eu pelo fogo apenas penetrara,
Ardor tanto senti, que, pra recreio,
51 Em vidro derretido me lançara.
De confortar-me procurando o meio,
De Beatriz Virgílio assim falava:
54 — “Seu gesto julgo ver de fulgor cheio.” —
Voz peregrina ouvi, que ali cantava:
Fora saímos nós, dos sons guiados,
57 Na parte, onde a subida se mostrava.
— “Vinde, ó vós de meu Pai abençoado!”
—-
Do seio de um luzeiro retinia,
470
60 Tal que os olhos cerram-se ofuscados.
“Transmonta o sol, a noite segue ao dia,
Não vos detende; a passo andai ligeiro,
63 Que o Ponente já trevas anuncia.” —
A trilha no penhasco sobranceiro
Direita sobe à parte em que tolhia
66 A sombra minha o lume derradeiro.
Vencido apenas nosso passo havia
Alguns degraus, a sombra, que fenece,
69 Mostra que o sol já luz não difundia.
Antes que em todo apresentado houvesse
O imenso horizonte igual aspeito,
72 E a noite os seus véus todos estendesse,
Um degrau cada qual tomou por leito;
Que nos tirara da montanha a agrura,
75 Mais que o desejo de subir o jeito.
Como as cabras das penhas sobre a altura,
Antes de fartas, rápidas e ardentes,
78 Têm, ruminando, mansidão, brandura;
Pousam à sombra, enquanto o sol candentes
Lumes despede, e as guarda o pegureiro
81 Com seu cajado e os olhos previdentes;
471
E como o guardador, que no terreiro
Quedo pernoita em sentinela aos gados
84 Contra assaltos do lobo carniceiro:
Assim nós três estávamos pousados,
Eu como cabra, os Vates quais pastores,
87 Da rocha a um lado e a outro conchegados.
Escassa aberta deixa ver fulgores
De estrelas, que do céu naquela parte,
90 Contemplava mais lúcidas, maiores.
Nessa vista engolfei-me por tal arte,
Que o sono me prendeu, sono que à mente
93 Do que há de ser a provisão comparte.
Naquela hora em que Vênus do Oriente
Seus lumes sobre o monte difundia,
96 Parecendo de amor star sempre ardente,
Jovem formosa em sonho ver eu cria,
Dama que em veiga amena passeando,
99 Flores colhendo, a modular dizia:
— “Quem meu nome pedir, vá me escutando:
Sou Lia e uma grinalda, cuidadosa,
102 Co’as minhas belas mãos a tecer ando.
“Mirar-me, hei-de no espelho mais garbosa:
De sua mana, Raquel se não separa,
472
105 Sentada o inteiro dia descuidosa.
“De ver os belos olhos seus não pára,
Como eu em me adornar sou diligente:
108 Ela contempla, eu trabalhar tornara!”
Já vem do dia o precursor splendente,
Que tanto alenta a esp’rança ao peregrino,
111 Quando o seu lar já próximo pressente.
Fugia a treva ao lume matutino
— E com ela o meu sono: ergui-me ativo,
114 Dos mestres tendo no exemplo o ensino.
— “O pomo, que é tão doce, quanto esquivo,
Que a ambição dos mortais procura ansiosa,
117 Hoje à fome há de dar-te o lenitivo.” —
Estas palavras proferiu donosa
Do Mestre a voz: janeiras não dariam
120 Jamais satisfação tão graciosa.
Tão vividos anelos me pungiam
De alar-me ao cimo excelso, que julgava
123 Que asas o passo meu favoreciam.
Quando a comprida escada terminava
E o pé firmamos no degrau superno,
126 Virgílio, me encarando, assim falava:
473
— “O fogo temporário e o fogo eterno
Tens visto, filho, e a altura hás atingido.
129 Além de cuja extrema não discerno:
“Te hei com engenho e arte conduzido:
Seja-te agora o teu querer o guia;
132 Angústias e fraguras tens vencido.
“Olha: o semblante o sol já te alumia;
Flores, ervinhas, árvores virentes
135 Vê que a terra espontânea brota e cria.
“Antes que os olhos venham refulgentes,
Que em teu prol me enviaram por seu pranto,
138 Repousa, ou pelos prados vai florentes.
“Não mais te falo, nem te aceno, entanto;
Possuis vontade livre, reta e boa,
Cumpre os ditames seus: a ti, portanto,
142 Pois de ti és senhor, dou mitra e c’roa.
1-5. Como, quando os primeiros raios etc. O sol surgia em
Jerusalém; na Espanha era meia-noite. No Purgatório o sol
tramontava. — 8. Beati etc., bem-aventurados os limpos de
coração porque eles verão a Deus (S. Mateus, Evang. V,
8). —
23. Gerião etc., v. Inf XVII. — 101. Lia, filha de Labão
e primeira
mulher de Jacó, símbolo da vida ativa. — 104. Raquel,
irmã de
Lia e segunda mulher de Jacó, símbolo da vida contemplativa.
474
CANTO XXVIII
O Poeta descreve a beleza do Paraíso Terrestre. Chegam Dante,
Virgílio e Estácio perto de um rio que os impede de prosseguir.
Do
outro lado do rio aparece uma mulher de maravilhosa beleza que
discorre a respeito da condição do lugar, resolvendo as dúvidas
que Dante lhe propõe.
VAGAR já nos recessos desejando
Da selva divinal, vivida espessa,
3 Que ao novo dia o lume faz mais brando,
Daquela encosta a me afastar dou pressa.
Pela veiga me interno a passo lento,
6 Doce aroma sentindo, que não cessa.
Do ar, que circulava, o doce alento,
Mas sempre igual, a fronte me afagando,
9 Tinha o bafejo de suave vento.
As folhas, molemente balouçando,
Do santo monte à parte se inclinavam,
12 A que a sombra primeira vai baixando.
Mas, no meneio seu, não se acurvavam
Em modo, que na rama aos passarinhos
15 Os hinos perturbassem, que entoavam.
475
Pousados ledamente entre os raminhos
Saudavam com seus cantos a alvorada
18 Da fronde os acordando aos murmurinhos;
Assim de Chiassi no pinhal soada
De ramo em ramo corre quando a amara
21 Prisão, abre ao mestre Eolo a entrada.
Com demorado andar eu caminhara
Na selva antiga tanto, que não via
24 Mais o lugar, por onde penetrara.
Eis andar um ribeiro me tolhia,
Que, à sestra deslizando-se, beijava
27 A ervinha, que às margens lhe crescia:
O cristal dessa linfa superava
Da terra água a mais pura e transparente;
30 Quanto continha em si patente estava.
Entanto, pela sombra permanente,
Que luz da lua ou sol nunca atravessa,
33 Negreja aquela plácida corrente.
O pé detenho, e a vista se arremessa
Além do humilde rio, contemplando
36 Primores, com que maio se adereça,
Então se of’rece aos olhos, como quando
476
De súbito um portento surge à mente,
39 De outro pensar qualquer a desviando,
Uma dama sozinha de repente,
Que, cantando, escolhia, de entre as flores,
42 Que o chão cobriam de matiz ridente.
— “Bela dama, que sentes os fervores
Do amor divino, se por teu semblante
45 Da tua alma julgar devo os ardores” —
Assim falei — “se caminhar avante
Até perto do rio te aprouvera,
48 Te entendera esse canto inebriante.
“Tão linda, em tal lugar, lembras qual era
Prosérpina, ao perdê-la a mãe querida
51 E ao perder também ela a primavera.” —
Qual menina, que em danças entretida,
Gira ligeira em terra deslizando,
54 Os passos troca e volve-se garrida,
Sobre o esmalte das flores se voltando,
A mim se dirigiu, como donzela
57 Que vai, modesta, os olhos abaixando.
Quanto o desejo meu sôfrego anela
Acercou-se e da angélica toada
60 Distinta pude ouvir a letra bela.
477
Logo em chegando à borda em que banhada
A erva era da linfa cristalina,
63 De olhar-me fez a graça assinalada.
Não creio que na vista peregrina
De Vênus lume tal resplandecesse
66 Ao feri-la de amor seta mali’na.
De fronte aos olhos a sorrir se of’rece.
As mãos de lindas flores tendo plenas,
69 De que espontâneo o solo se guarnece.
A nós três passos interpõem apenas:
O Helesponto que Xerxes transcendera,
72 Lição em que há para os soberbos penas,
Em Leandro mais ódio não movera,
Quando entre Sesto e Ábidos nadava,
75 Do que o rio que tanto estorvo me era.
— “Sois recém-vindos” — ela assim falava —
“Meu riso ao ver-vos no lugar eleito
78 À humana raça, quando à luz brotava,
“Talvez vos maravilhe por suspeito.
Se lembrado o salmo Delectasti,
81 De todo o engano vos será desfeito.
“Tu, que estás adiante e me falaste
478
Que mais ouvir desejas? Eis-me presta
84 Explicação a dar-te, quanto baste.” —
— “Esta água” — torno — “e o som
desta floresta
Opõem-se à minha fé na maravilha.
87 Que eu tinha ouvido e que é contrária a esta.”
—
— “Eu te direi a causa, de que é filha
A razão que te move essa estranheza;
90 Terás, em vez de névoa, a luz que brilha.
“O Bem, que em si somente se embeleza,
Apto ao bem fez o home’; em arras deu-lhe
93 De eterna paz à edênica riqueza.
“A culpa sua este alto dom tolheu-lhe;
A culpa sua em prantos, em desgostos
96 Os prazeres, os risos converteu-lhe.
“A fim de que efeitos, que, compostos
São de eflúvios das águas e da terra,
99 Para o calor acompanhar dispostos,
“Ao homem não fizessem qualquer guerra,
Tão alta há se elevado esta montanha,
102 Que é livre desde o ponto onde se encerra.
“E porque todo o ar, por força manha,
Roda ao impulso do motor primeiro,
479
105 Quando estorvo nenhum seu giro acanha,
“Este cimo elevado e sobranceiro
Pelo éter vivo ao moto é tão batido,
108 Que o denso bosque remurmura inteiro:
“E sendo em cada um tronco percutido,
A virtude transmite fecundamente
111 Ao ar, que a esparge, em torno revolvido.
“A terra, como é apta, circunstante
Por si ou por seu céu plantas concebe
114 De gênero e virtude variante.
“E pois, já claramente se percebe
Como planta há viçosa e florescente,
117 Quando o germe a terra não recebe.
“Sabe que até jardim toda semente
Do que a terra produz em si compreende
120 E contém fruto inoto à humana gente.
“Esta água de uma origem não depende,
Que alimente vapor que em chuva desça,
123 Como rio que seca ou que se estende.
“De fonte certa vem que nunca cessa,
Pois por querer que Deus tanta dimana,
126 Quanta aqui por canais dois se arremessa.
480
“A que neste álveo que ora vês, se encana
Memória do pecado desvanece,
129 Aviva a outra a da virtude humana.
“É Letes, se por ela o mal se esquece,
Eunoé quando lembra: atuam quando
132 O gosto de uma e de outro homem conhece.
“Saber igual aos outros comparando
Não existe ao desta água. Ao teu pedido
135 Satisfação hei dado assim falando.
“Corolário, porém, lhe seja adido:
Não receio que assim te desagrade,
138 Indo além do que fora prometido.
“Poetas que cantavam de ouro a idade
E sua dita, em Parnaso, certamente
141 Sonharam desta estância a f’licidade.
“Estirpe humana aqui fora inocente;
Eterna primavera aqui domina;
144 Foi este néctar, que inventou sua mente.” —
Então a vista aos Vates se me inclina.
Um sorriso em seus lábios se revela,
Esse conceito ouvindo, em que termina.
148 Rosto volvi depois à dama bela.
481
19. Chiassi, localidade (hoje destruída) perto de Ravena, onde
ainda há um grande pinheiral. — 21. Éolo, rei dos ventos.
— 40
Uma dama, Matelda, como Dante dirá no Canto XXXIII, v. 119.
Para a maior parte dos comentadores é Matilde, condessa de
Canossa. — 50. Prosérpina, filha de Ceres que foi raptada por
Pluto quando colhia flores no vale do Etna. — 71. O Helesponto,
o estreito dos Dardanelos que Xerxes, rei da Pérsia, atravessara
com uma ponte de barcos para invadir a Grécia, e que,
derrotado, teve de atravessar novamente. — 73. Leandro, etc.
Leandro todas as noites atravessava a nado o Helesponto, da
sua cidade Ábido a Sesto, onde morava a sua amante Heros. —
80. Delectasti etc., Salmo XCI, 5. — 130. Letes, o rio do
esquecimento. — 131. Eunoé, o rio da boa recordação.
482
CANTO XXIX
Da floresta aparece um súbito esplendor. Dante vê avançar
uma
procissão de espíritos bem-aventurados em cândidas vestes,
e,
no fim da procissão, um carro tirado por um grifo. Ouve-se um
trovão e o carro e o grifo param.
AS vozes, que eu lhe ouvia, ela remata,
Qual dama namorada, assim cantando:
3 Beati quorum tecta sunt peccata!
Como das ninfas o formoso bando,
Que nas umbrosas selvas sós andavam,
6 Qual ver, qual evitar o sol buscando:
Contra o ribeiro os passos a levavam,
Sobre a margem seguindo lentamente;
9 E pelos seus os meus se regulavam.
Cinqüenta assim andáramos somente,
Quando o álveo curvou a linfa pura,
12 E, pois, da banda achei-me do oriente.
Pouco éramos avante na espessura,
Eis, voltando-se, a dama desta sorte
15 Falou-me: — “Escuta, irmão, e ver procura.” —
483
Refulge de repente uma luz forte,
Por todo o espaço imenso da floresta.
18 Relâmpago julguei, que os ares corte.
Mas luz após relâmpagos não resta;
E o fulgor mais e mais resplendecia.
21 Disse entre mim: — “Que maravilha é esta?” —
Pelo ar luminoso se esparzia
Dulcíssima harmonia: e em zelo ardendo
24 De Eva o feito imprudente eu repreendia,
Pois, céu e terra a Deus humildes vendo,
A mulher só, que a vida começara,
27 Violava o preceito, os véus rompendo.
Se fiel fora e as ordens respeitara,
Mais cedo e por mais tempo essa morada,
30 Em delícia inefável, eu gozara.
Prosseguia, tendo a alma transportada
Nas primícias da eterna f’licidade,
33 Em desejos mais vivos abrasada,
Quando vimos de intensa claridade
Sob a rama tornar-se o ar brilhante
36 E o som tomou de um hino a suavidade.
Ó Musas, santas virgens, se, constante
Fome, frio, vigílias hei sofrido,
484
39 Da mercê vos rogar assoma o instante:
Das águas de Hipocrene bem provido
Para em metro cantar idéia imensa
42 De Urânia e das irmãs seja eu valido!
De ver, um tanto além, eu tive a crença
Árvores sete de ouro: era aparência,
45 Emprestava a distância parecença.
Mas, quando me acerquei, quando a evidência
Provou-me quanto a semelhança engana,
48 Dando das cousas falsa inteligência,
A faculdade, que à razão aplana
O discurso, fez ver distintamente
51 Candelabros e ouvir no hino: Hosana!
Cada qual flamejava refulgente,
Mais que no azul do céu rebrilha a lua
54 Da noite em meio, em seu maior crescente.
De pasmo, que no espírito me atua,
A Virgílio me volto; ele me encara:
57 Também revela espanto a vista sua.
Tornei-me ao lampadário, que não pára,
Prosseguindo, porém, solene e lento:
60 Noiva ao altar mais presta caminhara.
485
Eis a dama gritou-me: — “Por que atento
Às vivas luzes stás com tanto excesso,
63 Que desvias do mais o pensamento?” —
Trajadas de alva cor a ver começo
Pessoas, que os luzeiros têm por guia:
66 Candor igual na terra não conheço.
Do rio a linfa à sestra resplendia:
Espelho, minha imagem, desse lado,
69 Oscilando, aos meus olhos refletia.
Dos lumes tanto estava apropinquado,
Que pelo rio só fiquei distante:
72 Parei, por ver melhor, maravilhado.
Esses clarões eu vi passar avante;
Trás si no ar matiz vário espalhavam,
75 A pendões desfraldados semelhante.
Sete listras bem claras desenhavam,
As cores que contém de Delia o cinto
78 Ou stão do sol no arco, figuravam.
Cada estandarte, atrás asas distinto,
Se perdia â vista; entre eles pareciam
81 Dez passos se no cálculo não minto.
Por baixo de tão belo céu seguiam
Vinte e quatro anciões emparelhados:
486
84 Brancos lírios as frontes lhes cingiam.
Todos cantavam juntos: compassados
— “Entre as filhas de Adam sejas bendita!
87 Benditos teus excelsos predicados.” —
Quando da margem bem de fronte sita,
De fresca relva e flores guarnecida,
90 A grei se foi que alcançava a santa grita,
Como no céu a luz de outro é seguida,
Quatro animais após se apresentavam,
93 Coroados de fronde entretecida:
A cada qual seis asas adornavam,
Cobertas de olhos tantos, quantos Argo
96 Tinha, quando os seus vida gozavam.
De descrevê-los não faço cargo,
Leitor; a tanto ora me falta ensejo:
99 Nem posso neste ponto ser mais largo.
Contenta Ezequiel o teu desejo:
Ele os viu, que, do norte se arrojando,
102 Vinham com vento, nuve’, ígneo lampejo.
Como os pintou, estava os contemplando:
Dif’rença quanto às asas há somente;
105 João eu sigo, Ezequiel deixando.
487
Entre os quatro volvia resplendente
Com dupla roda um carro triunfante,
108 Por um grifo tirado altivamente,
As asas estendendo ia pujante;
No meio às listras três de cada lado,
111 Sem nenhuma empecer seguia avante.
Não sobe a vista ao ponto sublimado
A que se erguem; são d’ouro os membros d’ave
114 No mais o róseo e o níveo misturado.
Roma um plaustro não viu tão belo e grave
Do Africano em triunfo ou no de Augusto;
117 O do sol fora ante ele humilde trave:
Esse que, transviado foi combusto,
Da Terra quando as súplicas bradaram
120 E em seus arcanos Júpiter foi justo.
Dançando à destra aos olhos se mostraram
Três damas: tão rubente uma parece,
123 Que chamas se a cercassem a ocultaram.
A segunda tão verde resplandece,
Como composta de esmeralda bela;
126 A candura da neve outra escurece.
A dança dirigindo, se desvela
Ora a branca ora a rubra: o canto desta
488
129 Detém, apressa o passo ao querer dela,
À sestra fazem outras quatro festa
De púrpura vestidas: uma guia
132 As outras e três olhos tem na testa.
Dous anciões no couce depois via
Dif’rentes no vestir; mas igualdade
135 Nos gestos seus e acatamento havia.
Aluno um parecia na verdade
De Hipócrates sublime que criado
138 Natura tem por bem da humanidade.
Mostrava o companheiro outro cuidado
Trazendo espada tão aguda e clara,
141 Que onde eu stava de susto fui tomado.
De humilde aspeito a vista me depara
Mais quatro: segue o velho, que, distante,
144 Cerra os olhos mas luz a face aclara.
Os sete como os quatro de diante
Trajando a fronte sua têm cingida,
147 Não de c’roa de lírios alvejante,
Mas de purpúreas flores rubescida:
Um tanto longe ao vê-los me parece,
150 Que a testa a cada qual stava incendida.
489
E, quando o carro em face me aparece,
Rompe um trovão e a santa companhia,
Atendendo ao sinal pronta obedece:
154 Pára o cortejo e quanto o antecedia.
3. Beati quorum tecta sunt peccata, Salmo XXX, l: “Bem-
aventurados aqueles cujos pecados são perdoados.” — 42.
Urânia, a musa da astronomia. — 51. Candelabros, S. João
no
Apocalipse vê sete candelabros de ouro; símbolos dos sete
sacramentos ou dos sete dons do Espírito Santo. — 83-84. Vinte
e quatro anciões, v. Apocalipse IV, 4; símbolo dos vinte e quatro
livros do Velho Testamento. — 92-93. Quatro animais, símbolo
dos quatro evangelhos. — 95. Argo, monstro mitológico, que
possuía cem olhos. — 100. Ezequiel, profeta de Israel, autor
de
um livro do Velho Testamento, v. I, 4. — 105. João, Apocalipse
IV, 6-8. — 107. Com dupla roda um carro, a Igreja Católica; as
duas rodas simbolizam o Velho e o Novo Testamento. — 108
Grifo, animal mitológico, metade leão e metade águia;
símbolo
de Jesus Cristo, com as duas naturezas, humana e divina. —
118-120 Esse que, transviado, foi combusto, Fetonte que tentou
guiar o carro do Sol, porém, a rogos da Terra, foi fulminado por
Júpiter. — 122-129. Três damas, as três virtudes
teologais: fé,
esperança e caridade. — 130-132. Outras quatro, as quatro
virtudes cardiais: justiça, fortaleza, temperança e prudência.
A
prudência tem três olhos (como diz Sêneca, vigia o presente,
prevê o futuro e lembra o passado). — 133-135. Dois anciões,
S.
Lucas e S. Paulo. — 143. Mais quatro, S. Pedro, S. João, S.
Tiago e S. Judas, escritores das Epístolas canônicas. —
143-
144. O velho, S. João que, parece, quando escreveu o Apocalipse
estava perto dos noventa anos. (É preciso notar que os
escritores sacros são apresentados em vários aspectos,
conforme os seus livros; por isso alguns entre eles são
repetidos).
490
CANTO XXX
Acolhida festivamente pelos anjos e pelos bem-aventurados,
desce do Céu, Beatriz (a divina sabedoria) e pousa no carro. Nisto
Virgílio (a humana sabedoria) desaparece. Ela dirige-se a Dante e
lhe exprobra os seus desvios. Dante chora; e os anjos se
compadecem dele. Beatriz, dirigindo-se a eles, expõe mais
particularmente quais foram as suas faltas depois da sua morte.
QUANDO o setentrião do céu primeiro,
Que, jamais tendo ocaso, nem nascente,
3 Da culpa só nublou-se em nevoeiro,
E ali fazia cada qual ciente
Do dever seu, bem como o deste mundo
6 Do nauta ao porto é guia permanente,
Parou, a santa grei, que ia em segundo
Lugar antes do Grifo, dirigia,
9 Como à paz sua ao carro olhar profundo.
Um, que do céu arauto parecia,
Veni, sponsa de Libano — cantando,
12 Três vezes disse, e a turba repetia.
Como, ao soar o derradeiro bando,
Hão de os eleitos ressurgir ligeiros,
491
15 Com renovada voz aleluiando,
Assim, da vida eterna mensageiros,
Cem anjos, ad vocem tanti senis
18 Elevaram-se ao carro sobranceiros.
Diziam todos: — Benedictus qui venis!
Modulavam, lançando em torno flores:
21 Manibus, oh, date lilia plenis!
Já vi do dia aos lúcidos albores
Em parte o céu de rosicler tingido,
24 Estando em parte azul e sem vapores,
E o sol, nascendo em nuvens envolvido,
Permitir que se encare em seu semblante,
27 Entre véus nebulosos escondido:
Tal, em nuvem de flores odorante,
Que de angélicas mãos sobe fagueira
30 E cai no carro e em torno a cada instante,
De véu neves cingida e de oliveira,
Uma dama esguardei com verde manto
33 E veste em cor igual à da fogueira.
E o espírito meu que, tempo tanto
Havia já, não fora ao seu conspeito,
36 Trêmulo, entrando de soçobro e espanto,
492
Antes que aos olhos se mostrasse o aspeito,
Sentiu, por força oculta que desprende,
39 Do antigo amor, o poderoso efeito.
Quando essa alta influência em mim descende,
Que desde o alvor primeiro da existência
42 Da alma as potências me avassala e rende,
À sestra me voltei com diligência,
Qual infante da mãe correndo ao seio,
45 Se dor ou medo assalta-lhe a inocência,
Por dizer a Virgílio: — “Neste enleio,
Meu sangue em cada gota é convulsado,
48 De amor na antiga flama eu me incendeio.”
Mas ai! Virgílio havia-se ausentado,
Virgílio, o pai dulcíssimo e amoroso,
51 Virgílio, a quem, por me salvar, fui dado!
Quanto perdeu neste lugar formoso
Eva, não tolhe as lágrimas no rosto,
54 Que o rocio me lavara milagroso.
— “Não haja por Virgílio ir-se, desgosto;
Não te entregues ao pranto agora, ó Dante;
57 Por dor mais viva ao pranto sê disposto.” —
Como em revista às naus sábio almirante
Nas manobras feroz a dura gente
493
60 E os corações esforça vigilante,
Do carro à borda, à esquerda, incontinênti,
Quando voltei-me ao nome proferido,
63 Que por ser dito aqui vem simplesmente,
A dama vi que tinha aparecido
Velada em meio da divina festa,
66 Tendo, além-rio, o gesto a mim volvido.
Conquanto o véu, que lhe cingia a testa,
Que de Minerva fronde coroava,
69 A face não deixasse manifesta,
No régio continente que ostentava
Desta arte prosseguiu; porém dizendo
72 O mais acerto para o fim guardava:
— “Oh! Sou eu! Sim! Beatriz stás vendo!
Pois te hás dignado de ascender ao monte
75 Ter aqui dita o homem já sabendo?” —
Os olhos inclinando à pura fonte
Vi minha imagem; logo os volto a um lado,
78 Tanta vergonha me acendia a fronte!
Qual mãe, que o filho increpa em tom maguado,
Pareceu-me: porque se torna amara,
81 A piedade que pune, ao castigado.
494
Calou-se ela e dos anjos a voz clara
— “In te, Domine, speravi” — de repente
84 Entoa, mas em pedes meos pára.
Da terra italiana em serra ingente
Da esclavônia por ventos contraída
87 Entre as selvas congela a neve algente;
Depois liquesce e corre derretida
Ao quente sopro, que do sul procede,
90 Como cera de flamas aquecida;
Tal o soçobro as lágrimas me impede
Antes de ouvir a angélica toada,
93 Que o hino dos eternos orbes mede.
Mas quando, em seus concentos expressada,
Compaixão vejo mais do que se houvessem
96 Dito: — “Senhora, por que és tanto irada?”,
No peito meu os gelos se amolecem;
Dos lábios e dos olhos irrompendo,
99 Com lágrimas soluços aparecem.
Firme no carro, à destra se volvendo,
Ela aos pios espíritos dizia,
102 Do cântico às palavras respondendo:
— “Vigilantes estais no eterno dia;
Jamais por noite ou sono distraída,
495
105 Do tempo os passos vossa vista espia.
“Minha resposta, pois, vai dirigida
Àquele, que ora ao pranto os olhos solta:
108 A culpa seja pela dor medida.
“Dos céus, não pela ação, na imensa volta,
Que para um fim conduz cada semente,
111 Segundo os astros, que lhe vão na escolta,
“Se não de graças por divina enchente,
Que chovem sobre nós dessa eminência,
114 A que se alar nem pode a nossa mente,
“Este homem foi na aurora da existência,
De tais dotes ornado, que pudera
117 Da virtude alcançar toda a excelência.
“Se, porém, a incultura se apodera
Ou semente ruim do bom terreno,
120 Plantas mali’nas, peçonhentas gera.
“Conservou-se ante mim puro e sereno:
Meus olhos, em menina, o conduziram
123 Pelo caminho mais seguro e ameno.
“Tanto que umbrais à vista se me abriram
Da idade segunda e desta vida,
126 Deixou-me; outros enlevos o atraíram.
496
“Quando em espírito eu fora convertida
E beleza e virtude em mim crescera,
129 Em menos preço fui por ele havida.
“Por fraguras fugiu da estrada vera,
Em fingidas imagens enlevado,
132 De que jamais se alcança o que se espera.
“Inspirações em vão hei-lhe impetrado
Em sonhos, em vigília o bem mostrando:
135 Cego, correu pelo caminho errado.
“Já todo o esforço meu se malogrando,
Para salvá-lo do perigo eterno
138 Quis que baixasse ao reino miserando.
“Foi neste empenho que desci ao inferno,
E à sombra, que de guia lhe há servido,
141 Fiz o meu rogo lacrimoso eterno.
“O preceito de Deus fora infringido,
Se ele do Letes transcendesse as águas,
Se lhe fosse prová-las permitido,
145 Sem seu preço pagar em pranto e mágoas.” —
11. Veni, sponsa, etc., convite do esposo à esposa no Cântico
dos Cânticos de Salomão. — 17. Ad vocem tanti senis, à
voz de
velho tão venerando como era Salomão. — 19. Benedictus
qui
venis, cantavam os hebreus a Jesus quando entrou em
497
Jerusalém, S. Mateus, Evang. XXI, 9. — 21. Manibus, oh, date
lilia plenis, espalhai lírios às mãos cheias. —
39. Do antigo amor
etc., Dante se enamorou de Beatriz, quando tinha a idade de
nove anos. — 83. In te, Domine, speravi, Salmo XXX, até às
palavras: pedes meus, exprime o arrependimento e a esperança
na misericórdia de Deus.
498
CANTO XXXI
Beatriz continua repreendendo a Dante, o qual confessa os seus
pecados. Matilde o mergulha, então, no rio Letes. Depois as sete
damas que participavam da procissão (as quatro virtudes
cardiais e as três virtudes teologais) o levam até Beatriz, pedindo
a ela que se desvele diante do seu fiel. Beatriz tira o véu.
“Ó TU que estás além da água sagrada”
— Prosseguiu Beatriz incontinênti,
3 A ponta a mim voltando dessa espada,
Que de revés já fora assaz pungente —
“Diz se é verdade, diz! À culpa unida
6 Esteja a confissão do penitente.” —
Tanta a força mental foi confrangida,
Que a voz desfaleceu, se erguer tentando,
9 Expirou-me nas fauces inanida.
Esperou; disse após: — “Que estás pensando?
Responde: inda não tens nágua apagado
12 Lembranças do passado miserando?” —
No meu enleio, de temor travado,
Um tão confuso sim, trêmulo, expresso,
15 Que houve mister dos olhos ajudado.
499
Como em besta entesada em grande excesso,
Quebrando-se arco e corda, parte a seta
18 E no alvo dá sem força do arremesso,
Stando minha alma em tanto extremo inquieta
E em suspiros e lágrimas rompendo,
21 Perdeu a voz o som, que a língua enceta.
— “Se ao meu querer” — prossegue —
“obedecendo
Tinhas fanal, que ao bem te conduzisse,
24 De anelos teus a mira ser devendo,
“Onde o poder de estorvos, que impedisse
Teus passos? Quais grilhões que os retivessem
27 Na vereda, que avante ir permitisse?
“Houve encantos, que a outros te prendessem,
E delícias, que tanto te atraíram,
30 Que a tua alma enlear assim pudessem?” —
Do peito agros suspiros me saíram;
Para falar-lhe apenas tive alento,
33 E a voz a custo os lábios exprimiram.
Tornei chorando: — “O engano, o fingimento
Ao terreno prazer me hão transviado,
36 Em vos nublando a face o passamento.” —
500
— “Se ocultaras” — falou-me — “o teu pecado,
A graveza da culpa ao claro vira
39 Aquele, por quem deves ser julgado.
“Mas se o réu, confessando, tem na mira
O pesar do mau feito, em nossa corte
42 Contra o fio da espada a mó se vira.
“Entanto, por que seja em ti mais forte
De errar o pejo e, no porvir ouvindo
45 Sereias, não procedas de igual sorte,
“Escuta-me, os teus prantos consumindo:
Verás que, inda sepulta, eu te guiara,
48 Pela contrária rota conduzindo.
“Jamais arte ou natura te mostrara
Enlevo, quanto a rara formosura
51 Do corpo, em pó tornado, em que eu morara.
“Se comigo baixara à sepultura
Teu supremo prazer, como arrastar-te
54 Pôde, após si, mortal delícia impura?
“Enganos tais sentindo saltear-te,
Aos céus alçando a mente deverias
57 Té minha eternidade sublimar-te,
“E não baixar do vôo, em que subias
Te expondo a novos tiros, atraída
501
60 Por jovem, por vaidades fugidias.
“Será duas, três vezes iludida
Ave inexperta; mas a seta, o laço
63 Pássaro velho esquiva, apercebido.” —
Qual menino, que a mãe por largo espaço
Increpa; e, baixa a fronte, envergonhado
66 Reconhece em silêncio o errado passo,
Tal me achava. — “De ouvir se estás magoado.
Levanta a barba!” — ainda prosseguia —
69 “Olhando-me, hás de ser mais castigado!” —
Com menos resistência abateria
De Europa o vendaval carvalho altivo
72 Ou da terra, que a Jarba obedecia,
Do que eu alcei o rosto pensativo;
Quando ela disse barba e não semblante
75 A malícia notei e o seu motivo.
Olhos erguendo alfim, do mesmo instante
Aos ares vi que flores não lançava
78 A falange dos anjos radiante.
Tímida a vista a Beatriz achava
Voltada ao Grifo, que uma só pessoa
81 Em naturezas duas encerrava.
502
Além do rio sob o véu e a c’roa
Tanto excede a beleza sua antiga
84 Quanto em vida as que mais fama apregoa.
E do pesar pungiu-me tanto a urtiga,
Que das cousas, que mais na terra amara
87 A mais cara odiei como inimiga.
Remorso tal a mente me assaltara,
Que vencido tombei: qual fiquei sendo
90 Sabe quem dor tão viva motivara.
Ao coração a força me volvendo
Notei a dama, que primeiro eu vira
93 Ao lado meu, — “Abraçai-me!” — dizendo.
Té ao colo no rio me imergira;
E correndo, qual leve lançadeira,
96 Das águas sobre a tona a si me tira.
Já próximo à beatífica ribeira,
Ouvi Asperges me tão docemente,
99 Que o não descrevo ou lembro, inda que o
queira.
Matilde, abrindo os braços de repente,
Cingiu-me a fronte e súbito afundou-me;
102 Era dessa água haurir conveniente.
Assim purificado, ela guiou-me
503
Das damas quatro para a dança bela,
105 E cada uma nos braços estreitou-me.
— “Cada qual, ninfa aqui, nos céus estrela,
Antes que Beatriz descesse ao mundo,
108 Servas de ordem suprema somos dela.
“Os seus olhos verás; mas no jucundo
Lume interno hás de ter vista aguçada
111 Pelas três cujo olhar é mais profundo.” —
Modulando na angélica toada,
Ante o Grifo consigo me levaram:
114 Lá Beatriz para nós era voltada.
— “Em contemplar sacia-te!” — falaram —
“As esmeraldas que ora tens presentes,
117 Donde os farpões de amor te vulneraram.” —
Mais que a flama desejos mil ardentes
Prenderam olhos meus aos seus formosos,
120 Na adoração do Grifo persistentes.
Qual sol no espelho, nesses luminosos
Astros o Grifo se alternando, eu via
123 Seres dois refletir misteriosos:
Meu espanto, ó leitor, qual não seria
Vendo o objeto na imagem transmutado,
126 Quando constante em si permanecia?
504
Enquanto eu de prazer e pasmo entrado,
Esse doce manjar stava gozando,
129 Que sacia mas sempre é desejado,
De ordem mais alta ser manifestando
Pelo meneio, as três se adiantaram,
132 Por angélico estilo modulando.
“Os olhos santos, Beatriz” — cantaram —
“Oh! volve ao servo teu leal constante
135 A quem por ver-te os passos não custaram.
“Nos dá por grã mercê que o fido amante
Sem véu segunda formosura
138 Contemple nesse divinal semblante!” —
Ó resplendor da luz eterna e pura!
Quem do Parnaso à sombra descorando
141 E da água sua haurindo alma doçura,
Aturdido não fora, se arrojando
A tentar descrever qual te mostraste,
Quando o céu de harmonias te cercando,
145 Ao ar patente a face revelaste?
71-72. De Europa etc. Ao vento boreal que sopra na nossa
região, ou ao vento meridional que sopra na África, onde reinou
505
Jarbas. — 75. A malícia notei etc., Beatriz disse “barba”
e não
semblante, querendo referir-se à idade madura de Dante.
506
CANTO XXXII
Dante olha com amor a Beatriz. No entanto o carro, seguido pela
procissão dos bem-aventurados, se move em direção a um
árvore
elevadíssima e despida de folhagem. O grifo ata o carro à árvore
e esta logo cobre-se de flores. O Poeta adormece. Ao despertar vê
Beatriz, rodeada das sete damas, sentada ao pé da árvore.
Acontecem, depois, no carro fatos maravilhosos que causam ao
Poeta surpresa e medo.
COM tão sôfregos olhos saciava
A sede, em que anos dez eu me incendia,
3 Que aos mais sentidos toda a ação cessava.
Quase murada a vista se imergia
No santo riso ao mais indiferente,
6 E nos laços de outrora me prendia.
Desse êxtase arrancou-me de repente
A voz das santas, que da esquerda soa:
9 — “Demais contemplativa tens a mente!” —
Os ofuscados olhos me nevoa
Torvação semelhante ao vivo efeito,
12 Que do sol causa a face em quem fitou-a.
Mas quando à pouco luz estive afeito
507
(Pouca em confronto ao lume deslumbrante,
15 Que por força deixara e a meu despeito),
Vi que à destra volvia o triunfante
Exército celeste à frente estando
18 Os candelabros sete e o sol flamante.
Qual hoste a se salvar broquéis alçando,
Se volta, e co’a bandeira não prossegue
21 Senão mudada a direção, girando;
A celeste milícia avante segue,
Na marcha procedendo desfilava
24 Antes que o santo carro a volver chegue.
Cada coréia as rodas escoltava,
E o Grifo a carga santa removia
27 Sem parecer que as penas agitava.
Quem pelo rio me arrastado havia,
Estácio e eu a roda acompanhamos,
30 Que por arco menor volta fazia.
Na alta floresta caminhando vamos,
Erma por culpa da que a serpe ouvira:
33 Pelo cântico os passos regulamos.
Andáramos espaço que medira
Uma seta três vezes disparada:
36 Desceu Beatriz do carro, em que eu a vira.
508
“Adam!” — disse em murmúrio a grei sagrada,
Todos depois uma árvore cercaram,
39 De folhas e de flores despojada.
Tanto aos lados seus ramos se alargaram,
Quanto erguiam-se ao céu: como portento
42 índios nas selvas suas os mostrariam.
“Ó Grifo! Glória a ti! De culpa isento,
Não provaste do lenho doce ao gosto,
45 Que tanta dor causou, tão cru tormento!” —
Daquele tronco excelso em torno posto,
Diz o préstito; e o Grifo lhe contesta:
48 — “Assim justiça é sempre no seu posto.”
—
E ao carro que tirara na floresta,
Voltou-se e o conduziu ao tronco anoso:
51 Dele foi parte, a ele atado resta.
Quando o astro rebrilha poderoso,
Juntando os seus clarões aos que desprende,
54 Depois do Peixe o signo luminoso,
Brotando as plantas cada qual resplende
De esmalte novo, e ainda de outra estrela
57 Abaixo os seus frisões o sol não prende:
Súbito assim refloresceu aquela
509
Árvore nua, gradações formando
60 Entre rosa e violeta em cópia bela.
Então de um hino as notas escutando,
Quais nunca sobre a terra se cantaram,
63 Não pude resistir a som tão brando.
Se eu narrasse como olhos se fecharam
De Argo impiedosos, de Sírius ao conto
66 Que o seu nímio velar caro pagaram,
Pintor, tirara ao natural e em ponto
O sono em que engolfei-me docemente;
69 Mas faça-o quem nessa arte forma pronto!
Passo ao momento em que espertou-se a mente:
Fulgor ao sono intenso o véu rompia,
72 — “Eia! que fazes?” — ouço incontinênti.
