Organização da coleção de fungos liquenizados (líquens) das Florestas com Araucária, São Francisco de Paula e Cambará do Sul, RS, do Herbário MPUC.
Resumo
O projeto proposto consiste na organização de todos os fungos liquenizados (líquens), determinados ou não, que se encontram presentes no Herbário MPUC vindos de coletas realizadas, desde os anos 80, nos municípios de São Francisco de Paula e Cambará do Sul, regiões que possuem como característica comum a presença de floresta com araucária. Calculamos uma média de 300 exemplares vindos destes dois locais sendo que 85 já foram analisados. Foram encontradas 26 famílias no Herbário que provem destas localidades e 4 já tiveram seus representantes determinados e envelopados. Reconhecemos 6 gêneros e 23 espécies até o momento.
Introdução
Os liquens são associações simbióticas entre algas e fungos que resultam em um talo. O talo de um líquen pode ter milhões de fotobiontes vivendo em simbiose com um micobionte e, portanto, pode até ser encarado como uma minicomunidade, onde vivem indivíduos de espécies e reinos diferentes. As algas podem pertencer ao reino Monera, no caso das cianobactérias (antigamente chamadas de algas azuis), ou ao reino Protista, no caso das algas verdes. Já os fungos (reino Fungi) pertencem, em sua grande maioria, ao filo Ascomycota (98% dos liquens), com poucos representantes no filo Basidiomycota.
Com base na análise feita sobre a situação da liquenologia no Brasil (Marcelli, 1996) que é carente de estudos, coletas e taxonomistas, podemos verificar a importância em que este estudo encontra-se inserido no contexto nacional ao promover esta organização. Valorizar a coleção presente na biblioteca liquênica (liquenoteca) para colaborar com o conhecimento deste táxon e disponibilizar na rede de Herbários de todo o país, é o ponto de maior relevância deste projeto, pois poderá promover estudos posteriores dentro deste grupo.
A vegetação da Floresta Nacional de São Francisco de Paula (FLONA) assim como a da região de Cambará do Sul é constituída pela floresta ombrófila mista conhecida também como floresta com araucária ou araucarieto. Neste ecossistema predomina um clima subtropical úmido de altitude, com períodos episódicos secos no verão e considerável queda da temperatura com geadas no inverno, promovendo uma situação das mais propícias para o desenvolvimento de uma flora liquênica de grande variedade taxonômica.
Nestes locais temos diversas coletas por ocasião do desenvolvimento do projeto de pesquisa Subsídios para o Diagnóstico Ambiental do Planalto das Araucárias e de pesquisadores vinculados a PUCRS, UFRGS e a Universidade de Tübingen. Possuímos mais de 300 lotes de fungos liquenizados destas regiões mais algumas doações da Fundação Zoobotânica do RS devido a organização da 2ª Reunião Brasileira de Estudos Liquenológicos (REBEL), que resultou no enriquecimento da coleção de líquens.
A taxonomização a nível de família, gênero e espécie dos organismos armazenados em questão, é um trabalho árduo e de importância crucial para a continuidade dos estudos dentro deste amplo grupo. Para que ele seja feito com precisão é necessário o estudo minucioso do material bibliográfico já estabelecido dentro deste âmbito. Dentre eles os estudos mais enraizados são os propostos por Hale et al (1979, 1983) e a publicação mais recentemente lançada é a do livro trilíngüe de Fleig & Grüninger et al (2008) que versa especificamente sobre a flora liquênica da estação Centro de Pesquisas e Conservação da Natureza (CPCN) Pró-Mata.
Metodologia
Nas primeiras semanas de Abril, foi feito um levantamento de todo o material bibliográfico presente no laboratório e todos os que apresentavam relevância com o estudo foram separados e estudados, para que fosse possível passar para a etapa de determinação, que perdura do final do mês de Abril até Outubro de acordo com o cronograma proposto. Feito isso, todos os fungos liquenizados que encontram-se na liquenoteca do Herbário MPUC e provem de coletas nos municípios de São Francisco de Paula e Cambará do Sul foram separados dos demais a nível de família (26) e estes estão sendo analisados individualmente.
A etapa de determinação realizada a nível gênero e espécie , é feita através da utilização de chaves dicotômicas específicas para cada grupo. As análises são feitas primeiramente a olho nú (ou com o auxílio de uma lupa de mão convencional) seguidas do auxílio de microscópio estereoscópico. Estas análises visuais, na maior parte das vezes, já são suficientes para determinar um exemplar a nível de espécie. Porém, quando necessário, também são analisadas algumas estruturas menores (como os esporos, por exemplo) no microscópio óptico ou, até mesmo, testes químicos denominados de “reações de coloração”, onde reagentes como o hidróxido de potássio e o hipoclorito de cálcio são aplicados em um fragmento do talo do líquen em questão, para caracterização de várias substâncias liquênicas (Yoshimura, 1996) que ajudam na taxonomização dos exemplares devido a coloração resultante da reação
A última etapa do trabalho consiste no acondicionamento dos exemplares em envelopes padronizados e etiquetados (British Columbia Ministry of Forests, 1996), a confecção de uma ficha com numeração do catálogo geral do Herbário MPUC para cada um e uma posterior listagem e informatização dos dados em uma planilha no programa Microsoft Office Excel. Adotamos um tipo de envelope que facilita a visualização do espécime. O envelope é quadrático, na frente ele possui um recorte circular revestido com papel celofane e no verso uma ficha com todos os dados necessários referentes ao líquen. Os exemplares representantes do projeto serão fotografados com uma câmera digital Sony de 8.1 Megapixels sobre papel milimetrado para que se obtenha um registro visual eficiente.
Resultados
Passaram pelo processo de determinação e envelopagem 4 famílias: Dictyonemataceae, Coccocarpiaceae, Gyalectaceae e Lobariaceae. Foram reconhecidos 6 gêneros (Fig. 1) e 23 espécies dentre os 85 exemplares analisados até o momento (Tab. 1). A etapa de informatização dos dados já conquistados ainda não foi efetuada. Porém já está prevista a inserção de novas ocorrências de espécies liquênicas na região em questão.