Quais vendo que de flores se cobria
O linho cujo pomo apetecido
75 Na boda eterna os anjos extasia,
João, Pedro e Tiago ao seu sentido,
Depois da prostração à voz tornaram,
78 Que sono inda maior tinha vencido,
E a companhia decrescida acharam
De Elias e Moisés enquanto as cores
81 Sobre a estola do Mestre se mudaram:
510
Tal despertei da luz aos esplendores,
Vi perto a dama que me fora guia
84 Do rio à margem sobre a relva e as flores.
— “Onde é Beatriz?” — cuidoso lhe dizia.
— “Da fronde nova à sombra a vês sentada,
87 Junto à raiz” — Matilde respondia.
“Da companhia sua é rodeada;
Ao céu após o Grifo os mais subiram,
90 Com mais doce canção, mais sublimada.” —
Não sei se as vozes suas prosseguiram
Pois aquela aos meus olhos se mostrara,
93 Em quem meus pensamentos se imergiram.
Sobre a terra bendita se assentara,
Só, como em guarda ao plaustro portentoso,
96 Que ao tronco antigo o Grifo vinculara.
Rodeiam-na, com círculo formoso,
As ninfas sete, os lumes empunhando,
99 Seguros de Austro e de Aquilão ruidoso.
— “Na selva a tua estada abreviando,
Serás comigo na eternal morada
102 Da Roma, onde tem Cristo o régio mando.
“Do mundo em prol, perdido em rota errada,
511
O carro observa e cada cousa atento
105 Guarda, por ser ao mundo registrada.” —
Falou Beatriz; e eu, pois, que o entendimento
Do seu querer aos pés tinha prostrado,
108 Fitei no carro a vista e o pensamento.
Dos etéreos confins arremessado,
Não rasga o raio à densa nuve, o seio,
111 Com tanta rapidez precipitado,
Como da alta ramada pelo meio,
Córtice fronde, flores destruindo,
114 O pássaro de Jove irado veio.
Com força imane o carro foi ferindo,
Que aos golpes, qual navio, se agitava,
117 Que o mar combate os bordos lhe investindo.
E logo após eu vi que se enviava
Ao carro triunfal uma raposa,
120 Que bom cibo não ter manifestava.
Increpando-lhe a vida criminosa,
Beatriz pô-la em fuga, e em tanta pressa,
123 Quanto sofreu-lhe a ossada cavernosa.
Depois do carro à caixa a Águia se apressa
A vir por onde, há pouco, descendera;
126 De inçar de plumas seus coxins não cessa.
512
Qual gemido que a dor no peito gera,
Ouvi do céu baixar voz, que dizia:
129 — “Ó barca! bem má carga ora se onera!”
—
A terra então me pareceu se abria,
Entre as rodas um drago arrevessando
132 Que pelo carro a cauda introduzia.
Depois a cauda atroce retirando,
Qual vespa o seu ferrão, feita a ferida,
135 Arranca o fundo e vai-se coleando.
Como em terra vivaz relva crescida,
Cobre o resto plumagem de repente,
138 Com tenção casta e pura oferecida;
Timão e rodas vestem-se igualmente
Tão presto, que um suspiro vem lançado
141 À flor dos lábios menos prontamente.
Daquele plaustro santo, assim mudado,
Nos ângulos cabeças irromperam,
144 Três no timão e uma em cada lado.
Essas, como as de boi, armadas eram;
Uma só ponta as quatro guarnecia:
147 Monstros iguais já nunca apareceram.
Qual penhasco em montanha excelsa, eu via
513
No carro nua meretriz sentada,
150 Lascivos olhos em redor volvia.
Como para não ser-lhe arrebatada
Em pé ao lado seu stava um gigante,
153 Com quem trocava beijos despejada.
Que os olhos requebrava a torpe amante
Pra mim notando, fero a flagelava
156 Dos pés a fronte o barregão farfante.
No ciúme e na ira, que o inflamava
Desprende o carro e à selva o vai tirando,
Que depressa aos meus olhos ocultava
160 A prostituta e o novo monstro infando.
38-39. Uma árvore etc., a árvore do bem e do mal, cujo fruto
Adam comera, pelo que foi expulso do Paraíso. — 64-66. Como
os olhos se fecharam etc., como adormeceu e se fecharam os
olhos de Argos ao ouvir o conto de Mercúrio a respeito de Sírio,
— 73-81. Quais vendo etc., como os apóstolos João, Pedro
e
Tiago, ao assistirem à transfiguração de Jesus Cristo,
no monte
Tabor, e ao vê-lo em companhia de Moisés e Elias, desmaiaram
e despertando, depois, o viram em sua forma natural havendo
os dois profetas desaparecido, etc. — 102. Da Roma onde tem
Cristo o régio mando, o Paraíso. — 114. O pássaro
de Jove, a
águia, símbolo do império. — 119. Uma raposa, símbolo
da
heresia. — 126. De inçar de plumas seus coxins não cessa,
provável alusão ao poder temporal outorgado por Constantino
à
Igreja Romana. — 142-147. Daquele clastro etc., Dante nesta
visão, que imita as visões do Apocalipse, pretende simbolizar
os
funestos efeitos das riquezas que foram oferecidas à Igreja. As
514
sete cabeças do monstro provavelmente simbolizam os sete
pecados capitais originados pela corrupção. — 149. Meretriz,
a
Cúria Romana. — 152. Um gigante, a casa real de França
e,
talvez, mais particularmente, Felipe o Belo que umas vezes foi
amigo, outras inimigo dos Papas, conseguindo que o Papa
Clemente V, em 1305, transportasse a Santa Sé para Avinhão.
515
CANTO XXXIII
Beatriz anuncia, com linguagem misteriosa, que brevemente
aparecerá quem libertará a Igreja e a Itália da servidão
e da
corrupção. Impõe-lhe que escreva o que viu. Pede, depois,
a
Matilde que o mergulhe nas águas do rio Eunoé. Dante, depois
da
imersão, sente-se mais forte e disposto a subir às estrelas.
DEUS, venerunt gentes, alternando,
Em coros dois, suave melodia
3 Cantam as ninfas, pranto derramando.
E Beatriz, a suspirar, ouvia
Tão dorida, que pouco mais, outrora
6 Junto da Cruz mostrara-se Maria.
Quando lhe coube alçar a voz canora,
Entre as formosas virgens posta em pé,
9 Com santo ardor, que as faces lhe colora:
“Modicum et non videbitis me,
Caras irmãs, et iterum” — tornava —
12 “Modicum et vos videbitis me”.
Depois, antes de si as colocava,
E a mim e a dama e ao Vate, que restara,
15 Pra seguir os seus passos acenava.
516
Ia assim: que ela houvesse eu não julgara
O seu décimo passo em terra posto,
18 Eis sua vista na minha se depara.
— “Mais perto” — disse com sereno rosto —
“Caminha; pois falar quero contigo,
21 E o leves a me ouvir star bem disposto.” —
Beatriz, logo em tendo-me contigo,
— “Por que” — prossegue —“irmão
não hás
querido
24 Me inquirir, quando vens assim comigo?” —
Fiquei, como o que o espírito aturdido,
Ao seu superior falando sente,
27 E apenas balbucia confundido.
Falei, com voz cortada, reverente:
— “Quanto hei mister sabeis mui bem, senhora,
30 O que seja em prol meu sabeis prudente.” —
— “De temor e vergonha desde agora” —
Tornou — “isento sê, stando ao meu lado:
33 Como quem sonha as vozes não demora!
“A caixa, que a serpente há devastado,
Já foi: de Deus castigo aos criminosos
36 Ser não pode por sopa obliterada.
517
“Não faltarão herdeiros cuidadosos
Da águia, que ao carro as suas plumas dera,
39 E o tornou monstro e presa aos cobiçosos.
“Vejo o porvir e a voz minha assevera
O que propínquos astros anunciam:
42 Nada os estorva, nem seu curso altera.
“Um quinhentos dez cinco prenunciam,
Que o céu manda a punir a depravada
45 E o gigante: ambos juntos delinquiam.
“A narração, talvez, de treva inçada,
Como as do Esfinge e Têmis não a entendas,
48 Por parecer-te ao spírito enleada.
“Farão, porém, os fatos que a compreendas;
Quais Náiades, darão do enigma a chave,
51 Sem dano ao trigo, ao gado, sem contendas
“Que na memória tua isto se grave:
Como te falo, assim o ensina aos vivos
54 Que se afanam em buscar morte insuave.
“Lembra os que hás visto feitos aflitivos.
Da árvore o stado narra, que te espanta,
57 Quanto sofreu assaltos dois esquivos.
“Quem despoja ou mutila a sacra planta
Blasfema a Deus, de fato o ofende ousado:
518
60 Para o seu uso só a criou santa.
“Sperou a primeira alma, que há provado
Do seu fruto, anos mil cinco gemendo
63 Por quem penas em si deu do pecado.
“Tua alma dorme, se não stá sabendo
A causa singular, que a planta há feito
66 Tão alta, o cimo tal largura tendo.
“Se da água d’Elsa não trouxesse o efeito
O teu vão cogitar sobre essa mente,
69 Que escurece, qual sangue à amora o aspeito
“Fora o que eu disse já suficiente
Para o justo preceito compreenderes,
72 Que Deus há posto sobre o tronco ingente.
“Como te ofusca a luz dos meus dizeres.
Porque de pedra tens o entendimento,
75 Que, afeito à culpa, não permite veres,
“Uma imagem te guarde o pensamento,
Como palma ao bordão junta, voltando,
78 Peregrino, em remédio ao esquecimento.” —
— “No cérebro, qual cera conservando” —
Tornei — “a marca do sinete impresso,
81 Vosso verbo se irá perpetuando.
519
“Mas por que se sublima em tanto excesso
Vossa palavra, sempre apetecida,
84 Que, alcançá-la tentando, desfaleço?” —
— “Por veres” — diz — “que escola pervertida,
Hás cursado, o que, pois, sua doutrina
87 Ao verbo meu não pode ser erguida;
“Pois a vereda vossa da divina
É tão remota, quanto está distante
90 Da terra o céu que ao alto mais se empina” —
— “Não me lembro” — respondo à excelsa
amante
“De ter-me às vossas leis nunca esquivado:
93 Não diz-mo a consciência vigilante.” —
— “Possível é que estejas olvidado” —
Respondeu-me a sorrir — “tem na lembrança
96 Que inda há pouco, hás do Lete água tragado,
“E se de flama o fumo dá fiança,
Que o teu querer no erro andou perdido
99 Demonstra o olvido teu com segurança.
“Será da minha voz claro o sentido,
Por que mais facilmente de ora avante
102 Da rude mente seja percebido.” —
Mais demorado, entanto, e coruscante
No círc’lo entrava o sol do meio-dia,
520
105 Como os climas diversos variante,
Quando as damas, bem como astuto espia,
Que, precedendo a tropa, de andar cessa,
108 Se acaso novidade se anuncia,
Paravam, ao sair da sombra espessa,
Qual aos frios arroios murmurantes
111 Dos Alpes bosque verde-negro of’reça.
Julguei ver Tigre e Eufrates não distantes
Brotar da mesma fonte juntamente
114 E separar-se lentos, quais amantes.
— “Ó glória! ó esplendor da humana gente!
Qual é, dizei-me, essa água, bipartida
117 Depois de proceder de uma nascente?” —
— “Ser-te deve a pergunta respondida
Por Matilde” — tornou-me então, falando
120 Em tom de quem por falta fosse argüida,
A dama disse: — “Tudo lhe explicando
Já stive: não podia haver efeito
123 Do Letes, a lembrança lhe apagando.” —
E falou Beatriz: — “Pode ter feito
Escura a mente sua o mor cuidado,
126 Que o entendimento às vezes torna estreito.
521
“Eis Eunoé, que o curso há derivado:
Conduze-o e, como sabes, o imergindo,
129 Seu coração alenta desmaiado.” —
Como alma nobre, ao bem nunca fugindo,
Faz do estranho querer própria vontade,
132 Quando um simples sinal o está pedindo,
A gentil dama, usando alta bondade,
Guiou-me e a Estácio disse, que atendia:
135 — “Segue-o também” — com garbo e
majestade
Esse doce licor, que não sacia,
Eu cantara, leitor, se desse ensejo
138 Da página uma parte inda vazia.
Mas, porque todas ocupadas vejo
E ao meu segundo Cântico aplicadas
141 Da arte o freio me tolhe esse desejo.
Como de planta as folhas renovadas
Mais frescas na hástea mostram-se, mais belas,
Puro saí das águas consagradas
145 Pronto a me alar às lúcidas estrelas.
1. Deus venerunt gentes, Salmo 78, no qual David lamenta a
contaminação do templo de Jerusalém: “Senhor, as
nações
entraram no teu domínio e contaminaram o teu templo.” —
10.
522
Modicus et non videbitis me, “pouco tempo passará e não
me
vereis mais”, S. João Ev. XVI, 16; Beatriz responde: “e
novamente passará pouco tempo e me vereis.” Provável alusão
ao pouco tempo que a Santa Sé teria ficado em Avinhão. —
36.
Sopa, a sopa que, em sinal de expiação, o homicida comia sobre
o túmulo do assassinado. — 43. Um quinhentos dez cinco, um
DVX, isto é, um chefe, um capitão, enviado de Deus, o qual
punirá a Cúria Romana e o rei da França. — 47.
Esfinge, que
propôs o enigma a Édipo. — Têmis, que respondeu em
forma
obscura a Deucalião, que a foi consultar. — 49-51. Náiades,
ninfas das fontes. — 61. A primeira alma, etc. Adam esperou
cinco mil anos a vinda de Jesus Cristo, que tomou sobre si o
seu pecado. — 67. Elsa, confluente do Arno. — 112. Tigre e
Eufrates etc., o Letes e o Eunoé pareciam esses dois rios; pois
nasciam na mesma fonte e, depois, se afastavam, aos poucos,
um do outro.
Paraíso
CANTO I
Invocando Apolo, o Poeta conta como do Paraíso Terrestre ele e Beatriz se
alçaram ao Céu, atravessando a esfera do fogo. Beatriz explica-lhe como possa
vencer o próprio peso e subir. É atraído pelo invencível amor. Seguindo as
teorias de Ptolomeu, Dante põe a terra imóvel no centro do Universo e, em
redor dela, em órbitas concêntricas, os céus da Lua, de Mercúrio, de Vênus,
do Sol, de Marte, de Júpiter, de Saturno, a oitava esfera, que é a das estrelas
fixas, a nona, ou primeiro móvel, e finalmente o Empíreo, que é imóvel. Transportado
pela força que faz rodar os céus e pela luz sempre crescente de Beatriz, Dante
eleva-se de um céu para outro, e em cada um deles aparecem-lhe os espíritos
bem-aventurados que, quando vivos, possuíram a virtude própria do respectivo
planeta.
À GLÓRIA de quem tudo, aos seus acenos,
Move, o mundo penetra e resplandece,
3 Em umas partes mais em outras menos.
No céu onde sua luz mais aparece,
Portentos vi que referir, tornando,
6 Não sabe ou pode quem à terra desce;
Pois, ao excelso desejo se acercando,
A mente humana se aprofunda tanto
9 Que a memória se esvai, lembrar tentando.
525
Os tesouros, porém, do reino santo,
Que arrecadar-me pôde o entendimento,
12 Serão matéria agora de meu canto.
Faz-me neste final cometimento,
Bom Febo, do teu estro eleito vaso,
15 Que tenha ao louro amado valimento.
Fora-me assaz um cimo do Parnaso;
Daquele e do outro necessito agora
18 Para vencer na liça a que me emprazo.
Cala em meu peito, alenta o que te exora!
Sê como quando a Marsias arrancado
21 Hás do corpo a bainha protetora!
Se, divinal virtude, eu for entrado
Tanto de ti, que a sombra represente
24 Do reino que em minha alma está gravado,
Ao teu querido lenho eu, diligente,
Irei, por ter a c’roa merecida
27 De ti e deste assunto preminente.
Tão rara vez é, Padre, igual colhida
Quando triunfa César ou poeta
30 (Culpa e vergonha do querer nascida)
Que à Délfica Deidade a predileta
Fronde excitar devera alta alegria,
526
33 Se um coração por tê-la se inquieta.
Grande incêndio em centelha principia;
Voz, após mim, talvez, mais eloqüente
36 Mais graça em Cirra alcance e mais valia!
Por várias portas surge refulgente
A lâmpada do mundo; mas daquela,
39 Onde orbes quatro brilham juntamente
Com três cruzes, caminha sob estrela
Melhor, em modo que a mundana cera
42 Mais ao seu jeito retempera e assela.
Dali nascia a luz; daqui viera
A noite; e um hemisfério branquejava
45 Enquanto ao outro a treva enegrecera,
Eis vi que à esquerda Beatriz fitava
Olhos no sol: jamais águia afrontara
48 Tanto desse astro o lume, que ofuscava.
Como o raio, que a luz de si despara,
Reflete outro, que preito retrocede,
51 Qual romeiro, que à volta se prepara,
Esse ato, com que assim Beatriz procede,
Meu se tornou nos olhos infundido,
54 E o fitei mais que a um homem se concede.
527
Muito do que é na terra defendido,
No Paraíso é dado à humana gente,
57 A quem fora por dote prometido.
Fitar o sol não pude longamente.
Mas assaz para o ver fulgir no espaço,
60 Qual ferro, que do fogo sai candente.
Eis cuidei ver um dia, ao mesmo passo,
Luzir com outro, qual se Deus fizera
63 Do céu um sol segundo no regaço.
Sorvidos Beatriz na eterna esfera
Os olhos tinha; os meus que eu desviara
66 Dali no seu semblante embevecera.
Contemplando-a, o meu ser se transformara;
Tal Glauco, portentosa erva comendo,
69 Igual do mar aos Deuses se tornara.
Significar per verba não podendo
O que é transumanar o exemplo baste
72 Ao que o exp’rimente, a graça recebendo.
De ti, que por teu lume me exaltaste,
Amor do meu Senhor é conhecido,
75 Se em mim somente havia o que criaste.
Quando as Sferas, no giro, conduzido
Por ti no eterno anelo, me enlevaram
528
78 Com hino ao teu compasso dirigido,
Tantos etéreos plainos se mostraram
Inflamados do sol, que nunca os rios,
81 Nem as chuvas um lago igual formaram.
Essa luz, esses sons (jamais ouvi-os)
De saber tais desejos me acenderam
84 Que tão pungentes de antes não senti-os.
Ela em meu coração os viu como eram:
Por serenar-me o ânimo agitado,
87 Sem me escutar, seus lábios se moveram,
E disse: — “O teu espírito anda errado
Com falso imaginar: ’starias vendo
90 O que não vês, se houveras afastado.
“Te enganas, sobre a terra achar-te crendo:
O raio tão veloz do céu não desce,
93 Como tu que p’ra o céu vais ascendendo.” —
Se a dúvida primeira desaparece,
À voz que o riso segue, lhe escutando,
96 Inda mais outra a mente me escurece.
— “Modera-se o meu pasmo” — lhe tornando
Falei — “mas ora muito mais me admira
99 Como estes corpos leves vou passando.” —
529
Ouvindo, Beatriz terna suspira
E me encara piedosa, com semblante
102 De mãe que fala ao filho que delira.
— “Conservam” — respondeu-me — “ordem
constante
As cousas entre si: esta é a figura
105 Que o universo ao Senhor faz semelhante.
“Ali vê cada uma alta criatura
Do Poder Sumo, bem ao claro, o selo,
108 Alvo sublime, que essa lei procura.
“Cada um entre na ordem, que eu revelo,
Se vai por modos vários inclinando,
111 Mais ou menos, ao seu princípio belo.
“Para portos dif’rentes navegando
No vasto mar do ser, cada qual segue
114 Os instintos que Deus lhe deu, criando.
“Por Ele a flama à lua alar consegue,
Por Ele o coração mortal se agita
117 E a terra em sua contração prossegue.
“Seu poder não somente se exercita,
Qual arco em seta, em bruto inconsciente,
120 Mas nos entes, que amor, razão concita.
“Tudo ordenando, o Autor Onipotente
530
Com sua luz tem o céu sempre aquietado,
123 Em que gira o que vai mais velozmente.
“Até lá, como a um alvo decretado,
Desse arco impele a força poderosa,
126 Quem conduz tudo a venturoso estado.
“Mas, como, às mais das vezes, revoltosa
A forma não responde ao intento da arte,
129 Porque a matéria é na surdez teimosa,
“Assim desta vereda se desparte
A criatura, para o bem guiada,
132 Que pode propender para outra parte,
“Se, de falso prazer sendo arrastada,
Baixa à terra, qual fogo desprendido,
135 De súbito, da nuvem carregada.
“Não seja mais de espanto possuído:
Como ao val rio cai de monte altivo,
138 Para a esfera estelífera és erguido.
“De maravilha fora em ti motivo
Não subindo; pois stás de estorvo isento;
Não fica imoto em terra o fogo vivo.” —
142 Disse e os olhos fitou no firmamento.
531
14. Febo, Apolo. — 16. Parnaso, o monte Parnaso tinha dois
cimos; num moravam as Musas com Baco, no outro (Elicão ou
Cirra) morava Apolo. — 20 Marsias, o sátiro Marsias desafiou
Apolo e foi esfolado pelo deus. — 31. Délfica deidade, Apolo.
—
36. Cirra, parte do Parnaso consagrada a Apolo. — 38. A
lâmpada do mundo, o sol, 38-41. Daquela onde orbes quatro,
etc. o ponto do céu no qual se conjuntam quatro círculos
celestes, os quais entrecortando-se formam três cruzes.
Caminha sob estrela melhor, a constelação do Áries. —
41.
Mundana cera, a matéria terrestre. — 43-45. Dali nascia a luz;
daqui viera a noite, no hemisfério do Purgatório amanhecia;
no
nosso hemisfério caía a noite. — 68. Glauco, pescador
mitológico, ao comer uma erva marinha transformou-se em
deus do mar. — 122-23. O Céu sempre aquietado, em que gira o
que vai mais velozmente, o Empíreo imóvel, dentro ou embaixo
do qual gira o primeiro móvel, que é o mais veloz dos céus.
532
CANTO II
Sobem à lua. Exortação aos leitores. Dante pergunta
a Beatriz se
as manchas da lua dependem da maior ou menor densidade do
astro. Beatriz confuta o erro. Todos os astros são iluminados pela
virtude que do primeiro móvel se difunde aos céus sotopostos.
Na
lua a virtude é menor que nos outros céus.
VÓS, que em frágil barquinha navegando,
Desejosos de ouvir, haveis seguido
3 Meu baixel, que proeja e vai cantando,
Volvei à plaga, donde haveis partido,
O pélago evitai; que, em me perdendo,
6 Vosso rumo talvez tereis perdido.
Ondas ninguém cortou, que vou correndo,
Sopra Minerva e me conduz Apolo
9 E o Norte as Musas mostram-me, a que eu
tendo.
Vós, que, raros, a tempo haveis o colo
Erguido ao pão dos anjos, que alimenta,
12 Mas não sacia, no terráqueo solo,
A vossa nau guiai, de medo isenta,
No salso argento, após a minha esteira,
533
15 Enquanto água o seu sulco inda apresenta.
A que em Colcos surgiu gente guerreira,
Menos que vós, atônita ficara
18 Jasão vendo aplicado à sementeira.
Perpétua, inata sede nos tomara
Do império deiforme e nos levava
21 Quase bem como o céu, que jamais pára.
Olhava o céu Beatriz, eu a encarava.
Tão depressa talvez, quanto arrojada
24 Ao ar, a seta do arco se destrava,
Cousa vi, que prendeu maravilhada
A vista minha súbito; e então ela,
27 Que do meu cogitar stava inteirada,
Voltou-se e disse leda, quanto bela:
“A Deus eleva a mente, agradecido,
30 Chegados somos à primeira estrela.”
Lúcido, espesso, sólido e polido
Vulto, qual nuvem, nos cobrir parece,
33 Quase diamante pelo sol ferido.
Na per’la eterna entramos: assim desce
Raio de luz pela água, que recebe
36 No seio, mas unida permanece.
534
Se eu era corpo, e aqui se não percebe
Como uma dimensão outra compreende,
39 Senão se um corpo em outro corpo embebe,
Com mais razão desejo em nós se acende
De ver aquela essência, que é patente
42 Como a nossa natura a Deus se prende.
Ali o que por fé se crê somente
Sem provas por si mesmo será noto,
45 Como a verdade prima o que o home’ assente.
— “Ante o Senhor com ânimo devoto
Humilho-me” — tornei-lhe — “enternecido,
48 Pois do mundo mortal me tem remoto.
“Mas dizei: neste corpo o que tem sido
As manchas negras, com que lá na terra
51 Sobre Caim se hão fábulas urdido.” —
Sorriu-se e respondeu: — “Se assim tanto erra
Dos mortais o juízo no que a chave
54 Dos sentidos verdade não descerra,
“Não mais depois o espanto em ti se agrave;
Pois vês como, aos sentidos se rendendo,
57 Nos curtos vôos a razão se trave.
“Mas fala, idéias tuas me dizendo.” —
— “O que parece aqui ser diferente
535
60 De corpo raro e denso vir stou crendo.” —
— “Tu verás” — replicou — “bem
claramente
Ser falsa a crença tua, se escutares
63 Os argumentos, que lhe oponho em frente.
— “Na oitava esfera há muitos luminares,
Nos quais, por qualidade e por grandeza,
66 Notam-se aspetos vários, singulares.
“Se o denso e o raro atua, com certeza
Virtude única em todos tem regência,
69 Influindo com mais, menos graveza:
“São as virtudes várias conseqüência
Dos princípios formais que destruídos
72 Seriam, exceto esse: é de evidência.
“Se são por corpo raro produzidos
Tais sinais, ou neste astro muitos postos
75 De matéria estão destituídos,
“Ou, como o gordo e o magro sobrepostos
No corpo vês, quadernos diferentes
78 Este astro em seu volume tem dispostos.
“Nesse caso estariam bem patentes
Nos eclipses do sol da luz efeitos,
81 Que são, nos corpos raros, transparentes.
536
“Assim não é. No outro, se desfeitos
Forem seus fundamentos, demonstrado
84 Terei teu erro em ambos os respeitos.
“Não indo o raro de um ao outro lado
Limite deve haver onde, já denso,
87 Não possa o corpo ser atravessado;
“E sobre si o lume torne intenso,
Bem como a cor, por vidro refletida,
90 Ao qual o chumbo é por detrás apenso.
“Dirás que a luz se mostra escurecida
Aí, mais do que outra e em qualquer parte,
93 Por ser de mais distância refrangida.
“Desta instância consegue libertar-te
Experiência, se dela te ajudares,
96 Por ser sói a fonte de toda arte.
“De espelhos três se a dois tu colocares
Com igual intervalo, e o derradeiro
99 Mais longe, entre os primeiros encarares;
“Se houveres pelas costas um luzeiro,
Que os espelhos já ditos esclareça,
102 Dos dois repercutido e do terceiro:
Conquanto uma extensão menor pareça
No espelho que se avista mais distante,
537
105 Verás como igual luz o resplandeça.
“Como aquecida do astro rutilante,
A neve se derrete e se esvaece,
108 A frigidez perdendo e a cor brilhante,
“Assim, pois que o teu erro desparece,
Mostra-te clarão vou tão refulgente,
111 Que cintila qual luz que do céu desce.
“No céu da paz divina um corpo ingente
Gira: em sua virtude está guardado
114 O ser de quanto é ele o continente.
“O céu seguinte, de astros marchetado,
Aquele ser reparte por essências
117 Distintas, mas que tem nele encerrado.
“Os outros céus, por várias influências,
Distinções que contêm, dispõe, lhes dando
120 Quanto serve aos seus fins e conseqüências.
“Esses órgãos do mundo (estás notando)
Seguem, pois, gradação, que não varia;
123 Vêm de cima os que abaixo vão passando.
“Comprendes já como é segura a via,
Por onde ir à verdade desejada:
126 Depois o vau tu passarás sem guia.
538
“Deve aos santos motores imputada
Ser, como ao fabro o efeito do martelo,
129 Dos céus a ação, desta arte revelada.
“E o céu, que tantos lumes fazem belo,
Do Ser Supremo, que no espaço o agita.
132 A imagem toma e a insculpe como selo.
“E como alma, que a humana argila habita,
Por diferentes membros atuando,
135 Faculdades diversas exercita,
“A Inteligência assim multiplicando
Dos astros nos milhões sua bondade,
138 Sobre a Unidade sua vês girando.
“Cada virtude, em sua variedade,
A cada precioso corpo é unida
141 A que dá, como em vós vitalidade.
“A virtude, em tais corpos infundida
Refulge, de um ser ledo procedente
144 Qual ledice em pupila refletida.
“Daí vem que uma luz de outra é dif’rente,
Não por efeito do que é denso e raro:
Esse é formal princípio eficiente
148 Conforme a sua ação o turvo e o claro.” —
539
11. Pão dos anjos, teologia. — 14. Salso argento, o mar. —
16. A
que em Colcos surgiu gente guerreira, os Argonautas que se
espantaram quando Jasão arou o campo com dois touros que
expeliam flamas pelas narinas e semeou os dentes do monstro
que havia matado, do que surgiram guerreiros (Ovídio, Met. VII).
— 34. Per’la eterna, a lua. — 51. Sobre Caim se hão
fábulas
urdido, segundo uma crendice popular, as manchas da lua
representavam Caim carregando um feixe de espinhos. — 60.
De corpo raro e denso, Dante havia escrito no Convívio que as
manchas lunares eram partes rarefeitas do astro. — 73-90. Se a
lua tivesse algumas partes transparentes não haveria
possibilidade de verificar-se o eclipse do sol. Se as partes
rarefeitas não são transparantes deveria haver ao oposto delas,
como num espelho, partes densas que impediriam a
transparência. Nesse último caso, porém, os raios externos,
como no espelho, deveriam refletir-se. — 112. No céu da paz,
o
Empíreo. — 112-13. Um corpo ingente gira, o primeiro móvel,
que influencia os outros céus. — 127. Santos motores, os anjos
que agem em cada um dos céus. — 130-132. E o céu, que
tantos
lumes fazem belo etc., aquele Céu que tantas estrelas fazem
belo, recebe da divina inteligência a virtude e a imprime nos
outros céus.
540
CANTO III
Na lua estão as almas daqueles que não cumpriram plenamente
seus votos religiosos. Aparece ao Poeta a alma de Picarda Donati,
que resolve uma sua dúvida sobre o contentamento dos espíritos
bem-aventurados. Narra-lhe como foi violentamente tirada do
mosteiro. Indica-lhe a alma da imperatriz Constança.
O SOL por quem primeiro ardeu meu peito,
Provando e refutando, me mostrara
3 Da formosa verdade o doce aspeito.
Por confessar-me do erro, em que vagara,
Quanto possível fosse, convencido,
6 Mais alto a fronte para a sua alçara.
Eis fui de uma visão tal possuído,
Que olvidei meu desejo inteiramente,
9 Ficando em contemplá-la submergido.
Bem como em cristal puro e transparente,
Ou nágua clara, límpida e tranqüila,
12 Que deixa à vista o fundo seu patente,
A imagem nossa quase se aniquila,
Em modo, que uma per’la em nívea fronte
15 Se faz mais perceptível à pupila,
541
Assim, dispostas a falar defronte
Várias figuras vi: eu no erro oposto
18 De Narciso caí amando a fonte.
Eu, cuidando as feições do seu composto
Ver num espelho, súbito volvia,
21 Por bem saber quem fosse, atrás o rosto.
Ninguém vi. Logo o gesto me atraía
Da doce guia, que, a sorir-me estando,
24 Dos santos olhos no esplendor ardia.
— “No sorriso, não pasmes, reparando,
A causa é” — diz — “teu pueril engano,
27 À verdade caminhas vacilando.
“Andas em falso, como sóis, de plano:
Verdadeiras substâncias estás vendo;
30 Trouxe-as aqui dos votos seus o dano.
“Interroga, o que ouvires crer devendo;
Pois da verdade a luz, que as esclarece,
33 As conduz, de todo erro as defendendo.” —
Volto-me então à sombra, que parece
Mais desejosa de falar: torvado
36 Começo, e a voz impaciência empece.
— “Tu, espírito eleito, que, enlevado,
542
Da vida eterna aqui fruis a doçura,
39 Que entende só quem tem expr’imentado,
“Grã mercê me farás, se porventura
Disseres o teu nome e a sorte vossa.” —
42 A responder-me leda se apressura.
— “Ao bom desejo a caridade nossa,
Como a que manda a corte sua inteira
45 Imitá-la, defere quanto possa.
“Eu era lá no mundo virgem freira:
Diz-te a memória, se as feições me guarda,
48 Que sou, posto mais bela, e verdadeira.
“Atenta bem: verás que sou Picarda:
Estou nesta bendita companhia,
51 Venturosa na esfera, que é mais tarda.
“As nossas afeições que inflama e guia
Somente a inspiração do Esp’rito Santo,
54 Enlevam-se em cumprir ordens que envia.
“A sorte, ao parecer somenos tanto,
Nos coube, por ter sido descurado
57 O sacro voto e em parte posto a um canto.” —
Respondi-lhe: — “No aspeito sublimado
Vosso rebrilha um não sei que divino,
60 Que o tem do que foi de antes transmutado.
543
“Não fui, pois, em lembrar-me repentino;
Porém, do que disseste me ajudando,
63 Eu do que hás sido em recordar-me atino.
“Mas vós que estais aqui dita logrando
Não sentis de outro céu desejo ardente
66 Por ver mais alto mais amor gozando?” —
Sorriu-se a sombra e as outras docemente;
E disse da alegria radiante,
69 O seu primeiro amor como quem sente:
“Rege o nosso querer, em paz constante,
A caridade, irmão: só desejamos
72 O que ora temos e não mais avante.
“Anelando ir mais alto do que estamos,
Seríamos rebeldes à vontade,
75 A que aprouve esta estância, que habitamos.
“Pois nos cumpre existir na caridade,
Surgir não pode em nós tal pensamento,
78 Dessa virtude oposto à santidade.
“Condição de eternal contentamento
É preceito cumprir do Onipotente:
81 Um só com ele é logo o nosso intento.
“Do reino em cada plaga refulgente
544
Somos, do reino todo muito ao grado
84 E do Rei, que à sua lei nos molda a mente.
“Seu preceito a paz nossa se há tomado:
Ele é mar a que tudo precipita,
87 Que cria, ou faz natura ao seu mandado.” —
Conheço então que o Paraíso habita
Quem stá do céu em qualquer parte, e vejo
90 Não chover de um só modo a suma dita.
Mas, se um manjar sacia, dado o ensejo,
E de outro resta o apetite vivo,
93 Um se agradece, expondo-se o desejo.
Por gesto e voz assim fiz-me expressivo
Para a tela saber que a lançadeira
96 Não rematara com lavor ativo.
— “Perfeita em vida, em mérito altaneira
Acima santa está, que há regulado
99 Vestes e véus, com que professa freira,
“Até finar-se, vele ou durma ao lado
Desse esposo, que todo voto aceita,
102 Se lhe é por caridade consagrado.
“Menina e moça, à sua regra estreita
Submeti-me, e do mundo me apartando
105 Jurei aos seus preceitos ser sujeita.
545
“Roubou-me à paz do claustro iníquo bando,
Mais à maldade do que ao bem afeito:
108 Qual foi Deus sabe o meu viver, penando!
“Este fúlgido esp’rito, em cujo aspeito
(À direita demora-me) se acende
111 Quanto lume o céu nosso tem perfeito,
“O que digo de mim de si o entende;
Sendo freira, como eu foi-lhe arrancado
114 O santo véu, que o voto à fronte prende.
“Mas, ao mundo tornando de mau grado,
Que os seus piedosos usos ofendia,
117 Guardou fiel seu peito ao sacro estado.
“É a excelsa Constância a que radia:
Deu de Suábia ao Imperador segundo
120 Herdeiro, em que extinguiu-se a dinastia.” —
Calou-se; e logo do Ave o hino jucundo
Cantou: cantando aos olhos desparece,
123 Qual peso, que mergulha em mar profundo.
Segui-la a vista quis quanto pudesse;
De desejo invencível atraída,
126 Voltou-se, quando em todo se esvaece,
E em Beatriz fitou-se embevecida.
546
Mas era o rosto seu tão fulgurante,
Que ante o lume sentiu-se esmorecida.
130 Pelo efeito atalhei-me titubante.
1. Sol da beleza, Beatriz — 17-18. No erro oposto de Narciso,
Narciso se enamorou da sua imagem na fonte, tomando-a por
pessoa verdadeira. Dante caiu no erro oposto. — 49. Picarda
Donati, irmã de Forese e de Corso, freira de Santa Clara, foi
obrigada pela sua família a casar-se com Rossellino della Tosa.
— 95-96. A tela a saber que a lançadeira etc., o motivo pelo
qual
faltou aos votos que tomara — 98. Acima Santa está, Santa
Clara. — 118. Constância, filha de Rogério, rei das Apúlias
e de
Sicília, casada com Henrique VI e mãe de Frederico II.
547
CANTO IV
Duas dúvidas agitam o espírito do Poeta. A primeira é
relativa à
doutrina platônica, segundo a qual todas as almas voltam para
as estrelas donde saíram. A outra, se a violência tolhe a
liberdade, como pode ser justo que as almas forçadas a romper
os votos tenham desconto de glória? Beatriz responde à primeira
dúvida restringindo o sentido da doutrina platônica.
Relativamente à segunda diz que aquelas almas não consentiram
no mal, mas não o repararam, voltando ao claustro, quando
tiveram possibilidade de fazê-lo.
DE igual modo distantes e atraentes,
Homem livre entre cibos dois morrera
3 De fome, antes que num metesse os dentes.
Cordeiro assim, sem se mover, temera
No meio de dois lobos truculentos;
6 Um galgo entre dois gamos não correra.
Calando-me entre opostos pensamentos,
Louvor não merecia, nem censura;
9 Necessário era então nos meus intentos,
Mas no semblante o anelo se afigura;
Constrangido silêncio o denuncia
12 Melhor que a voz, quando expressão apura.
548
Fez Beatriz, qual Daniel fazia
Para os assomos moderar da ira,
15 Que ao mal Nabucodonosor movia.
— “Dos desejos cada um tua alma tira”
— Disse — “e estando em tais laços enleada,
18 Tolhido o raciocínio, não respira.
“Discorres: se a vontade contrastada
No bem persiste, pode porventura
21 Em méritos julgar-se amesquinhada?
“Turbar-te inda outra dúvida procura:
Se das estrelas a alma torna ao meio,
24 Como Platão filósofo assegura.
“Destes problemas dois te nasce o enleio.
No derradeiro o exame principia
27 Porque do erro mais fel há no seu seio.
“Não têm anjo, que em Deus mais se extasia
Moisés e Samuel, João Batista,
30 O Evangelista, nem também Maria,
“Lugar em céu dif’rente do que a vista
De espíritos te deu que hão se mostrado:
33 Num só têm todos a eternal conquista.
“O Empíreo é por todos adornado,
Hão todos doce vida variamente,
549
36 Conforme o eterno sopro é facultado.
“Se nesta esfera os viste, certamente,
Não foi por destinada lhes ter sido,
39 Grau só denota menos eminente.
“Assim por mente humana comprendido
Será, pois se eleva ao entendimento
42 Do que é pelos sentidos percebido.
“Por ter do que sois vós conhecimento
A Escritura atribui, mas al entende,
45 Pés e mãos ao Senhor do firmamento.
“Em figurar a Igreja condescende
Gabriel e Miguel e o que a Tobia
48 Curou, sob a feição, que à humana tende.
“Timeu esta verdade contraria
No que acerca das almas argumenta;
51 Parece crer à letra o que anuncia.
“Ao seu astro voltar a alma sustenta,
Supondo que ela à terra descendera,
54 Quando, por forma ao corpo unida, o alenta.
“Talvez diversa idéia concebera
Do que nas vozes suas emitira,
57 Escarnecida ser não merecera.
550
“Se a honra ou vitupério atribuíra Aos astros de influir
na vida humana, 60 Na verdade talvez firmasse a mira.
“Mal entendido, o seu princípio dana O mundo quase inteiro,
que prestara 63 A Jove e a Marte adoração insana.
“A dúvida segunda te depara Menos veneno, pois o mal, que encerra
66 Para longe de mim não te afastara.
“Que a Justiça Divina lá na terra Pareça injusta
é, de péssima heresia, 69 Argumento de fé, que jamais
erra.
“Mas, como a humana mente poderia Às alturas alar-se da verdade,
72 Vou dar-te, o que o desejo te sacia.
“Constrangimento havendo, se, à maldade A vítima se opondo,
em luta insiste, 75 Desculpa elas não têm, sem dubiedade.
“Não se abate a vontade, se persiste; Sempre se ergue, qual
flama cintilante: 78 A força a estorce, vezes mil resiste.
“Por menos que se dobre vacilante, Cede à força: voltar
ao santo abrigo
81 Puderam, tendo o ânimo constante.
“Se o querer fosse inteiro no perigo, Como Lourenço no braseiro
ardente, 84 Ou Múcio, que à mão sua deu castigo, “Em
livres sendo, a estrada incontinênti Do dever seguiriam pressurosas;
87 Mas raro é tal valor na humana gente.
“Se atendeste, razões dei poderosas Para ficar tua dúvida
solvida: 90 Causa te fora a angústias afanosas.
“Mas ante os olhos ora vês erguida Outra ainda mais grave, que,
por certo, 93 Não fora por ti só desvanecida.
“Já te hei bem claramente descoberto Que não pôde
mentir alma ditosa 96 Pois da Suma Verdade é sempre perto.
“Narrou depois Picarda que extremosa No seu amor ao véu fora
Constância, 99 Ao revés do que eu disse cautelosa.
“Na existência há mais de uma circunstância, Em
que se faz, perigos receando, 102 O que é vedado ou move repugnância.
“Do pai ardentes rogos respeitando, A sua mãe Alcmeon cortava
a vida, 105 Por piedade impiedoso se tornando.
“Fique, pois, a tua mente convencida De que ao querer se a força
anda ajustada, 108 Não há desculpa à falta cometida.
“A vontade absoluta é declarada Inimiga do mal: cede temendo
111 Ser, pela oposição, mais lastimada.
“A verdade absoluta em mira tendo, Picarda discorreu: de outra eu falava.
114 Verdade ambas estamos defendendo.” — Do santo rio a luz assim
manava, Da Fonte da verdade é derivada: 117 Cada um dos meus desejos
contentava.
— “Ó do Primeiro Amante excelsa amada! Ó santa”
— eu disse — “cuja voz me anima, 120 Me inunda e a força
aviva à alma abrasada! “Afeto meu que ao extremo se sublima,
Não basta por tornar graça por graça: 123 Que o Senhor
minha dívida redima! “Não há, bem sei, não
há quem satisfaça A mente, se a Verdade não comprende
126 Fora da qual outra nenhuma passa.
“A mente ali se refocila e prende, Qual fera, que em seu antro empolga
a presa: 129 De outra sorte o desejo em vão se acende.
“E por isso ao pé nasce da certeza, Como vergôntea, a
dúvida e nos leva 132 De cimo em cimo até sublime alteza.
“Com toda a reverência que vos deva, Ouso pedir-vos me expliques,
Senhora, 135 Outra verdade, que me está na treva: “Os rotos votos,
que homem sente e chora, Pode suprir com mérito dif’rente, 138
Que iguale em peso o que perdera outrora?” — Beatriz me encarou:
tão refulgente Lhe rebrilhava o olhar e tão divino, Que me volto,
sentindo a força ausente, 142 E, quase aniquilado, a fronte inclino.
13. Qual Daniel etc., Beatriz interpretou o pensamento de Dante, como Daniel
o sonho de Nabucodonosor, que queria mandar matar os seus sábios por
não terem podido interpretá- lo. — 24. Como Platão
filósofo assegura, segundo a teoria platônica as almas são
criadas antes dos corpos e habitam as estrelas, a elas voltando, depois da
morte do corpo. — 28-32.
Não tem anjo etc., todos os anjos e santos não têm, no
céu,
lugar diferente daquele dos espíritos que agora apareceram. —
47. O que a Tobia curou, o Arcanjo Gabriel que curou a cegueira de Tobias.
— 49 Timeu, diálogo de Platão no qual se fala da imortalidade
da alma. — 61-63. Mal entendido, o seu princípio dana, etc.,
a opinião, mal entendida, da ação das estrelas sobre
a alma, talvez, leva ao erro, e, por isso, deram-se aos planetas os nomes
de Jove e Marte e foram eles adorados. — 83.
Lourenço, condenado a morrer queimado vivo. — 84. Muzio, Scevola,
para punir-se, fez queimar sua mão sobre um braseiro.
— 104. Alcmeon, filho de Anfiarau, matou a mãe Erifiles, v.
Purgatório, XII, 50.
CANTO V
Continuando no discurso do canto anterior, Beatriz explica a Dante que o
voto é um pacto entre o homem e Deus. Pode mudar- se a matéria
do voto, mas deve ser substituída com oferecimentos de maior mérito.
Beatriz lamenta a leviandade dos cristãos.
Beatriz e Dante voam depois para a esfera de Mercúrio, onde estão
as almas dos homens que viveram uma vida digna, adquirindo fama no mundo.
Um espírito fala ao Poeta.
SE no fogo do amor te resplandeço Em modo, que o terreno amor precede;
3 Se aos olhos teus a força desfaleço; “Não te
espantes: efeito é que procede Desse perfeito ver, que o bem compreende,
6 E, o compreendendo, em se apurar progrede.
“Já patente me está quanto resplende Na inteligência
tua a Luz eterna, 9 Que, apenas vista, sempre amor acende; “E, se outro
objeto humano amor governa, Vestígio dela é só mal percebido,
12 Só transluzindo em sua forma externa.
“Saber queres se um voto não cumprido
É de outras obras resgatado, e tanto, 15 Que em juízo de Deus
fique absolvido.” — Começou Beatriz desta arte o canto;
E, como quem no discorrer não pára, 18 Seguiu assim no seu elóquio
santo: “O mor bem que ao universo Deus doara, O que indicara mais sua
bondade 21 O que em preço mais alto avaliara, “Foi do querer,
por certo, a liberdade, Que a toda criatura inteligente 24 Há dado
em privativa faculdade.
“Daqui, por dedução, fica evidente Do voto a alta valia,
quando é feito 27 Por acordo entre Deus e a humana mente.
“Por contrato, entre Deus e o home’ aceito, Esse tesouro é
vítima imolada, 30 Que ao sacrifício vai com ledo aspeito.
“Pode ser porventura compensada? Se cuidas usar bem do que ofertaste,
33 Crês fazer bem com prata mal ganhada.
“Certo do ponto capital ficaste; Com a dispensa a Igreja, parecendo
36 Em tal caso contrário ao que escutaste,
“Convém, que um pouco à mesa te detendo, Para o rijo
manjar, que hás ingerido, 39 Socorro aguardes, que te dar pretendo.
“Ao que te explico atento presta ouvido E guarda-o na alma; pois não
dá ciência 42 Ouvir o que depois fica no olvido.
“Exige do sagrado voto a essência Aquele objeto em sacrifício
dado 45 E do próprio contrato a consistência.
“Jamais pode ser este obliterado, Ainda que infringido: já bem
clara 48 Demonstração sobre este ponto hei dado.
“Lei rigorosa a Hebreus determinara Fazer pia oblação;
mas concedida 51 A permuta da oferta lhes ficara.
“Da matéria do voto é permitida Conversão quando
ensejo se oferece, 54 Sem ser por isso falta cometida.
“Mas não se muda, quando bem parece, O fardo; só se a
Igreja, tendo usado 57 Das chaves de ouro e prata, o concedesse.
“Crê que toda permuta é passo errado,
Quando o antigo no novo não se inclua, 60 Bem como quatro em seis
vês encerrado.
“Se o voto é tal na gravidade sua, Que obrigue a se inclinar
toda balança, 63 Outro voto não há, que o substitua.
“Não contraí, mortais, votos por chança! Cumpri-os,
mas não Jefté imitando, 66 A quem deu louco voto a desesp’rança.
“— Fiz mal! — dissesse ao voto seu faltando, Por não
fazer pior cumprindo-o. Estulto 69 Foi o potente Rei dos gregos, quando “À
filha fez chorar seu belo vulto E à piedade moveu quantos ouviram 72
Falar daquele abominável culto.
“A razões pesai bem, que vos inspiram, Cristãos! não
sêde pluma a qualquer vento! 75 As nódoas com toda a água
se não tiram! “Tendes o Velho e o Novo Testamento E da Igreja
o pastor, que os passos guia: 78 Que mais quereis por vosso salvamento? “Se
má cobiça o peito vos vicia, Homens sêde e não
brutos animais: 81 Que entre vós o Judeu de vós não ria.
“Como o cordeiro simples não façais, Que contra si combate
petulante, 84 Da mãe o leite não querendo mais.” —
Beatriz assim disse. Eis anelante E arrebatada em êxtase voltou-se 87
À parte, onde o universo é mais brilhante.
Ante o enlevo em que o gesto transmutou-se, Calou-se o meu desejo impaciente:
90 De outras questões, já prestes, refreou-se.
Como a seta, que o alvo de repente Atinge antes que a corda esteja quieta,
93 No céu segundo entramos velozmente.
Tão leda eu via Beatriz dileta, Daquele céu nas luzes penetrando,
96 Que mais vivo esplendor mostra o planeta.
E se a estrela sorriu, se transformando, Como não fiquei eu, que fez
natura 99 Mudável, impressões todas tomando? Como viveiro de
água mansa e pura, Pela esp’rança, de pasto, que se of’reça,
102 Sofregamente o peixe o anzol procura, Mais de mil esplendores vindo à
pressa,
— “Eis aí quem nos traz de amor aumento!” —
105 A voz de cada qual nos endereça.
De cada sombra o alegre sentimento, Em se acercando a nós, se denuncia
108 No fulgor do seu claro luzimento.
Quão sôfrego o desejo não seria Em ti leitor, se acaso
interrompesse 111 A narração de quanto então se via?
Imaginas, portanto, o que eu tivesse De conhecer aquela grei formosa, 114
Tanto que ante os meus olhos aparece.
— “Ó criatura, que assim vês ditosa Os tronos do
eternal triunfo, inda antes 117 De finda a terreal guerra afanosa, “Nos
lumes, que no céu há mais brilhantes, Ardemos: te darei, se
as pretenderes, 120 Ao teu desejo informações bastantes.”
— Assim falou. — “Responde que assim queres.” —
A Beatriz ouvi — “diz com franqueza, 123 E crê como divino
o que entenderes.” — “O ninho tens, já vejo com certeza,
Na luz eterna: o seu fulgor revela 126 Dos olhos teus, sorrindo-te a viveza.
“Mas não sei quem tu és, ó alma bela, Nem por
que por degraus tens esta esfera, 129 Que aos mortais nos clarões de
outra se vela.” Assim disse, voltado à luz que houvera Primeira
a voz alçado: refulgindo, 132 Mais coruscante a vi ao que antes era.
Bem como o sol os lumes encobrindo No seu próprio esplendor quando
esvaece 135 As cortinas que estavam-nos cingindo, Da alegria no excesso desparece
Nos próprios raios a figura santa.
Na sua luz envolta que recresce, 139 Disse o que o canto que se segue canta.
56-57. Só se a Igreja etc., só se a Igreja, que possui a chave
de prata (da ciência) e de ouro (da autoridade) o permitir. —
65.
Jefté, juiz de Israel, fez o voto, se vencesse os Amonitas, de sacrificar
a primeira pessoa que encontrasse no caminho; e esta foi a sua filha. —
69. O potente rei dos Gregos, Agamenon prometeu aos deuses o que possuía
de mais belo. Chorou depois a beleza da sua filha Ifigênia.
CANTO VI
A alma do imperador Justiniano fala ao Poeta. Narra-lhe a história
do Império, de Enéias a César, a Tibério, a Tito,
a Carlos Magno, para mostrar-lhe a santidade da autoridade imperial.
Diz-lhe que no Céu de Mercúrio estão os espíritos
daqueles que se esforçaram para conseguir fama imortal. Discorre-lhe
acerca de Romeu, que administrou a corte de Raimundo Beranguer, conde de Provença.
“DEPOIS que Constatino a Águia voltara Contra o curso do céu,
que ela seguira 3 Pós o herói, que Lavínia conquistara,
“Duzentos anos já passados vira Da Europa em confins de Deus
essa ave, 6 Vizinha aos montes, donde se partira; “Das plumas sob a
sombra ampla e suave, De mão em mão o mundo há dominado,
9 Té comigo reger do Império a nave.
“César, Justiniano fui chamado.
Do Amor, que sinto, por querer movido, 12 O supérfluo das leis hei
cerceado.
“Antes de ter a empresa cometido,
563
Uma só natureza acreditava 15 Ter Cristo e andava nessa fé
perdido.
“Mas de Agapeto santo que mandava De Roma Santa Igreja, a voz potente
18 Levou-me à crença pura, que eu deixava.
“O que então disse, eu vejo claramente, Pois, como vês,
contradição implica 21 Uma falsa asserção e outra
evidente.
“Quando eu cri no que a Igreja certifica, Minha mente, de Deus por
alta graça, 24 Logo à sublime empresa se dedica.
“Belisário a reger as armas passa; No favor, que lhe deu poder
divino 27 Sinal vi que me ordena a paz se faça. — “A responder-te,
o que ouves tem destino; Mais o que hei dito agora a tanto obriga, 30 Que
a mor explicação dar-te me inclino.
“Verás que sem razão vontade imiga Move-se contra esse
estardarte santo, 33 Quando o tenta usurpar, quando o profliga.
“Pelos fatos verás respeito quanto Mereceu desde a honra em
que Palante 36 Morreu por dar-lhe de sob’rano o manto.
564
“Em Alba sabes como foi constante Por mais de anos trezentos té
lutarem 39 Três contra três por que ele fosse avante.
“Sabes quanto ele fez por se curvarem Vizinhos desde o roubo das Sabinas
42 Té Lucrécia expirar e os Reis findarem.
“Sabes que glória teve nas mãos di’nas De heróis,
que Breno e Pirro combateram, 45 E de outros reis coligações
mali’nas; “Décios, Fábios, Torquatos lhe deveram
E Quíncio Cincinato, que amo e louvo 48 A fama das vitórias,
que tiveram; “Calcou o orgulho do Africano povo, Que por fraguras, donde,
o Pó, te envias, 51 Sob Aníbal, abriu caminho novo.
“Fez triunfar da juventude em dias Cipião e Pompeu, e assaz
desgosto 54 Causou às tuas pátrias serranias.
“Perto dos tempos, em que o céu disposto Havia, por seus fins,
dar paz ao mundo.
57 Em mãos de César Roma o teve posto.
“O que ele fez do Var ao Rin profundo
565
Isara há visto e o Era, há o Sena 60 E esse vale, onde o Rone
é sem segundo.
“Passando o Rubicon, após Ravena, Com César a Águia
tanto em vôo alçou-se, 63 Que o não pôde seguir
nem voz, nem pena.
“Depois que para a Espanha remontou-se, A Durazzo e a Farsália
acometia: 66 Do efeito o ardente Nilo perturbou-se.
“O Simoente e Antandro então revia, Seu berço, em que
a de Heitor cinza descansa; 69 E sem detença a Ptolomeu se envia.
“Dali, qual raio, logo Juba alcança; Depois volve-se às
terras do Ocidente, 72 Onde os sons de Pompeu a tuba lança.
“Nas mãos de outro o que fez essa ave ingente No inferno Bruto
e Cássio estão sentindo, 75 Sofrem Perúgia e Módena
tremente.
“Cleópatra inda vai triste carpindo Atroce morte, que da serpe
toma, 78 Da Águia os assaltos pávida fugindo.
“Até o Roxo mar tudo a Águia toma, E ao mundo tão
serena a paz se inclina, 81 Que em fim de Jano as portas fecha Roma.
566
“O que fez e faria a ave divina Para trazer à fama sua aumento
84 Nesse império mortal, em que domina, “Parece escasso em seu
merecimento, Quando em mãos de Tibério a contemplamos 87 Com
puro afeto e claro entendimento; “Pois que a viva justiça, que
adoramos Lhe há nessas mãos a glória concedido 90 De
dar vingança às iras, que incitamos.
“Sê, me ouvindo, de espanto possuído: Águia a vingança
do pecado antigo 93 Depois com Tito há por tornar corrido.
“Quando, mordida por lombardo imigo, Gemia a Santa Igreja, à
sombra da ave 96 Salvou-a Carlos Magno do perigo.
“Podes julgar, portanto, do erro grave Daqueles, cujas faltas hei notado,
99 Causa do mal que vês quanto se agrave.
“Contra o sacro estandarte um tem hasteado Áureo lírio,
outro o quer por seu partido: 102 Custa dizer qual seja o mais culpado.
“Gibelinos, no iníquo andar sabido
567
Outra bandeira sigam; que à justiça 105 Culto esta exige nunca
interrompido.
“Carlos novo a batê-la em vão cobiça Com Guelfos;
temas as garras, que arrancaram 108 A mais forte leão juba inteiriça.
“Mais de uma vez os filhos já choraram Pelas culpas do pai:
é louca a esp’rança, — 111 De que de Deus favor
lírios ganharam.
“O planeta, em que habito agora, estança É de almas generosas
que honra e fama 114 Aspiraram do mundo na lembrança.
“Quando os desejos deste modo inflama O incentivo da glória,
aos céus ascende 117 Do vero amor menos ativa a chama.
“Mas nossa dita em parte compreende Dos méritos e prêmio
no confronto: 120 Nem menor, nem maior nenhum se entende “Pois da viva
justiça o feito pronto Tanto os afetos nos ameiga e apura, 123 Que
nequícia os não torce em nenhum ponto.
“Vozes várias de sons formam doçura: Assim os vários
graus na eterna vida 126 Doce harmonia fazem nesta altura.
568
“Nesta per’la, em que estás, bela e polida, Rebrilha de
Romeu claro luzeiro, 129 Virtude ínclita e mal agradecida.
“Os provençais, pelo ato traiçoeiro, Não se riram;
caminho segue errado 132 Quem o bem de outro inveja sobranceiro.
“Às filhas grato de rainha o estado Conseguiu Beranguer: tal
bem devia 135 A Romeu, nome humilde e não falado.
“Preso na trama que a calúnia urdia, Que aumentado no quinto
o erário havia; 138 Do erário contas exigiu do justo, “Romeu
partiu-se então pobre e vetusto: Se o mundo o coração
lhe aquilatara, Quando, mendigo, se mantinha a custo, 142 Louvor muito maior
lhe dispensara.” —
1-3. Depois que Constantino a Águia voltara etc., depois que Constantino
transferiu o Império de Roma para Bizâncio. — 10.
Justiniano, imperador romano e grande legislador, que reinou duzentos anos
depois de Constantino, pois começou o seu reinado em 527. — 14.
Uma só natureza etc., a doutrina de Eutíquio segundo a qual
Cristo tinha só a natureza humana. — 16. Agapeto, o papa Agabito.
— 25. Belisário, grande capitão que combateu na Itália
contra os Godos. — 32. Esse estandarte
569
sacro, o emblema do Império, que representava a águia. —
35.
Palante, companheiro de Enéias, morreu combatendo contra Turno. —
37. Alba, cidade fundada por Ascânio, filho de Enéias.
— 39. Três contra três, combatimento dos Horácios
contra os Curiácios. — 41. O roubo das Sabinas, o rapto das mulheres
dos Sabinos, efetuado pelos Romanos. — 42. Lucrécia, mulher de
Colatino, foi violentada por Tarquinio, daí resultando a rebelião
dos Romanos contra a monarquia. — 44. Breno e Pirro, o primeiro general
dos Galos, o segundo rei do Épiro, que invadiram a Itália. —
46-47. Décios, pai, filho e neto morreram pela pátria; Fábios,
ilustre família romana; Torquatos, T. Manlio Torquato; Quíncio,
Q. Lúcio Cincinato. — 51. Aníbal, general cartaginês
que invadiu a Itália. — 67. Simoente, rio perto de Tróia;
Antadro, cidade da Frísia. — 73. Nas mãos do outro o que
fez César, Augusto vingou a morte de César. — 76. Cleópatra,
rainha do Egito, suicidou-se. — 93. Tito, destruiu Jerusalém,
cujos habitantes tinham crucificado a Jesus Cristo. — 94.
Lombardo imigo, Desidério, último rei longobardo que foi derrotado
por Carlos Magno. — 101. Áureo lírio, as armas da Casa
de França. — 106. Carlos novo, Carlos II de Anjou, chefe do partido
guelfo. — 128. Romeu, segundo conta G. Villani, foi administrador de
Raimundo Beranguer, conde de Provença, aumentando-lhe o patrimônio
e conseguindo casar as filhas de Raimundo com quatro reis. Caluniado, não
quis mais ficar na corte de Provença e, velho e pobre, desapareceu.
570
CANTO VII
Desaparecem os bem-aventurados cantando. Beatriz explica como a crucificação
de Cristo restituiu ao homem a dignidade perdida, a liberdade que lhe foi
conferida por Deus. Os anjos e os homens por sua natureza são livres
e imortais. O homem porém, pecando, abusou da sua liberdade, e deformou
a imagem de Deus que tinha em si. Não podia reparar a falta por si
mesmo, pois não podia humilhar-se tanto quanto Adão, em seu
orgulho, quis subir. A Deus convinha ou perdoar ou punir. Na sua sabedoria
infinita, Deus perdoou e puniu no mesmo tempo. Puniu a humanidade em Jesus
Cristo e nele a fez novamente livre.
“HOSANNAH Sanctus Deus Sabaoth, Superillustrans daritate tua 3 Felices
ignes horum malacòth!” Assim, voltando à melodia sua,
Cantar ouvi essa alma venturosa 6 Em quem dúplice lume se acentua.
Tornam todas à dança jubilosa, E súbito da vista se
apartaram 9 Velozes, como flama fulgurosa.
Disse entre mim, pois dúvidas me entraram: “Fala à senhora
tua, fala; à sede 12 Rocio as palavras suas te deparam.”
571
Torvação me assenhora e a voz me impede, Que apenas B com I
C E conjugava: 15 Acurvei, como quem ao sono cede.
Mas Beatriz do enleio me tirava, Com sorriso, que a mente me ilumina 18 E
aditara entre as chamas começava: — “Como bem vejo, dúvida
domina A tua alma: — a vingança, que foi justa, 21 Punição
teve, da justiça di’na? “Esclarecer-te o espírito
não custa.
Atende bem: verdade preminente 24 Das vozes minhas co’a expressão
se ajusta.
“Aceitar não querendo, obediente, Saudável freio, o homem,
sem mãe nado, 27 Perdeu-se a si, perdeu a humana gente.
“Muitos séc’los enferma do pecado, Jazeu ela não
erro engrandecido 30 Té que o Verbo de Deus fosse encarnado.
“Por ato só do Eterno Amor, unido À natureza se há,
que ao mal se dera, 33 Depois de esquiva ao Criador ter sido.
“No que vou te dizer bem considera.
572
A natureza, a que se uniu beni’no 36 Em pessoa, nasceu boa e sincera.
“Por si mesma, fugindo em desatino Da vereda da vida e da verdade,
39 Do Paraíso se exilou divino.
“Da Cruz a pena, em face da maldade Da natureza, a que Jesus baixara,
42 Foi a mais justa em sua gravidade.
“Nunca injustiça igual se praticara, Atenta essa Pessoa, que
há sofrido, 45 Que à natureza humana se ajuntara.
“Contrastes, pois, de um ato hão procedido: Folgam Judeus da
morte a Deus jucunda, 48 Foi ledo o céu e o mundo espavorido.
“E não te mova sensação profunda Ouvir que uma
vingança, que foi justa, 51 Vingada ser devia por segunda.
“Vejo-te a mente por vereda angusta Levada a estreito nó de
dubiedade, 54 Que solver mor esforço ora te custa.
“Dirás: — discerne o que ouço, na verdade; Mas
porque Deus nos desse está-me oculto, 57 Remindo-nos tal prova de bondade.
—
573
“Este decreto irmão, está sepulto Aos olhos do que ainda
o entendimento 60 Não tem de Amor na flama ainda adulto.
“É mistério em que luta o pensamento Sem fruto conseguir
de tal porfia, 63 Mas foi o melhor modo. Ouve-me atento! “A Divina Bondade
que desvia De si o desamor, arde e flameja, 66 Por eternais primores se anuncia.
“Diretamente o que emanado seja Dela é sem fim; eterna impressão
fica 69 Do que no seu querer supremo esteja.
“O que assim nasce, não sujeito fica Das causas secundárias
à influência 72 E liberdade plena significa.
“Mais lhe apraz, se é conforme à sua essência:
Que o santo Amor que em toda cousa brilha, 75 Mais vivo é no que encerra
esta excelência.
“Aos homens de tais bens cabe a partilha: De tais predicados se um
falece, 78 Sua nobreza já decai, se humilha.
“Só por pecado dessa altura desce;
574
Do Sumo Bem não mais reflete o lume, 81 Semelhança não
mais dele oferece.
“E o grau sublime seu não mais assume, Se não contrapuser
ao do pecado 84 Deleite mau das penas o azedume.
“Quando o gênero humano, infeccionado Todo no germe seu, foi
dessa alteza 87 E do seu Paraíso deserdado, “Reaver só
pudera (com certeza Verás, se bem cogitas), intervindo 90 Um dos meios,
que aponto por clareza: “Ou Deus, por graça infinda, remitindo;
Ou — porque, de si mesmo, se convença — 93 Das culpas suas
o homem se remindo.
“Para sondar a profundeza imensa Dos eternos conselhos, prende à
mente 96 As razões que o discurso meu dispensa.
“O homem não podia, de indigente, As dívidas solver:
nunca pudera 99 Curvar-se tanto, humilde e reverente, “Quanto, rebelde,
se elevar quisera.
Eis por que redimir-se do pecado 102 Só por si mesmo ao homem não
coubera.
575
“E, pois há sido do divino agrado, Por clemência ou justiça
e ambas juntando, 105 Ser ele à vida eterna aparelhado.
“A feitura do Autor ao gosto estando Inda mais, quando a imagem nos
of’rece 108 Do peito, de quem vem piedoso e brando, “A Bondade
que em tudo transparece, Em prol vosso os dois modos reunia: 111 Um somente
bastar-lhe não parece.
“Entre a noite final e o primo dia Ato igual não se fez alto
e formoso 114 Desse modo por um, nem se faria.
“Dando-se, há sido Deus mais generoso, Por que o home’
a se erguer se habilitasse, 117 Do que só perdoando carinhoso.
“Outro meio qualquer, que se empregasse Não bastara à
Justiça, se humilhando 120 De Deus o Filho à carne não
baixasse.
“Para de todo seres doutrinado Eu torno a um ponto, por que vejas claro,
123 Como eu, o que zelosa hei te explicado.
“Dizes: — no fogo e no ar, se bem reparo
576
Na terra e nágua vejo e em seus compostos 126 Corrupção
que destrói sem anteparo.
“Na criação por Deus foram dispostos: De corrupção
isentos ser deveram, 129 Certos sendo os princípios por ti postos.
— “Criados, meu irmão, se consideram Os anjos e dos céus
o que há no espaço, 132 Inteiros, puros sempre quais nasceram.
“Elementos e quanto no regaço Da natura por eles se combina
135 De virtude criada of’recem traço.
“Criou-lhes a matéria a lei divina, Criando logo a força
informativa, 138 Que nos astros, que os cercam, predomina.
“Dos lumes santos moto e luz deriva Dos brutos alma, e plantas igualmente,
141 Por compleição potencial passiva.
“A vida nossa vem diretamente De Deus, Supremo Bem, que em nós
acende 144 Amor tal, que o deseja eternamente: “Daí, por dedução,
também descende Vossa ressurreição, se ao ser e à
essência Da humana carne o teu esp’rito atende,
577
148 Quando o primeiro par teve existência.” —
1-3. Hosannah, sanctus Deus Sabaoth, expressão constituída
por palavras latinas e hebraicas: “Salve, Deus dos exércitos,
que iluminas com a tua luz os felizes lumes deste reino.” — 18.
E aditara, do verbo aditar, tornar feliz. — 26. O homem sem mãe
nado, Adão. — 46-48. Contrastes, pois, de um ato procedido etc.,
a morte de Jesus Cristo deu satisfação a Deus, porque reparava
a ofensa de Adão e deu satisfação aos Judeus pela raiva
deles contra Jesus; a terra ficou espavorida pela crucificação
de Deus e o Céu alegre porque se abria novamente à humanidade.
578
CANTO VIII
Dante e Beatriz elevam-se à estrela de Vênus, onde estão
os espíritos daqueles que outrora foram propensos às paixões
amorosas. Encontro com Carlos Martelo, o qual referindo-se à índole
mesquinha de seu irmão Roberto, explica-lhe como se dá que de
um bom pai possa nascer um filho mau e, enfim, quanto providencial é
a Natureza nos seus decretos e quão vaidosos são os homens que
não lhe seguem as indicações.
O MUNDO com perigo verdadeiro Creu que Ciprina bela dardejava 3 Louco amor
do epiciclo que é terceiro.
Sacrifícios não só lhe consagrava, Preces e votos essa
antiga gente 6 No erro antigo fatal, que a transviava, Mãe e filho
adoravam juntamente, Dione e o seu Cupido, que fingiram 9 De Dido reclinado
ao seio ardente; Dessa falsa deidade o nome uniram Ao planeta, que o sol sempre
namora, 12 Quando raiam seus lumes, quando expiram.
Como ao astro eu me alcei, a mente ignora,
579
Mas certo fui de haver lá penetrado, 15 Mais formosa por ver minha
senhora.
Como se vê fagulha em fogo ateado, Como uma voz é de outra discernida,
18 Firme o som de uma, o de outra variado, Outros clarões notei na
luz subida, Mais ou menos velozes se volvendo, 21 Lá da eterna visão,
creio, à medida.
Ou visíveis ou não, ventos rompendo, Em rápida invasão,
de nuve’ escura, 24 Demorados stariam parecendo, A quem pudesse ver
cada luz pura, Que ao nosso encontro vem deixando a dança 27 Que marcam
serafins dos céus na altura.
Trás a grei, que primeiro nos alcança.
Tão doce hosana soa, que, incessante, 30 De inda ouvi-lo o desejo
jamais cansa.
Dos espíritos um, que vem diante Só principia: — “Todos
nós queremos 33 Quanto para aprazer-te for prestante.
“Num só ardor e giro nos movemos Cos Príncipes, celestes
esplendores 36 De quem no mundo hás dito (bem sabemos):
580
— “Vós, do terceiro céu sábios motores!”
— Por te agradar nos é doce o repouso 39 Tão vivos são
do nosso amor fervores!” — De Beatriz ao gesto luminoso Depois
que alcei os olhos reverente 42 E certo fui do seu querer donoso, À
luz, que se mostrou condescendente Em tanto grau — “Quem és”
— falei, de afeito 45 Estremecido possuída a mente.
Ó das palavras minhas raro efeito! Maior a vi brilhar; nova delice
48 A alegria aumentou do claro aspeito.
— “Bem pouco o mundo” — a refulgir-me, disse —
“Me teve; se algum tempo mais vivesse, 51 Mal, que há de vir,
por certo ninguém visse.
“O júbilo que em torno me esclarece, Aos teus olhos me encobre,
como inseto, 54 Que dos seus véus de seda se guarnece.
“Com razão me votaste o extremo afeto; Pois, em mais longa vida,
eu te mostrava 57 Por ações quanto me eras tu dileto.
581
“Aquela região, que o Rone lava À sestra, quando ao Sorga
corre unido, 60 Por senhor seu um dia me esperava.
“Como da Ausônia o litoral partido Por Bari, por Gaeta e por
Crotona.
63 Onde é do Tronto e Verde o mar nutrido.
“Da c’roa a fronte minha já se entona Do vasto reino,
que o Danúbio rega, 66 Quando as plagas tudescas abandona.
“Trinácria, a cujos céus névoa carrega Sobre o
golfo, em que mais Euro embravece, 69 De Paquino a Peloro, em mor refega,
“Que não Tifeu, mas súlfur escurece, O trono guardaria
à prole minha, 72 Que de Carlo e Rodolfo antigos desce, “Se o
mau jugo, que os povos amesquinha, A gritar — morra! morra! —
não movesse 75 Palermo, a quem temor não mais continha.
“Se mais prudência meu irmão tivesse, Dos Catalanos a
indigência avara 78 Fugira, por que o mal seu não crescesse.
“Urgente, na verdade, se tomara Que, por si ou por outrem, não
deixasse
582
81 Mais onerar a barca, que adernara.
“Quando a índole nobre transtornasse Avareza, milícia
ter devia, 84 Que só de encher seus cofres não curasse.”
— — “Como creio” — tornei-lhe — “a
essa alegria, Que me infundes, Senhor, a origem tira 87 De Deus que todo bem
finda e inicia.
“Comigo a sentes: mor prazer me inspira.
Quanto me hás dito, me é no extremo caro, 90 Pois vês,
de Deus no espelho tendo a mira.
“Ledo me hás feito; assim tornar-me claro O que por teu dizer
stá duvidoso: 93 Semente doce brota fruto amaro?” — —
“Vendo a verdade” — disse — “pressuroso Darás
o dorso ao que ora dás o rosto, 96 Verás claro o que julgas
tenebroso.
“O Bem, que os céus, que sobes, há disposto, Os move
e alegra, sem pôr providência 99 Nestes corpos que vês virtude
posto.
“E não só com perfeita previdência Cousas terrestres
acham-se ordenadas, 102 Mas as preserva a sua onipotência;
583
“Porque as setas, deste arco arremassadas, Predestinadas são
a um ponto certo, 105 Infalíveis ao alvo enderaçadas.
“O céu aliás, aos olhos teus aberto, Só feituras
sem arte produzidas 108 Abrangera e ruínas no deserto.
“Foram então de perfeição despidas As Substâncias,
que regem as estrelas 111 E a mão, que as fez assim destituídas.
“Verdades são: mais claras queres vê-las?” —
— “Não” — repliquei — “supor não
poderia 114 Natura escassa em suas obras belas.” — — “Um
mal, dize-me, fora” — prosseguia — “Não ser
o homem cidadão na terra?” — 117 — “Por certo;
e a razão sei” — lhe respondia.
— “Sociedade haverá, se não encerra Misteres vários,
que cada um pratica? 120 Não, se o teu Mestre em seu pensar não
erra.” — Deduzindo, a evidência significa, E logo concluiu:
— “Causa dif’rente 123 Efeito diferente sempre indica.
“Nasce um Sólon, e Xerxe outro é furente,
584
Melquisedeque ou Dédalo perito, 126 Que no ar perdeu o filho seu demente.
“Perfeito é o giro pelos céus descrito; Na cera humano
o seu sinal fazendo, 129 Mas solar não distingue, nem distrito.
“Daí vem que Esaú, logo em nascendo, Difere de Jacó;
toma Quirino 132 Marte por genitor, seu pai vil sendo.
“Natureza gerada, em seu destino Seria sempre igual à que a
fizera, 135 Se não vencesse o decretar divino.
“O rosto ora diriges à luz vera; Mas inda um corolário
te ofereço, 138 Pois de agradar-te em mim desejo impera.
“Sempre natura, se da sorte excesso A contraste, produz fruto danado,
141 Como semente posta em solo avesso.
“Se meditasse o mundo, desvelado, Nos fundamentos, que natura lança,
144 De melhor gente fora povoado.
“Mas quem próprio seria à militança Na soledade
monacal definha, Bem pregara quem, Rei, em vão se cansa.
585
148 E fora assim da estrada se caminha.” —
2. Ciprina bela, Vênus. — 8. Dione, filha de Oceano e de Tétis,
mãe de Vênus. — 9. De Dido reclinado ao seio ardente, no
I Livro da Eneida, Cupido, sob a aparência de Ascânio, leva a
Dido os presentes de Enéias. — 58 e seg. quem fala é Carlos
Martelo, filho de Carlos II de Anjou e que Dante conheceu em Florença
em 1294. — 61. Ausônia, a Itália. — 67. Trinácria,
a Sicília. — 70. Tifeu, segundo a lenda o gigante Tifeu, sepultado
na Sicília, expele fumo e caligem. — 72. De Carlo e Rodolfo,
Carlos de Anjou e Rodolfo de Habsburgo. 74. A gritar — morra! morra!
— não movesse Palermo, alusão às Vésperas
Sicilianas. – 76. Meu irmão, Roberto de Anjou. — 120. O teu mestre,
Aristóteles. — 131. Quirino Rómulo, fundador de Roma.
586
CANTO IX
Depois de Carlos Martelo, fala a Dante, Cunizza de Romano, irmã do
tirano Ezzelino. Prediz-lhe iminentes desventuras na Marca de Treviso e de
Pádua, e uma negra traição do bispo de Feltre. Folco
de Marselha manifesta-se a Dante e lhe indica a alma resplendecente de Raab,
que favoreceu os hebreus na conquista da Terra Santa. Invectiva contra Florença
e contra a Cúria Romana.
DEPOIS que Carlos teu, bela Clemência Instruiu-me, narrou traições
e enganos, 3 Que ter devia a sua descendência; Mas disse: — “Cal’-te!
Deixa o curso aos anos!” — Dizer só posso, pois, que justo
pranto 6 Há de vir por vingança aos vossos danos.
E voltou-se de novo o lume santo Para o Sol que de júbilos o enchia,
9 Sendo ele o Bem que para tudo, e tanto.
Ah! mortais iludidos! raça impia, Que, em pensamentos fátuos
se engolfando, 12 Do Bem Supremo os corações desvia! Eis outro
vi pra mim se encaminhando:
587
De aprazer-me a vontade anunciava, 15 O brilho da luz sua acrescentando.
Os olhos Beatriz em mim fitava, Bem como de antes: grandioso assenso, 18
Ao meu desejo claramente dava.
— “Ó ser bendito, ao meu querer intenso Defere logo”
— exclamo — “ e dá-me a prova 21 De que em ti se
reflete o que ora penso.” — A luz então, inda aos meus
olhos nova, Dês que a vi lá na altura onde cantava 24 Diz como
quem cortês rogos aprova: — “Nessa parte da Itália
opressa e escrava, Que situada entre o Rialto 27 E as nascentes do Brenta
e do Piava, “Colina vê-se que, não surge ao alto: Lá
centelha, depois ígnea procela, 30 Que a toda a região deu grande
assalto.
“De um só tronco brotamos eu com ela.
Cunizza me chamei: aqui resplendo, 33 Porque venceu-me a flama desta estrela.
“Da sorte minha a causa não me sendo Desgosto, eu ma perdôo
alegremente 36 Talvez estranhe o vulgo o como entendo.