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Figura 1. Alguns exemplares determinados: 1– Líquen do gênero
Dictyonema, D. glabratum; 2– Líquen do gênero Coccocarpia,
C. smaragdina; 3– Líquen do gênero Coenogonium, C. linkii;
4– Líquen do gênero Lobaria, L. discolor; 5– líquen
do gênero Pseudocyphellaria, P. aurora; 6– Líquen do gênero
Sticta, S. fuliginosa.

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Tabela 1. Fungos liquênicos analisados até o presente momento.
Referências
BRITISH COLUMBIA MINISTRY OF FORESTS. 1996. Techniques and
procedures for collecting, preserving, processing, and storing botanical specimens.
Res. Br., B.C. Min. For., Victoria, B.C. Work. Pap. 18/1996.
FLEIG, M., GRÜNINGER , W., MAYER, W. E., HAMPP, R. Liquens da Floresta com
Araucária no Rio Grande do Sul / Flechten des Araukarienwaldes von Rio Grande
do Sul / lichens of the Araucária Forest of Rio Grande do Sul. Pró-Mata: Guia
de Campo nº 3 / Naturführer Nr. 3 / Field Guide Nº 3. University of Tübingen,
Germany. 2008. 217 p., 28 figs., 67 color photos.
HALE, M.E. How to know the Lichens. The Pictured-Key Nature Series. Dubuque,
Iowa: WM. C. Brown CompanyPublishers. Dubuque. 1979. 246 p
HALE, M.E. The Biology of Lichens. Third Edition. London: Edward Arnold. 1983.
190p
MARCELLI, M.P. Biodiversity assessment in Lichenized Fungi: the necessary
naive roll makers. In: Bicudo, C.E.M.; Menezes, N.A. (Eds.). Biodiversity
in Brazil: a first approach. São Paulo: CNPq. 1996. p. 93-107.
YOSHIMURA, I. Identification of Lichen Substances, Springer-Verlag, Berlin,
1996.
Apoio: PAACien , PUCRS, MCTPUCRS
Fonte: www.pucrs.br
Os liquens são associações simbióticas de mutualismo entre fungos e algas. Os fungos que formam liquens são, em sua grande maioria, ascomicetos (98%), sendo o restante, basidiomicetos. As algas envolvidas nesta associação são as clorofíceas e cianobactérias. Os fungos desta associação recebem o nome de micobionte e a alga, fotobionte, pois é o organismo fotossintetizante da associação.
A natureza dupla do liquen é facilmente demonstrada através do cultivo separado de seus componentes. Na associação, os fungos tomam formas diferentes daquelas que tinha quando isolados, grande parte do corpo do liquen é formado pelo fungo.

A microscopia eletrônica mostra as hifas de fungo entrelaçadas com
a alga.
Morfologia
Normalmente existem três tipos de talo:
Crostoso: o talo é semelhante a uma crosta e encontra-se fortemente aderido ao substrato.

Folioso: o talo é parecido com folhas

Fruticoso: o talo é parecido com um arbusto e tem posição ereta.

Reprodução
Os liquens não apresentam estruturas de reprodução sexuada. O micobionte pode formar conídios, ascósporos ou basidiósporos. As estruturas sexuadas apresentam forma de apotécio. Os esporos formados pelos fungos do liquen germinam quando entram em contato com alguma clorofícea ou cianobactéria.
O fotobionte se reproduz vegetativamente. O liquen pode se reproduzir assexuadamente por sorédios, que são propágulos que contém células de algas e hifas do fungo, e por isídios, que são projeções do talo, parecido com verrugas. O liquen também pode se reproduzir por fragmentação do talo.
Habitat
Os líquens possuem ampla distribuição e habitam as mais diferentes regiões. Normalmente os liquens são organismos pioneiros em um local, pois sobrevivem em locais de grande estresse ecológico. Podem viver em locais como superfícies de rochas, folhas, no solo, nos troncos de árvores, picos alpinos, etc. Existem liquens que são substratos para outros liquens.
A capacidade do liquen de viver em locais de alto estresse ecológico deve-se a sua alta capacidade de dessecação. Quando um líquen desseca, a fotossíntese é interrompida e ele não sofre pela alta iluminação, escassez de água ou altas temperaturas. Por conta desta baixa na taxa de fotossíntese, os liquens apresentam baixa taxa de crescimento.
Importância Econômica
Os liquens produzem ácidos que degradam rochas e ajudam na formação do solo, tornando-se organismos pioneiros em diversos ambientes. Esses ácidos também possuem ação citotóxica e antibiótica.
Quando a associação é com uma cianobactéria, os liquens são fixadores de nitrogênio, sendo importantes fontes de nitrogênio para o solo.
Os liquens são extremamente sensíveis à poluição, sobrevivendo de bioindicadores de poluição, podendo indicar a qualidade do ar e até quantidade de metais pesados em áreas industriais.
Algumas espécies são comestíveis, servindo de alimento para muitos animais.
Fonte: www.sobiologia.com.br