588
“Da luz, que me está perto, refulgente, Amada jóia desta
nossa esfera, 39 Revive grande a fama, e permanente “De séc’los
cinco mais será na era.
Vê se homem com razão à glória aspira, 42 Se extinta
a vida, outra no mundo o espera! “A este alvo, porém, não
levam mira Os que o Ádige cerca e o Tagliamento: 45 Nem dos seus erros
o infortúnio os tira.
“Punido em breve, o povo truculento De Pádua o lago tingirá,
que banha 48 Co’as águas, de Vicência o fundamento; “Onde
o Cagnan do Sile se acompanha Se trama o laço que fará cativo
51 Quem mostra no perder soberba estranha.
“Do ímpio Pastor procedimento esquivo Há-de Feltro chorar,
tal ribaldia 54 A Malta não levou nunca homem vivo.
“De enormes dimensões tonel seria, Que o sangue recebesse de
Ferrara, 57 Pesá-lo o esforço humano esgotaria, “Em tal
cópia o bom Padre o derramara
589
Em preito ao seu partido! Os dons malvados 60 Da terra sua a índole
explicara.
“Espelhos no alto (Tronos são chamados) A nós refletem
quanto Deus indica: 63 Crê, pois, ora nos fatos revelados.” —
Calando-se Cunizza significa, Ao giro seu anterior voltando, 66 Que em diverso
cuidado imersa fica: Aquele, a que aludira, rebrilhando, Com preclaro esplendor,
mostrou-se à vista.
69 Como ao sol rubi fino flamejando.
Alegria no céu fulgor aquista, Como a nossa no riso se declara; 72
Mas os gestos no inferno a dor contrista.
“Deus vê tudo, e o teu ver nele se aclara” — Falei
— “ditoso espírito: patente 75 Te é sempre quanto
o seu querer depara.
“Porque a voz tua, enlevo permanente Do céu, de anjos no canto
a sócia sendo, 78 Que em seis asas têm veste resplendente, “Não
satisfaz desejos, em que ardendo Estou? Falara, sem mais ser rogado, 81 Se
eu visse em ti bem como em mim stás
590
vendo.” — — “O maior vale de águas inundado”
— Desta arte a responder-me começava — 84 “Do mar,
em torno à terra derramando, “Opostas plagas, se estendendo,
lava Contra o sol, e assim faz meridiano 87 Esse horizonte, em que primeiro
estava.
“Nessa parte do val mediterrano Nasci, entre Ebro e Macra, que separa
90 Do domínio de Gênova o Toscano.
“Quase um meridiano se depara Para Bugia e o ninho meu querido: 93
Sangue dos seus seu porto avermelhara.
“Chamei-me Folco e assim fui conhecido: Este céu da luz minha
é penetrado 96 Como eu fora da sua possuído; “Pois Dido,
que ciúmes há causado A Creusa e a Siquei, não mais ardera
99 Do que eu, enquanto à idade me foi dado; “Nem Rodópea
infeliz, a quem perdera Demofonte; nem Hércules outrora, 102 Que o
coração a Iole oferecera.
591
“Não há remorso aqui; folga-se agora, Não pela
culpa, já no esquecimento, 105 Pela Virtude, cuja lei se adora.
“Arte aqui se contempla, em que portento Tão alto brilha; e
o Bem se patenteia, 108 Que influir faz na terra o firmamento.
“Para ser a medida toda cheia Dos teus desejos, nados nesta esfera,
111 Do meu discurso inda prossegue a teia.
“Ora queres saber a luz quem era, Que aí perto de mim tanto
cintila, 114 Como o sol, que na linfa reverbera.
“Sabe, pois, que ali vês leda e tranqüila Raab: à
nossa ordem reunida 117 Em grau superior clara rutila.
“Foi neste céu, que a sombra procedida Da terra não alcança,
em triunfando 120 Jesus Cristo, a primeira recebida.
“Devia dar-lhe um céu por palma, quando Assinalar lhe aprouve
a alta vitória, 123 Que na Cruz teve, as palmas entregando; “Pois
que por ela começara a glória, Que colheu Josué na Terra
Santa,
592
126 Que se apagou do Papa na memória.
“A tua pátria, que foi daquele a planta, Que ao Criador revel
primeiro há sido 129 E causou pela inveja aflição tanta,
“Tem flor maldiçoada produzido, Que, ovelhas e cordeiros transviando,
132 Traz o pastor em lobo convertido.
“O Evangelho, por ela, abandonado E os Doutores, às páginas
usadas 135 Das Decretais stão muitos se aplicando.
“O Papa e os Cardeais, nisto engolfadas Tendo as idéias, Nazaré
esquecem, 138 Que viu do Arcanjo as asas desdobradas.
“Mas Vaticano e os sítios que enobrecem A Roma e têm sido
o cemitério Dos que, fiéis a Pedro, lhe obedecem, 142 Livres
serão em breve do adultério.” —
25-28. Nessa parte, etc., a Marca Trevisana. — 26. Rialto, Veneza —
28. Colina, onde está situado o castelo da família de Ezzelino
de Romano. — 32. Cunizza, irmã de Ezzelino III, mulher de fama
duvidosa pela sua vida livre, morta em Florença, onde talvez se penitenciou.
— 37. Da luz etc., é a alma de Folco de Marselha, trovador e
poeta. — 44. Os que etc., os habitantes da Marca Trevisana. —
51. Quem mostra no perder
593
etc., Ricardo de Camino, senhor de Treviso, que foi morto traiçoeiramente
pelos seus inimigos. — 52-54. Do ímpio Pastor etc., Alexandre
Novello, bispo de Feltre entregou ao Papa, em 1314, vários gibelinos
de Ferrara, que foram condenados à morte. — 67. Aquele, Folco.
— 88-89. Nessa parte etc., Marselha onde Folco morou. — 97. Dido,
rainha de Cartago, amando Enéias, ofendeu a Creusa, mulher de Enéias
e ao seu marido Siqueu. — 100. Rodópea, matou-se ao ser abandonada
por Demofonte. — 102. Iole, amante de Hércules, que, por ciúme,
foi morto, por Dejanira. — 116. Raab, meretriz de Jericó, escondeu
os espiões que Josué havia mandado a Jericó, facilitando
a queda da cidade e, por isso, foi salva da morte, depois da vitória
dos hebreus. — 118. Neste céu etc., segundo Tolomeu a sombra
da Terra se projetava até o limite de Vênus.
— 126. Que se apagou do Papa na memória, o Papa não se
interessa pela Terra Santa, que está sob o domínio dos Sarracenos.
— 127. A tua pátria etc., Florença teve origem demoníaca.
— 130. Flor maldiçoada, o dinheiro, o florim de ouro de Florença.
— 135. Decretais, os livros das leis canônicas, que asseguravam
vantagens aos eclesiásticos.
594
CANTO X
Depois de admirar a infinita sabedoria de Deus na criação do
Universo, narra o Poeta como sem aperceber-se achou-se elevado ao Sol, em
que estão as almas dos doutos na teologia. Doze espíritos mais
reluzentes o circundam e um deles, S. Tomás de Aquino, revela o nome
dos seus companheiros.
O PODER inefável e primeiro, O Filho a contemplar co’ Amor sublime,
3 De um e outro, eternal, vindo o terceiro, Quanto à vista e à
razão nossa se exprime Com tal ordem criou, que, o efeito vendo, 6
De adorar seu Autor ninguém se exime.
As esferas, leitor, olhos erguendo Nota a parte, onde estão dois movimentos
9 Um para o outro oposição fazendo.
E começa a mirar de arte os portentos, Que tanto dentro em si o senhor
ama, 12 Que lhes tem sempre os olhos seus atentos.
Vê como desse ponto se derrama Em linha oblíqua, o círc’lo,
que transporta 15 Os planetas que o mundo aguarda e chama.
595
Se lhes assim, não fosse a estrada torta, Muita força no céu
fora perdida 18 E aqui potência quase toda morta.
Se fora essa vereda preterida Mais ou menos, ficara transtornada 21 A ordem
no universo estatuída.
Ora leitor, meditação pausada Faz de quanto comigo prelibaste:
24 Leda a mente hás de ter, não saciada.
Dou-te iguaria: come, pois, se praz-te.
A matéria, em que escrevo, não consente, 27 Nem por instantes,
que a atenção se afaste.
Da natura o ministro mais potente Que a influência do céu na
terra imprime 30 E o tempo mede com sua luz fulgente, À parte, que
outro verso acima exprime, Se unindo, para o ponto se volvia, 33 Onde mais
cedo as trevas nos dirime.
Já no seu seio estava e o não sabia, Como não pode alguém
seu pensamento 36 Saber, quando inda à mente não surgia.
E Beatriz, em quem notava aumento
596
De bem para melhor, tão de repente, 39 Que o tempo fora ante o seu
ato lento, De si mesma quanto era refulgente! O que era lá no sol onde
eu me entrara, 42 Não por cor, por seu brilho mais nitente, Posto que
arte, uso, engenho me ajudara Descrever por imagens não pudera; 45
Mas crer se pode e ver-se desejara.
Não se estranhe, se baixa parecera, Querendo a tanto alar-se, a fantasia;
48 Além do sol ninguém olhos erguera.
Quarta família aqui resplandecia Do Sumo Pai, que sempre da Trindade
51 No inefável spetáculo a sacia.
E disse Beatriz: — “Tanta Bondade Humilde ao Sol dos anjos agradece,
54 Que ao sol sensível te alça à claridade.” —
Peito mortal jamais ardor aquece De sentir tão devoto e tão
piedoso, 57 Que a Deus a gratidão inteira expresse, Quanto é
meu ao convite carinhoso.
E em tanto enlevo o coração se acende, 60 Que a Beatriz olvida,
fervoroso.
597
Não lhe despraz, e no seu riso esplende Tanto brilho dos olhos expressivos,
63 Que do êxtase profundo me desprende.
Fulgores então vi claros e vivos, De nós centro de si c’roa
fazendo, 66 Mais suaves em voz que em luz ativos.
A filha de Latona se movendo Vemos assim de um cinto rodeada, 69 No ar úmido
as cores, se mantendo.
Dos céus a corte, donde volto, ornada De jóias stá sublimes
e formosas: 72 Só nos céus pode a estima lhes ser dada.
As vozes eram tais, que ouvi donosas.
Quem não tem plumas para ir lá voando 75 Pergunte a um mudo
cousas portentosas.
Aqueles sóis, em torno a nós cantando, Volveram-se três
vezes: semelharam 78 Astros em roda aos pólos circulando.
Damas imitam, que no baile param, Em silêncio outras notas esperando
81 Para seguir na dança que encetaram.
E uma voz do seu seio disse: — “Quando
598
Da Graça o raio em que o amor se acende 84 Sublime, pelo amor se acrescentando,
“Multiplicado em ti tanto resplende, Que te conduz pela celeste escada,
87 Que a subir torna quem de lá descende, “O que à sede
em que tens a alma abrasada Vinho negasse, irmão, livre não
fora, 90 Qual linfa de correr embaraçada.
“Saber desejas como a c’roa enflora, Que cinge, contemplando-a
a pulcra Dama, 93 Que para o céu te guia protetora.
“Um anho fui da santa grei que chama De Domingos a voz pelo caminho,
96 Onde prospera só quem mal não trama.
“Tomás de Aquino sou; me está vizinho, À destra
de Colônia o grande Alberto 99 A quem de aluno e irmão devo o
carinho.
“Se dos mais todos ser desejas certo, Na santa c’roa atenta cuidadoso,
102 A tua vista a voz siga-me perto.
“Nesse esplendor sorri-se jubiloso Graciano que num e noutro foro 105
Di’no se fez de ser no céu ditoso.
599
“Aquele outro ornamento deste coro Foi Pedro: como a pobre a of’renda
escassa, 108 À Santa Igreja deu rico tesouro.
“A quinta luz, que as mais em lustro passa Se acende em tanta luz,
que anela o mundo 111 Saber se goza da celeste Graça.
“O alto esp’rito encerra, tão profundo, Que se o Verbo
de Deus é verdadeiro, 114 De saber tanto não se alçou
segundo.
“Ao lado seu lampeja esse luzeiro, Que os anjos, seu mister, sua natura
117 Em conhecer na terra foi primeiro.
“Sorri na luz menor, serena e pura, Dos séculos cristãos
esse advogado 120 De Agostinho tão útil à escritura.
“Se os olhos da tua mente acompanhado De luz em luz me tens nestes
louvores 123 Saber já tens da oitava desejado.
“Do Sumo Bem se enleva nos fulgores Essa alma santa, havendo demonstrado
126 As mentiras do mundo e os seus rigores; “Jaz daquela alma o corpo
despojado
600
Em Cieldauro; e ela veio à paz divina 129 Após martírio
e exílio amargurado.
“Mais longe, em cada flama purpurina, Beda, Isidoro estão, Ricardo
esplende, 132 Que além do humano o pensamento afina.
“Esse, de quem tua vista se desprende A mim tornando, achou, grave
e prudente, 135 Que morte pronta um grande bem compreende: “É
Siger, que assim luz eternamente.
Na rua de Fouare lera outrora 138 Verdades, que ódio hão provocado
ingente.” — E qual relógio, que nos chama em hora, Em que,
desperta, do Senhor a Esposa 141 Matinas canta e o seu amor implora; Que,
no girar das rodas, tão donosa Nota faz retinir, de amor enchendo 144
Devota alma, que o escuta fervorosa; O glorioso círc’lo, se movendo,
Assim vi eu, com tal suavidade E doçura de vozes, que comprendo 148
Só haja iguais do céu na eternidade.
49. Quarta família, as almas que estão no Sol, que é
o quarto Céu. — 67. A filha de Latona, Diana ou a lua. —
97. Tomás de Aquino, Santo teólogo (1225-1274). — 98.
De Colônia o grande Alberto, o célebre teólogo Alberto
Magno. — 104. Graciano, de Chiusi, em Toscana, escreveu no século
XII um volume de Cânones eclesiásticos, que foi chamado o Decreto
de Graciano.
— 107. Pedro, Pedro Lombardo, bispo de Paris, morto em 1164 que, ao
oferecer à Igreja o seu livro “Sentenciaram” comparava-
se à viúva do Evangelho de S. Lucas, XXI. — 109. A quinta
luz, o sapiente rei Salomão, filho de Davi. — 115-117. Esse luzeiro
etc.
Dionísio Aereopagita, que escreveu uma obra “De Coelesti Hierarchia.”
— 119-120. Esse advogado etc., Paulo Orósio, que, aconselhado
por Santo Agostinho, escreveu a História, em defesa da religião
cristã. — 125-128. Essa alma santa etc.
Severino Boécio, autor do livro “De consolatione philosophiae”,
aprisionado e, depois, morto por Teodorico em 524. — 131.
Beda, bispo inglês, Ricardo, padre de Escócia, Isidoro, S. Isidoro
de Sevilha, os três doutos teólogos. — 136. Siger de Brabante,
professor de teologia na Universidade de Paris no século XIII, a qual
tinha a sua sede na Rua Fouare.
CANTO XI
Dante elogia a vida contemplativa. — As palavras proferidas no canto
anterior por S. Tomás criam duas dúvidas no ânimo do poeta.
O santo, tratando de resolver a primeira, esboça a vida de S. Francisco
de Assis.
Ó DOS mortais aspirações erradas! Em que falsas razões
vos enlevando 3 Tendes à terra as asas cativadas! Qual seguia o direito;
qual buscando Já aforismos; qual o sacerdócio; 6 Qual reinava,
sofisma ou força usando; Qual roubo amava, qual civil negócio;
Qual, a salaz deleite entregue a vida, 9 Afanava-se; qual passava no ócio;
Enquanto eu, livre da terrena lida, Ao céu com Beatriz me alevantava,
12 Aceito lá com glória tão subida.
Cada alma santa ao ponto já tornava Do círculo em que de antes
demorara; 15 E como círio em candelabro estava.
Então da luz, que de antes me falara Voz suave escutei; e assim dizendo
18 Do seu brilho a pureza se aumentara: — “O lume eterno, em que
me inspiro e acendo, Eu, contemplando, claramente leio 21 Teu pensamento e
a origem lhe compreendo.
“Desejas tu, da dúvida no enleio, Que eu aproprie da tua mente
à esfera 24 O que dizer-te, há pouco, me conveio.
“Eu te disse — caminho onde prospera — — De saber
tanto não se alçou segundo: — 27 Aqui é, pois,
que a explicação te espera.
“A Providência, que governa o mundo Com tão sábio
conselho, que, torvada 30 Sente a vista quem quer sondar-lhe o fundo.
“Por ser ao seu dileto encaminhada Casta Esposa daquele, que alto grito,
33 Desposando-a, soltou na Cruz Sagrada, “Com ânimo mais forte
e à fé restrito, Dois príncipes, lhe deu, que, em seu
desvelo, 36 O caminho mostrassem-lhe bendito.
“Um seráfico foi no ardor do zelo, Outro ostentou, por seu saber
na terra,
39 De querúbica luz esplendor belo.
“De um só te falarei; pois num se encerra O que de outros aos
louvores mais se estende: 42 Quem der aos dois o mesmo fim não erra.
“Entre Tupino e o rio, que descende Do outeiro, que escolhera santo
Ubaldo, 45 Fértil encosta de alto monte pende.
“Dali baixa a Perúgia o frio e o caldo Pela porta do Sol; atrás
padece 48 Em duro jugo Nócera com Gualdo.
“Onde o declive menos agro desce Nasceu ao mundo um sol tão
luminoso, 51 Como o que ao Gange às vezes esclarece.
“Desse lugar quem fale portentoso Não diga Assis, que pouco
declarara: 54 Chame Oriente o berço glorioso.
“Do nascente este sol pouco distara, Quando o conforto a receber a
terra 57 Já das virtudes suas começara.
“Contra seu pai, adolescente, em guerra Entrou por dama, a quem bem
como à morte, 60 Ninguém a porta com prazer descerra.
“Então da Igreja a recebeu na corte, E coram patre, por esposa
amada 63 E amor votou-lhe cada vez mais forte.
“Vivera ela viúva e desprezada Séculos onze e mais, e
de outro amante, 66 Senão deste, não fora requestada; “Em
vão se disse que no lar, constante, De Amiclas a encontrou esse guerreiro,
69 De quem tremera o mundo titubante; “Em vão fiel, de coração
inteiro, Quando Maria ao pé da Cruz ficara, 72 Com Cristo ela subira-se
ao madeiro.
“Para fazer minha linguagem clara, Em suma, o nome sabe dos amantes:
75 Com pobreza Francisco se casara.
“Dos dois santa união, ledos semblantes, Seu terno olhar e afeito
milagroso 78 Dão a todos lições edificantes.
“Aquela paz anela cobiçoso Venerável Bernardo que, primeiro,
81 Descalço corre e crê ser vagaroso.
“Riqueza inota! Ó Bem só verdadeiro! Descalço
vai Egídio, vai Silvestre,
84 Porque amam-na, do esposo no carreiro.
“Dali se parte aquele pai e mestre Com terna esposa e com família
santa 87 Que de corda o burel cinge campestre.
“Não baixa os olhos, nem se torna e espanta Por filho ser de
Bernardone obscuro, 90 Nem por sofrer desdém em cópia tanta.
“Mas afouto mostrou o intento duro A Inocêncio de quem primeiro
obteve 93 Assenso ao regimento austero e puro.
“E quando a pobre grei progresso teve, Após aquele, a cuja heróica
vida 96 Melhor no céu louvor de anjos se deve, “Foi a c’roa
segunda concedida Por Honório, que o Santo Espírito alenta 99
Daquele arquimandrita a santa lida.
“Em breve a sede do martírio o tenta, E do Soldão soberbo
na presença 102 Cristo anuncia e a lei que o representa.
“Vendo rebelde o povo à nova crença.
Por não ficar seu zelo sem proveito 105 Da Itália volta para
a messe extensa.
“Na dura penha, que se interpõe ao leito Do Tibre e do Arno,
o derradeiro selo 108 Cristo lhe pôs: dois anos dura o efeito.
Quando a Deus, que a bem tanto quis movê-lo, O prêmio prouve
dar-lhe merecido, 111 Na humildade cristã por seu desvelo, “Essa
esposa, que amara estremecido, Aos irmãos confiou por justa herança,
114 Para afeto lhe terem sempre fido.
“Do seio da pobreza então se lança, Tornando ao reino
seu, a alma preclara: 117 Nesse jazigo o corpo seu descansa.
“Pensa, pois, o que foi quem Deus julgara Di’no após ele,
de reger a barca 120 Que Pedro, no alto mar encaminhara.
“Coube a tarefa ao nosso patriarca: Quem, fiel, aos preceitos lhe obedece,
123 Sabe tesouros arrecadar na arca.
“Sua grei novo pascigo apetece, E tanto é dos desejos impelida,
126 Que em diferentes campos aparece.
“Quanto mais cada ovelha é seduzida Do mundo pelo pérfido
atrativo,
129 Tanto mais ao redil volta inanida.
“Poucas temendo o lance decisivo, Acolhem-se ao pastor: escasso pano
132 É já para vesti-las excessivo.
“Se claro te falei, livre de engano, Se tens estado ao que te digo
atento, 135 Se da memória não receias dano, “Ao teu desejo,
em parte, dei contento, Pois da planta bem vês qual seja a rama; E o
corretivo está neste argumento: 139 Onde prospera só quem mal
não trama.”
25. Eu te disse etc. V. Canto X, v. 95-96 e 114. — 37. Um seráfico
etc., S. Francisco de Assis. — 38. Outro ostentou etc., São Domingos.
— 43-48. Entre Tupino etc., descreve a situação geográfica
da cidade de Assis, na qual S. Francisco nasceu. — 59. Dama a quem etc.,
a pobreza. — 64-66. Viúva e desprezada etc., o primeiro esposo
da Pobreza foi Jesus e, por isso, ficou viúva mais de onze séculos.
— 68. Amiclas, Júlio César ficou admirado pela alegre
pobreza do pescador Amiclas (V. Lucano, Farsálias V, 519). —
80. Bernardo, primeiro companheiro de S.
Francisco. — 83. Egídio e Silvestre, companheiros de S.
Francisco. — 89. Bernardone, Pietro Bernardone, pai de S.
Francisco. — 92. Inocêncio III, papa que deu autorização
à Ordem Franciscana, em 1214. — 98. Honório III, que em
1223, pela segunda vez, aprovou a Ordem de S. Francisco. — 99.
Arquimandrita, pastor. — 100-105. Em breve etc., S. Francisco em 1219
esteve no Egito tentando converter os infiéis, mas voltou logo para
a Itália. — 106-108. Na dura penha etc., no
monte Alvérnia, no Casentino, S. Francisco recebeu os estigmas de
Jesus crucificado e os manteve dois anos, pois depois de dois anos morreu.
CANTO XII
Acabando S. Tomás de falar, ajunta-se à primeira coroa de doze
espíritos resplendentes, mais uma coroa de igual número de espíritos.
Um destes, S. Boaventura, franciscano, tece louvores a S. Domingos. Depois
dá notícia acerca dos seus companheiros.
QUANDO o lume bendito proferira Do discurso a palavra derradeira, 3 A coréia,
como eu já a vira, Inda uma volta não fizera inteira, Logo outra
turma em círculo a encerrava 6 Em voz acordes ambas e em carreira.
Essa harmonia tanto superava Das Musas e sereias a cadência, 9 Quanto
ao reflexo a luz que rutilava.
Como arcos dois das nuvens na aparência Curvam-se iguais na cor e equidistantes,
12 Se de Íris Juno exige diligência, Nascendo um do outro, em
forma semelhantes, Qual voz da que de amor foi consumida 15 Como do sol as
névoas alvejantes,
E crer fazendo que há de ser mantida A promessa, a Noé por
Deus firmada, 18 De não ser mais a terra submergida: Assim de nós
em torno ia agitada Cada grinalda das perpétuas rosas, 21 Uma com outra
em tudo conformada.
Tanto que a dança e festa jubilosas, Por cantos e esplendores flamejantes
24 Dessas luzes suaves e amorosas, Quedar eu vi nas rotações
brilhantes, Quais olhos, juntamente ao nosso grado, 27 Se abrindo e se fechando
vigilantes, De um dos novos clarões voz, que, enlevado, Volver-me para
si fez de repente, 30 Qual à estrela polar ímã voltado:
— “Amor” — diz — “que a beleza dá-me
ingente Me induz a te falar do Mestre Santo, 33 Que ao meu foi de louvor causa
eminente.
“Um se memore onde outro bilha tanto: Sob a mesma bandeira hão
militado; 36 Brilha a glória dos dois também no canto.
De Cristo, a tanto custo restaurado, O exército o estandarte seu seguia,
39 Já raro, lento, de temor tomado, “Quando à milícia,
que o valor perdia O Eterno Imperador deu provimento, 42 Só por Graça:
esse bem não merecia; “E da Esposa enviou por salvamento Dois
campeões, de cuja voz movida, 45 A transviada gente cobra o alento.
“Na terra, em que, ao seu hábito, convida O Zéfiro a
se abrirem novas flores, 48 De que se vê a Europa revestida, “Em
plaga, onde se embate em seus furores O mar, em que, o seu curso terminado,
51 O sol esconde às vezes seus ardores, “Jaz Calaroga em solo
afortunado, Que o poderoso escudo protegera, 54 No qual leão subjuga
e é subjugado.
“Ali o atleta heróico à luz viera, Da fé cristã
esse indefesso amante, 57 Que, aos seus beni’no, aos maus guerra fizera.
“Foi virtude em sua alma tão possante, Que, ainda estando no
materno seio, 60 Do porvir fez a mãe vaticinante.
“Quando a firmar-se o desposório veio Entre ele e a Fé,
na fonte consagrada, 63 De muita salvação seguro meio, “De
dar pôr ele o assento a encarregada A messe viu em sonhos milagrosa,
66 Que dele e herdeiros seus era esparada.
“Do seu destino em prova portentosa, Anjo baixou ao fim só de
chamá-lo 69 Do Senhor de quem era a alma piedosa.
“Domínico foi dito e eu dele falo, Como o operário, que
elegera Cristo, 72 Da vinha no lavor para ajudá-lo.
“Servo e enviado mostrou ser de Cristo Por quanto o amor primeiro,
que há mostrado, 75 Foi a primeira lei que nos deu Cristo.
“Muitas vezes a mãe o achou prostrado, Em profundo silêncio
e bem desperto, 78 Como a dizer: — A isto eu fui mandado.
“Oh! foi seu genitor feliz por certo! Oh! sua mãe realmente
foi Joana 81 Se há no sentido que lhe dão, acerto! “Não
pelo amor do mundo, que se engana, Do Ostiense e Tadeu nos livros lendo,
84 Mas de Jesus pelo maná se afana, “Sapiente doutor em breve
sendo, Da santa vinha guarda vigilante, 87 Que presto seca, pouco zelo havendo.
“De Roma à sede quando foi perante, Que aos justos era compassiva
outrora, 90 Hoje, por culpa do que a rege, errante, “Onzenárias
dispensas não lhe implora, Nem primeira prebenda, que vagasse, 93 Nem
dízimas, que são do pobre, exora.
“Mas contra o mundo, que no qual compraz-se, Pede o favor de defender
a planta, 96 Da qual tens flores vinte e quatro em face.
“Com seu querer e com doutrina santa, Como a torrente, que da altura
desce, 99 De apóstolo por zelo o mundo espanta.
“Dos hereges se arroja à infanda messe, E onde a resistência
mais porfia 102 Das forças suas o ímpeto recresce.
Dele brotaram rios, que hoje em dia Têm o jardim católico regado
105 E aos seus arbustos dão viço e valia.
“Se tal foi uma roda do afamado Carro, em que defendeu-se a Santa Igreja,
108 E a civil guerra em campo há superado, “Da outra o alto mérito
qual seja Já te disse Tomás, eu stando ausente: 111 Dele nas
vozes seu louvor lampeja.
“Porém daquela roda o sulco ingente Ficou em desamparo tal,
que o lodo 114 Onde era a flor domina tristemente.
“Vê-se a família sua por tal modo Da vereda de outrora
transviada, 117 Que esqueceu-lhe as pegadas já de todo.
“Logo a cultura má será provada Na seara, zizânia
sendo ao vento, 120 Em vez de ir ao celeiro, arremessada.
“Que nosso livro folheasse atento Veria, creio, página, em que
lesse: 123 — Sou, como sempre, de impureza isento. — “Em
Casal e Água-Sparta igual não vê-se: Lá de tal
jeito entende-se a Escritura, 126 Que um tíbio a foge, outro excessivo
a empece.
“De Bargnoregio eu sou Boaventura, Que, exercendo altos cargos, repelia
129 Dos interesses temporais a cura.
“Vê, dos irmãos descalços primazia, Iluminato,
de Agostinho ao lado: 132 Cada qual no burel por Deus ardia.
“Hugo vê de S. Vítor premiado Como Pedro Mangiadore e
Pedro Hispano 135 Pelos seus doze livros celebrado.
“Natã Profeta e o Metropolitano João Crisóstomo,
Anselmo e o afamado 138 Donato, na primeira arte sob’rano.
“Vê Rabano, a brilhar vê ao meu lado O calabrês Abade
Giovachino, 141 De espírito profético dotado.
“Aos louvores do excelso paladino Moveu-me a caridosa cortesia, O dizer
sábio de Tomás de Aquino, 145 E comigo a esta santa companhia.”
12. Íris, personificação mitológica do arco-íris.
— 14. Qual voz do que de amor foi consumida, como voz da ninfa Eco que
se consumiu pelo amor por Narciso. — 28. Um dos novos clarões,
a alma de S. Boaventura. — 46. Na terra etc., na Espanha. — 53-
54. Escudo etc., o escudo dos reis da Castela representava dois leões,
um debaixo e outro em cima de um castelo. — 64-66. A encarregada etc.,
quando do batismo de S. Domingos, a
madrinha o viu com uma estrela na testa. — 80. Sua mãe realmente
foi Joana. Joana em hebraico tem o significado de “portadora de graças.”
— 83. Ostiense, o cardeal Henrique de Susa, que comentou os “Decretais”;
Tadeu Aldreotti, florentino, médico; ou, segundo outros comentadores,
Tadeu dei Pepoli, jurista bolonhês. — 90. Por culpa etc., de Bonifácio
VIII. — 95- 96. A planta etc., a fé, de que se alimentaram os
espíritos dos vinte e quatro teólogos que estão na presença
de Dante. — 124- 126. Em Casal e Agua-Sparta, alude à divisão
dos franciscanos em dois partidos, um chefiado por libertino de Casale e outro
por Mateus d’Acquesparta. — 131. Iluminato e Agostinho, dois companheiros
de S. Francisco. — 133-135. Hugo de S. Vitore, Pedro Mangiatore e Pedro
Hispano, egrégios teólogos. — 136- 139. Natã, o
profeta que repreendeu Davi; S. João Crisóstomo, patriarca da
Igreja; Donato, gramático latino; S. Anselmo, bispo de Canterbury.
— 139-140. Rabano e o abade Giovachino, escritores sacros.
CANTO XIII
O Poeta descreve a dança das duas coroas de espíritos celestes.
S. Tomás resolve a segunda dúvida de Dante. Adão e Jesus
Cristo são seres perfeitíssimos, por serem obra imediata de
Deus.
Mas ele não pode ser comparado nem a Adão nem a Jesus Cristo.
Conclui o Santo advertindo do perigo dos juízos precipitados, e de
quanto é sujeito a enganar-se quem julga das coisas pelas aparências.
O QUE hei visto e refiro quem deseja Entender, imagine, (e bem sculpida,
3 Como em rocha, na mente a imagem seja) Quinze estrelas, que luz tanta espargida
Tem por celestes regiões dif’rentes, 6 Que é do ar a espessura
esclarecida, Da carroça imagine as refulgentes Rodas, sempre girando,
noite e dia, 9 Pelos espaços do céu nosso ingentes; Da trompa
a boca mostre a fantasia, Que lá no extremo do axe, ao qual a esfera
12 Primeira contorneia, principia.
Se em signos dois tais astros considera,
Iguais à c’roa que no céu fulgura, 15 Dês que Ariadne
à morte se rendera; E, os raios misturando da luz pura, Para lados
contrários se movendo 18 Aqueles círc’los dois na etérea
altura: Imagine, mas quase a sombra tendo Dos versos astros, dessa dupla dança,
21 Que em torno a nós estava se volvendo.
Que a verdade essa imagem tanto alcança, Quanto a Chiana a rapidez
imita 24 Do céu, que a todos os mais céus se avança.
Nem Pean cantam, nem de Baco a grita; Mas Três Pessoas com divina essência
27 E numa o humano ser, que a Deus se adita.
Os hinos tendo e a dança intermitência Em nós os santos
lumes se fitaram; 30 Compraz-lhes dos cuidados a seqüência.
O silêncio que os coros dois formaram, As vozes rompem, que a espantosa
vida 33 Do mendigo de Deus me recontaram.
— “Quando a palha é do trigo dividida, Quando a colheita
fica enceleirada, 36 A bater outra doce Amor convida.
“Crês que ao peito onde a costa foi tirada Para a boca gentil
formar motivo 39 Da pena ao mundo inteiro fulminada, “E ao da aguda
lança o golpe esquivo Padeceu e a balança, em morte e vida,
42 Da culpa alçou com peso decisivo, “Quanta ciência aos
homens permitida Ser poderia pela mão divina, 45 Que um e outro criou,
fora infundida.
“Tua mente, pois, a dúvidas se inclina Me ouvindo que em ciência
sem segundo 48 Subira quem a luz quinta domina.
“Olhos abre à razão, em que me fundo: Como teu crer confundida
tens de vê-la 51 Na verdade, qual centro num rotundo.
“O que não morre, o que por morte gela É só splendor
da Idéia, que, nascendo 54 Do Senhor nosso, o seu amor revela; “Por
quanto essa luz viva, procedendo Do foco seu, do qual se não desune,
57 Nem do Amor, que o terceiro fica sendo, “Só por Bondade sua,
o fulgor une,
Como em spêlho, em céus nove, e o concentrando, 60 Tem a unidade
eternalmente imune.
“As últimas potências se abaixando, Já de ato em
ato enfraquecida fica, 63 As breves contigências vai formando.
“Contigências palavra é que te indica Essas cousas, que
o céu, no movimento, 66 Com semente ou sem ela multiplica.
“Não mostra arte ou substância um só intento E
modo, mais ou menos transluzindo 69 O selo do Supremo Entendimento.
“Vê-se, pois, a mesma arv’re produzindo, Segundo a espécie,
ou bons ou ruins frutos; 72 E vós à luz com várias manhas
vindo.
“Brilhava o selo inteiro nos produtos, Se a cera em ponto apropriado
fora, 75 E os influxos do céu nunca interruptos; “Porém
natura as impressões desdoura, Procedendo, assim como faz o artista:
78 Treme-lhe a mão que é da arte sabedora.
“E, pois, se ardente amor a clara vista Da virtude primeira imprime
e adapta,
81 A perfeição aqui toda se aquista.
“Assim a argila foi condigna e apta A toda perfeição
da criatura, 84 E concebeu a Virgem pura, intacta.
“Segues, portanto opinião segura: Como nos dois jamais tão
alta há sido, 87 Nem jamais há de ser vossa natura.
“Se eu porventura houvesse concluído, Com razão me tiveras
perguntado: 90 — Como disseste — igual não tem subido?
“Da verdade por seres informado, No que era pensa e à sua escolha
atende, 93 Quando — Pede — por Deus foi-lhe ordenado.
“Claro falei, tua mente bem comprende Que foi Rei quem pediu sabedoria
96 Para fazer o que o bom Rei pretende.
“Não quis saber qual número seria Dos motores ao céu,
nem se necesse 99 Com contigente um seu igual faria.
“Non si est dare primum motum esse, Ou se um triâng’lo
sem ter âng’lo reto 102 Traçar em simicírc’lo
se pudesse.
“E pois, o dizer meu que ora completo, Quando falava na sem par ciência,
105 A prudência real ia direto.
“Dando ao — “Subiu” — devida inteligência,
Hás de ver que somente aos Reis se aplica, 108 Muitos na soma, poucos
na excelência.
“E feita a distinção que exposta fica, Meu dizer à
tua fé no pai primeiro 111 E em nosso Redentor não contra-indica.
“Prende assim chumbo ao pé sempre; ligeiro Não vás,
imita o caminhante lasso; 114 Ao não ao sim não corre aventureiro.
“Mostra ser dos estultos o mais crasso Quem afirma, quem nega leviano
117 Sem distinção ou num ou noutro passo.
“Daí vem muitas vezes por seu dano, Que o juízo do vulgo
se transvia 120 E o entendimento enleia afeto insano.
“Mais do que em vão do porto se desvia: Incólume não
volta da jornada 123 Quem pós verdade da arte não seguia.
“A prova dão, por fatos confirmada Parmênides, Melisso,
Brisso e quantos
126 Partiram sem saber o rumo e a estrada.
“Assim Ário fez, Sabélio e tantos, Que, como espadas,
deram na Escritura, 129 Mutilando o sentido aos textos santos.
“Quem no julgar as cousas se apressura Imita aquele, que estimasse
o trigo, 132 Quando a seara inda não stá madura.
“No inverno hei visto espinho dar castigo Ao que imprudente as ramas
lhe tocara; 135 Rosas depois oferecia amigo.
“E nau vi, que segura navegara, Em viagem feliz, o salso argento, 138
Soçobrar, quando o posto já tomara.
“De Deus antecipar-se ao julgamento Não queiram Dona Berta e
Dom Martinho: Se um rouba e é outro às oblações
atento, 142 Pode um se erguer, cair outro em caminho.” —
15. Ariadne, filha de Mimos, depois de morta, foi transformada por Baco numa
constelação. — 23. Chiana, rio da Toscana. — 25.
Pean, hino que os antigos cantavam nas festas de Apolo. — 33. Mendigo
de Deus, S. Francisco. — 37-39. Ao peito onde a costa gentil, etc.,
Adão de cuja costa foi tirada Eva, a qual comeu a maçã
que foi fatal para a humanidade. — 40. Ao da aguda lança etc.,
Jesus Cristo. — 47. Em ciência sem segundo,
Salomão. — 98-99. Se nascesse contigente etc., se duas premissas,
uma necessária e outra contigente tenham conseqüência necessária.
— 100. Si est dare etc., se se deve admitir a existência de um
movimento que não derive de outro.
— 125. Parmênides, Melisso, Brisso, filósofos gregos,
confutados por Aristóteles. — 127. Ário e Sabélio,
hereges condenados pela Igreja. — 140. Dona Berta e Dom Martinho, nomes
de pessoas comuns e ignorantes.
CANTO XIV
Beatriz pergunta a um espírito celeste, em nome de Dante, se depois
da ressurreição dos corpos permanecerá a luz que emana
de suas almas e se essa luz não prejudicará a sua vista. O espírito
responde que, depois da ressurreição, a vista dos espíritos
aumentará. Aparecem novos espíritos. Sem perceber, Dante encontra-se
no planeta Marte, onde estão aqueles que defenderam com as armas a
religião cristã. Aí o aspecto do céu vence toda
beleza passada, porque quanto mais se sobe, mais cresce o esplendor dos céus.
DO centro à borda e assim da borda ao centro Água num vaso
circular se agita, 3 Se a comovem de fora, se de dentro.
Isto que digo a mente me visita Súbito, quando o esp’rito glorioso
6 De Tomás suspendeu a voz bendita, Por semelhar-se ao efeito poderoso
Da sua voz e ao que Beatriz causava, 9 Quando assim disse em tom grave e donoso:
“O que saber este homem precisava Com voz não disse, e, se o
cogita, o ignora: 12 De outra verdade com raiz se trava.
“A auréola, dizei-lhe, em que se inflora A substância,
que é vossa eternamente, 15 Convosco há de existir, bem como
agora? “Se este esplendor em vós é permanente, Quando
visíveis fordes, ressurgindo, 18 A vista sofrerá luz tão
fulgente?” — Como em coréia as vozes vão subindo
E recresce a alegria, algum motivo 21 De alvoroço aos dançantes
sobrevindo, Assim aos santos círculos mais vivo Júbilo mostram
no girar, no canto 24 Ante o rogo piedoso e compassivo.
Quem, por chegar a morte, sente espanto, Para lograr no céu viver
divino, 27 Da eterna chuva desconhece o encanto.
Quem sempre reina, é uno, é duplo, é trino, Em três,
em dois, em um sempre perdura, 30 Não abrangido — e tudo abrange
— em hino De tão suave e cônsona doçura Dos coros
foi três vezes aclamado, 33 Que um prêmio fora da virtude pura.
No lume, de fulgor mais sinalado, Ouvi, do menor círc’lo voz
modesta,
36 Como a do arcanjo à Virgem deputado.
— “Quanto no Paraíso eterna a festa Há de ser,
tanto o nosso amor vestido 39 Será de luz em torno manifesta.
“O brilho seu do ardor há procedido E o ardor da visão,
que é tão gozosa, 42 Quanto a Graça o valor faz mais
subido.
“E quando a carne santa e gloriosa Revestirmos, será nossa pessoa
45 Completa e mais jucunda e mais ditosa.
“E o gratuito lume, que nos doa O Sumo Bem, será mais rutilante:
48 A Glória sua a ver nos afeiçoa.
“A visão se fará mais penetrante, Mor o ardor se fará
que ali se acende, 51 E o esplendor, que este dá, mais coruscante.
“Qual carvão, que de si flamas desprende E pelo vivo ardor as
escurece 54 Tanto, que entre elas seu rubor resplende, “Este doce fulgor,
que em nós parece, Ver deixará o corpo ressurgido, 57 Quando
o sono, em que jaz um dia cesse.
“Nenhuma será das luzes ofendido: Starão corpóreos
órgãos adaptados 60 A quanto a deleitar-nos for provido.”
— Os coros dois tão ledos e apressados Responderam — amém
— que bem mostraram 63 Quanto os trajos carnais são desejados.
Não por si sós talvez os cobiçaram, Mas por amor dos
pais, de entes queridos, 66 Antes que ternas flamas se tornaram.
Eis, em torno, de lumes incendidos Novo círculo aos outros se acrescenta:
69 Qual nitente horizonte, os tem cingidos.
E como, quando à tarde a sombra aumenta, No céu começam
de assomar estrelas, 72 Cuja luz dúbia aos olhos se apresenta, Assim
me pareceu que via aquelas Novas substâncias, que, também girando,
75 Moviam-se em redor das c’roas belas.
Vero fulgor do Esp’rito Santo! Oh! quando Te mostraste de súbito,
candente, 78 Os olhos meus venceste, deslumbrando.
Mas Beatriz tão bela e tão ridente Rebrilhou, que a visão
maravilhosa,
81 Bem como outras, seguir não pode a mente.
Aos olhos força deu tão poderosa, Que se alçaram; e
com ela transportado 84 Vi-me à esfera mais alta e luminosa.
Fui da minha ascensão certificado Da purpurina estrela pelo gesto,
87 Em que rubor notei não costumado.
Nesse falar, a todos manifesto Do coração, a Deus vivo holocausto,
90 Por sua nova graça, humilde presto.
Do peito meu não era ainda exausto Do sacrifício o ardor, que
convencido 93 De estar aceito fui, e ser-me fausto.
Tão lúcidas, tão rubras, confundido Vi luzes em dois
raios fulgurantes, 96 Que disse — Ó Hélios, como os tens
vertido! — Galáxia, em astros mais, menos brilhantes Branqueja,
entre dois pólos colocados, 99 E os doutos deixa em dúvida hesitantes:
De igual maneira em Marte constelados O signo os raios formam venerando, 102
Diâmetros iguais sendo cruzados.
Me está memória o engenho superando: Se na cruz lampejar eu
via Cristo, 105 Como acertar, exemplos procurando? Quem toma a Cruz e na jornada
Cristo Segue, desculpe o que falta em arte, 108 Vendo nesse esplendor rutilar
Cristo.
Da cruz em cada braço, em toda parte Cintilantes mil fogos se moviam;
111 Qual desce, qual se eleva, qual desparte.
Assim sutis argueiros se veriam, Retos ou curvos, rápidos ou lentos,
114 De formas, que multíplices variam, De Sol em réstea que
entra os aposentos, Onde da calma o homem se repara 117 Apurando do engenho
e da arte inventos; E como da harpa e lira se depara Nas cordas várias
doce melodia 120 A quem notas ignora e não compara; Assim desses luzeiros
que ali via Na Cruz formosa, extático escutava, 123 Sem comprendê-la,
angélica harmonia.
Que eram altos louvores bem julgava Ressuscita e triunfa — acaso ouvindo:
126 Confusamente o hino me soava.
Ouvia em tanto enlevo me sentindo, Que inda não sinto cousa que mais
queira, 129 A mente ao canto em doce enleio, unindo.
Ousado sou talvez desta maneira, Parecendo pospor os olhos belos, 132 Em
que a minha alma se embevece inteira.
Mas quem reflete que os eternos selos Vão da beleza no alto se apurando,
135 E aos olhos não voltava-me por vê-los, À falta me
achará perdão, notando A verdade que digo: o prazer santo Não
excluo que em vê-la ia gozando; 139 Com a altura, se eleva o puro encanto.
28-30. Quem sempre reina, é uno, é duplo, é trino, etc.,
Deus. — 35. Voz modesta, Salomão. — 96. Hélios,
o Sol. — 97. Galáxia, a Via Láctea, cuja cor deixa em
dúvida os sábios, pois não sabem explicar qual seja a
sua natureza.
CANTO XV
As almas dos combatentes pela fé em Cristo estão dispostas
em forma de cruz, vexilo de martírio e de vitória. Do lado direito
dessa cruz move-se um espírito e com paternal afeto saúda a
Dante. É Cacciaguida, seu trisavô. Descreve ele a inocência
dos costumes do seu tempo e lembra como morreu combatendo pelo sepulcro de
Cristo, na segunda cruzada.
BENÉVOLO querer, que significa Sempre esse amor, que a caridade inspira,
3 Como a cobiça o mau querer indica, Silêncio pondo àquela
doce lira; Os sons às cordas santas suspendida, 6 Que lá do
céu a destra afrouxa e estira.
Como aos claros espíritos seria Em vão meu justo rogo, se excitá-lo
9 De acordo se calando, lhes prazia? Ah! pranteie sem tréguas e intervalo
Quem, do amor transitório cativado, 12 Pôde do amor eterno avantajá-lo!
Como o sereno azul, atravessado Às vezes é por fogo repentino,
15 Que aos olhos nos salteia inesperado; Disséreis astro a procurar
destino, Se algum faltasse à parte, onde se acende 18 Esse instantâneo
lume peregrino: Assim do braço, que à direita estende, Da cruz
ao pé vi deslizar um astro 21 Dessa constelação, que
ali resplende.
Não desfiou-se a per’la do seu nastro; Pela brilhante linha
descendera, 24 Como fogo a luzir sob o alabastro.
De Anquise a sombra pia assim correra, Se fé merece a Mantuana Musa,
27 Quando Enéias do Elísio aparecera.
“O sanguis meus! O superinfusa Gratia Dei; sicui tibi cui 30 Bis unquam
coeli janua reclusa?” Minha atenção na luz, que o diz,
se imbui; Voltei depois pra Beatriz o viso; 33 Aqui e ali estupefato eu fui.
Nos olhos seus ardia um tal sorriso, Que, encarando-a cuidei tocar o fundo
36 De ventura no eterno Paraíso,
E esse esp’rito, a se ver e ouvir jucundo, Vozes aduz, que a mente
não compreende, 39 Tanto o sentido seu era profundo.
Andrede a obscuro o seu dizer não tende; Mas por necessidade o seu
conceito 42 Além da esfera dos mortais ascende.
Quando o arco afrouxou do ardente afeito, E em proporção do
humano entendimento 45 Do seu falar manifestou-se o efeito, Pude esta vozes
distinguir, atento: “Bendito sejas, Deus, Um na Trindade, 48 Que à
prole minha dás tão alto alento! “Meu longo e caro anelo,
na verdade Dês que no grande livro hei ler podido, 51 Imutável
na sua eternidade, “Cumpres, ó filho; e desta luz vestido Aquela,
que ao teu vôo sublimado 54 Prestou asas, eu louvo agradecido.
“Tu crês que o teu pensar me é derivado Do ser Primeiro,
como da unidade 57 Sabida o cinco e o seis se vê formado.
“E pois, quem sou e a minha alacridade, Maior que a de outros nesta
grei contente,
60 Não mostras de saber curiosidade.
“Crês a verdade: o Espelho refulgente Desta vida reflete o pensamento
63 Antes que nasça e a todos faz patente.
“Mas, para o sacro amor, que traz-me atento Em perpétua visão,
doce desejo 66 Me acendendo, alcançar contentamento, “Com voz
clara, segura e alegre, ensejo De ouvir tua vontade me oferece: 69 Qual resposta
hei de dar-te eu já antevejo.” — Pra Beatriz voltei-me:
já conhece Quanto intento, e, acenando prezenteira, 72 Ao querer meu
as asas engrandece.
— “A cada qual de vós dês que a Primeira Igualdade
mostrou-se, amor, ciência 75 Se fizeram em vós de igual craveira;
“Pois ao Sol, que vos deu tão viva ardência E luz tal dispensou,
tanto se igualam, 78 Que não tem na igualdade competência.
“Mas nos mortais o afeito e o saber se alam, Pela causa, a vós
outros manifesta, 81 Com plumas, que, dif’rentes se assinalam
“Eu, pois, que sou mortal, sujeito a esta Desigualdade, de alma unicamente
84 Respondo à tua carinhosa festa.
“Suplico, assim, topázio resplendente, Que adornas esta jóia
preciosa, 87 Me faças do teu nome ora ciente.” — Falei.
Com voz tornou-me maviosa: — “Ó flor, que tanto eu, sôfrego,
esperava, 90 Do tronco meu brotaste primorosa! “Aquele, em quem teu
nome começara, Que, há mais de um séc’lo já,
no monte erguido 93 Do primeiro degrau se não separa, “Meu filho
foi, teu bisavô há sido: Por obras deves lhe encurtar fadiga,
96 Quando à vida mortal hajas volvido.
“Florença dentro em sua cerca antiga, Onde ressoa ainda a Terça
e a Noa, 99 Vivia honesta e sóbria em paz amiga.
“Não tinha áureos colares, nem coroa, Chapins, cintos
de damas em que havia 102 Mais que ver do que graças da pessoa.
“No pai, nascendo, a filha não movia Temor; em tempo azado se
casava
105 E o dote as proporções nunca excedia.
“Cada qual do seu lar se contentava; Não alardava então
Sardanapalo 108 Da alcova o que no encerro se ocultava.
“Não era inda vencido Montemalo Por vosso Uccelatojo que, excedido
111 Na altura, há-de, ao cair, dar mor abalo.
“Bellincion Berti eu vi andar cingido De couro e de osso, e também
vi-lhe a esposa 114 Voltar do espelho sem rubor fingido.
“Vestindo pele simples, não fastosa Nerlis e Vecchios vi, no
fuso e roca 117 Tendo as consortes vida deleitosa.
“Ditosas! A nenhuma a dor sufoca Sperando o esposo, que roubou-lhe
a França, 120 Nem o jazigo ignora, que lhe toca.
“Uma o berço do filho seu balança, E o consola naquele
doce idioma 123 Que aos pais o coração no enlevo lança;
“Outra, estirando do seu fuso a coma, Reconta aos filhos o que houvera
outrora 126 Em Fiésole, em Tróia e antiga Roma.
“Nesse bom tempo maravilha fora Uma Cianghella, um Lapo Salterello,
129 Como Cornélia e Cincinato agora.
“Da cidade naquele viver belo, No seio dessa gente honrada e fida,
132 Nessa doce mansão, da paz modelo, “Deu-me Maria à
minha mãe dorida, E em vosso Batistério hei recebido 135 Os
nomes de cristão e Cacciaguida.
“Irmãos Moronto e Eliseu hei tido, Minha esposa nasceu em Val-di-Pado:
138 Dessa origem provém teu apelido.
“Segui na guerra Imperador Conrado, Que me armou cavaleiro na milícia,
141 Altos feitos me tendo assinalado.
“Com ele pelejei contra a nequícia Do infiel, que o direito
vosso oprime 144 De culpado Pastor pela malícia.
“Da torpe gente o assalto lá me exime Dos enganosos vínculos
do mundo, Cujo amor nódoas tantas na alma imprime: 148 Mártir,
vim ao repouso sem segundo.” —
25. De Anquise a sombria pia etc., Enéias visitou nos Campos Elísios
a sombra do seu pai Anquise, como o descreve Virgílio, Eneida, VI.
— 28-30. O sanguis meus etc., Ó sangue meu! Ó infinita
graça de Deus! A quem senão a ti será aberta duas vezes
a porta do Céu? — 90 e segu., Do tronco meu etc. É Cacciaguida
quem fala, que foi bisavô de Dante, morto numa cruzada em 1173. Foi
pai do primeiro Alighiero do qual derivou o nome dos Alighieri. — 97.
Florença dentro em sua cerca antiga etc., no pequeno espaço,
limitado por seus antigos muros, no qual se ouviam os sinos tocarem as horas.
— 107. Sardanapalo, rei da Assíria, célebre pela sua luxúria.
— 109-10. Montemalo, monte Mário de Roma; Uccellatoio, monte
a cavaleiro de Florença. Que excedido etc., Florença superava
Roma em magnificência; assim a superará na decadência.
— 112.
Bellincion Berti dei Ravignani, ilustre florentino. — 116. Nerlis e
Vecchio, as nobres famílias florentinas Nerli e Del Vecchio. —
128. Cianghella dei Tosighi, mulher desonesta. — Lapo Saltarelli, jurisconsulto
florentino tido em conta de homem corrupto. — 139. Imperador Conrado
3.° de Hohenstaufen, que chefiou a segunda cruzada. — 143. Ao infiel,
os maometanos. — 144. Culpado pastor, o Papa.
CANTO XVI
O poeta orgulha-se pela nobreza da sua família. Cacciaguida continua
falando a respeito da própria família e da antiga Florença.
Deplora a chegada em Florença de cidadãos de outras terras.
Lembra as maiores famílias da cidade, muitas das quais, no tempo de
Dante, eram empobrecidas ou maculadas de infâmia.
Ó MESQUINHA nobreza de alto sangue! Se tanto homem de haver-te se
gloria 3 Neste mundo, em que o afeto enfermo langue, Maravilhar-me já
não poderia, Pois me senti, por causa tal, ufano 6 No céu, onde
o apetite não varia.
És manto exposto em breve a estrago e dano: Se te faltar reparação
constante, 9 A mão do tempo te cerceia o pano.
A responder começo à luz brilhante Por “vós”
de que, primeira, Roma usara, 12 Mas que em vulgar dicção não
foi avante.
Beatriz, que algum tanto se afastara, Fez, sorrindo-se, como a que tossira,
15 Quando a primeira vez Ginevra errara.
— “Vós sois meu pai” — disse eu — “em
vós se inspira Para falar-vos do ânimo a ousadia, 18 Me alçais
mais do que a mente própria aspira.
“Por tantos rios se enche de alegria Minha alma que em ledice é
transformada, 21 Pois do prazer não vence-a a demasia.
“Dizei-me, pois, minha primícia amada, Os ascendentes vossos
e em qual era 24 Foi a vossa puerícia assinalada.
“De São João a grei como vivera Dizei-me e os que em
seu seio se mostraram, 27 A quem mais alta distinção coubera.”
— Como ao sopro do vento mais se aclaram As flamas no carvão,
dessa arte àquela 30 Luz, me ouvindo, os fulgores se avivaram; E quanto
aos olhos se ostentou mais bela, Tanto com voz mais doce e mais suave 33 Respondeu,
sem falar vulgar loquela.
Disse: — “Do dia, em que se ouvia o Ave Ao momento, em que ao
mundo a mãe querida, 36 Hoje santa me deu no transe grave,
Do Leão foi aos pés reacendida De Marte a luz quinhentos e
cinqüenta 39 Vezes mais trinta na incessante lida.
“O lugar, onde o sesto último assenta, Dos jogos anuais termo
à carreira, 42 Meu berço e o dos avós te representa.
Deles te baste esta noção primeira: O que hão sido,
onde é sua permanência 45 Calar prefiro a dar notícia
inteira.
“Dos que haviam então suficiência Para a guerra, entre
Marte e João Batista, 48 São quíntuplo os que têm
ora existência.
“Toda gente, porém, que se vê mista Co’a de Campi,
Certaldo, e mais Figghine 51 Pura estava, do nobre até o artista.
“Acerto fora do que bem combine Tê-los vizinhos, linha demarcando,
54 Que com Trepiano e com Galuz confine, “Em lugar de hospedar o infeto
bando Dos vilões de Aguglion junto aos de Signa, 57 Da fraude expertos
no mister nefando.
“Se a gente, hoje no mundo a mais maligna,
A César não se houvesse declarado 60 Cruel madrasta em vez
de mãe benigna, “Quem se diz Florentino e à usura é
dado, Vende e merca, tornava a Simifonte, 63 Onde o avô mendigava esfarrapado.
“Ainda em Montemurli foram Conti, Os seus Cerchi ainda Acone conservara
66 E, talvez, Valdigrieve os Buodelmonti.
“Sempre de castas confusão depara, Como a de cibo em corpo mal
disposto, 69 Mal à cidade, e danos lhes prepara.
“Touro cego primeiro em terra é posto Que anho cego; e melhor
corta uma espada 72 Do que cinco num feixe bem composto.
“Se de Urbisaglia a sorte desgraçada E a de Luni tu vês,
se igual espera 75 Chiusi e Sinigaglia malfadada: “Dos solares mau fim
não perecera À tua mente estranheza ou caso forte, 78 Pois no
exício de Estados considera.
“Terrenas cousas todas sofrem morte, Como vós; mas de algumas,
perdurando, 81 Quem curta vida tem não sabe a sorte.
“E como a lua, sem cessar girando Cobre ou descobre as praias do oceano,
84 De Florença a fortuna vai mudando; “Assim que não suponhas
mais que humano O que eu disser de exímios florentinos, 87 A cuja fama
o tempo já fez dano.
“Eu vi os Ughi, vi os Catellinos, Fillippe, Greci, Ornami e os Albericos
90 Decadentes, mas ainda nobres, di’nos.
“Grandes em fama, de virtudes ricos Os de Sanella vi; também
os de Arca, 93 Soldanieri, Ardingos e Bastichos.
“À porta de São Pedro, que ora abarca Infâmia nova
tanto em peso ingente, 96 Que fará soçobrar em breve a barca,
“Estavam Ravignans; seu descendente Foi Conde Guido e quantos ao diante
99 De Bellincione o nome têm fulgente.
“Della Pressa em governo era prestante E Galligaio no solar dourara
102 Punho e copos da espada fulgurante.
“A Coluna do Esquilo se elevara,
Sacchetti, Giuochi Fifanti e Barucci 105 Galli e quem pelo alqueire se pejara.
Era já grande o tronco dos Calfucci E às cadeiras curuis tinham
subido, 108 Assumindo o poder, Sizi e Arragucci.
“Quanto lustre daqueles, que abatido Tem soberba! Que feito viu Florença
111 Sem ser de Esfera de Ouro enobrecido? “Eram pais dos que julgam
glória imensa No concistório, vago o episcopado, 114 Cevar-se
dos banquetes na licença.
“Surgia o bando já sem pejo e ousado, Dragão que investe
a quem lhe teme a ira, 117 Cordeiro em vendo bolsa ou braço armado;
“De princípio tão vil a origem tira, Que Donato Ubertino
se afrontava, 120 Quando a um desses o sogro a filha unira.
“Já Caponsacco no Mercado estava, De Fiésole vindo; e
lá já era 123 Giuda, Infangato: o nome os ilustrava.
“Incrível cousa vou dizer, mas vera: No recinto uma porta outrora
havia, 126 À qual deu nome a gente della Pera.
“Fidalgo, que o brasão belo trazia Do barão cujo nome,
glória e vida 129 De São Tomé celebra-se no dia; “Lhe
deve o privilégio e honra subida; Mas hoje ao popular partido se une
132 Trazendo de ouro a faixa guarnecida.
“Já Gualterotti viam-se e Importuni; E em Borgo a paz de todo
se perdera, 135 Quando uma turba nova em si reúne.
“A casa, de que o mal vosso nascera, Que vos deu morte, justamente
irada, 138 E ao feliz viver vosso o fim pusera, “Em si, na prole sua
fora honrada: Por que sua aliança recusaste 141 Por sugestão,
o Buondelmonte, errada? “Quando à cidade a vez primeira entraste,
Se do Ema às águas Deus te houvesse dado, 144 Ledice fora o
pranto, que causaste: “Forçado era que ao mármore quebrado,
Da ponte guarda, vítima imolasse 147 Florença, de sua paz o
fim chegado.
“Com esses e outros, que inda eu mais lembrasse,
Florença vi gozar fausto repouso, 150 Sem motivo que pranto lhe excitasse.
Com esses e outros vi tão glorioso E junto o povo, que ao rever lançado
Não era na hástea o lírio seu formoso, 154 Nem por facções
em rubro transformado.” —
11. Por “vós” etc., Dante falou a Cacciaguida com o “vós”
em lugar de ”tu”, como faziam os romanos quando falavam a pessoas
de respeito e que não se usava mais no tempo de Dante. — 13-14.
Beatriz etc., sorriu como maliciosamente sorriu a camareira de Ginevra, no
romance de Lancelot, quando a sua dona foi beijada pela primeira vez pelo
amante. — 33.
Sem falar vulgar loquela, em latim. — 37-39. Do Leão etc., Marte
aproximou-se 580 vezes da constelação do Leão, isto é,
passaram 1091 anos a começar pela anunciação do nascimento
de Jesus. — 40. O lugar etc., a casa de Cacciaguida estava situada no
bairro (sesto) que ficava por último nas corridas de S. João,
isto é, no bairro de S. Pedro. — 47. Entre Marte e João
Batista, entre a estátua de Marte e a igreja de S. João Batista.
— 49-51. Toda gente etc., os cidadãos de Florença não
se haviam mesclado aos camponeses das redondezas. — 58. Se a gente hoje
no mundo a mais maligna, a Cúria Romana. — 61.
Quem se diz etc., alusão a personagem que não foi possível
identificar. — 62. Simifonte, castelo no vale do Rio Elsa. — 94.
À porta de S. Pedro que ora abarca infâmia nova, no bairro de
S.
Pedro morava a família dos Cerchi. — 101. Dourada punho e copos
etc., havia recebido insígnias de nobreza. — 103. A coluna do
Esquilo, no brasão da família Pigli havia uma coluna. —
105.
E quem pelo alqueire se pejara, a nobre família Chiaromonti usava
pesos e medidas falsas. — 111. Esferas de ouro, no brasão da
família Lamberti havia esferas de ouro. — 112. Eram pais etc.,
dos Visdomini e dos Tosinghi, os quais administravam
fraudulentamente as rendas episcopais. — 115. O bando sem pejo e ousado
etc., a família dos Amidei. — 118-120. De princípio tão
vil etc., de origens tão baixas que Ubertino Donati ficara ofendido
quando o sogro deu em casamento uma das filhas a um Adimari. — 126.
Gente della Pera, a família della Pera, extinta no tempo de Dante,
era de origem ilustre. — 127.
Fidalgo, que o brasão belo trazia etc., o barão Hugo de Brandeburgo
cujo brasão foi usado por diversas famílias. Hugo morreu no
dia de S. Tomé e, nesse dia, a sua memória era honrada na igreja
da Badia, onde fora sepultado. — 131. Mas hoje ao popular partido etc.,
Giano della Bella, embora de família nobre, que usava o brasão
de Hugo com faixa de ouro, chefiou em 1295 o partido popular. — 136-141.
A casa etc., os Amidei, indignados contra Buondelmonte dei Buondelmonti por
haver faltado ao compromisso de casamento com uma moça da sua família,
deram origem às lutas civis em Florença. — 143. Se do
Ema etc., teria sido melhor se os Buondelmonti se tivessem afogado no rio
Ema, ao atravessá-lo, quando foram para Florença. — 145.
Ao mármore quebrado etc., Buondelmonti foi assassinado pelos Amidei
perto da estátua de Marte.
CANTO XVII
Dante pede a Cacciaguida que lhe declare qual sorte lhe está reservada.
Este prediz-lhe o exílio, a perseguição pelos inimigos
e o seu refúgio na corte dos Scaligeros, Exorta-o a falar do que viu
e ouviu na sua viagem, sem receio de ofender ninguém.
QUAL a Climene explicações rogava De quanto em desconcerto
próprio ouvira 3 O que austeros depois os pais tornava, Tal fiquei,
tal efeito pressentira Com Beatriz a santa luz brilhante, 6 Que da Cruz eu
da altura descer vira.
E disse Beatriz: — “Desse anelante Desejo a flama exibe e nela
esteja 9 Ao que tens na alma imagem semelhante, “Não, por que
mais ao claro em ti se veja, Mas porque, sendo a sede revelada.
12 Prestada em proporção água te seja.” —
— “Ó cara estirpe minha à Glória alçada!
— Como conhecem as terrenas mentes 15 Não dar a obtusos dois
triâng’lo entrada,
“Assim vês tu as cousas contingentes Lá no porvir, o Centro
contemplando, 18 A quem todos os tempos stão presentes; “Em quanto
eu a Virgílio acompanhando, Subia o monte, onde ao pecado há
cura, 21 E também pelo inferno penetrando, “Sobre a existência
minha ouvi futura Agras palavras, posto que me sinta 24 Impertérrito
aos golpes da ventura.
“Folgara em ter ciência bem distinta Dos reveses, que a sorte
me prepara: 27 Menos mogoa a seta ao que a pressinta.” Ao spírito,
que, há pouco me falara, Meu desejo hei desta arte declarado, 30 Como
a senhora minha me ordenara.
Sem ambages, que aos homens enviscado Tinham, antes de Deus ser o Cordeiro,
33 Que os pecados remiu, sacrificado, Mas em preciso estilo e verdadeiro,
Logo tornou-me o paternal afeito, 36 Velado e transparente em seu luzeiro:
— “A contingência, que do espaço estreito Da matéria
os limites não transcende,
39 Toda se pinta no eternal aspeito.
“Necessidade, entanto, não a prende, Como não prende
a vista em que se espelha 42 A nau, que as águas rápida descende.
“De lá bem como se transmite à orelha Doce harmonia de
órgão, refletido 45 O tempo me é que a ti já se
aparelha.
“Qual de Atenas Hipólito há partido Pela perfídia
da madrasta ímpia, 48 Tal deixarás Florença perseguido.
“Assim se quer e a trama principia; Será em breve executado
o plano 51 Lá onde a Cristo vendem cada dia.
“A culpa o mundo a quem padece o dano Dará; mas terá
pena merecida, 54 Da verdade em vingança, o algoz insano.
“Deixarás toda a causa a mais querida, Chaga primeira de tormentos
cheia, 57 Do desterro pelo arco produzida.
“Sentirás quanto amarga; quanto anseia O sal de estranho pão;
que é dura estrada 60 Subir, descer degraus da escada alheia.
“Tua angústia há de ser mais agravada, Te acompanhar
no val do exílio vendo 63 Ignóbil gente, estólida malvada.
“Ingrato, louco e mau te acometendo O bando se há de unir: será
corrido 66 Ele, não tu, o opróbrio merecendo.
“Seu bestial instinto conhecido Terão seus feitos; glória
consumada 69 Terás; tu só formando o teu partido.
“Te há de ser acolhida franqueada Primeira pelo exímio
e grã Lombardo 72 Que por brasão tem Águia sobre Escada.
“Terá contigo tão cortês resguardo, Que, o rogo
prevenindo, o dom se apresse, 75 Que sói entre outros, se mostrar mais
tardo.
“Verás com ele o que ao nascer merece Tanto deste astro bélico
a influência, 78 Que a fama a glória ao nome lhe engrandece.
“Inda ignorada jáz tanta excelência: Só voltas
nove em torno lhe tem dado 81 Estas esferas na anual cadência.
“Mas antes que o Gascão tenha enganado Henrique excelso já
fará patentes
84 De ouro o desdém e o ânimo esforçado.
“Serão grandezas suas tão fulgentes, Que inimigos malgrado
as contemplando, 87 Terão de as proclamar por preminentes.
“Nele confia, o bem dele esperando; A sorte mudará de muita
gente, 90 Ricos, mendigos condição trocando.
“Dele o que eu digo inculcarás na mente, Sem narrá-lo.”
— E prozeas predizia, 93 Incríveis inda a quem lhe for presente.
— — “Eis, filho, o comentário” — prosseguia
— “Do que se foi já dito; eis a emboscada, 96 Que num período
breve se encobria.
“Mas por ti dos vizinhos invejada Não seja a sorte; prolongada
a vida, 99 Verás sua perfídia castigada.” — Depois
que essa alma santa concluída, Calcando-se, mostrou já ter a
trama 102 Da tela, que eu lhe oferecera urdida, Com tom de voz falei de homem,
que clama Por bom conselho, ao recear perigo, 105 De quem, sábio e
discreto, o bem de outro ama.
— “Vejo, ó pai, que, investindo, o tempo imigo Contra
mim corre para o golpe dar-me, 108 Mais grave, porque opor-me não consigo.
“De prudência, portanto, é bem que me arme; Não
suceda, ao perder pátria guarida, 111 Dos meus versos por causa outra
faltar-me.
“No mundo, onde em perpétua dor se lida, Da montanha subindo
o excelso cume, 114 Donde elevou-me Beatriz querida, “E depois pelo
céu de lume em lume Cousas tais aprendi, que, se as redigo, 117 Travo
terão a muitos de azedume.
“Se da verdade eu for remisso amigo, Morrer temo dos homens pelo olvido,
120 Que o tempo de hoje hão de chamar antigo.” — A luz,
onde o tesouro era escondido, Que eu achara, se fez tão coruscante,
123 Como o sol de áureo espelho refletido.
E disse: — “A consciência vacilante Por próprios
atos ou vergonha alheia 126 Teu falar haverá por cruciante.
“Mas deves repelir mentira feia; Toda a tua visão faz manifesta,
129 Coce-se a pele, que é de lepra cheia.
“Ao primeiro sabor será molesta Tua palavra; mas vital sustento
132 Deixará depois, quando for digesta.
“Há de o teu braço assemelhar-se ao vento, Que ao mais
soberbo cimo ousado investe; 135 Há de isto ao nome teu dar lustre
e aumento.
“Ante os olhos aqui, no céu, tiveste, No santo monte e lá
no val das dores 138 Almas, que a fama com seu brilho veste.
“Pois de ouvintes o ânimo ou leitores Preço não
dá ao exemplo derivado De origem vil, sem nota, sem louvores, 142 Nem
a outro argumento mal fundado.” —
1. Qual a Climene etc., Fetonte (que com o seu exemplo faz com que os pais
sejam austeros com os filhos) perguntou à mãe Climene se ele
era verdadeiramente filho do Sol. — 46. Qual de Atenas etc., Hipólito
filho de Teseu, não querendo sujeitar-se aos desejos de sua madrasta
Fedra, foi banido de Atenas, caluniado por ela. — 51. Lá onde
a Cristo vendem todo dia, a Cúria Romana. — 71. Grã Lombardo
etc., Bartolomeu della Scala, senhor de Verona. — 76-77. O que ao nascer
etc., Cangrande della Scala, irmão de Bartolomeu, que foi notável
capitão. Cangrande em 1300 tinha nove anos. — 82-83. Mas antes
que o Gascão tenha enganado etc. Clemente V, papa de origem francesa,
depois de ter prometido a Henrique VII que o reconheceria como imperador,
quando Henrique chegou à Itália, em 1312, o adversou.
CANTO XVIII
Beatriz conforta o Poeta. Cacciaguida mostra-lhe outros espíritos
que combateram pela fé cristã. Sobem depois a Júpiter,
ande estão as almas dos príncipes que governaram com justiça.
Os espíritos se dispõem de maneira a desenhar palavras de conselho
aos que governam; por último se compõem na forma de uma águia.
JÁ gozava em silêncio do seu verbo Essa alma venturosa e eu
cogitava, 3 O doce temperando pelo acerbo; Mas aquela, que a Deus me encaminhava,
— “Muda o pensar; que perto” — me dizia — 6
“Eu sou do que injustiças desagrava.” — Voltei-me
à voz, que sempre me infundia Valor: dos santos olhos a ternura 9 Descrever
a palavra renuncia.
Não só a língua em vão dizer procura; Mas sobre
si tornando, desfalece 12 A mente sem socorro lá da altura.
Ora somente referir se of’rece Que outro desejo, a santa contemplando,
15 Do coração, ao todo, desparece.
Como a delícia eterna, rebrilhando Direta em Beatriz, me extasiava
18 Do gesto seu por um reflexo brando, Com riso, de que a luz me subjugava,
— “Volve-te, escuta ainda; o Paraíso 21 Não stá
só nos meus olhos” — me falava.
Como a paixão, no seu dizer conciso Pelos olhos se exprime, na alma
enquanto 24 Tolhe o prestígio seu todo o juízo, Assim no flamejar
do fulgor santo, Voltando-me, o desejo vi patente 27 De aditar ao que disse
ora algum tanto.
— “Na quinta estância da árvore, que, ingente, Pelo
cimo se nutre” — principia — 30 “Que frutos sempre
dá, sempre é virente, “Espíritos habitam, que algum
dia Nome tinham na terra tão famoso, 33 Que opimo assunto às
Musas prestaria.
“Da cruz os braços olha cuidadoso: Os que eu te nomear verás
fulgindo, 36 Qual relâmpago em nuvem pressuroso.” —
Na Cruz vi perpassar, o nome ouvindo De Josué, um traço rutilante,
39 Mal acabara a voz, presto surgindo.
Disse o grã Macabeu: no mesmo instante Outro acorria, sobre si rodando,
42 Tange alegria esse pião brilhante; Assim fez Carlos Magno, assim
Orlando.
Atento, os movimentos seus esguardo, 45 Qual monteiro ao falcão no
ar voando.
Seguiram-se Guilherme e Rinoardo; Distingue o duque Godofredo a vista, 48
E logo após se assinalou Guiscardo.
Depois com os outros esplendores mista Provou-me a alma ditosa, que há
falado, 51 Ser nos coros do céu sublime artista.
Voltei-me então para o direito lado Por conhecer de Beatriz o intento,
54 Em palvras ou gestos declarado.
Nos olhos puros seus vi tal contento, Fulgor tal, que excedia o seu semblante
57 Quando de antes prendeu-me o pensamento.
Como, ao sentir prazer inebriante, Cada vez que o bem faz homem conhece
60 Ir da virtude na vereda avante, Assim mais amplo o arco me parece Do círc’lo,
em que vou co’o céu girando 63 Ao ver quanto prodígio
tal recresce.
Tão presto, como em nívea face, quando A chama do pudor se
acende, volta 66 A cor a ser qual de antes, branqueando, Pelo doce candor,
que a vista envolta Me teve, conheci que a sexta estrela 69 Nos recebera a
mim e a minha escolta.
De Júpiter na esfera argêntea e bela O cintilar de amor, que
ali resplende, 72 Linguage’ humana aos olhos me revela.
De aves qual bando, que se estreita ou estende, Do rio junto à borda
e que à verdura 75 Do pascigo, a folgar os vôos tende, Tal em
seus lumes grei ditosa e pura, Adejando, cantava e descrevia 78 De D, de I,
de L uma figura.
Ao compasso dos hinos se movia E em silêncio quedava, se detendo, 81
Quando alguma das letras concluía.
Pegásea Diva, ó tu, que, concedendo A glória ao gênio,
lhe dilatas vida, 84 Cidades, reinos imortais fazendo! Brilha em mim! por
que seja referida Cada figura, qual me foi presente! 87 Faz tua força
em meus versos conhecida! E cinco vezes sete claramente Vogais e consoantes
vi, notando 90 Cada qual pelo traço refulgente: “DILIGITE JUSTITIAM”
indicando Verbo e nome primeiros na escritura; 93 “QUI JUDICATIS TERRAM”
terminando.
Colocando-se assim cada luz pura, No fim pausaram no vocáb’lo
quinto: 96 Sobre o argento de Jove ouro fulgura.
De outros lumes, que descem, vi distinto Do M o cimo: cantam, lá pousados,
99 Bem que os atrai ao divinal precinto.
Como carvões ardentes encontrados De centelhas um jorro de si lançam,
102 Presságios por estultos venerados, Muitos mil fogos para o ar avançam,
Subindo à altura, que lhes há marcado
105 O Sol, de quem beleza e brilho alcançam.
Já, cada qual ao seu lugar tornado, De Águia o colo a meus
olhos se mostrava, 108 Rematando em cabeça, desenhado.
Guia não teve o artista que os traçava: É seu todo o
primor, toda a mestria, 111 Que em cada ninho forma própria grava.
A santa grei, porém, que parecia De ornar de c’roa o M estar
contente, 114 Movendo-se, a figura perfazia.
Quanta jóias, ó astro refulgente, Mostraram-me provir justiça
humana 117 Do céu de que és ornato permanente! À Mente,
pois, suplico de que emana O moto e a força tua, atenta veja 120 Da
névoa a causa que o teu brilho empana; E de ira inda uma vez tomada
seja Contra os que mercadejam no seu templo, 123 Que do sangue dos mártires
flameja.
Celestial milícia, que eu contemplo, Roga por esses, que ora estão
na terra 126 Transviados, seguindo hórrido exemplo.
Com gládio outrora se travava a guerra; Hoje em tirar o pão,
que Deus tem dado, 129 Dos combatentes o valor se encerra.
Tu que escreves pra ser logo emendado Pensa que Pedro e Paulo hão
ressurgido, 132 Pela vinha morrendo que hás talado.
Tu bem podes dizer: — “Devoto hei sido Do que, ao deserto dando
tanto apreço, Sofreu martírio à dança oferecido:
136 O pescador e Paulo não conheço.” —
28. Da árvore que, ingente, pelo cimo se nutre, o Paraíso que
recebe vida de Deus. — 38. Josué, sucessor de Moisés na
chefia do povo hebreu e que conquistou a Terra Prometida. — 40. O grã
Macabeu, Judas Macabeu que combateu contra Antíoco. — 43-48.
Orlando, paladino de Carlos Magno; Guilherme, d’0range; combateu contra
os infiéis; Rinoardo, companheiro de Guilherme; Godofredo de Bouillon,
conquistou a cidade de Jerusalém; Roberto Guiscardo, libertou as Apúlias
dos Sarracenos, no século XI. — 49-51. Depois com os outros etc.,
Cacciaguida cantou, provando que era um sublime artista. — 82. Pegásea
Diva, a musa Caliope. — 91-93. Diligite etc., amai a justiça
vós que governais o mundo. — 107. Águia etc., a águia
é o símbolo da justiça e da monarquia. — 130. Tu
que escreves etc., alusão ao papa Bonifácio VIII, que escrevia
as censuras, para emendá-las depois de ter recebido dinheiro. —
134-136. Do que etc., a moeda florentina, o florim, trazia a efígie
de S. João Batista, que sofreu o martírio por causa da dança
de Salomé.
CANTO XIX
Dante fala à Águia externando uma sua antiga dúvida
se alguém possa salvar-se não tendo conhecimento da lei de Cristo.
Respondendo, a Águia aproveita a ocasião para repreender os
malvados reis cristãos do seu tempo que nunca obterão a graça
de Deus.
DE asas pandas formosa se ostentava Essa imagem, que enlevos de alegria 3
Nas almas enlaçadas excitava, E rubi cada qual me parecia, Em que raio
de sol, fúlgido ardendo, 6 Os lumes nos meus olhos refrangia.
O que eu agora descrever pretendo Voz não contou, nem pena há
referido, 9 Nem criou fantasia encarecendo.
O bico da Águia vi falar, e o ouvido Eu e meu nas palavras distinguia,
12 Mas nós e nosso estava no sentido.
— “Porque fui justo e pio” — assim dizia —
“Exaltado me vejo a tanta glória, 15 Que excede a quanto o anelo
aspiraria.
“De mim deixei na terra tal memória, Que apregoam-na os homens
pervertidos, 18 Sem exemplos seguir, que narra a história.” —
Como em pira dão lenhos incendidos Um só calor, aqueles mil
amores 21 Da imagem stavam num falar contidos.
Então lhes disse: “Ó vós, perpétuas flores
Do júbilo eternal, que num perfume 24 Sentir fazeis multíplices
olores, “Esta fome fartai, que me consome, Há largo tempo, na
terrestre vida, 27 Onde alimento nunca achar presume.
“Se do céu noutro reino é refletida A divina Justiça
em claro espelho, 30 Sei que sem véus no vosso é percebida.
“Sabeis que, atento, a ouvir-vos me aparelho; Sabeis também
que, nunca saciado, 33 Ardo em desejo que se fez já velho.” —
Qual falcão, do capelo desvendado, Que a fronte move, as asas exercita
36 E se apavona ledo e alvoroçado, Tal vi a insígnia, que essa
grei bendita,
Louvor da graça divinal, formara, 39 Com hinos próprios da
mansão que habita.
Depois dizia: — “Aquele, que traçara Com seu compasso
o mundo e no começo 42 De ocultas, claras cousas o dotara, “Não
pôde tanto seu poder impresso No universo deixar, que o Eterno Verbo
45 A criação não teve infindo excesso.
“Prova-o bem quem primeiro foi soberbo; Pois, sendo ele perfeita criatura,
48 Não esperando a luz, caiu acerbo.
“Todo ente, pois, somenos em natura Conter o Bem sem fim não
circunscrito 51 Não pode e em si guarda a mensura.
“Nossa vista, de alcance tão finito, Posto seja um dos raios
dessa Mente, 54 Que as cousas todas enche no infinito, “Não é,
por natureza, tão potente, Que não discirna a sua Causa Eterna,
57 Do que ela é na verdade diferente.
“Penetra na justiça sempiterna A vista concedida ao vosso mundo,
60 Bem como o olhar, que pelo mar se interna:
“Se junto ao litoral lhe enxerga o fundo, No pélago o não
vê: certo é que existe, 63 Mas encoberto está por ser
profundo.
“Se do Lume não vem, que só persiste Sempre sereno, a
luz torna-se em treva, 66 Ou da carne é veneno, ou sombra triste.
“Já compreendes que o véu romper se deva, Que a Divina
Justiça te escondia, 69 E a tão freqüentes dúvidas
te leva.
“Junto ao Indo — tua mente assim dizia — Um varão
vem á luz: de Cristo o nome 72 Nem por voz, nem por letras conhecia.
“Os feitos e desejos são desse home’ Bons no quanto julgar
à razão cabe; 75 Em pecar ditos e atos não consome.
“Quando sem fé e sem batismo acabe, Há justiça
em ser ele condenado? 78 Pode ter culpa quem não crê, não
sabe? “Mas tu quem és, que, em tribunal sentado, Julgas, de léguas
em milhões distante, 81 Se mal vês o que a um palmo é
colocado? “Em duvidar, por certo, iria avante
Quem assim sutilezas apurara, 84 Sem a luz da Escritura triunfante.
“Terrenos vermes! raça estulta, ignara! A primeira Vontade,
por si boa, 87 De si, Supremo Bem, se não separa.
“Justo é somente o que com ela soa, A si nenhum criado bem a
tira, 90 Todo o bem, radiando, ela afeiçoa.” — Como a cegonha,
que o seu ninho gira, Os filhotes já tendo apascentado, 93 Enquanto
cada qual, farto, a remira, Assim, os olhos quando eu tinha alçado
Fez o pássaro santo; e asas movia, 96 Por múltiplas vontades
sustentado.
Volteando cantou; depois dizia: “As notas não comprendes do
meu canto, 99 Como os mortais de Deus sabedoria.” — As flamas
quando já do Esp’rito Santo Quedaram nessa imagem, que alcançara
102 Aos Romanos do mundo temor tanto, Prosseguiu: — “Este reino
não depara Jamais quem não acompanhou a Cristo 105 Nem antes,
nem depois que à Cruz se alçara.
“Dizem muitos em grita — Cristo! Cristo! Menos perto, em juízo,
do que o infido 108 Lhe hão de ser que jamais conheceu Cristo.
“Há de os danar o Etíope descrido, Quando em grei rica
e pobre eternamente 111 For o gênero humano repartido.
“Dos reis cristãos o que dirão em frente Os Persas, lendo
no volume aberto, 114 Onde tanto flagício está patente? “Ali
hão de se ver entre os de Alberto Os que serão em breve registados:
117 De Praga o reino tornarão deserto.
Se hão de ver sobre o Sena acumulados Os do Rei, que a moeda falsifica,
120 Da fera morto aos dentes afiados.
Se há de ver a soberba, atroce, inica Quem me demência o Escocês
e o Bretão lança: 123 Nenhum nos seus confins contente fica.
“E se há de ver quanto em luxúria avança O Rei
de Espanha e o que a Boêmia rege, 126 Que mostra ao seu dever tanta
esquivança.
“Ninguém ao Coxo de Sião inveje:
Com I sua bondade se assinala, 129 Com M o que em contrário ama e
protege “Se há de ver que a avareza à ignávia iguala
No Rei da ilha, em que morreu Anquise, 132 E donde o fogo, a trovejar, se
exala.
“Porque do seu valor mal se ajuíze, Em cifra a história
sua é resumida, 135 Que muito em pouco espaço localize, “Será
patente a vergonhosa vida Do tio e desse irmão, que hão desonrado
138 Dois cetros e a ascendência enobrecida.
“O Rei de Portugal será notado E o Rei de Noruega e mais aquele,
141 Que de Veneza os cunhos tem falsado.
“Ditosa Hungria! que de si repele O jugo da opressão! Feliz
Navarra, 144 Quando em seus montes que defensa vele! “E creiam todos
que já d’isto em arra Nicósia e Famagusta se lamentam,
Bramindo de uma fera sob a garra: 148 Os exemplos dos mais não o escarmentam.”
—
28. Noutro reino, em outra ordem de bem-aventurados. — 34.
Qual falcão de capelo desvendado, libertado pelo caçador que
lhe tira a venda. — 46. Quem primeiro foi soberbo, Lúcifer. —
102. Aos Romanos do mundo temor tanto etc., a águia era a insígnia
de Roma. — 110-11. Quando em grei rica e pobre etc., quando os justos
e os pecadores serão divididos eternamente em duas partes, uma delas
rica de todos os bens e a outra pobre e danada. — 115. Alberto I, de
Áustria, que em 1304 devastou a Boêmia. — 119-120. Rei
que a moeda falsifica etc., Filipe o Belo, que falsificou o dinheiro para
pagar os mercenários, morreu em 1314 por efeito de uma queda de cavalo,
numa caçada. — 122. O Escocês e o Bretão etc., os
reis Roberto da Escócia e Eduardo da Inglaterra, em guerra entre si.
— 125. O rei da Espanha, Fernando IV; e o que a Boêmia rege,
Venceslau IV. — 127-129. O coxo de Sião etc., Carlos II de Anjou,
rei de Apúlia e de Jerusalém, será marcado no livro da
justiça divina com I pela sua bondade e com 1000 (M) pelas suas malvadezas.
— 131. O rei da ilha em que morreu Anquise, Frederico II de Aragão,
rei da Sicília. — 137-136. Do tio, Jaime, rei de Maiorca e Minorca;
desse irmão, Jaime II, rei de Aragão.
— 139. O rei de Portugal, D. Diniz, o lavrador. — 140-141. O
rei de Noruega, Acon VII; e mais aquele etc., o rei de Ragusa, na Dalmácia,
que falsificou a moeda de Veneza. — 143. Feliz Navarra etc., o Poeta
faz votos para que a Navarra se defenda contra o opressão dos reis
franceses para não cair na opressão como a ilha de Chipre (Nicósia
e Famagosta são cidades dessa ilha), que está sendo tiranizada
por Henrique II.
CANTO XX
A Águia louva alguns reis antigos que foram justos e virtuosos.
Depois solve a Dante uma dúvida, como possam estar no Céu alguns
espíritos que, na sua opinião, quando em vida não tinham
tido fé cristã.
QUANDO esse astro, que a todos alumia Deste hemisfério nosso já
descende 3 E se consome em toda parte o dia, O céu, que dele só
de antes se acende, Cintilante se mostra de repente 6 Por mil luzeiros, em
que um só resplende.
Do céu surgiu-me essa mudança à mente Depois que o santo
pássaro calou-se, 9 Dos reis, no mundo, insígnia refulgente;
Pois desses vivos lumes ateou-se Inda mais o clarão, hino cantando,
12 Que na memória instável apagou-se.
Ó doce amor! num riso te velando, Quanto indicas arder nos esplendores,
15 Que estão santo pensar só respirando!.
Quando as gemas sublimes nos fulgores, De que o sexto planeta se adornava
18 Findaram seus angélicos dulçores, De rio o murmurar ouvir
julgava, Que, em claras espadanas debruçado 21 Com sua veia abundante
as rochas lava.
Da cít’ra em braço como o som formado, Como o sopro na
avena penetrando 24 Em melódicas notas modulado, Assim formou-se um
murmúrio brando, Que subiu, logo após, da ave formosa, 27 Pelo
canal do colo, se exalando.
Então em voz tornou-se harmoniosa, Que do bico em palavras irrompia:
30 Em minha alma insculpiram-se ansiosa.
— “Na parte atenta, que em mim vê” — dizia
— “Que até na águia mortal afronta ousada 33 O sol,
quando rutila ao meio-dia; “Porque dos fogos, de que sou formada, Aqueles,
com que a vista me cintila, 36 No céu graduação tem sublimada,
“Esse, que brilha em meio por poupila, Foi o régio cantor do
Esp’rito Santo,
39 Que a Arca trasladou de vila em vila.
“Conhece ora a valia de seu canto, Qual foi o efeito desse ardente
zelo, 42 Galardão recebendo tal e tanto.
“Dos cinco, que o sobrolho me ornam belo, Consolou o que ao bico está
mais perto 45 Viúva em dó do filho, seu desvelo.
“Quanto custa lhe está bem descoberto A Cristo não seguir,
pela exp’riência 48 Do céu e do penar pungente e certo.
“E o que está logo após na circunf’rência
Do sobrolho, onde vês arco superno, 51 Morte adiou por vera penitência.
“Conhece agora que o juízo eterno Não muda, se o rogar
do arrependido 54 Em crástino tornar fato hodierno.
“A mim e às leis esse outro há transferido À Grécia,
do Pontífice em proveito: 57 Boa intenção mau fruto há
produzido.
“Conhece agora que o maligno efeito Dessa obra pia lhe não é
nocivo, 60 Posto haja o mundo horrendo desproveito.
“O que vês do sobrolho no declive Guilherme é, por quem
chora o reino opresso 63 De Frederico e Carlo ao mando esquivo.
“Conhece agora bem com quanto excesso Ao Rei justo ama o céu:
do seu semblante 66 Ainda no fulgor se mostra expresso.
“Quem crer pudera em vosso mundo errante Que entre estas luzes santas
quinta seja 69 Rifeu Troiano, da justiça amante? “Conhece agora
que mistério esteja Na Graça — aquilo, que inda o mundo
ignora — 72 Bem que o fundo inefável não lhe veja.”
— Qual codorniz que os vôos seu demora, Paira cantando e cala-se,
enlevada 75 Nas doçuras finais da voz sonora: Tal parece-me a imagem
sinalada Pelo eterno prazer, que, a seu desejo, 78 Faz que seja quanto é
cousa criada.
Posto a dúvida minha neste ensejo, Como no vidro a cor, fosse patente,
81 Não mais espero a solução, que almejo.
Cedendo à força do seu peso urgente.
Prorrompo logo: — Que mistério imenso! —
84 Da águia o júbilo fez-se mais fulgente.
Brilho tendo nos olhos mais intenso A sacrossanta forma respondia 87 Por
não mais ter-me atônito e suspenso: — “Bem vejo que
tu crês” — assim dizia — “Não porque
entendas, mas porque assevero: 90 Ocultas cousas são, mas fé
te guia.
“És como quem da cousa o nome vero Aprende; mas inota fica a
essência, 93 Se não a explica espírito sincero.
“Dos céus o reino sofre um violência Do ardente amor e
da esperança viva, 96 Que triunfam da própria Onipotência.
“Mas não é, qual vitória humana, esquiva: Vencido
é Deus por ser assim servido; 99 Tem, vencido, vitória decisiva.
“Maravilhado, ao veres, te hás sentido, Do meu sobrolho a luz
quinta e primeira 102 Neste império aos eleitos concedido.
“Não morreram gentios: crença inteira No Redentor futuro
ou no já vindo 105 Tinham antes da hora derradeira.
“À vida um, lá do inferno ressurgindo, Onde não
se corrige o condenado, 108 A mercê recebeu anelo infindo, “Vivo
anelo, que ardor tanto empenhado Em suplicar a Deus tal graça havia,
111 Que pôde o seu querer ser abalado.
“Quando voltou à carne e à luz do dia, Em que não
fez detença a alma ditosa, 114 Naquele há crido que a salvar
podia; “E foi na fé, no amor tão fervorosa, Que ao passar
nova morte há merecido 117 Sublimar-se à existência gloriosa.
“E do outro, pela Graça protegido, Que provém de uma
origem tão profunda, 120 Que a nascente olho algum não lhe há
sabido, “Foi no amor à justiça sem segunda: De graça
em graça a Redenção futura 123 Mostrou-lhe Deus revelação
jucunda.
“À fé se entrega; e a sua mente pura A perversão
gentílica rejeita, 126 Do mundo repreendendo a vida impura “As
damas três que achavam-se à direita, Do carro, o seu batismo
efetuaram,
129 Anos mil precedendo a lei perfeita.
“Ó predestinação! Não te alcançaram
A raiz esses olhos, que a primeira 132 Cousa jamais ao todo interpretaram.
“Mortais! Oh! não julgueis tão de carreira! Porque nós
que Deus vemos não sabemos 135 Dos preferidos seus a grei inteira.
“Esta ignorância por ditosa havemos; Que o nosso bem por este
bem se afina, 138 De ser quanto Deus quer o que queremos.” — Por
essa imagem de feição divina Assim, para aclarar-me a curta
vista, 141 Dada me foi suave medicina: E como a um bom cantor bom citarista
Acompanha, vibrar fazendo a corda, 144 E desta arte mais graça o canto
aquista, Assim a fala (a mente me recorda) Da ave santa os luzeiros dois seguiam
Como dos olhos o bater concorda, 148 Com sua voz igualmente se moviam.
37. Esse, que brilha etc., Davi rei de Israel e autor dos Salmos.
— 44. Consolou o que, o imperador Trajano, que foi justo com a viúva
(V. Canto X, 82 do Purgatório). — 46-48. Quanto custa etc. Uma
crença popular afirmava que Trajano tivesse sido libertado do Inferno
pelas preces de S. Gregório. Por isso Trajano podia estabelecer uma
comparação entre o Inferno e o Paraíso. — 49-51.
E o que está etc., Esequias, rei de Judá, o qual, pela predição
do profeta Isaías soube que estava no fim da sua vida, mas, pedindo
a Deus, obteve mais quinze anos de vida e expiou os seus pecados. —
55-57. Esse outro etc., Constantino que transferiu para Bizâncio a capital
do Império Romano. — 62. Guilherme II, rei de Apúlia e
da Sicília. — 63. Frederico II de Aragão e Carlos II Anjou.
— 69. Rifeu Troiano, personagem da Eneida; homem justo e honesto, morreu
combatendo pela sua pátria. — 101. A luz quinta e primeira, Rifeu
e Trajano. — 103- 105. Crença inteira no Redentor futuro ou no
já vindo, Rifeu acreditou na futura paixão de Jesus, Trajano
na paixão que Cristo já tinha sofrido. — 127. As damas
três, as três virtudes teologais. — 129. Anos mil etc.,
mil anos antes que Cristo instituísse o batismo.
CANTO XXI
Dante sobe do céu de Júpiter ao de Saturno, no qual encontra
as almas dos que se dedicaram na vida à celeste contemplação,
onde vê uma escada altíssima pela qual vai subindo o descendo
uma multidão de almas resplendentes. S. Pedro Damião vai ao
encontro do poeta e lhe fala do dogma da predestinação.
DE Beatriz no gesto o entendimento, Acompanhando os olhos, embebia; 3 De
ai não cuidava absorto o pensamento Beatriz, sem sorrir-se, me dizia:
— “O sorriso contenho; de outra sorte, 6 Como Semele, em cinzas
te veria.
“Minha beleza, viste já, mais forte Refulge, quanto mais se
eleva a escada, 9 Por onde ascende para a eterna corte.
“Teu vigor, se não fora moderada, Ao seu fulgor, de todo fenecera,
12 Qual fronde, pelo raio espedaçada.
“À sétima chegamos clara esfera, Que sob o peito do Leão
ardente 15 Da luz mais viva do que de antes era.
“Teus olhos acompanhe pronta a mente; Sejam-te espelho a quanto este
astro belo, 18 Que um espelho é também, fará patente.”
— Quem bem coubesse a força do desvelo, Com que a vista em seu
gesto se pascia, 21 Quando voltei-me a impulso de outro anelo, Quanto contente
fui conheceria, Minha guia celeste obedecendo, 24 Após uma gozando
outra alegria.
No cristal, que, em seu giro se movendo, O nome do Monarca tem querido, 27
Que a todo vício foi flagelo horrendo, De áurea cor, em que
o sol é refletido, Escada vi de tão sublime altura, 30 Que o
topo aos olhos stava-me escondido.
Pelos degraus brilhando com luz pura Descia soma tanta de esplendores, 33
Que os clarões todos ver se me afigura.
Como, ao seu modo, aos matinais albores, As gralhas, pelos ares se movendo,
36 Aquecem-se, do frio nos rigores, Umas se vão não mais voltar
querendo,
Tornam outras, buscando o pouso amado, 39 Rodam outras, os vôos seus
contendo: Tal dos lumes o bando sublimado Pela escada formosa parecia, 42
Até certo degrau terem tocado.
E o que parou mais perto resplendia Tão claro, que eu pensei: —
Luz, que eu venero 45 Em ti, amor, em que ardes, denuncia.
Mas Beatriz de quem sinal espero Pra dizer ou calar, grave emudece: 48 Eu
pois o anelo meu, reprimir quero.
Ela, que o meu pensar então conhece, Pois quem tudo prevê lho
manifesta, 51 — “Cumpre” — disse — “o
que a mente ora apetece.” — E comecei: — “Direito
não me presta A resposta o meu mérito apoucado: 54 Mas por aquela,
que o valor me empresta, “Espírito ditoso, que velado Stás
por tua alegria, me declara 57 Por que tão perto a mim te hás
colocado; “E por que muda está na esfera clara Do paraíso
a doce sinfonia,
60 Que tão devota noutras escutara.” — — “Como
os olhos o ouvido” — respondia — “Tens mortal: nesta
esfera não se canta, 63 Nem Beatriz sorri, como soía.
“Tantos degraus desci da escala santa De prazer por te dar mostra evidente
66 Em vozes e na luz que me abrilhanta.
“Não que me apresse o afeto mais ardente, Pois lá por
cima igual ou mais se acende, 69 Como te prova o flamejar ingente.
“Mas alta caridade, que nos prende A quem por seu querer tudo governa,
72 Quais vês, marca os lugares como entende.” — —
“Bem conheço” — tornei — “sacra luzerna,
Como o livre amor do céu na corte 75 Basta para cumprir vontade eterna;
“Mas como, entre a dos teus santa coorte, Tu só chamado a este
cargo hás sido, 78 Por discernir não hei mente assaz forte.”
— A voz final não tendo proferido, Qual veloz roda, sobre si
girando, 81 Volveu-se o lume, súbito movido.
O amor, que encerrava, então falando — “Em mim dardeja”
— disse — “a luz divina, 84 Esta, que me circunda, penetrando.
“Com meu ver, sua ação, que assim combina, Tanto me alteia,
que a Suprema Essência, 87 Donde ela emana, a mim se descortina.
“Daí vem do meu júbilo esta ardência; Pois a minha
visão quanto é mais clara, 90 Da claridade em mim sobe a eminência.
“Alma, porém, que mais no céu se aclara, O serafim, que
em Deus mais se embevece, 93 Resposta ao teu dizer não deparara.
“Tanto o que me perguntas desparece Dos eternos conselhos no infinito,
96 Que a vista a todos pávida esmorece.
“Ao mundo isto por ti deve ser dito, Que da verdade saiba quanto aberra,
99 Os pés movendo ao transcedente fito.
“Alma, que é flama aqui, fumo é na terra: O que no céu
jamais saber alcança, 102 Como ver pode, quando a cinza a encerra?”
— Em tanto enleio o seu dizer me lança, Que humilde, outras perguntas
evitando,
105 Em lhe saber o nome pus a esp’rança.
— “De mares dois no meio demorando, De Florenca não longe,
estão rochedos, 108 Aos trovões sobranceiros se empinando.
“Catria chama-se a giba dos penedos: Ao pé se vê um claustro
consagrado 111 Da alma com Deus aos místicos segredos.” —
Terceira vez o santo me há tornado.
E disse, prosseguindo: — “Nessa ermida 114 Somente a Deus servir
me hei dedicado.
“Com suco de oliveira por comida, Contente a calma e frio suportava,
117 Passando ali contemplativo a vida.
“Nesse retiro ao céu se aparelhava Ampla seara; estéril
tanto agora, 120 Que o véu já cai que o mal dissimulava.
“Fui Pedro Damiano; um Pedro outrora Dito Pecador junto ao Ádria
esteve 123 Na casa em que invocou Nossa Senhora.
“Da vida me restava espaço breve, Quando ao claustro arrancado,
me cingiram 126 Chapéu, que a indignas fontes já se deve.
“Magros descalços a missão cumpriram, O Vaso de Eleição
e Cefas, tendo 129 O pão de cada dia, que pediram.
“Hoje o pastor, a custo se movendo, Anda de um lado ao do outro carregado,
132 Quem o sustente por de trás querendo.
“Seu manto, o palafrém tendo embuçado, Dois brutos numa
pele está fingindo: 135 Ó paciência, quanto hás
suportado!” — Calou-se. Luzes mil eu vi, fulgindo, Descer em veloz
giro a excelsa escada: 138 Seu brilho, em cada volta, ia subindo.
Parando em torno a essa alma afortunada, A voz em som tão alto despediram,
Que não pudera ser de outro igualada.
142 Não sei, torvado, o que elas proferiram.
6. Semele, amada por Júpiter, a conselho da ciumenta Juno, pediu ao
deus que se lhe mostrasse em todo o esplendor da sua majestade e morreu abrasada.
— 25. No cristal, que, em seu giro se movendo etc., no lúcido
planeta que, girando no universo, tem o nome de Saturno, o qual reinou no
século de ouro, no qual foi banida do mundo qualquer malícia.
— 121-123. Pedro Damiano, monge beneditino, foi prior do mosteiro de
Santa Cruz; e, posteriormente, em 1057 foi nomeado cardeal pelo papa Estevão
IX. Pedro Pecador, S. Pedro degli Onesti, fundador
do convento de Santa Maria do Porto, perto de Ravena. — 128.
O Vaso de Eleição, S. Paulo; Cefas, S. Pedro.
CANTO XXII
Outros espíritos bem-aventurados aproximam-se do Poeta, entre eles
S. Bento, o qual lhe indica alguns dos seus santos companheiros; depois lamenta
profundamente a corrupção da ordem por ele fundada. Sobe daí
o Poeta à oitava esfera que é a das Estrelas Fixas.
VOLTEI-ME a Beatriz, de espanto entrado, Qual menino, que busca sempre o
amparo 3 De pessoa, em quem mais há confiado.
Beatriz, como a mãe, que ao filho caro Súbito acorre ao vê-lo
espavorido, 6 Com voz, que sói lhe ser terno anteparo, — “Ao
céu” — disse — “não vês que foste
erguido? Ignoras tu que o céu em tudo é santo 9 E a caridade
a tudo há presidido? “Pois comover-te o grito pôde tanto,
Oh! quanto o meu sorriso te abalara 12 E dos celestes coros o alto canto!
“Se esse grito os seus rogos revelara, Já de agora souberas a
vingança, 15 Que inda antes de morrer, verás, amara.
“Do céu a espada pune sem tardança, Mas sem pressa, conquanto
o não pareça 18 A quem no medo aguarde e na esperança
“Mas por voltar o rosto ora começa: Que tens de ver espíritos
famosos, 21 Se a vista, como eu digo, se endereça.” — Como
ordenara, os olhos curiosos Alcei: glóbulos vejo mais de cento, 24
Que os raios seus cruzavam luminosos.
Eu estava como quem reprime atento Do desejo o aguilhão, e receava
27 Por perguntas mostrar molesto intento; Eis uma dessas pér’las,
que ostentava Entre as outras mais brilho, mais grandeza.
30 Para dar-me contento se acercava.
— “Se como eu” — disse a sua voz — “certeza
Da caridade houvesse, que em nós arde, 33 Teu desejo exprimiras com
franqueza.
“Por que maior demora não retarde Teu fim sublime, eu te darei
resposta, 36 Posto em silêncio o teu pensar se aguarde.
“O monte, que o Cassino tem na encosta,
Estava, em seu cabeço, povoado 39 Por gente ignara, ao erro e ao mal
disposta “Ali, primeiro, o Nome hei proclamado Daquele, que aos humanos
a verdade 42 Trouxe que humanos tanto há sublimado.
“Da Graça em mim luziu tal claridade, Que salvar pude os povos
circunstantes 45 Do culto, que perdera a humanidade.
“Eremitas hão sido esses brilhantes Fogos, que vês: na
flama se acenderam, 48 Que frutos brota e flores vicejantes.
“Macário e Romualdo aqueles eram, Estes os meus irmãos,
que, os pés firmando 51 No claustro, os corações ao Senhor
deram.” — — “Esse afeto, que mostras me falando”
— Tornei — “e o bem-querer, que tão patente 54 Nos
esplendores vossos ’stou notando, “O ânimo dilata-me: igualmente
O sol faz, quando à rosa purpurina 57 O seio desabrocha rescendente.
“E, pois, te rogo, ó Padre meu, te inclina A declarar-me se
a mercê mereço 60 De ver-te a face, mas sem véu, beni’na.”
—
— “O teu sublime anelo todo apreço Há de achar”
— disse — “irmão, na extrema esfera, 63 Onde todos
e o meu terão seu apreço.
“Madura, inteira ali se considera Perfeita a aspiração;
ali somente 66 Demora cada parte sempre onde era.
“Sem pólos, sem lugar é permanente; Até lá
nossa escada vai subindo; 69 Foge-te à vista a sua altura ingente.
“Viu-a Jacó, o topo lhe atingindo, Quando em sua visão
a contemplava 72 De inumeráveis anjos refulgindo.
“Mas ninguém por subi-la os pés destrava Hoje da terra;
e a minha regra escrita 75 Inutilmente nos papéis se grava.
“A morada monástica bendita É covil; o capuz se há
transformado 78 E farinha contém ruim, maldita.
“Não seja usura havida por pecado Tão grave contra Deus,
quanto a avareza, 81 Que aos monges tem os corações eivado;
“Pois quanto a Igreja poupa é da pobreza, Que de Deus por amor
seu pão mendiga, 84 Não pra cevo a parentes, ou a torpeza.
“Na terra a carne ao homem tanto obriga, Que haver um bom princípio
não bastara 87 Entre a planta em nascendo e a sua espiga.
“Sem ouro e prata Pedro começara, Eu com jejuns, com orações;
convento 90 Francisco humildemente levantara.
“De cada qual à origem estando atento, Verás o branco
em negro transformado, 93 Se depois tens seu fim no pensamento.
“Maior milagre foi, quando tornado Para trás, o Jordão
do mar fugia, 96 Do que socorro a tanto mal levado.” — Calou-se,
e a santa grei logo se unia; Cerrou-se a grei, e o espírito com ela,
99 Qual turbilhão, na altura se encobria.
Na escada alcei-me após, da dama bela Ao oceano; por seu poder mudada
102 A natureza minha se revela.
Naturalmente nunca acelerada Descida houve na terra, nem subida,
105 Que possa ao meu voar ser igualada.
Seja-me assim, leitores, concedida A glória, pela qual choro e suspiro,
108 Bata nos peitos de alma compungida, Como eu, enquanto o dedo meto e tiro,
Do fogo o signo, de que está seguido 111 O Tauro, vi, e entrei logo
em seu giro.
Gloriosas estrelas, luz que hás sido Por grã virtude a causa
de que emana 114 Humilde engenho, que há em mim nascido, Convosco na
carreira, em que se afana, Andava o que a mortal vida origina, 117 Quando
aspirei primeiro ar da Toscana.
E quanto permitiu Graça Divina Nesse alto céu entrar, que vos
compreende, 120 Por vós passar me deu sorte beni’na.
Por vós devoto anelo em mim se acende Para alcançar virtude
nesse forte, 123 Árduo passo que a si me atrai, me prende.
— “Perto à ventura extrema és de tal sorte, Que
a vista clara tens e penetrante” — 126 Diz Beatriz, o meu formoso
norte.
“Mas antes de te ergueres mais avante, Remira abaixo, e vê, por
mim guiado, 129 Sob os pés quanto mundo está distante; “Por
que teu peito, em júbilo inundado, Seja presente ao povo triunfante,
132 Que nesta esfera avança extasiado.” — Então,
volvendo os olhos anelante Às sete esferas, nosso globo vejo 135 Tal,
que sorri-me do seu vil semblante.
Quem lhe dá pouco apreço em todo ensejo Aplaudo, e grande sábio,
em meu conceito, 138 É quem põe noutra parte o seu desejo.
Vejo da filha de Latona o aspeito Sem a sombra, que fosse em parte densa,
141 Em parte rara imaginar me há feito.
Do filho, Hiperião, a flama intensa Pude olhar; perto e em torno lhe
giravam 144 Maia e Dione em volta pouco extensa.
Como aos do pai e filho temperavam De Jove os fogos, vi e o movimento 147
Vário, que em roda ao centro seu formavam.
Dos orbes sete eu contemplava atento Grandeza e rapidez, e comprendia
150 Distâncias e postos seus no firmamento.
Como o curso dos Gêmeos eu seguia De montes, mares via todo envolto
O canto estreito, em que homem se gloria: 154 Olhos depois aos belos olhos
volto.
13-15. Se esses gritos etc., se tivesses ouvido o que foi dito, saberias
a vingança de Deus sobre os maus padres, que virá bem cedo.
— 37-39. O monte que o Cassino etc., Montecassino, sobre o qual S. Bento,
no V século, fundou o célebre mosteiro, no local onde havia
um templo a Apolo. — 49. Macário (S.), de Alexandria, que, no
século IV, fundou vários mosteiros; Romualdo (S.), monge do
século X, nascido em Ravena, que fundou a ordem dos Camaldolenses.
— 70. Viu-a Jacó etc., o patriarca Jacó viu em sonho uma
escada que da terra subia até o Céu, Gen. XXVIII, 12. —
74. A minha regra escrita etc. Na terra ninguém observa a minha regra
de viver religiosamente. — 94. Maior milagre etc., quando Deus fez com
que o Jordão retirasse suas águas e o mar Vermelho deixasse
seu leito descoberto para o povo de Israel passar Jos. III, 14. — 110-111.
O signo, a constelação dos Gêmeos. — 115-117. Convosco
etc., Dante nasceu no mês de maio, quando o Sol se encontra no signo
dos Gêmeos. — 139. Filha de Latona, a Lua. — 142.
Hiperião; alguns mitólogos fazem do Sol um nume diferente de
Febo e filho de Hiperião. — 144. Máia, mãe de Mercúrio;
Dione, mãe de Vênus. — 145-146. Aos do pai etc., Júpiter
(Jove) temperava a frieza do pai (Saturno) e o calor do filho (Marte).
CANTO XXIII
Descem Cristo e Maria no meio de anjos e de almas bem- aventuradas. Cristo,
porém, logo desaparece; e o arcanjo Gabriel, em forma de chama, coroa
a Maria. Depois, Maria sobe no Empíreo reunindo-se ao seu divino filho.
QUANDO tudo em seus véus a noite esconde, Sobre o ninho dos filhos
seus amados 3 Ave, pousada entre a dileta fronde, Para ver os seus gestos
desejados E buscar cibo que lhes dê sustento, 6 Desvelos, que lhes são
bem compensados, Da rama espia o tempo de olho atento E com sôfrego
anelo espera o dia, 9 Da alvorada aguardando o nascimento; Tal vigilante Beatriz
eu via Para a plaga voltada luminosa, 12 Onde mais lento o sol me parecia.
Vendo-a assim pronta em vista e cuidadosa, Homem fiquei, que melhorar-se
aspira 15 E na esperança alenta a alma cuidosa.
Porém, breve, a demora logo expira Entre atentar e ver que o céu
se aclara 18 Com luz, que, viva mais e mais, subira.
— “Eis a milícia” — a dama diz preclara —
“Da vitória de Cristo! Eis a colheita, 21 Que o giro entre as
esferas nos depara!” Parece a face ter de flamas feita; Arde nos olhos
seus tanta alegria, 24 Que a palavra a dizê-la não se ajeita.
Qual Trívia em plenilúnios irradia Entre as ninfas eternas
se sumindo, 27 De que o céu nos recessos se alumia, Sobre milhões
de fogos refulgindo Um sol vi, que os clarões seus lhes prestava, 30
Como aos astros o nosso a luz partindo.
Por entre o aceso lume fulgurava A Divina Substância tão brilhante
33 Que a vista, contemplando-a, desmaiava.
— “Ó Beatriz! Ó guia doce e amante!” —
Tornou-me: — “O que te enleia a inteligência 36 Força
invencível tem, sem semelhante.
“Aqui stá o Saber e a Onipotência, Que para o céu
caminho abrindo à terra,
39 Cumpriu-lhe inextinguivel apetência.” Como o fogo da nuvem
se descerra, No seio, estreito já, se dilatando, 42 E, devendo subir,
baixa e se aterra, Assim, entre delícias se alargando, Alma senti num
êxtase arroubada; 45 Qual fui não sei, de todo me olvidando.
“Abre os olhos e vê qual sou tornada; Pois te foi dado ver tanto
portento 48 Já posso, ora a sorrir ser contemplada.” —
Estava eu como quem, no pensamento De passada visão vestígio
tendo 51 Salvá-los quer em vão do esquecimento, Quando a sublime
oferta recebendo, De gratidão me entrei, que não se apaga 54
Do livro, em que o passado está vivendo.
Se quantos c’as irmãs Polínia afaga, Com dulcíssimo
leite os alentando, 57 Por eloqüência me ajudassem maga, Na milésima
parte eu, me afanando, Cantar não conseguira o santo riso, 60 Que raiava
no aspeito venerando.
Desta arte, descrevendo o Paraíso Saltar deve este meu sacro poema,
63 Como em caminho às vezes é preciso.
Mas quem pensar que é ponderoso o tema E débil o ombro, que
lhe está sujeito, 66 A mal não levará, se ao cargo eu
trema.
Não é para baixel pequeno e estreito O mar que a proa vai cortando
agora, 69 Nem para nauta a se poupar afeito.
— “Porque tanto o meu gesto te enamora, Que não contemplas
o jardim formoso, 72 Que aos doces raios de Jesus se enflora? “Tem a
Rosa, em que o Verbo milagroso Carne se fez; os lírios têm, que
ensinam 75 O bom caminho pelo odor mimoso.” — Assim diz Beatriz.
Pois me dominam Seus conselhos, aos transes se oferecem 78 Meus olhos, que
ante a luz débeis se inclinam.
À sombra estando, às vezes me aparecem Prados vestidos de formosas
flores 81 Do sol aos raios que entre nuvens descem; Assim turbas distingo
de esplendores, A que do alto baixaram mil ardentes
84 Clarões sem ver a causa dos fulgores.
Ó Virtude beni’na que esplendentes Os fazes, deste espaço,
assim subindo, 87 Aos meus olhos, pra ver-te inda impotentes.
Da bela flor o doce nome ouvindo, Que noite e dia invoco sempre, atento 90
No lume, que maior stava fulgindo, Quando em sua grandeza e luzimento Vi com
meus olhos essa viva estrela, 93 Que vence, como aqui, no firmamento; Do céu
baixando flama se revela, Que em forma circular, como coroa 96 Cingiu-a, se
agitando em torno dela.
A melodia que mais branda soa Na terra e as almas para si mais tira, 99 Trovão
seria, que das nuvens troa, Comparada à doçura dessa lira, Que,
do azul mais suave em céu vestido, 102 C’roava a bela, divinal
safira.
— “Sou angélico amor, que, assim movido, Mostro o prazer,
que vem do seio santo, 105 Que ao Salvador do mundo albergue há sido.
“Hei de girar, do céu Senhora, enquanto Deres, do filho entrando
em companhia, 108 À suma esfera mais divino encanto.” —
Cantava assim da c’roa a melodia.
Dos outros lumes todos almo canto 111 O nome proclamava de Maria.
Dos orbes o primeiro, régio manto, Que sente mais fervor, que mais
se anima, 114 Do Supremo Senhor ao sopro, tanto De nós distante se
internava acima, Que o aspecto seu na imensidade pura, 117 De distinguir a
vista desanima.
Dos olhos meus a força em vão se apura, Seguir querendo a flama
coroada, 120 Que após seu Filho ergueu-se para a altura.
Qual criança, de leite saciada, Que, ávida ainda, à
mãe estende os braços, 123 No afeto seu mostrando-se inflamada,
Cada esplendor, subindo nos espaços, Tendia-se, a Maria revelando 126
Quanto os prendem de amor excelso os laços.
Depois ver se fizeram modulando “Regina coeli” em tanta consonância,
129 Que me perdura na alma esse hino brando.
Oh! dos celestes prêmios que abundância Se contém nesses
cofres, que hão guardado 132 Frutos colhidos na terrena estância!
No céu se frui tesouro acumulado, No pranto e em Babilônia conseguido,
135 Onde o ouro ficara desdenhado.
Do filho de Maria conduzido, Lá triunfa, por sua alta vitória,
Das duas leis aos santos reunido, 139 Quem guarda chaves da celeste glória.
25. Trívia, é um dos nomes de Diana, isto é da lua.
— 29. Um sol, Jesus Cristo. — 32. A divina substância, Jesus
Cristo — 37.
O Saber e a Onipotência, Jesus Cristo — 55. Polínia, a
musa da poesia lírica. — 73. Rosa, a rosa mística, a Virgem
Maria. — 74.
Os lírios, os Apóstolos. — 88. Da bela flor o nome etc.,
a Virgem Maria. — 92. Essa viva estrela, a Virgem Maria. — 112.
Dos orbes o primeiro, régio manto, o nono céu, isto é,
o primeiro móvel, que envolve os oito céus inferiores. —
119. A flama coroada, a Virgem Maria, coroada pelo arcanjo Gabriel. —
138.
Das duas leis os santos, os santos do Velho e do Novo Testamento. —
139. Quem guarda as chaves etc., S. Pedro.
CANTO XXIV
Beatriz roga aos santos que iluminem o intelecto de Dante. Eles manifestaram
o seu assentimento. O mais luminoso entre os santos, S. Pedro, aproxima-se
mais do Poeta, o interroga sobre a Fé. O apóstolo aprova inteiramente
as respostas de Dante o abençoa, cingindo-o três vezes com o
seu esplendor.
“Ó SODALÍCIO, à ceia convidado Do cordeiro de
Deus, que dá sustento 3 Tal, que o apetite heis sempre saciado, Se
inda antes de chegar ao passamento Preliba este homem — assim Deus dispensa
— 6 Da mesa, em que comeis, tênue fragmento: Alívio dai-lhe
em sua sede imensa.
Na fonte sempre hauris, de que deriva 9 Quanto ele, sôfrego aspirando,
pensa.” — Disse então Beatriz. Com flama viva, À
guisa de cometa, a grei contente, 12 Como esferas em pólos, gira ativa.
Em relógio quem põe atenta a mente, Das rodas uma cuida estar
sem moto 15 E correndo estar outra velozmente:
Pelo vário compasso que lhes noto Nas coréias, já lento,
já apressado, 18 Da glória sua a estimativa adoto.
Do círc’lo em mor beleza assinalado Um lume vi surgir tão
venturoso, 21 Que outro nenhum ficara avantajado.
Em torno a Beatriz girou formoso Por vezes três com tão divino
canto, 24 Que trasladar não posso o som donoso.
Screver não cabe à pena enlevo tanto, Cores não tem
palavra ou fantasia, 27 Que exprimam propriamente o doce encanto.
— “Santa irmã nossa, que dessa arte envia Devotos rogos,
teu ardente afeito 30 Dessa bela coréia me desvia.” — Parando,
o bento lume ao claro aspeito De Beatriz o sopro há dirigido, 33 Que
falou do que eu disse pelo jeito.
— “Eterna luz desse varão subido, Que de Deus” —
torna — “as chaves da alegria 36 Que infinda à terra deu,
hás recebido, “Deste homem como queiras avalia
O saber sobre a Fé lhe perguntando, 39 Pela qual sobre o mar andaste
um dia.
“Se bem crê, se bem spera, terno amando, Certo sabeis, pois tens
fitado a vista 42 Onde tudo se está representando.
“Mas como cidadãos o céu conquista Pela Fé verdadeira,
para honrá-la 45 Explique ele por que na Fé persista.”
— O bacharel apresta-se e não fala Té que o Mestre a questão
haja of’recido, 48 Por aprová-la, não por terminá-la:
Assim, de todas as razões munido, Dispus-me, enquanto Beatriz se explica,
51 A tal assunto, por tal Mestre arguido.
— “Teu pensar, bom cristão, me significa: O que é
Fé?” — Presto, ouvindo, o rosto alçava 54 Para a
luz, que a questão desta arte indica.
Voltei-me a Beatriz: já me acenava Para que sem detença água
fizesse 57 Brotar da interna fonte, onde a guardava.
— “A graça, que concede eu me confesse Ao sublime Primópilo”
— assim digo — 60 “Permita que os conceitos claro expresse!
“Como escrito, Pai meu,” — depois prossigo — “Foi
com verdade pelo irmão amado, 63 Que Roma em bom caminho pôs
contigo, “É a Fé a substância do esperado E argumento
evidente do invisível: 66 Da Fé a essência assim tenho
julgado.” — Tornou-me: — “O parecer teu é plausível,
Se o porque foi substância definida 69 E argumento te fica inteligível.”
— — “De mistérios” — disse eu —
“soma crescida, A mim nestas esferas revelada, 72 Está na terra
aos olhos escondida.
“Sua existência em crença é só firmada,
Em que se fundamenta alta Esperança: 75 Substância, pois, tem
sido intitulada.
“E como em crença o raciocínio lança As premissas
sem ter mais outra vista, 78 Por isso de argumento o nome alcança.”
— — “Se quanto lá na terra homem conquista Por doutrina,
assim fosse comprendido, 81 Lugar faltava ao engenho do sofista” —
Daquele aceso amor foi respondido;
E mais: — “Nesta moeda examinado 84 Metal e peso muito bem tem
sido.
“Mas diz: na bolsa a tens arrecadado?” — — “Sim”
— tornei — “tão redonda é, tão polida,
87 Que do bom cunho estou certificado.” — A voz então,
desse esplendor saída Perguntou-me: — “Essa pedra preciosa,
90 Em que toda virtude se acha erguida “Donde a tens?” —
Eu: — “A chuva copiosa, Pelo Espírito Santo derramada 93
Na Lei antiga e nova portentosa, “Razão é, porque foi-me
demonstrada Com agudeza tal, que outra seria 96 Obtusa, se lhe fora comparada.”
— — “Porque divina lei pareceria A nova e a antiga”
— a voz logo retorna — 99 “Que a tão profunda convicção
te guia?” — — “É prova que a verdade clara
torna De obras a série” — eu disse — “a que
natura 102 Nunca ferro aqueceu, bateu bigorna.” — A luz me replicou:
— “Quem te assegura Que as obras fossem tais? Quem defendido 105
Por provas deve ser. Quem mais to jura?
709
Então falei: — “Se o mundo convertido Sem milagres de
Cristo à lei se houvesse, 108 Este o maior milagre houvera sido; “Porque
pobre, em jejum, para ter messe Semeado hás na terra ótima planta:
111 Onde foi vinha, hoje espinhal só cresce.” — Mal concluía,
quando a corte santa Nas esferas — Louvemos Deus! — entoa 114
Nessa toada, em que no céu se canta.
Do sublime Barão, que até a c’roa De ramo em ramo me
elevado havia, 117 Naquele exame, a voz de novo soa.
— “A graça com tua mente consorcia Tanto, que por teus
lábios tem falado: 120 Té aqui respondeste o que cumpria.
“Dou, pois, assenso ao que me tens tornado; Mas tua crença exprime,
lhe acrescendo 123 De que fonte à tua alma ela há brotado.”
— — “Ó Santo Padre, ó Spírito, que
vendo Stás quanto creste, tanto que chegaste 126 Ao Sepulcro, o mais
moço antecedendo, “Direi” — lhe torno — “(assim
determinaste)
Da minha Fé a fórmula evidente, 129 Sua origem direi como ordenaste.
“Em um só Deus eu creio onipotente, Eterno, que, imutável,
os céus move 132 No desejo e no amor sempre clemente.
“São, para que tal crença se comprove, Metafísica
e física discretas; 135 Mas da verdade a prova também chove
“Por Moisés, pelos salmos, por profetas, Pelo Evangelho e escritos,
que inspirado 138 Vos tem o Esp’rito Santo, almas seletas.
“Nas Três Pessoas creio afervorado; Creio na essência delas
Una e Trina, 141 Tanto que é stá com são bem conjugado.
“O que de altos mistérios da divina Condição digo,
em traços mil se assela 144 Em mim pela evangélica doutrina.
“Este o princípio, esta a fagulha bela, Que depois se dilata
em flama ardente 147 E em mim cintila, qual nos céus estrela.”
— Qual patrão, que de servo diligente Aprazíveis notícias
escutando, 150 Feito o silêncio, o abraça de contente,
Assim, quando acabei, me abençoando E cantando, três vezes me
acercava O esplendor apostólico, mostrando 154 Das respostas que eu
dei quanto folgava.
20. Um lume, S. Pedro. — 39. Pela qual sobre o mar andaste um dia,
sobre as águas do Mar de Tiberíade, S. Mateus, Ev. XIV. —
59. Primópilo, assim chamava-se, no exército romano, o centurião
da primeira coorte; aqui indica S. Pedro. — 62. Irmão amado,
S. Paulo. – 64-66. A fé etc., Dante repete a definição
que da fé deu S. Paulo na Epístola aos Hebreus, XI, 1. —
98. A nova e a antiga, o novo e o velho testamento. — 106-108. Se o
mundo convertido etc., Dante repete a argumentação de S. Agostinho,
De Civ. Dei, livro XXIV, cap. 5. — 125-126. Que chegaste ao sepulcro
etc. S. Pedro chegou ao sepulcro de Jesus, depois da ressurreição,
antes de S. João Evangelista. João XX, 1-9.
CANTO XXV
S. Tiago examina o Poeta sobre a Esperança, perguntando em que ela
consiste, se ele a possui, de onde veio nele. À segunda pergunta responde
Beatriz; às outras duas responde Dante.
Aproxima-se S. João Evangelista, e diz a Dante que o seu corpo, apesar
da comum opinião, morrendo, ficara na Terra.
SE este sacro poema houver podido (Em que tem posto a mão o céu
e a terra 3 E em que hei por tanto tempo emagrecido) Aquele ódio abrandar
que me desterra Do belo aprisco, onde eu dormi cordeiro, 6 Contrário
aos lobos, que lhe movem guerra; Com voz e lã melhor que de primeiro
Voltando, eu do batismo sobre a fonte 9 Hei-de, vate, cingir-me de loureiro;
Pois lá entrei na fé, que uma alma insonte Aproxima de Deus
e causa há sido 12 De girar Pedro em torno à minha fronte.
Então a nós um lume vem saído Da grei, a que a primeira
pertencia 15 Dos vigários, que há Cristo instituído.
Beatriz, resplendente de alegria, — “Olha!” — me
disse — “Eis o Barão famoso 18 Por quem vai-se à
Galízia em romaria! Quando à consorte acerca-se amoroso O pombo,
cada qual mostra, girando 21 Entre arrulhos o ardor seu amoroso: Os dois Príncipes
vi tão ledos, quando Da glória sua no esplendor se acolhem 24
O manjar, que se frui no céu louvando.
Depois que as saudações entre si colhem Coram me cada um tácito
fica 27 Com tais clarões, que de os olhar me tolhem.
Sorrindo, Beatriz assim se explica: — “Ó alma egrégia,
por quem foi descrita 30 Delícia, de que a nossa igreja é rica,
“Aqui a Esp’rança faz ouvir bendita: Mostraste-a, toda
vez que aos três há dado 33 Jesus de vê-lo em sua Glória
a dita.” — — “Ergue o rosto com spírito esforçado,
Pois da terra quem sobe a tanta altura 36 Ser deve ao brilho nosso afeiçoado.”
— O ânimo desta arte me assegura
A luz segunda; a vista, pois, levanto 39 Aos montes, cujo lume a fez escura.
— “Se o nosso Rei te há dado favor tanto, Que vês
os condes seus antes da morte 42 Do seu palácio no recinto santo, “Porque,
vindo é verdade desta corte, A Esperança, que tanto os homens
prende, 45 Em ti, nos mais o coração conforte.
“O que ela seja diz, como se acende Em tua alma; diz donde se origina.”
— 48 Estas palavras inda o santo expende.
E quem as plumas conduziu beni’na Das asas minhas neste vôo ingente,
51 Tornou, por que a resposta me previna: “A militante Igreja um mais
ardente Filho não tem na Esp’rança, como escrito 54 É
no Sol, que alumia a nossa mente.
“Eis por que Deus permite que do Egito, Para ver a Sião tinha
chegado 57 Antes de estar o tempo seu prescrito.
“Os outros pontos dois lhe hás perguntado, Somente por que à
terra ele respira 60 Quanto és desta virtude deleitado.
“Lhos deixo, sem que assim vangloria aufira; Poderá responder
ao teu contento, 63 Se a Graça divinal o alenta e inspira.
“Como discíp’lo, que a seu Mestre atento De assunto fala,
em que é perito e experto, — 66 Folgando de mostrar zelo e talento,
“Esperança é” — disse tu — “guardar
certo Da Glória, pela Graça produzida 69 E mérito provado
e descoberto.
“Sendo luz de astros muitos procedida, Pelo sumo cantor do Sumo Guia
72 Foi-me primeiro na alma introduzida.
“Espere em ti — na excelsa Teodia Disse — aquele, que o
nome teu conhece: 75 Com fé como eu, quem não conheceria? “Como
seu rocio, também sobre mim desce O da Epístola sacra e, redundante,
78 Outros inunda a chuva, que recresce.” Falava assim: do seio coruscante
Daquele incêndio tremulava chama, 81 Qual relâmpago, súbita,
incessante.
Respondeu-me: — “Esse amor que inda me
inflama Pela virtude, que me dera alento 84 No martírio, ao findar
da vida a trama, “Atrai-me a ti, que tens contentamento Por ela; e,
pois, me diz de qual ventura 87 A Esperança te fez prometimento.”
— E eu: — “Foi declarado na Escritura O sinal (sua forma
está sabida) 90 De almas, que, amigas, o Senhor apura “Disse
Isaías: cada qual cingida Em sua pátria será de dupla
veste, 93 E a pátria sua é nesta doce vida.
“Por que mais a verdade manifeste, Das cândidas estolas discorrendo
96 Mais claro teu irmão falou do que este.” — Palavras
tais eu proferido havendo.
“Sperant in te” ressoa lá da altura, 99 Ao hino os coros
todos respondendo.
Lume entre eles depois tanto fulgura, Que, se o Câncer tivesse igual
estrela, 102 Fora do inverno um mês luz sem mistura.
Como leda no baile entra a donzela E, para a noiva honrar, dança inocente
105 Sem que vício ou vaidade impere nela: O clarão assim vi
resplandecente Aos dois se apropinquar, que circulavam 108 Quanto convinha
ao seu amor ardente.
Entrou no canto e dança, que formavam: Qual sem voz sposa imota, aos
três o aspeito 111 De Beatriz os olhos contemplavam.
— “O santo é este, que estreitava ao peito O nosso Pelicano
e dele há sido 114 Sobre a cruz à missão sublime eleito.”
— Assim diz Beatriz. Sempre embebido O seu olhar está na luz
terceira 117 Depois, como antes de eu a ter ouvido.
Quem do sol fita os olhos na carreira, Crendo vê-lo de eclipse anuviado,
120 Para ver sente o efeito da cegueira: Por esse lume assim fui deslumbrado.
— “Por que te afanas procurando” — fala — 123
“O que no céu não pode ser achado? “Na terra o corpo
meu à terra iguala, Até que o nosso número complete 126
O que eterno propósito assinala.
“Ter vestes duas só do céu compete No claustro aos lumes
dois, que se elevaram: 129 Esta verdade ao mundo teu repete.” —
Calou-se e os esplendores três pararam E com eles a doce melodia, 132
De que os sons a coréia acompanharam.
O remo, assim, que o mar de antes feria, Se há fadiga ou perigo, é
bem que cesse, 135 Logo ao sinal do apito, que assobia: Na mente ai! quanto
a comoção recresce, Quando o gesto não pude ver formoso
De Beatriz ainda que eu stivesse 139 Ao seu lado e no mundo glorioso!
1-6. Se este sacro poema etc. Dante exprime a esperança que o seu
Poema abrande os espíritos dos seus concidadãos e lhe seja concedida
a volta a Florença. — 17-18. O Barão etc., S. Tiago, cujo
corpo foi sepulto em Compostela, na Galícia. — 24. O manjar,
Deus. — 29-30. Por quem foi descrita etc. refere-se Dante à chamada
epístola católica que, porém, por muitos é atribuída
a S. Tiago Zezedeu. — 32-33. Toda vez etc.: no Evangelho os três
apóstolos Pedro, João e Tiago figuram as três virtudes
teologais, a fé, a caridade e a esperança.
CANTO XXVI
O apóstolo S. João interroga Dante a respeito da terceira virtude
teologal, a Caridade. Responde Dante e os seus conceitos são aplaudidos
por toda a corte celeste. Beatriz reaviva no Poeta a vista que estava ofuscada.
Aproxima-se Adão que lhe fala e esclarece alguns pontos duvidosos de
Dante.
FOSSE já morta a vista eu receava, Eis da fúlgida flama, que
ofuscara, 3 Atento fez-me a voz, que assim falava: — “Enquanto
a força a vista não repara, Que em minha nímia luz hás
consumido 6 Compensação no discursar depara.
“Começa e diz pra onde é dirigido Teu espírito
e sabe que, se escura 9 A vista sentes, não a tens perdido; “Pois
quem te guia na divina altura Virtude tem no olhar, como Anania 12 Nas mãos
tivera, que a cegueira cura.” — — “Quando bem lhe
aprouver” — eu respondia — “Remédio aos olhos
dê, por onde a chama 15 Com ela entrou, que sempre incendia.
“O Bem, que pelo céu prazer derrama Alfa e Ômega há
sido na escritura, 18 Que amor ou forte ou leve em mim proclama.” Aquela
mesma voz, que me assegura Não haver eu de súbito cegado, 21
Inda excitar-me a lhe falar procura.
— “Por mais estreito crivo ser passado Deves” — disse
— “e portanto denuncia 24 O que ao fito há teu arco endereçado.”
— — “Razões” — tornei — “da
sã filosofia E autoridade, que daqui descende, 27 Me influem desse
amor toda a energia.
“O bem, enquanto bem, quando se entende, Ateia amor que é tanto
mais ardente, 30 Quanto mais de bondade em si comprende.
“É pois, essência, em si tanto excelente, Que todo bem,
que ser lhe possa externo 33 Reflexo é só da sua luz fulgente;
“Atrai, mais que outra, o espírito, que, terno, Amando, conhecer
pode a verdade, 36 Que desta prova é o alicerce eterno.
“Dessa verdade eu vejo a claridade
Naquele, que demonstra o amor primeiro 39 De todo ente, a quem cabe eternidade.
“Vejo na voz do Autor, só e verdadeiro, Que de si disse, a Moisés
falando: 42 — O bem te hei-de mostrar perfeito e inteiro. — “Também
tu mo revelas, começando O sublime pregão, que à terra
ensina, 45 Mais que os outros, o arcano venerando.” — —
“Pela razão” — ouvi — “pela divina Autoridade,
que com ela acorda, 48 O amor teu, e mais que tudo a Deus destina.
“Diz-me, porém: não sentes outra corda, Que para Deus
te arrasta? Faz patente 51 Com quantos dentes esse amor te morda.” —
Da Águia de Cristo não me foi latente O propósito santo
e onde queria 54 Na profissão levar-me diligente.
— “Estímulos, que possam” — lhe eu dizia —
“Para Deus impelir a humana essência, 57 Tem minha caridade noite
e dia; “Porque do mundo o ser; minha existência; A morte que sofreu
para que eu viva; 60 O que espera um cristão da fé na ardência;
“Do bem, que eu disse, a inteligência ativa, Me afastaram do
mar do amor culpado, 63 Do santo amor me conduzindo à vida.
“As flores, de que o horto é todo ornado, Do Jardineiro eterno,
eu amo tanto, 66 Quanto ele em perfeição lhes tem doado.”
— Calei-me e resoou melífluo canto Pelo céu, que Beatriz
acompanhava, 69 Dizendo todos: — Santo! Santo! Santo! — Como pungente
luz olhos destrava Do sono, a vista, o brilho procurando, 72 Que as pálpebras
descerra, invade, agrava; E o desperto, os motivos ignorando Da súbita
vigília, olhos desvia, 75 Na mente, entanto, a reflexão calando:
Em mim, dessa arte, a névoa desfazia De Beatriz o olhar, que pelo espaço
78 De mais de milhas mil resplendecia.
Então mais claro que antes a ver passo: Quarta luz perto a nós,
maravilhado, 81 Diviso e uma pergunta logo faço.
E ela: — “Nesse lume, ora chegado,
Seu Criador contempla a alma primeira 84 Que a Virtude primeira haja criado.”
— Qual fronde, que, ao soprar da aura ligeira, O cimo curva e, logo
após, se erguendo 87 Pela força, que a torna sobranceira, Tal
eu, essas palavras lhe entendendo Atônito fiquei; depois seguro 90 Fez-me
um desejo, que me estava ardendo.
— “Único pomo, que nasceu maduro! Dos homens pai, que
hás visto filha e nora 93 Em cada esposa então e no futuro!
“Devota e humilde a minha voz te exora! Fala-me, pois! Do meu desejo
és certo; 96 Almejo ouvir-te, e não to expresso agora.”
— Como de manto um animal coberto Movimento, que os membros seus agita
99 Pelo envoltório, deixa descoberto: Assim essa primeira alma bendita
Pelo tremor da sua luz mostrava 102 O prazer de agradar-me quanto a excita.
— “Não hei mister declares” — me tornava —
“Teu desejo, melhor que tu sabendo 105 Quanto a certeza em tua mente
grava.
“Nesse espelho infalível estou lendo, Em que é todo o
visível refletido, 108 Cousa nenhuma o refletir podendo.
“Ouvir aspiras quando vindo hei sido Lá no santo jardim, donde,
guiado 111 Por tão comprida escada, tens subido; “Quanto tempo
ali fui deliciado; Da cólera divina a causa vera; 114 Que idioma falei,
por mim formado.
“O pomo, ó filho meu, não considera Motivo só
por si do acerbo exílio, 117 Mas ordens transgredir, que Deus me dera.
“Lá donde Beatriz moveu Virgílio Quatro mil e trezentos
e dois anos 120 A ventura anelei deste concílio.
“Do desterro senti na terra os danos, Enquanto vezes novecentas trinta
123 Seu giro fez o sol do céu nos planos.
“Antes que a gente de Nemrod consinta Em meter mãos à
obra interminável, 126 A língua, que falei, se achava extinta.
“De homem feitura sempre perdurável
Não é; vem do capricho e um dia cessa, 129 Do céu segundo
o influxo variável.
“A humana fala a natureza expressa; Por ela o modo de falar deixado
132 Ao homem está, segundo lhe interessa.
“Antes de eu ter no inferno penetrado El o supremo bem significava,
135 Que desta leda luz me há circundado; “Depois em Eli o nome
se mudava; Qual rama dos mortais uso varia, 138 Sucede a folha nova à
que secava.
“No monte, que mais alto ao ar se envia Santa vida vivi, depois culpada,
Da hora prima à sétima do dia, 142 Noutro quadrante o sol fazendo
entrada.”
2. Fúlgida flama, S. João Evangelista. — 11. Anania;
a mão de Ananias teve a virtude de restituir a vista a S. Paulo, que
ficara cego pela luz do céu que o investiu (Atos dos Apóstolos
IX, 10- 17). — 38. — Naquele etc. Dante se refere ou a Platão
ou a Aristóteles, em algum ponto dos seus livros no qual declaram que
Deus é a suprema causa. — 44-45. O sublime pregão, o Evangelho
de São João. — 83-84. Alma primeira, Adão; Virtude
primeira, Deus. — 118-120. Lá donde etc. o limbo. — Dante,
seguindo o cálculo d’Eusébio, crê que da criação
do mundo até a morte de Jesus Cristo passaram 5.232 anos, subtraindo
dos
quais os 950 que Adão viveu, ficam 4302 anos. — 139-141. No
monte etc., Adão viveu no Paraíso Terrestre, isto é,
na parte mais alta do monte Purgatório, apenas sete horas.
CANTO XXVII
S. Pedro exprobra os maus pastores da Igreja; e todos os santos manifestam
a sua aprovação às palavras do Apóstolo.
Novamente o Poeta contempla a Terra, e, depois, com Beatriz, eleva-se ao
Primeiro Móvel.
GLÓRIA ao Pai! Glória ao Filho! ao Espírito Santo! Uníssono
entoava o Paraíso: 3 Senti-me inebriado ao doce canto.
Pareceu-me o que eu via um doce riso Do universo: tomava-me a ebriedade 6
Pelos olhos e ouvidos o juízo.
Ó júbilo! Ó inefável f’licidade! De paz
ó vida inteira e de ternura! 9 Riqueza certa, isenta de ansiedade!
Fulgia-me ante os olhos a luz pura Dos esplendores quatro; mais brilhante
12 O que veio primeiro eis se afigura! E tal se me apresenta o seu semblante,
Qual fora Jove, se, aves ele e Marte, 15 A plumagem trocassem rutilante.
A Providência, que no céu reparte Tarefa a cada qual, calar
fizera 18 O venturoso coro em toda parte, Quando lhe ouvi: — “A
cor se em mim se altera Não o estranhes: enquanto estou falando 21
Mudança igual em todos ver espera.
“Quem, meu lugar na terra ora usurpando, Meu lugar, meu lugar, vago
em presença 24 De Cristo o deixa, converteu nefando “Meu cemitério
na sentina imensa De sangue e podridão, com que o perverso, 27 Do céu
lançado, frui delícia intensa.” — O céu então
eu vi todo submerso Na cor, que por manhã e à tarde acende 30
Sobre as nuvens o sol do lado adverso.
Qual a dama, que à virtude cultos rende E, de si bem segura, se enrubesce,
33 Quando torpezas de outra ouve e compreende, Beatriz transmudada me parece,
Ao céu ante a paixão do Onipotente 36 Igual eclipse em seio
que envolvesse.
Prosseguiu logo o Apóstolo eminente; E tanto a voz lhe estava demudada,
39 Que mais não fora o vulto seu rubente.
— “Com sangue meu a Igreja alimentada Não foi, nem Lino
e Cleto o seu lhe deram 42 De ouro em ganância para ser mudada.
“Como Calixto e Pio mereceram, Urbano e Sixto a sempiterna vida? 45
Pós muito pranto o sangue seu verteram.
“Por nossos sucessores dividida Não quisemos a grei —
parte chamada 48 À destra, parte à esquerda repelida; “Nem
que das chaves fosse a insígnia usada Por estandarte em campo sanguinoso
51 Contra cristãos em guerra encarniçada.
“Nem que, por privilégio mentiroso De traficância, em
selo eu figurasse 54 Quanta vez de pudor me acendo iroso! “Com vestes
de pastor lobo rapace Daqui em cada pascigo se avista: 57 Para que não
surgiu Deus, que os fulminasse? “De Gasconha e Cahors raça malquista
Beber-nos sangue vem: belo começo, 60 O indi’no fim que tens,
quanto contrista!
“Mas Deus que a Roma, do seu mal no excesso, De mundo em glória
os Cipiões mandava, 63 Dará socorro, como foi-me expresso.
“E tu, que o peso da matéria grava, Voltando, ó filho,
ao mundo lhe revela 66 Quanto eu te digo dessa gente prava.” —
Como o vapor nos ares se congela, E em flocos baixa, quando o sol tocado 69
Pelas pontas está da Cabra bela; Assim vi eu o éter adornado
De clarões triunfantes, que detido 72 Haviam-se na altura ao nosso
lado.
Tinha-os a vista na ascensão seguido E os seguiu té que enfim
subir avante 75 Pelo espaço não foi-lhe permitido.
Que eu não podia ver mais adiante Notando, Beatriz disse: —
“Repara 78 Quanto agora, girando, estás distante.” —
Desde a hora, em que a terra eu contemplara, Por todo o arco, que o clima
faz primeiro, 81 Do meio até o fim, já me avançara.
A passagem, que Ulisses aventureiro Além Gades tentou e a plaga via,
84 Em que Europa foi cargo prazenteiro, Naquela área inda mais divisaria;
Porém sob os meus pés o sol andava 87 Distância, que a
de um signo precedia.
A namorada mente, em que reinava Sempre a Senhora minha, no incentivo, 90
Mais que nunca de olhá-la se inflamava.
Se de arte ou natureza almo atrativo Pelos olhos prender nos pode a mente,
93 Seja em pintura, seja em corpo vivo, Nada foram, conjuntas, certamente,
Ante o enlevo que o peito me ilumina, 96 Quando me volta ao gesto seu ridente.
Virtude, olhando-a em mim tanto se afina Que do ninho de Leda me destrava
99 E ao céu velocíssimo me empina.
Tanto na altura e brilho se mostrava Uniforme este céu, que eu não
sabia 102 Qual pouso Beatriz me destinava.
Ela, porém, que o meu desejo via No sorriso tão leda assim
começa, 105 Que em seu rosto exultar Deus parecia.
— “O movimento, que no centro cessa, Em torno ao qual, porém,
tudo o mais gira, 108 Daqui partindo à roda se endereça.
“Somente a sua ação este céu tira Da soberana
Mente, em que se acende 111 O amor, que o move, o influxo, que respira.
“De luz e amor um círculo o compreende, Assim como ele aos mais;
deste precinto 114 Unicamente quem lho cinge entende.
“Seu movimento é por si só distinto, Por ele os outros
céus medidos sendo, 117 Como dez por metade e por seu quinto.
“Ficas, portanto, ao claro conhecendo Como o tempo a raiz neste céu
tenha, 120 As ramas pelos outros estendendo.
“Fatal cobiça; que os mortais despenha Em tão profundo
pélago, que alçar-se 123 Do abismo fora a vista em vão
se empenha! “Nos homens o querer pode enflorar-se, Mas de chuvas contínuas
açoutado 126 Bom fruto são não há-de conservar-se.
“Fé, inocência, abrigo têm buscado Nas crianças;
mas cada qual se esquiva
129 Antes que à face o buço haja apontado.
“Quem balbucia de comer se priva; Em tendo solta a língua, a
qualquer hora 132 Mostra em toda iguaria fome ativa.
“Quem balbucia a mãe respeita e adora; Mas, quando a voz já
sente desprendida, 135 Vê-la em mortalha o seu desejo exora.
“Assim de alva se torna enegrecida A cutis da gentil filha daquele,
138 Que traz manhã, da noite em despedida.
“Estranheza, porém, de ti repele Vendo o gênero humano
transviado: 141 Quem há que em bem regê-lo se desvele? “Por
força do centésimo olvidado Inda antes de deixar Janeiro o inverno,
144 Hão de as esferas dar tão forte brado, “Que a fortuna,
de esp’rança alvo hodierno Fará que as popas dêm
lugar às proas, A armada correrá com bom governo 148 E após
as flores virão frutas boas.” —
10-11. A luz pura dos esplendores quatro, as almas dos três apóstolos
e de Adão. — 13-14. O seu semblante, qual fosse Jove etc., S.
Pedro de branco que era ficou vermelho, como o planeta de Marte. — 22.
Quem, meu lugar na terra ora usurpando, o papa Bonifácio VIII, que,
segundo o Poeta, obteve o Papado usando de fraudes. — 25. Meu cemitério,
Roma ou mesmo o Vaticano, onde segundo a tradição foi sepultado
o corpo de S.
Pedro. — 41. Lino e Cleto, S. Lino e S. Cleto foram sucessores de S.
Pedro. — 43-44. Sixto foi elevado ao Papado no ano 128; Pio em 154;
Calixto em 218 e Urbano em 231. — 58-59. De Gasconha e Cahors; o Poeta
alude a João XXII de Cahors, elevado ao papado em 1316 e a Clemente
V de Gasconha, papa em 1305. — 79-84. Desde a hora etc.; desde a hora
em que pela primeira vez eu olhara para a terra, notei que havia percorrido
a quarta parte da esfera e, por isso, eram passadas seis horas. — 98-99.
Ninho de Leda, constelação dos Gêmeos (Castor e Pólux
nasceram dos amores de Leda com o cisne). — 142-144. Por força
do centésimo olvidado etc., antes do mês de janeiro não
mais pertencer ao inverno, e sim à primavera, pela acumulação
das frações de tempo que não foram calculadas na reforma
do calendário efetuada por Júlio César, que ainda vigorava
no tempo do Poeta. — 147. A armada, a humanidade.
CANTO XXVIII
Dante volve os olhos para Beatriz, que estava atrás dele; depois mira
para a frente e vê um ponto brilhantíssimo, em torno do qual
se movem nove círculos de luz, que giram mais rapidamente e são
mais brilhantes quanto mais próximos estão dele. Aquele ponto
é Deus; os círculos são os coros angélicos.
DEPOIS que acerca do existir presente Dos míseros mortais mostrou
verdade 3 Aquela a que emparaísa a mente, Como quem vê no espelho
a claridade De tocha, que de trás esteja acesa, 6 Suspeita inda não
tenho da verdade; E, para olhar voltado, tem certeza De que o vidro é
fiel ao que apresenta, 9 Como o canto é do metro a natureza: Assim
minha memória representa Que eu fiz, nos belos olhos me enlevando,
12 Com que amor cativou minha alma isenta.
De os contemplar, porém, os meus deixando E no que esse orbe faz onipotente,
15 Quando em seu giro atenta-se os fitando,
Um ponto vi, que lume tão fulgente Dardejava, que a vista deslumbrada,
18 Fechava-se ante o lume translucente; Estrela, ao parecer, mais apoucada,
Junto dela, de lua figurada, 21 Como estrela ao pé de outra colocada.
Como a c’roa talvez, que se depara Cingindo astro, que a torna luminosa,
24 Quando o vapor que a tem mais condensara, Ígneo círc’lo,
em carreira impetuosa.
Distante, ao Ponto mais veloz cercava 27 Do que a esfera que vai mais pressurosa.
Este círc’lo primeiro outro abraçava; Ao terceiro o segundo,
outro ao terceiro, 30 Ao quarto o quinto e o sexto o circundava.
Tão largo o sétimo era, que, inda inteiro, Abrangido, por certo,
o não teria 33 Aquele, que de Juno é mensageiro.
Oitavo e nono assim: mas se movia Mais lento cada qual, segundo ele era 36
Mais longe do primeiro, que corria.
E a flama rutilava mais sincera
No que da Excelsa luz mais perto estava 39 Creio que em fluxo seu mais recebera.
Mas Beatriz, que o enleio meu notava — “Daquele Ponto o céu
e a natureza 42 Estão na dependência” — me falava.
“Olha o círc’lo mais próximo e a presteza, Que
tanto lhe acelera o movimento: 45 De ardentíssimo amor punge-o a viveza.”
— — “Se do mundo.” — eu lhe disse — “o
regimento Fosse qual nestes orbes aparece 48 Do que ouço eu conseguira
já contento; “Mas no mundo sensível me parece Ser cada
esfera tanto mais divina, 51 Quanto mais longe do seu centro desce, “Se
instruir-me o querer teu determina Neste seráfico, estupendo templo,
54 Que só com luz e com amor confina, “Explicar-me te digna,
porque o exemplo Não se conforma em tudo ao seu modelo: 57 Por saber
a razão em vão contemplo” — — “De desatar
o nó se ardente anelo Teus dedos não contentam, não te
espante: 60 Tal é, porque ninguém tentou solvê-lo.”
—
Tornou-me ela e seguiu: — “Terás bastante No que direi
de luz ao entendimento: 63 Aguça o engenho e escuta vigilante.
“Nos círc’los corporais o crescimento Regula pelo influxo,
que é spargido 66 Nas partes que lhes formam complemento.
“Mor bondade, mor bem tem produzido De mor bem foi mor corpo aquinhoado,
69 Se igual primor nas partes é contido.
“O círc’lo, pois, do qual arrebatado Gira o alto universo,
é referente 72 Ao de amor e ciência mais dotado.
“Se à virtude a medida propriamente Adaptas, não regendo-te
a aparência 75 Das substâncias, que em círc’los tens
em frente, “Mirífica hás de ver correspondência
Entre maior e mais, menor e menos 78 Em cada céu e a sua inteligência.”
— Como os ares são fúlgidos, serenos, Se Bóreas
sopra aquela face inchando, 81 Que os hálitos difunde mais amenos.
Resolvendo-se a névoa e se apagando A sombra que o hemisfério
enegrecia, 84 E o céu, a rir-se, as pompas ostentando: Assim eu, quando
aquela que me guia Com sua explicação minha alma aclara, 87
E a verdade, qual astro, me alumia.
Depois que as vozes suas rematara, Bem como ferro a faiscar fervente, 90
Dos círculos cad’un flamas dispara.
Cada centelha incêndio faz ingente Em soma tal, que a do xadrez passava,
93 Dobrando-se o algarismo infindamente.
De coro em coro hosana ressoava Ao Ponto, que ao seu ubi, onde têm
stado 96 E onde sempre estarão pra sempre os trava.
Ela, o espírito meu vendo atalhado, Disse-me: — “Aqueles
círculos primeiros 99 Te hão Serafins e Querubins mostrado.
Assim nos orbes seus volvem ligeiros Por semelhar-se ao Ponto e o conseguindo,
102 Segundo a vê-lo estão mais altaneiros.
“Os Amores, que em torno estão, seguindo, Tronos se chamam do
divino aspeto
105 O primeiro ternário concluindo.
“Prazer, bem sabes, todos têm seleto, Quanto mais sua vista se
aprofunda 108 Na verdade, alto fito do inteleto.
“Desta arte se conhece que se funda Mais na visão celestial
ventura 111 Do que no amor, ação, que vem segunda.
“Da visão é a medida a mercê pura, Por vontade
e por graça produzida: 114 De grau em grau se enalça a criatura.
“Outro ternário, que do céu movida.
Germina em primavera sempiterna, 117 Pelo Áries noturno não
despida, “Hosana entoa na harmonia eterna Com três coros; que
soam de alegria 120 Em ordens três, em cujo seio interna.
“Ordens três compreende a jerarquia, Dominações,
Virtudes, ocupando 123 Potestades final categoria.
“Nos penúltimos círculos girando, Principados e Arcanjos
resplandecem; 126 E dos Anjos, após festivo bando.
“No Ponto as Ordens todas se embevecem, De baixo a Deus são
todas atraídas, 129 E uma das outras a atração padecem.
“Contemplando-as, idéias tão subidas Dionísio
formou com tanto zelo, 132 Que as fez, como eu, por nomes conhecidas.
“Não quis Gregório como norma tê-lo; Neste céu
quando entrou, porém, se ria 135 Do erro, em que estivera, ao percebê-lo.
“Mortal, que o grã mistério compreendia E o disse à
terra, não te mova espanto: Quem tinha-o visto aqui lhe descobria 139
E mais verdade deste império santo.” —
33. Aquele que de Juno é mensageiro, Íride, o arco-íris.
— 38.
Excelsior luz, Deus. — 64. Circ’los corporais, os céus
do mundo sensível. — 67-69. Mor bondade etc.; os corpos que contêm
em si maior bondade difundem maior bem. — 73-78. Se a virtude etc.;
medindo os Céus não pela aparência, mas pela virtude,
verás que o menor que está mais perto de Deus corresponde ao
maior no mundo sensível; e assim por diante. — 94-96. De coro
em coro etc.; os coros hosanavam a Deus que os mantém no seu lugar,
onde estiveram e ficarão por toda a eternidade. — 109- 111. Desta
arte se conhece etc. Era uma questão da escolástica: a beatitude
celeste consiste na visão ou no amor? Dante segue S. Tomás que
a põe na visão de Deus. — 121-126. Ordens três etc.
O Poeta colocou nos primeiros três círculos os Serafins, os Querubins
e os Tronos; nos três círculos sucessivos estão as
Dominações, que ensinam a arte de dominar para o bem, as Virtudes
que operam os milagres, e as Potestades que ensinam a respeitar a autoridade.
Nos últimos círculos estão os Principados e os Anjos
e Arcanjos. — 131. Dionisio, o Aeropagita, que escreveu um livro sobre
as hierarquias celestes.
— 133. Gregório, o papa S. Gregório Magno que divergiu
das opiniões de S. Dionisio sobre as hierarquias celestes. —
138.
Quem tinha-os visto etc., S. Paulo, que em vida teve uma visão das
cousas celestes e foi mestre de S. Dionisio.
CANTO XXIX
Beatriz esclarece a Dante que os anjos foram criados por Deus no mesmo tempo
em que foram criados os céus. Fala-lhe dos anjos fiéis e dos
anjos rebeldes, os quais foram precipitados no Inferno.
Censura os falsos filósofos e os padres mentirosos que esquecem que
o escopo da predicação é persuadir os homens a serem
cristãos, e vendem as indulgências para obter bens materiais.
QUANDO aos dois gentis filhos de Latona, Um por Áries coberto, outro
por Libra, 3 A um tempo cinge do horizonte a zona, Quanto espaço o
zênite os equilibra, Té que mude o hemisfério e, desprendido
6 Deste cinto um e outro se deslibra, Tanto calou-se Beatriz, luzido De riso
tendo o rosto e olhos fitando 9 Nesse Ponto que os meus tinha vencido.
— “Teu desejo” — falou-me — “antecipando
Agora não te inquiro: já o hei visto 12 No centro de todo o
ubi e todo o quando.
“Não para ter mais perfeição, pois isto Fora impossível,
mas porque fulgindo
15 O seu splendor dizer pudesse, — Existo, — “Na Eternidade,
o tempo não medindo Nem o lugar, criar se há dignado 18 Amores
nove o Eterno Amor se abrindo.
“Antes não tinha na inação ficado: Nem antes,
nem depois era existente, 21 Quando Deus sobre as águas foi levado.
“Matéria e forma puras, juntamente, Quais setas de tricorde
arco voando 24 Saíram do ato da Infalível Mente.
“Como, em vidro, em cristal, em âmbar quando Luz do sol toca,
é logo refletida 27 Do vir ao ser distância não se dando,
“Tal a obra triforme, concluída De uma só vez, no ser
raiou perfeita 30 Sem star parte por outra antecedida.
“Ordem foi concriada, a que é sujeita Cada substância;
o cimo foi marcado 33 No mundo a que por ato puro é feita; “À
força pura imo lugar stá dado; São no meio travados força
e ato 36 Por nó que indissolúvel se há tornado.
“Jerônimo escreveu que longo trato De séc’los antes
de outro mundo feito 39 Fora dos anjos o império nato.
“A verdade, porém, stá no conceito De escritores, que
influi o Espírito Santo 42 Verás, pensando, da verdade o efeito.
“Razão em parte o vê também, porquanto Compreender
não pudera que os motores 45 Inertes fossem por espaço tanto.
“Sabes, pois, onde e quando esses Amores Criados foram e de qual maneira:
48 Do teu desejo apago três ardores.
“Em menos tempo do que a soma inteira De um a vinte se faz, dos anjos
parte 51 Turbou vosso elemento sobranceira.
“Fiel a outra emprega-se dessa arte, Que vês: assim girando jubilosa,
54 Deste excelso mister se não disparte.
“O mal causou soberba criminosa Do que hás visto no abismo do
tormento, 57 Do mundo sob a mole ponderosa.
“Mas estes, com modesto pensamento, Mostraram-se à Bondade agradecidos,
60 Que lhes deu tão sublime entendimento.
“Na vista se exaltando, enriquecidos São de mérito e
graça iluminante, 63 Por querer certo e firme dirigidos.
“Não duvides; e sabe, de ora avante, Que receber a graça
é meritório, 66 Segundo o afeto mostrar-se constante.
“Já, pois, este celeste consistório, Se quanto ora te
hei dito a mente alcança, 69 Bem podes contemplar sem adjutório.
“Como em vossas escolas se afiança, Na terra, que é da
angélica natura 72 O querer, o entender, o ter lembrança, “Eu
devo ainda revelar-te a pura Verdade, que entre vós se há confundido,
75 Sendo enleada por tão má leitura.
“Estas substâncias, o prazer obtido De verem Deus, jamais rosto
voltaram 78 Dos olhos a que nada oculto há sido.
“Seu ver, novos objetos não cortaram; Não há razão,
por que se lhes suponha 81 Rememorar idéias, que passaram.
“Assim na terra sem dormir se sonha, Crendo e não crendo proferir
verdade: 84 Neste caso há mais culpa e mais vergonha.
“De opiniões não tendes fixidade Filosofando, tanto vos
transporta 87 Da ostentação e de o pensar vaidade.
“No céu menos do que isto se suporta — Ser a Santa Escritura
desdenhada 90 Ou ter inteligência errada e torta.
“Para ser pelo mundo semeada Quanto sangue custou pouco se atenta,
93 E quanto a crença humilde a Deus agrada.
“Qual para alardear engenho, inventa; Quando o Santo Evangelho está
calado 96 Tais invenções o púlpito comenta.
“Qual diz que a lua, tendo atrás voltado, No ato da Paixão
de Cristo, houvera, 99 Interpondo-se, a luz do Sol velado.
“Qual afirma que o lume se escondera Por si mesmo; e o eclipse à
Índia, à Espanha 102 Comum como à Judéia, se fizera.
“Em Florença não há cópia tamanha De Lapi
e Bindi quanto só num ano
105 O púlpito de contos desentranha.
“Desta arte a ovelha, que não sabe o engano, Do pasto volta
túmida de vento, 108 Desculpa não lhe dá não vendo
o dano.
“Não disse Jesus Cristo ao seu convento: Parti e ao mundo apregoai
mentira; 111 Mas deu-lhes da verdade o fundamento; “Ele tão alto,
em sua voz se ouvira, Que foi-lhes o Evangelho escudo e lança 114 Nos
prélios, de que a Fé vitriz saíra.
“Ora em sermões o trocadilho, a chança Estão na
voga; o riso provocando 117 Incha o capuz; por nada mais se cança*.
“Se o vulgo vira o pássaro nefando, Que em cógula se
aninha, não quisera 120 Indulgências, em que se anda confiando;
“Stultícia tal da terra se apodera, Que, em prova e testemunho
não firmado, 123 Qualquer a dá-las apto considera.
“De Santo Antônio assim medra o cevado E outros muitos, que os
porcos mais ascosos, 126 Que pagam com dinheiro não cunhado.
“Mas longa vai a digressão; cuidosos Os olhos volve à
verdadeira estrada; 129 O tempo é curto, andemos pressurosos.
“É tanto a grei dos anjos avultada, Que nem por voz, nem por
humana mente 132 Ser pode a conta sua calculada.
“Bem te demonstra a reflexão prudente Que não diz dos
milhares, que revela 135 A soma Daniel precisamente.
“A luz primeira, que irradia nela, É por maneiras tantas recebida,
138 Quantos fulgores são, que a fazem bela.
“E, pois que a percepção logo é seguida Do amor,
do afeto angélico a doçura 141 Está em graus diversos
aquecida.
“Do Poder Eternal vê, pois, a altura E grandeza, que em espelhos
tão brilhantes A sua imagem multiplica pura, 145 Permanecendo um sempre
como de antes.”
1-9. Quando aos dois etc. Quanto tempo o Sol e a Lua, quando essas duas estrelas
estão – o Sol perto de Aries no poente, e a Lua perto da Libra
no oriente – encontrando-se simultaneamente no mesmo horizonte por poucos
momentos,
tanto tempo Beatriz ficou calada, fixando o Ponto luminoso, isto é Deus.
— 18. Amores nove, os nove círculos de anjos. — 22.
Matéria e forma etc.; Deus criou no mesmo tempo a forma pura (os anjos),
a matéria pura (os elementos), a forma conjunta à matéria
(os corpos e as almas). — 31-36. Ordem foi concriada etc.; na parte
superior do Universo foram colocados os anjos (ato puro); na inferior a matéria
pura; e no meio a forma conjunta à matéria. — 37-41. Jerônimo
etc. S. Jerônimo escreveu que os anjos foram criados antes do mundo
sensível; mas o Poeta está de acordo com outros escritores,
que se baseiam sobre os livros sagrados. — 50-51. Dos anjos parte etc.,
os anjos rebeldes convulsionaram a Terra. — 56. Do que hás visto
etc., Lúcifer. — 97-102. Qual diz etc. Os pregadores discutem
sem base nenhuma sobre a origem do eclipse que se deu no dia da morte de Jesus.
— 104. Lapi e Bindi, nomes comuns em Florença, no tempo de Dante.
— 109. Convento, os Apóstolos. — 124. De Santo Antônio
etc.; com essas fraudes os padres engordam.
* Conservou-se a grafia original (cança) em lugar da atual (cansa)
para preservar a rima. [NE]
CANTO XXX
Os nove coros angélicos aos poucos vão desaparecendo, Dante
volve os seus olhos novamente para Beatriz, cuja beleza é agora maravilhosa
a tal ponto que renuncia a descrevê-la. Eles estão no Empíreo,
e Dante vê um rio de luz, cujas ribas estão esmaltadas de flores.
Do rio saem centelhas que formam flores e depois voltam para as ondas. Enfim
vê uma grande rosa de luz na qual aparecem anjos e os bem-aventurados.
No meio há um trono preparado para o imperador Henrique VII.
TALVEZ milhas seis mil de nós distando, A hora sexta ferve e deste
mundo 3 A sombra vai-se ao nível inclinando, Quando o meio do céu,
p’ra nós profundo, Tal se faz que não mostra o seu semblante
6 Mais de uma estrela deste val ao fundo; E enquanto vem do sol a radiante
Núncia, o céu olhos cerra, adormecido 9 Um após outro
até o mais brilhante: Tal o triunfo, sem cessar movido De gáudio,
em torno ao Ponto deslumbroso, 12 Que parece, contendo estar contido,
Extinguiu-se aos meus olhos vagaroso.
Não vendo a pompa mais, a amor cedendo, 15 A Beatriz voltei-me fervoroso.
Num só louvor eu, resumir querendo Dela o que vezes mil tenho cantado,
18 Frustara o intento, o esforço meu perdendo.
Pelo humano ideal imaginado Não seria o primor, que vi mas, creio,
21 Gozá-lo todo, só a Deus é dado.
Neste árduo passo superado, anseio: Vate jamais em trágico
poema 24 Ou cômico sentiu tamanho enleio; Quanto a vista ao clarão
do sol mais trema.
Tanto a memória do seu doce riso 27 As potências do espírito
me algema.
Dês que vi do seu gesto o paraíso Na terra até me alçar
a visão pura 30 Meu canto renovar não foi preciso.
Mas seguir-lhe a sublime formosura Nos versos meus agora não me atrevo,
33 Como artista, que o extremo esforço apura.
Beatriz, sendo tal que a deixar devo A tuba, mais que a minha, sonorosa,
36 Enquanto esta árdua empresa ao termo levo, Com gesto e voz de guia
cuidadosa, — “Ao céu que é pura luz” —
disse — “ao presente 39 Alçamo-nos da esfera mais vultosa,
“Luz intelectual, de amor ardente, Amor do sumo bem, que enche a alegria;
42 Alegria em dulçores transcendente.
“Do céu verás, na santa bizarria, Uma e outra milícia:
uma no aspeto 45 Que hás de ver do final Juízo em dia.”
Como aos visivos espíritos direto Relâmpago, que a ação
lhes tolhe e os priva 48 De discernir o mais patente objeto, Circunfluiu-me
assim uma luz viva Com véu do seu fulgor, que me impedia 51 Em claridade
ver tanto excessiva.
— “Sempre o Amor, que este céu tanto extasia, Por ser
o círio à flama aparelhado, 54 Este saudar a quem recebe envia.”
— Bem não tinha estas vozes escutado, Eis senti que virtude milagrosa
57 A força minha havia sublimado;
Senti vista mais que antes poderosa E tal, que a luz mais penetrante e pura
60 Afrontar poderia valorosa.
Fúlvido lume um rio me afigura, Entre margens correndo, que esmaltava
63 A primavera da celeste altura.
Do seio essa corrente arremessava Centelhas; que entre as flores se espargiam
66 Como rubis, que o ouro circundava.
Quando ébrias de perfumes pareciam Reprofundavam na ribeira bela:
69 Se umas entravam, outras emergiam.
— “O desejo, que te urge e te desvela, De saber quanto vês
maravilhado 72 Me agrada neste excesso que revela.
“Não serás em tal sede saciado Senão dessa água
tendo já bebido” — 75 Dos meus olhos o sol me há
declarado.
“Os topázios, que movem-se, o luzido Rio e das flores o matiz
ridente 78 Prefácio umbroso da verdade hão sido.
“Não, por ser isto impenetrável à mente,
Mas por defeito da fraqueza tua, 81 Que te veda visão tanto eminente.”
— Não há criança, que tão presto rua Ao
seio maternal, em despertando 84 Mais tarde do que está na usança
sua, Como eu: melhor espelho desejando Fazer dos olhos, à água
me inclinava, 87 Que flui, pureza e perfeição nos dando.
Das pálpebras apenas se molhava A borda, a forma, que antes vi comprida,
90 Do rio, circular se apresentava.
Como quem sob a máscara escondida A face teve e logo diferente 93
Se mostra, essa aparência removida, Assim flores, centelhas, mais fulgente
Alegria mostraram e eu já via 96 Do céu ambas as cortes claramente,
Ó de Deus esplendor, por quem já via O triunfo do reino da verdade,
99 Dá-me valor; que eu diga o que já via.
Lá alto há luz de tanta claridade, Que Deus visível
faz à criatura, 102 Que em vê-lo tem da paz a f’licidade.
Ela se estende em circular figura, Tão vasta que o seu âmbito
faria 105 Ao sol desmarcadíssima cintura.
Um raio era o que dela aparecia Refletido no Móbile Primeiro, 108
A que assim vida e influxo principia.
Qual em cristal do próximo ribeiro Se espelha, como para ver as flores
111 E verdura, que o vestem, lindo outeiro, Miravam-se, da luz aos esplendores,
De degraus em milhões almas tornadas 114 Da terra para os célicos
fulgores.
Se claridades tantas derramadas Stão no imo degrau, como da Rosa 117
No cimo hão de as grandezas ser esmadas? Sem turbar-me, a amplitude
portentosa, Notava o qual e o quanto da alegria, 120 Em que se enleva aquela
grei ditosa.
De perto, ao longe igual resplendecia; Pois onde por si mesmo Deus governa
123 Da natureza a lei não mais regia.
Ao centro áureo da Rosa sempiterna,
Que em degraus dilatada rescendia 126 Louvor ao sol da primavera eterna,
Como quem cala, mas falar queria, Beatriz, me atraindo, disse: — “Atenta
129 Dos brancos véus na imensa jerarquia “O espaço vê,
que esta cidade ostenta! Quanto cada fileira está cerrada! 132 A poucos
lugar vago se apresenta.
“Essa grande cadeira assinalada Já de coroa, que te move espanto,
135 Antes de teres nesta boda entrada, “Será de Henrique excelso,
que há de o manto Vestir de Augusto, para a Itália vindo 138
Antes de afeita ao regimento santo.
“Cega cobiça, a tantos iludindo, Iguais vos torna a infante,
que sem tino 141 De ama o seio não quer, fome sentindo.
“Será então Prefeito no divino Foro aquele, que, oculto
ou descoberto, 144 Não há de ser de acompanhá-lo di’no.
“A Deus, porém, apraz que esteja perto Tempo, em que perderá
cargo sagrado! Terá com Simão Mago o lugar certo,
148 E o de Anagni será mais soterrado.” —
1-6. O Poeta quer que se entenda como desapareceu aos seus olhos a visão
de que é objeto o canto anterior; e compara o desaparecimento ao apagar-se
das estrelas no começo do dia. — 7-8. Do sol a radiante núncia,
a aurora. — 44. Uma e outra milícia, os santos que combateram
contra os vícios e os anjos fiéis, que combateram contra os
rebeldes. 44-45. Uma no aspecto etc., os santos com os corpos com os quais
aparecerão no Juízo Final. — 116. Rosa; o imenso círculo
no qual se encontram os bem-aventurados tem a forma de uma rosa. — 136.
Henrique VII, eleito imperador em 1308, coroado em Milão em 1311, e
em Roma em 1312. Morreu em Buoncovento em 1313. — 142. Prefeito no divino
foro, papa. — 143-144. Aquele etc., Clemente V que aparentemente será
seu amigo, mas ocultamente será seu inimigo. — 147. Terá
com Simão Mago o lugar certo, no Inferno entre os simoníacos.
— 148. O de Anagni, Bonifácio VIII.
CANTO XXXI
Enquanto Dante contempla a rosa do Paraíso, Beatriz sobe e vai ocupar
o lugar que lhe pertence, no meio dos bem-aventurados. S.
Bernardo é o último guia de Dante. Ele lhe indica a Virgem
Maria, toda brilhante de luz celeste.
FORMA assumindo de uma branca rosa, Tinha ante os olhos a milícia
santa, 3 Que em seu sangue fez Cristo sua Esposa.
A outra, que, adejando, vê, decanta Do Onipotente a glória,
que a enamora, 6 E a bondade, que deu-lhe alteza tanta, Bem como abelhas,
cujo enxame agora Nas flores se apascenta, agora torna 9 À colmeia,
onde os favos elabora, Descia à flor imensa que se adorna De folhas
tantas, e depois subia 12 Ao centro, onde o amor seu sempre sojorna.
Nas faces viva flama refulgia, Nas asas ouro, em tudo mais alvura, 15 Que
a candidez da neve escurecia.
De sólio em sólio entrando na flor pura E as asas agitando,
derramavam 18 Ardor e paz, colhidos lá na altura.
As multidões aladas, que giravam, Ao Senhor se interpondo e à
flor brilhante, 21 Nem vista, nem splendores atalhavam, Que a luz divina cala
penetrante No universo, segundo ele merece; 24 Nada lhe empece o brilho triunfante.
O gaudioso império, onde aparece A par da grei antiga a grei recente
27 De olhos, de amor num fito se embevece.
Trina luz, que, num astro unicamente, Fulgindo, alma lhes tens inebriada,
30 Conosco nas procelas sê clemente! Se os Bárbaros, da terra
enregelada Vindos, que Hélice cobre cada dia 33 No seu giro, do filho
acompanhada, A pompa ao ver, que a Roma enobrecia, Pasmavam, quando já
Latrão famoso 36 Do mundo as maravilhas precedia; Da terra eu ido ao
trono luminoso, Exalçado do tempo à eterna vida
39 E de Florença ao reino virtuoso, Quanto havia de ter a alma transida!
Nem ouvir, nem falar apetecera: 42 Tanta alegria ao passo estava unida! Bem
como o peregrino considera O templo, a que seu voto o conduzira, 45 E o que
vê recontar, tornando, espera, Na ardente luz a minha vista gira De
degrau em degrau, e agora acima, 48 Abaixo logo e em derredor remira.
Rostos eu vi, que a caridade anima Com lume divinal; seu doce riso 51 Por
suave atrativo se sublima.
Sem deterem-se mais do que o preciso, Os olhos meus haviam rodeado 54 Em
sua forma geral o Paraíso: Vivo desejo em mim stando ateado, A Beatriz
voltei-me; ter queria 57 A solução do que era inexplicado Ao
que eu pensava o oposto respondia: Nos gloriosos trajos de um eleito, 60 Em
vez de Beatriz, um velho eu via.
Nos olhos transluzia-lhe e no aspeito Alegria beni’na e o continente
63 De pai era, à ternura sempre afeito.
— “E Beatriz?” — exclamo eu de repente.
Tornou-o: — “Baixar me fez do meu assento 66 Por contentar o
teu desejo ardente.
“Verás, do cimo ao círc’lo tércio atento,
Beatriz nesse trono colocada, 69 Que lhe há dado imortal merecimento.”
— Olhos alçando, à Dama sublimada, Divisei que de c’roa
era cingida, 72 Da eterna luz, em refração, formada.
Da região etérea a mais subida Vista mortal, no pego profundando,
75 De tão longe não fora dirigida, Como olhos meus, em Beatriz
fitando.
Via-a, porém: a efígie livremente 78 Descia a mim do vulto
venerando.
— “Senhora! Esp’rança minha permanente! Que não
temeste, por me dar saúde, 81 Teus vestígios deixar no inferno
horrente! “De tantas cousas, quantas eu ver pude Ao teu grande valor
e alta bondade
84 A graça referir devo e virtude.
“Sendo eu servo, me deste a liberdade, Pelos meios e vias conduzido,
87 De que dispunha a tua potestade.
“Seja eu do teu valor fortalecido, Porque minha alma, que fizeste pura
90 Te agrade ao ser seu vínculo solvido.” — Desta arte
orei. Lá da sublime altura, Em que estava sorrindo-se encarou-me; 93
Depois voltou-se à eterna Formosura.
— “Por chegares” — o velho assim falou-me —
“Ao termo da jornada, como anelas, 96 A que seu rogo e santo amor mandou-me,
“Teus olhos voem pelas flores belas: Eles mais hão-de se acender,
no esguardo 99 Para alçar-se ao divino raio, em vê-las.
“E a Rainha do céu, por quem eu ardo Cheio de amor, nos há
de ser beni’na, 102 Pois sou seu servo, o seu fiel Bernardo.”
— Como quem da Croácia se destina A ver Santo Sudário
em romaria, 105 Por fama antiga da feição divina;
Devoto a contemplar se não sacia, Dizendo em si: “ó Jesus!
meu Deus piedoso! 108 Tal o semblante vosso parecia!” Assim notei o
afeito caridoso Daquele, que em seus êxtases no mundo 111 A paz celeste
prelibou ditoso.
— “Filho da graça, este viver jucundo Ser-te não
pode” — prosseguia — “noto, 114 Se os olhos teus não
alças cá do fundo.
“Dos círculos atenta ao mais remoto: Lá no trono a Rainha
está sentada; 117 Seu reino, o céu, lhe é súdito
e devoto.” — O rosto ergui. Bem como na alvorada A parte, em que
o sol nasce no horizonte 120 Excede a que franqueia à noite entrada,
Assim, quase a subir de vale a monte, No píncaro eminente parte eu
via 123 Vencer em lume a qualquer outra fronte.
Como lá donde espera-se do dia O carro, que perdeu Fetonte, a flama
126 Aumenta e noutros pontos se embacia, Assim essa pacífica oriflama
Se avivava no meio; e a cada lado
129 Por modo igual se enfraquecia a chama.
De milhares o centro rodeado Stava de anjos voando como em festa, 132 Cada
um na arte e no brilho assinalado.
De os ver e ouvir contento manifesta A Beldade: que extremos de alegria 135
A outros santos nos seus olhos presta.
Se eu tivera opulenta fantasia E a eloqüência não menos,
desse encanto 138 Um só traço exprimir não poderia.
No vivo lume e ao ver Bernardo quanto Os meus olhos, absortos, se fitavam,
Volveu-lhe os seus, acesos de ardor tanto, 142 Que a mais fervor meu êxtase
enalçavam.
2. A milícia santa, os santos. — 3. Os outros, os anjos. —
32.
Hélice, a ninfa Hélice ou Calixto que foi transformada por
Júpiter na constelação da Ursa Maior. — 33. Do
filho acompanhada, o filho de Hélice foi transformado na constelação
da Ursa Menor. — 35. Latrão, foi por algum tempo a sede dos imperadores
romanos. — 102. Bernardo, S. Bernardo, abade de Clairvaux, na Borgonha,
que foi devotado ao culto da Virgem Maria. — 104. Santo Sudário,
ou Verônica (imagem verdadeira), imagem de Jesus impressa num véu,
relíquia que se conserva em Roma. — 116. A rainha, a virgem Maria.
— 125. O carro que perdeu Fetonte, o sol. — 127. Oriflama, estandarte
de guerra dos reis de França; aqui indica a Virgem.
CANTO XXXII
S. Bernardo esclarece a Dante a composição da rosa do Paraíso.
De um lado estão os santos cristãos; do outro os hebreus, que
acreditaram no Cristo que devia vir. Entre uns e outros a Virgem Maria. Embaixo
de Maria, mulheres hebréias; mais embaixo as crianças mortas
logo depois do batismo.
DE contemplar no seu prazer sorvido, De instruir-me, espontâneo, se
incumbia, 3 E este santo discurso há proferido: — “A chaga,
que sarou e ungiu Maria Abrira a bela, que aos seus pés sentada 6 Divisas,
do homem no primeiro dia.
“Stá na tércia fileira entronizada Logo abaixo Raquel;
resplendente 9 Ao lado Beatriz vês colocada.
“Sara, Rebeca, Judite e a prudente Bisavó do cantor, que lamentara,
12 Miserere clamando, a culpa ingente: “Num degrau cada uma se depara
Da rosa, folha a folha, descendendo 15 Como seu nome a minha voz declara.
“Estão, do degrau sétimo descendo, Como de lá
subindo, em seguimento 18 Hebréias, dividida a Rosa sendo: “Formam
elas, assim, repartimento, Segundo em Cristo a fé predominara, 21 Da
santa escada em todo o comprimento.
“Da parte, em que da flor se completara Em cada folha o número,
exalçado 24 Vês quem a Cristo no porvir sperara; “Da parte,
onde o hemiciclo é sinalado De alguns lugares vagos, se apresenta 27
Quem creu em Cristo ao mundo já chegado.
“Como de um lado a divisão se ostenta, Da Virgem pelo trono
demarcada 30 E pelos mais, que a vista representa, “Assim do oposto
a sede destinada Ao que no ermo e martírio sempre há sido 33
Santo e em dois anos da infernal estada, “Lugar que, tem por conta,
há precedido Aos de Francisco, de Agostinho, Bento 36 E outros, de
um degrau cada um descido.
“De Deus ora contempla o sábio intento:
Igualmente a fé nova e a antiga crença 39 Hão de encher
o jardim do firmamento.
“Abaixo do degrau da escada imensa, Que as divisões reparte,
está sentado 42 Ninguém, porque ao seu mérito pertença,
“Mas pelo alheio, e ao modo decretado.
Seus corpos tais espíritos deixaram 45 Antes que discernir lhes fosse
dado.
“Bem à luz da evidência to declaram Pela voz infantil
e pelo gesto: 48 Olha, escuta, e tuas dúvidas se aclaram.
“Duvidas e o não fazes manifesto; Sutil pensar em nó
te prende estreito; 51 Mas deste enleio vou livrar-te presto.
“Crer-se não pode em casual efeito Do reino divinal no infindo
espaço; 54 Nem há fome, nem sede ou triste aspeito.
“De eternas leis vincula tudo o laço, E, como o anel no dedo,
justamente 57 Da criação responde tudo ao traço.
“Portanto aquela prematura gente Sine causa não sobe à
vida eterna; 60 Mais ou menos, cada um entra excelente.
“Deste reino o Monarca, que o governa De amor em tanto extremo, em
tal ventura, 63 Que desejo nenhum além se interna, “Criando,
de sua face na doçura, Os espíritos, dota-os a seu grado.
66 Isto basta saber: não mais apura.
“Ao claro está nos gêmeos demonstrado, Que haviam, —
na Escritura se refere, 69 Já no materno ventre batalhado.
“Assim a luz altíssima confere A grinalda da Graça dignamente
72 Segundo a cor da coma, que prefere.
“Graduação, portanto, diferente Lhes cabe sem ter méritos
na vida: 75 Visão primeira os distinguiu somente.
“Nos primitivos tempos conseguida Estava a salvação,
quando a inocência 78 À fé dos pais se achava reunida.
“Às primeiras idades em seqüência, Dos filhos trouxe
às asas inocentes 81 Circuncisão, virtude e permanência.
“Depois de anunciada a Graça às gentes.
Sem batismo perfeito haver de Cristo 84 Não valeu a inocência
desses entes.
“Ora atento na face, que à de Cristo Mais se assemelha; a sua
luz tão pura 87 Só te pode dispor a veres Cristo.” —
Vi chover de alegria tal ternura, Que a Maria os espíritos levavam
90 Para voar criados nessa altura, Que quanto os olhos antes contemplavam
Tais portentos patentes não fizera: 93 Os assomos de Deus se revelavam.
Dos anjos o primeiro, que viera, Cantando “Ave, Maria, gratia plena”,
96 Ante Maria as asas estendera.
Respondendo à divina cantilena De toda parte a gloriosa corte, 99
Resplendeu cada face mais serena.
— “Ó santo Pai, que a caridade forte Em prol meu fez deixar
o doce assento, 102 A ti marcado por eterna sorte, Diz-me que anjo com tal
contentamento Da soberana a fronte olha divina, 105 No amor mostra do fogo
o encendimento.” —
Desta arte inda vali-me da doutrina Daquele, que enlevava-se em Maria, 108
Como no sol a estrela matutina.
Tornou-me: — “Alacridade e bizarria, Quanta em anjo haver possa
e nalma humana, 111 Há nele; assim nos dá suma alegria: “Foi
ele o que à bendita Soberana Levou a palma, o filho de Deus quando
114 Quis assumir a nossa carga insana.
“Minhas vozes tua vista acompanhando, Do justíssimo império
alça aos formosos 117 Patrícios, de alto nome, venerando.
“Os dois, que acima brilham, venturosos Por starem perto da Sob’rana
Augusta; 120 São desta Flor princípios gloriosos: “À
sestra sua aquele, que se ajusta, O Pai é que, tentado por mau gosto
123 Tanta amargura à sua prole custa.
À destra o Pai primeiro se acha posto Da santa Igreja; as chaves lhe
entregara 126 Da Rosa Cristo e o fez o seu preposto.
“E o que antes de morrer vaticinara
Duros tempos daquela amada Esposa, 129 Que por lanças e cravos se
alcançara, “Fica-lhe a par; e, junto, a glória goza O
capitão da gente ingrata, insana, 132 Que viveu de maná, revel,
teimosa.
“Em frente a Pedro vês que senta-se Ana, Tão leda a excelsa
Filha contemplando, 135 Que imóveis olhos tem, cantado hosana.
“Em frente ao Pai dos homens venerando, É Luzia: a Beatriz há
suplicado, 138 Quando ias para o abismo te inclinando “Mas da tua visão
o assinalado Tempo foge: paremos, pois, fazendo 141 Do pano, que há,
vestido bem talhado.
“E para o Amor Primeiro olhos erguendo, Saibamos se do seu fulgor no
seio 144 Penetras, quanto possas te absorvendo.
“Mas, de que retrocedas no receio, Movendo as asas, em vez de ir avante,
147 Impetra graça, de piedade cheio, “Daquela, que em valer é
tão pujante.
Em mente a voz me segue fervoroso, Com vivo afeto e coração
amante.” —
151 E esta santa oração disse piedoso:
5. A bela que aos seus pés etc. Eva. — 8. Raquel, mulher de
Jacob. — 10-11. Sara, mulher de Abrão; Rebeca, mulher de Isaque;
Judite, que livrou o povo de Israel, matando Olofernes; a prudente bisavó
etc., Rute, bisavó de Davi. — 32. Ao que etc., S.
João Batista. — 35. Francisco, Agostinho e Bento, santos fundadores
de ordens religiosas. — 67-69. Gêmeos, Esaú e Jacob. —
79-81. Às primeiras idades etc., nos tempos que passaram de Abrão
até Cristo, a circuncisão era requisito indispensável
para a salvação. — 82-84. Depois de enunciada etc., depois
de Cristo é indispensável o batismo. — 85. Na face que
à de Cristo etc., Maria Virgem. — 112. Foi ele o que etc., Gabriel.
— 122. O pai etc., Adão. — 124. O pai primeiro etc., S.
Pedro. — 127-129. E o que etc., S. João Evangelista. —
131. O capitão etc., Moisés. — 133. Ana, mãe da
Virgem. — 137. Luzia, Santa Luzia, virgem e mártir, v. Inferno
II, 97-102.
CANTO XXXIII
S. Bernardo pede à Virgem Maria que conceda a Dante contemplar a Deus.
O Poeta vê um tríplice círculo no qual está revelada
a Trindade divina. No círculo médio vê figurada a efígie
humana. No espírito de Dante se forma o desejo de conhecer o modo da
união da natureza divina com a humana. Um repentino esplendor lhe revela
o mistério da encarnação de Cristo; e aqui termina a
sublime visão.
“VIRGEM Mãe, por teu Filho procriada, Humilde e sup’rior
à criatura, 3 Por conselho eternal predestinada! “Por ti se enobreceu
tanto a natura Humana, que o Senhor não desdenhou-se 6 De se fazer
de quem criou, feitura.
“No seio teu o amor aviventou-se, E ao seu ardor, na paz da eternidade,
9 O germe desta flor assim formou-se.
“Meridiana Luz da Caridade És no céu! Viva fonte de esperança
12 Na terra és para a fraca humanidade! “Há tal grandeza
em ti, há tal pujança,
Que quer sem asas voe o seu anelo 15 Quem graça aspira em ti sem confiança.
“Ao mísero, que roga ao teu desvelo Acode, e, às mais
das vezes, por vontade 18 Livre, te praz sem súplica valê-lo.
“Em ti misericórdia, em ti piedade, Em ti magnificência,
em ti se aduna 21 Na criatura o que haja de bondade.
“Esse mortal, que da ínfima lacuna Do mundo até o empíreo,
passo a passo, 24 Viu quanto a vida esp’ritual reuna, “Te exora
auxílio ao seu esforço escasso: A mente sublunar lhe seja dado
27 A Suma Dita no celeste espaço.
“Eu que, no meu ardor, nunca aspirado Hei mais por mim o que em prol
dele peço 30 Meus rogos todos alço esperançado.
“Te digna conseguir que o véu espesso Da humanidade sua despareça,
33 E assim lhe seja o Sumo Bem concesso.
“Depois da alta visão dá que ainda eu peça Que
conserves, Rainha Onipotente, 36 Sempre pura sua alma e ao mal avessa.
“De perversas paixões guarda-o clemente: Vê Beatriz e
o céu inteiro unidos, 39 Juntando as mãos, ao voto meu fervente!”
— Os olhos, que por Deus são tão queridos No santo orador
fitos demonstraram 42 Que eram seus ternos rogos atendidos.
Após ao Lume eterno se elevaram, Em que, se deve crer, da criatura
45 Olhos, em modo tal, não profundavam.
E dos desejos eu, que à mor altura Suba, o ardor cessar, como devia,
48 Senti, me apropinquando da ventura.
Bernardo, me acenando, me sorria, Que para cima olhasse; mas eu estava 51
Já por mim mesmo tal qual me queria.
A vista, que em pureza sublimava, Do alto, que é por si toda a Verdade,
54 Mais e mais pelos raios penetrava.
E o que eu vi, desde então, na imensidade Transcendeu quanto o verbo
humano intente: 57 Cede a memória a tanta majestade.
Qual homem, que, a sonhar, vê claramente,
Depois só guarda a sensação impressa, 60 E o mais em
todo lhe não volta à mente; Tal eu; quase a visão inteira
cessa.
Mas no meu coração quase destila 63 Doçura que em seu
êxtase começa.
Assim ao sol a neve se aniquila, Assim na leve folha, entregue ao vento,
66 Se dispersava o orác’lo da Sibila.
Flama excelsa, que o humano pensamento Excedes tanto, oh! presta ao meu,
piedosa, 69 Um pouco de inefável luzimento.
E a língua minha faz tão poderosa, Que uma centelha só
da tua Glória 72 Aos pósteros transmita venturosa; Pois que,
em parte surgindo-me à memória E sendo por meus versos celebrada,
75 Melhor se entenderá tua vitória.
Da luz pela agudeza suportada, Eu me perdera, creio, com certeza, 78 Se da
luz fora a vista desviada.
E, recordo-me, pois mor afouteza Tomei, tanto, que face a face olhando, 81
Encarar pude na Infinita Alteza.
Tu ó Graça abundante, me animando, Olhos fitar ousei na luz
eterna, 84 A visão almejada consumando.
E lá na profundeza vi que se interna Unido pelo amor num só
volume 87 O que pelo universo se esquaderna: Acidente, substância e
o seu costume, Conjuntos entre si por tal maneira, 90 Que da verdade exprimo
um frouxo lume.
Creio que a forma universal inteira Vi desse nó; porquanto mais ao
largo 93 Sinto, ao dizer, ledice verdadeira.
Um só instante à mente dá letargo Maior, que séc’los
vinte e cinco à empresa 96 Que admirar fez Netuno a sombra de Argo.
De êxtase assim minha alma toda presa, Atenta, absorta, imóvel
se imergia, 99 E sempre em contemplar mais stava acesa.
E essa Luz tal efeito produzia, Que em deixá-la por ver dif’rente
aspeto 102 Consentir impossível me seria: Que o Bem da sua aspiração
objeto,
Todo está nela; é tudo lá perfeito, 105 Como fora de
lá tudo é defeto.
Meu dizer de ora avante mais estreito Será no que recordo que o do
infante 108 Ainda ao seio maternal afeito; Não porque presentasse outro
semblante A viva Luz, que a contemplar eu stava, 111 Antes, como depois, sempre
constante; Mas, como, olhando, a vista se alentava, A Imutável Essência
parecia 114 Mudar, quando só eu me transformava.
Na substância profunda e clara eu via Da excelsa Luz três círc’los
dicernidos 117 Por cores três, de igual periferia, Íris de íris,
um de outro refletidos Estavam, flama o têrcio parecia 120 Spirando,
por igual, de um, de outro unidos, Quanto é curta expressão!
Quanto a excedia Meu pensar, ao que eu vi, este já sendo 123 Tal, que
pouco bastante não diria.
Lume eterno, que a sede em ti só tendo, Só te entendes, de
ti sendo entendido, 126 E te amas e sorris só te entendendo!
O girar, que, dessa arte concebido Via em ti como flama refletida, 129 Quanto
foi dos meus olhos abrangido, No seio seu da própria cor tingida A
própria efígie humana oferecia: 132 Foi nela a vista minha submergida!
Geômetra, que o espírito crucia Para o cir’lo medir, em
vão procura 135 Princípio, que ao seu fim mais conviria: Assim
eu ante a nova visão pura Ver anelara como a image’ humana 138
Ao círculo se adapta e ali perdura.
Às asas minhas fora empresa insana, Se clareado a mente não
me houvesse 141 Fulgor, que a posse da verdade aplana.
À fantasia aqui valor fenece; Mas a vontade minha a idéias
belas, Qual roda, que ao motor pronta obedece, 145 Volvia o Amor, que move
sol e estrelas.
66. O orác’lo da Sibila; Virgílio (Eneida III) diz que
a Sibila Cumana escrevia os seus oráculos sobre folhas soltas e depois
as jogava no ar, sendo dispersadas pelo vento. — 94-96, Um só
instante etc., um só instante do tempo transcorrido depois da visão
me causa maior esquecimento que não aquele que vinte e cinco séculos
causaram ao episódio dos Argonautas, o qual surpreendeu a Netuno. —
118-120. Íris de íris etc., o Filho parecia refletido no outro,
no Pai como íris de íris; e o terceiro, o Espírito Santo
parecia fogo procedente de um e de outro. — 127-131. O girar que, dessa
arte etc., aquele dos círculos, isto é, o segundo, que parecia
refletido do outro, pareceu-me tivesse efígie humana, tingida, porém,
de cor divina. — 134. Para o círc’lo medir, para encontrar
a quadratura do círculo, isto é um quadrado cuja área
seja igual à de um determinado círculo. — 143. Mas a vontade
minha etc., mas o Amor, isto é, Deus, que move o Sol e as estrelas,
movia a minha vontade, concordemente à sua, como uma roda que obedece
ao motor.
Redes Sociais